Sem Pressões


Não à Municipalização da Educação! Menos Poder para os Diretores! 1

Esta é uma das posições mais consensuais entre os docentes – o não à municipalização da educação sai cheio e encorpado nas escolas de Norte a Sul do país, ditado pela maioria dos professores que não quer ouvir falar disto nem se dourarem muito a pílula. E, no entanto, a municipalização da educação está em marcha agora travestida de descentralização.

A Fenprof está atenta e contra, nem podia ser de outra forma. E já prometeu lutar com as armas de sempre – as manifestações, as greves – se o Governo não negociar a descentralização de competências e um novo modelo de gestão para as escolas.

Hoje dou a palavra a Mário Nogueira:

“Fica claro para a Fenprof que, se por causa disto, se por causa de contrariar este caminho de municipalização, tiver que voltar com os professores à rua, tiver que promover lutas que podem passar pelas mais diversas formas – ainda que sejam greves, não importa – contra o processo de municipalização, o Governo pode contar com uma oposição fortíssima da Fenprof, porque esse processo merece uma oposição fortíssima dos professores”

“Não vamos ficar nem a olhar, nem a pensar que por ser um Governo diferente do anterior o processo pode não ser tão mau como o anterior. O que para nós está em causa é o processo, não quem o concretiza.”

O Público dá-nos ainda conta de um outro assunto consensual entre os professores: 92% dos professores quer que os directores tenham menos poder, revela o Inquérito da Fenprof realizado a 25 mil docentes.

Municipalização da educação pode levar professores de volta à rua e à greve

Menos poder para os directores, defendem 92% dos professores

É ainda notícia de hoje o modelo de acesso à universidade e o facto de continuar a existir inflação de notas nas escolas privadas.

Sapo

Escolas públicas e privadas querem alterar acesso à universidade

JN

Escolas privadas continuam a inflacionar notas no secundário

Anabela Magalhães


Desmentindo David Justino Sobre o “Inconseguimento” dos Professores

IMG_0771Em 2015, mais concretamente em Maio, David Justino fez uma série de afirmações com as quais eu concordo. Mas também fez uma que eu desminto, agora, categoricamente, e que deixa ficar mal os professores na sua generalidade.

David Justino afirmou que “Ninguém consegue controlar uma turma de 25 alunos, durante uma hora e meia“.

Ora esta afirmação não corresponde à verdade. Eu consigo. Ao longo da minha carreira consegui-o em quase todas as aulas desde que os 90 minutos foram implementados. E não fui só eu. Na minha Escola, a E. B. 2/3 de Amarante, muitos outros o conseguiram. Fora dela também. Eu própria tive as minhas aulas observadas, aquando da Avaliação “Doente”, em aulas de 90 minutos, e somente numa das turmas mais complicadas da minha Escola, em aulas de um Curso de Educação e Formação (CEF)… sendo que o meu restante horário era composto de turmas do ensino regular. E tudo correu como era costume, tranquilamente, porque o contrário sempre foi a excepção.

O facto de eu desmentir David Justino neste particular, não quer dizer que eu ache pedagogicamente correcto que um/a miúdo/a de 10, 11, 12, 13, 14, 15 anos frequente aulas de 90 minutos. Não acho. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E fico eu aqui a pensar com os meus botões… será que David Justino pensa que as salas de aulas deste país foram/são, na generalidade, uma balda? Uma rebaldaria sem controlo? Uma bagunçada onde tudo se pôde/pode passar? Que as salas de aulas portuguesas estiveram entregues aos bichos?

Refuto por completo esta ideia, não deixando de ter a consciência que também as há. Mas com a certeza que uma árvore nunca fará uma floresta. E que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E arrogo-me neste direito. Porque estou por dentro. Sou Professora. Conheço a minha sala de aula. Conheci e conheço, ao longo da minha já longa carreira como docente, muitas outras salas de aula que ficaram à minha esquerda e à minha direita. E sei que na maioria dos casos, a Escola Portuguesa não esteve, não está, abastardada.

Mania de malharem nos Professores! Desde aquela ministra que eu me recuso a nomear, parecemos bombos da festa… até nas entrelinhas…


A Escola “Catedral do Tédio”?

10458549_10202266446615809_6164479351172012278_nTodos nós, desde que não desmemoriados, nos lembramos dos tempos em que estávamos do lado de lá, de rabo sentado nas cadeiras que adornavam as salas de aula que frequentávamos na nossa condição de alunos e todos nós, desde que não desmemoriados, guardamos lembranças deste e daquele professor, maioritariamente desta ou daquela professora, que o género feminino já era dominante à época, de quem gostávamos particularmente e cujas aulas passavam a correr tanto que quando tocava para fora pensávamos para connosco “Já?!” e, por vezes, chegávamos mesmo a verbalizar o “Já?!

No campo oposto, todos nos lembramos dos professores, raros os que eu apanhei enquanto aluna, que literalmente eram capazes de matar disciplinas ou porque não se faziam entender pelos alunos e não se preocupavam minimamente com o assunto, ou porque eram incrivelmente entediantes e davam as aulas como quem está a cumprir um frete ou a executar um enorme e longo bocejo, ou porque abordavam anedotas em vez de abordarem as matérias que era suposto leccionarem… ou…

É claro que para além da variável professor tínhamos ainda uma outra variável, deveras importante, que era a variável matéria que, enquanto alunos, nos agradava mais ou menos, para a qual éramos mais ou menos dotados… mas muitas vezes esta variável estava intimamente ligada a uma simpatia e mesmo amor que podíamos ou não sentir pelos nossos professores, pelos nossos “setores” como era usual chamar-lhes aí pelos anos setenta e oitenta.

Lembro-me de algumas professoras minhas, excepcionais, todas diferentes entre elas, uma escrupulosamente cumpridora, perfeccionista, profissional exímia, organizada até dizer chega que nos obrigava a pensar para progredir, no caso na disciplina de Filosofia; outra exuberante e emotiva cujas aulas eram carrosséis, também de emoções, explorando matérias, maravilhosas, de … Português; outra, serena, competentíssima, próxima dos seus alunos, bela como só ela, às voltas com matérias e documentos na disciplina de História que dissecávamos; uma outra, com alma de artista, escritora e poetiza que não cumpria os programas de Moral no tempo do Estado Novo e abordava connosco uma barbaridade e um escândalo de matéria de Educação Sexual… ai a moral da época!; outra que adorava desfiar-nos para a experimentação e em cujas aulas fazíamos experiências que eram olhadas por nós com enorme curiosidade, constantemente estimulada para a disciplina de Ciências Naturais; e aquela outra professora que saía connosco da escola para desenharmos Amarante em dias de sol radioso e que dentro da sala de aula estava em constante movimento orientando o nosso trabalho…

E, do lado oposto, também me lembro daquele professor que assassinou, literalmente, a disciplina de Matemática… que nunca mais foi a mesma, ficando eu com uma contagem de tempo, matematicamente falando, antes dele e depois dele.

Resumindo, muito embora a tutela tenha uma enorme, se calhar até a maior, quota parte da culpa da Escola ser hoje vista por muitos alunos como uma gigantesca “catedral do tédio” porque impõe aos professores e aos alunos ritmos de trabalho desumanos e alucinantes, que derivam de currículos onde se confunde quantidade com qualidade e que mal deixam tempo para a respiração, para a reflexão, para a interpretação, para a consolidação, para a experimentação, para a aula-oficina, para a visita de estudo, para o trabalho de campo, para o trabalho interdisciplinar… de tal maneira andamos todos pressionados pelo cumprimento dos programas quilométricos a que estamos obrigados e que são fonte de stress para toda a comunidade educativa, e ainda pelo facto da tutela nos ter complicado a vida nas escolas até ao limite do inconcebível e de nos impor trabalho com alunos que nem é contabilizado como tal, estafando literalmente os professores e isto só para dar estes exemplos porque muitos outros haveria para dar, a verdade é que muito pode ser feito por cada um de nós. Porque podemos sempre não desistir de pressionar a tutela para que mude o que tem de ser mudado e que é urgente e porque cada um de nós pode, apesar de tudo, fazer “diferente” quando se apresenta à frente de cada uma das pessoas em formação acelerada que se senta nas cadeiras que recheiam as nossas salas de aulas e compõem a(s) turma(s) que lhe(s) foi ou foram distribuída(s).

E aí podemos, talvez, aspirar a não pactuar com escolas e com aulas que sejam catedrais do tédio. Porque também as há. Sempre houve. E depois há as outras, no seu oposto, as que passam a voar…

E este post pretende ser apenas um ponto de partida para uma reflexão que pode e deve ser feita por cada um de nós e nada mais do que isso.

Para que a escola não seja uma “catedral do tédio” é preciso que os alunos contem


Ministro da Educação – Críticas ao Governo e Visão Conservadora da Educação 2

AnabelaMinistro diz que quem critica o Governo tem visão conservadora da Educação

Quem ocupa cargos de responsabilidade política deve ter, a meu ver, um extraordinário cuidado com o tipo de afirmações que produz no exercício das suas funções não só pela responsabilidade inerente ao cargo que desempenha mas também pelo exemplo escancarado perante os olhares mais ou menos atentos dos restantes cidadãos deste país. Ora este é, sem qualquer dúvida, o caso do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que, ao reduzir a crítica que se levanta aqui e ali à sua actuação ao resultado de uma mera visão conservadora, mete toda a gente no mesmo saco numa generalização intolerável para qualquer espírito que se assume como livre para exercer o seu direito ao uso da massa de neurónios com que foi dotado e que foi estimulando, mais ou menos, ao longo de seu desenvolvimento enquanto ser humano pensante.

O não, se amadurecido para além do não porque não, dá muito trabalho, por vezes até dá uma trabalheira do catano porque deve ser justificado, já agora o sim também deve ser sempre justificado, e porque frequentemente ruma em sentido contrário ao sim ditado pelas massas ou ao silêncio que tudo consente vindo dessas mesmas massas sendo, assim, profundamente inconformista.

A História avança enormemente à custa deles, destes nãos inconformistas que se elevam muitas vezes corajosamente, já que, frequentemente, produzem cortes, por vezes radicais, com a ordem estabelecida e frequentemente ditada por quem ocupa cargos de relevo, em suma, pelo poder vigente. A opinião contrária, pensada, ponderada e sustentada, deve ser escutada com atenção porque é na opinião contrária à opinião vigente e ao “politicamente correcto” que pode residir o progresso individual e colectivo. Um exemplo – a carne era consumida crua até ao momento em que passou a ser cozinhada o que provocou uma ruptura e isso foi fundamental no nosso processo evolutivo.

O ministro da Educação, ao fazer a afirmação que fez, no mínimo de uma infelicidade imensa, dá um péssimo exemplo às gerações que neste momento se sentam nas cadeiras das nossas salas de aula e dá um contributo inestimável para a falta de oxigénio que se sente neste país em que, quem faz uma crítica negativa à actuação de um governo do PS é logo rotulado de conservador e quem faz o mesmo tipo de crítica a um governo PSD é logo rotulado de comuna ou bloquista. Ora esta é uma visão preconceituosa e é a típica visão de quem olha para a crítica e para o não como se de uma arma letal se tratasse sendo certo que a sua matança, pela mordaça ou por outros métodos ainda mais gravosos, resultaria na desgraça colectiva a curto, médio e longo prazo.

Por isso, vivam as vozes discordantes! Em Educação e no resto. E só para dar um exemplo, pequenino de crítica e de não – será saudável e aceitável andarmos a responder sim ou não às provas de aferição a sete ou oito semanas do fim do ano lectivo?

Se estes procedimentos provocam indignação entre alguns poucos ou muitos professores, isto faz de nós profissionais conservadores?


A Imagem que as Escolas Projectam de Si Próprias nas Comunidades 2

AnabelaNa actualidade, vivemos um tempo diferente nas escolas daquele que já vivemos há dez anos atrás, radicalmente diferente do que já vivemos aquando do meu ingresso na carreira docente, nos idos anos oitenta do século passado, no que à possibilidade de comunicação diz respeito.

Hoje a sociedade da informação está por todo o lado, chega a todo o lado, é imediata, para o bem e para o mal, as redes sociais rodeiam-nos e não vale a pena fecharmos os olhos fingindo que tudo isto nos pode passar ao lado, porque não passa, é real, palpável, existe, os computadores e a Internet, com toda a parafernália quase infinita de possibilidades, vieram para ficar e ficaram mesmo.

Posto isto, qual deve ser a postura de uma instituição de ensino, pública ou privada é igual, perante a comunidade local em que se insere, atendendo a que dispõe, de forma gratuita ainda por cima, de um conjunto de ferramentas que lhe possibilitam dar a conhecer o que de melhor se vai fazendo no seu seio?

Na minha opinião, estas instituições – Escolas – devem lutar todos os dias para darem a conhecer às comunidades locais, e não só, o que se vai fazendo de melhor no seu seio, seja em contexto de sala de aula, ou não, quer emane da vontade e do trabalho dos seus Alunos, Professores, Assistentes Operacionais, Encarregados de Educação, quer seja em termos individuais, quer colectivos, ou seja, quer saia da vontade de um dos seus membros de forma isolada, de um grupo, de um departamento ou do todo.

Ora, o que eu mais observo, são oportunidades perdidas e vejo, sistematicamente, as Escolas, e quando digo Escolas englobo também Agrupamentos, a descurarem quase por completo esta vertente de aproximação/divulgação, junto das comunidades em que se inserem, do trabalho, em alguns casos imenso, gigante mesmo, que se realiza no interior daqueles espaços, hoje infelizmente gradeados, do trabalho que, esporadicamente, até se realiza no seu exterior.

E é assim que, com tristeza, verifico amiúde, ao visitar páginas de Escolas e ou Agrupamentos que até conheço bem, uma falta de informação atroz e que, erroneamente bem sei, devolvem imagens de instituições completamente distorcidas de realidades por vezes muito ricas e plurais, feitas de experiências pedagógicas interessantíssimas, feitas de parcerias importantíssimas… enfim, feitas da imaginação e da riqueza que povoa Escolas que não se esgotam nas aulas, importantes! e que são muito mais do que isso… sem complexos, não deixando de também ser compostas por isso.

Ou seja, estas instituições, Escolas, têm muita responsabilidade na forma como são percepcionadas por quem está do outro lado, à distância de um clique, e procura informação sobre o estabelecimento A ou B. E têm, obrigatoriamente, de se afirmar pela positiva junto das comunidades que servem.

Observo que nem sempre o fazem. Por inércia? Por desleixo? Por falta de recursos humanos e ou técnicos? Por falta percepção da sua importância?

E é assim que nem sempre a fotografia é bonita de se ver. E pagamos todos por isto. Pela imagem que projectamos de nós próprios nas comunidades onde nos inserimos.


A Escola Laica (?) com Tiques de Catolicismo (?) 1

AnabelaConfesso que hoje fui completamente apanhada de surpresa ao ler a notícia, saída no JN, que dá conta da existência de escolas públicas em que se celebram missas durante as aulas. A notícia deixa-me estupefacta. Nunca, por pura sorte minha talvez!, contactei com semelhante realidade promiscua, nem enquanto estudante nem posteriormente enquanto docente e já carrego no lombo, somadas as duas condições, 45 anos de Escola Pública portuguesa.

O nosso Estado não é um estado confessional sabendo eu que ainda existem muitos estados confessionais espalhados pelo mundo – exemplo desta situação é o Reino de Marrocos, aqui tão perto, em que se misturam perigosamente, numa promiscuidade sem fim, assuntos do Estado e assuntos da Religião, sendo Mohammed VI, simultaneamente, com todos os perigos que daí advêm, chefe de estado e chefe religioso.

A Lei de Separação do Estado e da Igreja data de 20 de Abril de 1911 e neste particular somos devedores da 1ª República e muito da figura incontornável de Afonso Costa. Assim acedemos ao casamento civil como o único válido, às leis do divórcio… e isto só para focar duas emblemáticas normas que têm reflexos na nossa vida quotidiana. Bem sei que durante o Estado Novo a promiscuidade voltou a ser total com os crucifixos pendurados, e bem visíveis!, nas nossas salas aulas e as máximas de Deus, Pátria e Família a serem-nos incutidas desde a mais tenra idade, por todo o lado, até pelos livros, únicos, por onde estudávamos e por onde aprendíamos as primeiras letras.

Agora, hoje ainda estamos assim? A sério que isto acontece?

É que, se o que está reportado corresponde à realidade, mal anda a Escola Pública ao chegar a este ponto de promiscuidade entre o que é do Estado e o que é a Igreja.

As missas celebram-se nas Igrejas, não nas Escolas.

Escolas públicas celebram missa durante as aulas


Novas/Velhas da Tutela – Fazer Mais Com Menos

10458549_10202266446615809_6164479351172012278_nSe se lembram, o Orçamento do Estado para este ano de 2016 decidiu um corte para a Escola Pública de 82 milhões de euros. Simultaneamente a este corte de 1,4% para o sector público, assistimos a um aumento das transferências para o ensino particular e cooperativo de 6%.

Este último corte para a Escola Pública é um acrescento em cima de muitos outros cortes realizados nos anos anteriores durante os quais as escolas foram já levadas ao tutano e tiveram, muitas, de tomar medidas drásticas de emagrecimento, para além do saudável, fazendo racionamento de fotocópias, de aquecimento, evitando actividades que envolvessem quaisquer custos, cortes em jornais escolares, papel higiénico e eu sei lá mais o quê. Para além deste tutano já beliscado, há um outro tutano, agora humano, que mingou a olhos vistos e envelheceu até dizer chega desde a tutela daquela ministra que eu me recuso a nomear. A Escola Pública está em carência de meios humanos, quer sejam professores, quer sejam assistentes operacionais, psicólogos, pessoal administrativo. Acresce que os docentes estão cada vez mais envelhecidos e não vislumbram a tão desejada renovação dos quadros nas escolas. Acresce que estes mesmos docentes trabalham cada vez com mais turmas, com mais alunos, lidando com situações cada vez mais complicadas, acumulando cada vez mais funções, lidando com uma burocracia que parece ser capaz de procriar mais do mesmo a cada dia que passa. E isto para nem falar da tarefa hercúlea dos psicólogos, quando existem!, a terem de acompanhar dezenas, centenas de alunos de Escolas e, pior ainda, de Agrupamentos gigantes.

E é nesta conjuntura que o Ministério da Educação resolve fazer, mais uma vez, o milagre do fazer mais com menos que se soma ao milagre de fazer mais com menos decretado pelo ministro anterior, decretado também pela ministra anterior e também pela ministra anterior…

É evidente que a Escola Pública receberá de braços abertos e com carinho todas as crianças/adolescentes refugiados que nela serão integrados. Mas também é evidente que os sucessivos ministros da educação não podem sugar as escolas de recursos humanos e materiais atirando para cima delas exigências em cima de exigências simultaneamente não as dotando de meios adequados – humanos e materiais – para responder com decência e profissionalismo às novas funções. Vamos “criar equipas multidisciplinares, constituídas com os recursos existentes nas escolas”? Mas onde estão os recursos? Onde estão os recursos humanos especializados? Faremos isto na base do desenrasca, do improviso, da boa vontade?

A receita está já esgotada e é bem verdade que uma cisma é pior que uma doença. E teimam, teimam! em mandar fazer omeletas sem ovos…

Escolas que acolham refugiados vão garantir acompanhamento com recursos existentes

Nota 1 – Que fique bem claro que a minha posição relativamente ao acolhimento dos refugiados é a ditada pelos artigos constantes na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Nota 2 – Que fique bem claro que eu preferia ver um corte no orçamento anual da Assembleia da República ou no orçamento anual da Presidência da República do que estes cortes sucessivos, este desinvestimento sucessivo e excessivo na Escola Pública Portuguesa.


Perversidades da Avaliação de Desempenho Praticada nas Escolas… e Não Só! 4

AnabelaA Avaliação de Desempenho Docente existe há muitos e muitos anos e, contrariamente à ideia espalhada, não foi invenção daquela ministra que eu me recuso a nomear e que fez de tudo para destruir o excelente ambiente que sempre se viveu na generalidade das salas de professores deste país.

Mas há, de facto, um tempo antes dela e depois dela em termos de Avaliação de Desempenho Docente? A resposta é simples e é afirmativa. Depois dela, a Avaliação de desempenho Docente foi hiper burrocratizada, numa primeira fase, consumindo tantos recursos humanos e financeiros que as escolas não podiam e não conseguiam suportar tal coisa e, vai daí, a coisa foi-se aligeirando também fruto das lutas encetadas pelos professores muito visíveis na blogosfera docente existente à época e materializada na luta independente, na luta enquadrada pelos sindicatos, na luta encetada pelos movimentos que surgiram meio espontaneamente entre os professores.

Depois de muito calcorrearmos, chegamos aqui, ao ponto em que nos encontramos hoje, ao simulacro completo de uma Avaliação de Desempenho Docente que não é nada, e que nada é, mesmo se se vira a coisa do lado mais favorável à vista de quem para ela olha.

E as perversidades e sequelas deixadas pelo monstro horribilis, mesmo se agora travestido de monstro fofinho, não têm fim.

Vou falar apenas de algumas.

A avaliação de desempenho docente é secreta e este facto, digo eu, dá para tudo. Para tudo, e estou a medir as palavras, mesmo!

Quando alguém se submete a uma avaliação de desempenho espera, no mínimo!, ser avaliado. E ser avaliado significa ser avaliado. E ponto final. E quando uma instituição avalia os seus funcionários isso significa, ou deveria significar, avaliar os seus funcionários. E ponto final.

Ora, a avaliação de desempenho docente, ou o que restou dela, é um simulacro de coisa nenhuma em muitas instituições que dizem que a colocam em prática só servindo para consumir recursos humanos e materiais ao país… ok, e para dizer que se faz, que se pratica… não se fazendo, nem se praticando.

Porque quando uma instituição “decide”, pelas mãos dos seus decisores, atribuir a mesma nota a todos os funcionários que vai avaliar, uniformizando e normalizando o que não é uniforme e não é normalizado, querendo deste modo talvez agradar a todos os avaliados, provoca nos pseudos-avaliados várias reacções possíveis – o “avaliado” pode estar literalmente a marimbar-se para a “avaliação” e continuar em frente o seu percurso profissional – atenção que este pode ser muito mau, mau, medíocre, mais ou menos, bom, muito bom ou excepcional; o “avaliado” pode ainda não se marimbar e no caso de ser um funcionário mau, medíocre, mais ou menos, bom, muito bom ou excepcional pode olhar para baixo e pensar “Mas é preciso ser-se muito burro! Pois se o muito mau teve exactamente a mesma nota do que eu que é que ando aqui a fazer armado em otário? e cruzar os braços passando a fazer exactamente o mesmo que o mais calaceiro dos calaceiros da instituição.

Há uma terceira via – o funcionário, sentindo-se injustiçado, abandona a instituição, vira-lhe as costas e parte para outra.

E pronto. Sem ser exaustiva, aqui fica um alerta para algumas perversidades de um simulacro de avaliação de desempenho praticada nas escolas. Só para terminar, asseguram-me muitas vozes que em outros locais também é exactamente assim… ou assado… e também os há cozido e até frito… em azeite bem quentinho.

Anabela Magalhães


O Trabalho Oculto de Um Professor

AnabelaO trabalho de um professor vai muito para além do trabalho em contexto de sala de aula, vai muito para além do trabalho desenvolvido no espaço escolar, vai mesmo muito além do trabalho desenvolvido em casa podendo até, em algumas circunstâncias, ser confundido com puro lazer.

Hoje aconteceu-me uma situação caricata e representativa deste trabalho oculto desempenhado pelos professores e que é apenas um pequenino exemplo de trabalho facilmente confundido com lazer.

Pela hora de almoço, entro numa grande superfície local e dou de caras com uma colega do pré-escolar… curioso… tu por aqui?! Beijinhos para cá, beijinhos para lá… e o que faziam por ali as duas madames roubando tempo ao seu precioso tempo de descanso marcado no horário e tudo?

Pois não é que trabalhavam? Pois por incrível que pareça, as duas madames zecas estavam mesmo em trabalho. Eu tinha ido à procura de miniaturas de animais de quinta para colocar na maqueta da casa de Çatal Huyuk que em breve será acrescentada ao espólio do Centro de Recursos da EB 2/3 de Amarante, a colega do pré-escolar a escolher canecas para os miúdos pintarem preparando as prendinhas personalizadas para o Dia do Pai que em breve chegará.

E no entanto, quem nos visse por ali poderia até pensar que estas professoras têm mas é muito boa vida em termos de trabalho. Aliás, se o senso comum se deixar embalar pelos discursos e sinaléticas produzidos a torto e a direito pelos últimos ministros da educação, ao ver duas professoras às compras num dia de semana, mesmo se à hora de almoço, é mais do que certo que formulará tal raciocínio. E tal raciocínio poderá estar redondamente errado.

Certo?

Nota – Poderia dar muitos outros exemplos deste trabalho docente que facilmente se confunde com lazer puro e duro na conversa que se tem numa qualquer esplanada combinando uma palestra ou uma visita de estudo, ou ainda na deslocação que se faz a uma cidade romana das proximidades procurando ajustar uma qualquer sessão de uma oficina de arqueologia experimental, ou ainda na conversa que se tem em plena rua, presencial ou via telemóvel, agendando uma qualquer exposição dirigida a uma parte da comunidade educativa ou até à sua totalidade… e ainda…

Anabela Magalhães


A Aposta Portuguesa em Educação

AnabelaLer uma notícia destas, em que se dá conta de uma cada vez maior dificuldade de usufruto de bolsa de estudo no ensino superior, sentida pelos alunos com mais fracos recursos económicos, é ter direito a sentir uma vergonha sem fim. Vergonha dos governantes que assim nos governam, vergonha pelo que representa de sinal dado à sociedade em geral – és mais vulnerável, não consentimos que estudes!

O aperto das regras de acesso a estas bolsas de estudo não está, em alguns casos, errado no seu princípio, mas, quando cruzado com esta crise medonha que nos assola, quando cruzado com as maiores dificuldades económicas sentidas por muitas famílias deste país, quando consciencializada a simultaneidade de corte nas bolsas – foram atribuídas menos 4600 no ano lectivo de 2014/2015 do que no ano lectivo de 2010/2012 – e o agravamento violento das condições de vida sentidas na maior parte dos agregados familiares deste país, daqui resulta um sentimento de náusea impossível de conter. Porque é exactamente numa situação de maiores dificuldades económicas generalizadas que este apoio deveria, no mínimo, permanecer intocado, e até para bem, deveria ser aumentado.

O estado não tem por onde cortar sem ser aqui? Ai tem tem! Mas não quer, eu sei. Em vez disso, escolhe pagar subvenções vitalícias a políticos e não só!… escolhas que, não tenho qualquer dúvida, continuaremos a pagar caro todos os dias das nossas miseráveis vidas de quem permite que o país esteja como está, com os governantes que temos e faça as opções que faz.

Ou seja, em suma, um Estado que assim actua, é um Estado em estado miserável.

É preciso ser duas vezes mais pobre para se ter bolsa de estudo


Aulas do Passado/Aulas do Presente/Aulas do Futuro 2

Ontem saiu um artigo bastante interessante no DN intitulado Portugal testa salas de aulas do futuro que li com toda a atenção porque se prende com uma pergunta que faço a mim mesma desde que me conheço como professora – O que é uma boa aula?

A temática é aliciante e é, para mim, motivo de reflexão constante.

AnabelaSou professora de História e, até ao ano lectivo de 2004/2005, utilizei, na minha actividade lectiva em contexto de sala de aula, o manual, mapas, acetatos, diapositivos, um ou outro filme e/ou documentário que considerei pertinentes para a consolidação deste ou daquele assunto leccionado.

Entretanto, tinha, e tenho, por hábito solicitar aos meus alunos uma crítica construtiva às minhas aulas e, nesse ano de 2005, um aluno de 9º ano sugeriu que estas teriam muito a ganhar com o uso das novas tecnologias. Sim, de facto estava mais do que na hora de meter pés ao caminho, pensei eu, e parti à procura de um caminho possível para melhorar as minhas aulas de História… de que os alunos, de uma maneira geral, não se queixavam pois foram sempre marcadas pela interactividade e não pelo debitar puro e duro das matérias.

Como quem procura sempre alcança, encontrei uma ferramenta maravilhosa, chamada PowerPoint, que utilizo desde então. Construí a informação, comecei a disparar fotografias sobre tudo o que me pudesse interessar para ilustrar os assuntos tratados, enfim, criei uma imagem de marca original para as minhas aulas.

Esta história está contada aqui, na minha página de recursos, página em que partilho as apresentações em PowerPoint que iniciei no Verão de 2005 e que, desde então, são alvo de constantes reformulações.

Ao fim de três anos de uso desta ferramenta, e depois de verificar a enorme adesão, interesse, atenção, conforto, alegria, afectividade… por parte dos alunos, relativamente a este embrulho com que embrulhei a História, escrevi:

As apresentações em PowerPoint não são panaceia para coisíssima nenhuma pois não são, nem nunca serão, os recursos/ferramentas utilizados dentro da sala de aula que determinam a qualidade dessa mesma aula mas sim a abordagem desses mesmos recursos/ferramentas. Sei, por experiência própria, que esta ferramenta/recurso, utilizada em contexto de sala de aula, possibilita uma interactividade incrível entre professores e alunos, muito embora esteja espalhada a ideia, errada, de que é uma ferramenta muito estática, o que se deve apenas à utilização completamente errada e lamentável, porque apenas lida, que vulgarmente se faz da apresentação em PowerPoint.

Sei também, fruto da experiência acumulada, que em Educação não há receitas e que a boa aula é a aula que resulta. E ponto final. E que a sua qualidade/êxito depende da sua preparação, das características do professor e dos seus alunos, da felicidade do professor e dos seus alunos, até do tempo, da chuva que nos entristece ou do sol que nos enche de energia, das condições de saúde, física e mental, do professor e dos seus alunos…

Agora, volvidos todos estes anos, reafirmo tudo o que escrevi. E volto a frisar que em Educação não há receitas. Importa é que cada um de nós encontre um registo em que se sinta confortável e, acima de tudo, que encontre um registo que lhe permita ver e sentir o conforto espelhado e espalhado pelas caras dos alunos, dentro da sala de aula. Evidentemente que o modelo de aula mais tradicional, em que o professor debita e o aluno escuta, ainda em uso em algumas salas de aula deste e de outros países, está, para os miúdos actuais, mais do que esgotado, constituindo, para eles, um verdadeiro martírio, em suma, uma seca.

Eu, confesso, como sou uma eterna irrequieta, ando para aqui a pensar em dar uma nova volta à minha sala de aulas que passará, obrigatoriamente, por uma nova disposição de carteiras e cadeiras para que o trabalho se desenvolva de forma ainda mais colaborativa… o que me obrigará, mais uma vez, a reformular as minhas aulas.

Assim será.

E, para terminar, partilho algumas salas de aulas bem diferentes das que por aqui se vão usando… deixando uma pergunta:

O futuro é já hoje?

Anabela Magalhães


Trabalho Oculto de Professor(a) em Paragem Lectiva de Carnaval 6

AnabelaEstamos agora em plena paragem lectiva de Carnaval. Por acaso, para mim, de facto e durante este ano lectivo de 2015/2016, esta paragem corresponde apenas a um dia que “gozarei” na próxima quarta-feira. Curioso que o senso comum considere que os Professores têm demasiadas “férias” esquecendo, nesta equação, que os Professores têm “violentos” Trabalhos para Casa” que, impreterivelmente, têm de cumprir sob pena de terem os alunos à perna – Professor(a), já corrigiu os testes?

Nesta paragem lectiva, mais ou menos estrategicamente “colocada” a meio do 2º período, não há como escapar a uma lotada de testes para corrigir. Será este o meu caso nos próximos dias, dia de Carnaval, com tolerância dada a todos os funcionários públicos sendo que muito do privado segue a esta tendência, e dia de paragem lectiva incluído! e o caso de tantos e tantos professores espalhados por este país fora que o meu caso está longe longe de ser único e as actividades de Escola antes desta paragem não permitem, frequentemente, fazer face a este trabalho que exige calma e ponderação. Mas, para além deste trabalho, há toda uma série de actividades e de contactos e muitas vezes de trabalhos burocráticos que giram à volta do nosso trabalho, que, diga-se de passagem, quase nunca acaba, e que o senso comum e muitas vezes a comunicação social não valoriza, não interioriza e que a própria tutela não dignifica.

Estamos em paragem lectiva de Carnaval. Mas, para mim, e para muitos Professores e Professoras deste país, serão dias de trabalho muito intenso. E o dia de Carnaval não fugirá a esta regra.

Bom Carnaval a todos!

Anabela Magalhães


O Espaço Escolar Degradado e o Lixo.

AnabelaIniciei a actividade docente durante os anos 80 e, desde aí, já passei por inúmeras escolas. Todas mais ou menos degradadas em temos de espaços físicos – desde portas esventradas a paredes descascadas, a entradas de água da chuva pelas coberturas a cair em baldes estrategicamente colocados nas salas de aula, a escritos por tudo quanto é lado, a torneiras a não funcionar, a tomadas esventradas, a estores feitos em pedaços, a fungos aos molhos, a armários inúteis de tão escaqueirados…

Hoje, olhando para trás, não recordo uma impecável em termos conservação dos espaços por onde professores, alunos e funcionários se movimentavam, à época, e, em alguns casos, ainda se movimentam. Hoje, olhando para trás, também não recordo uma impecável em termos de inexistência de lixo. Na verdade, por mais que os funcionários limpem, por mais caixotes do lixo que se espalhem no recinto escolar, por mais que os alunos sejam chamados à atenção, o lixo continua a aparecer espalhado pelo chão, aqui e ali, nos jardins, nos caminhos, nas escadas, à entrada das salas de aula, nas próprias salas de aula.

A minha escola actual não é excepção e sendo que nós, professores no activo hoje, já estamos a receber na escola a geração dos filhos dos que já foram nossos alunos um dia, que são gente escolarizada, mais ou menos, bem o sei, é caso para perguntar: Como é isto possível? Como é que uma regra tão simples, de respeito pelo outro num espaço que é comum, que é de todos nós e que é de Educação por excelência, não está ainda interiorizada passados todos estes anos a martelar de todas as formas e feitios, estas informações? Estou convencida que os espaços físicos degradados – “jardins” miseráveis, paredes e tectos colonizados pelos fungos, cercas destruídas, fios diversos pendurados,.. – sem serem causa única, potenciam este desleixo e este lixo que se atira, sem dó nem piedade, para um espaço que devia ser Home para cada um de nós – alunos, professores, assistentes operacionais. Gostaria de saber o que se passou/passa nas escolas “xpto” já reabilitadas pela Parque Escolar… mas, é um palpite, o desleixo não será assim tão grande…

Anabela Magalhães


Vergonha – Educação – Portugal no Seu Pior 1

AnabelaAs conclusões agora apresentadas por este estudo não me espantam. Só quem nunca teve turmas de CEF, agora de Vocacional, entretanto já descontinuados, é que pode estar alheado desta realidade… e, mesmo assim, só se andou/anda muito distraído. De facto, estas turmas foram sendo constituídas com os alunos mais problemáticos e carenciados, a todos os níveis, emocional incluído, existentes numa determinada escola e a acumularem retenções nos seus percursos escolares. Claro que existiram sempre honrosas excepções de miúdos e miúdas que, com carências económicas, tinham uma retaguarda minimamente segura e firme apesar das dificuldades. Mas, a maioria, não a tinha, de facto. Foram sempre turmas difíceis. Incomparavelmente mais difíceis do que as turmas do ensino regular. Tive-as por mais de uma década, acumulando sempre uma direcção de turma de uma destas turmas, digamos, muito desafiantes e, fruto desta experiência acumulada no terreno, sei bem do que estou a falar.

Posto isto, a grande conclusão que  é possível tirar face a este estudo é que a Escola Pública Portuguesa está a falhar enquanto promotora e possibilitadora da desejável mobilidade/ascensão social.

Mas será que era possível fazer mais e melhor com a escassez de meios que são alocados a esta mesma Escola Pública? Será que era possível fazer mais e melhor sem uma intervenção/acompanhamento precoces das famílias desde a concepção da criança e depois desde o nascimento da criança? Muitas vezes paridas depois de gestações mal acompanhadas, depois mal nutridas, mal cuidadas, sem acesso aos cuidados básicos, criadas ao deus dará, sem os estímulos nas horas certas, sem os afagos e os aconchegos para que o crescimento se faça de forma harmoniosa, sem rastreios adequados, sem doenças diagnosticadas na hora certa… como é que a Escola Pública consegue fazer ultrapassar, pelo menos minorar, estas lacunas tão graves?

Será que esta é a situação para a qual andaram a trabalhar os anteriores ministros das Finanças? E os anteriores ministros da Educação? Especialmente Nuno Crato?

Aqui ficam as perguntas. Propositadamente sem respostas.

Nove em cada 10 alunos que Chumbam são de famílias mais carenciadas


As Editoras de Manuais, o Ministério da Educação, o Orçamento Familiar Despudoradamente Assaltado e a Saúde dos Alunos

A relação entre editoras de livros escolares e o ministério da Educação já me pareceu mais saudavelmente distanciada e descomprometida do que a existente durante o consulado de Nuno Crato.

AnabelaSó assim se compreende que em período de intervenção da Troika e em período de grande agravamento das condições de vida das famílias portuguesas, os livros escolares tenham aumentado mais de 10% fruto de uma negociata entre ambas as partes que assegurou às editoras um aumento fixo de 2,6% ao ano, desde 2012, em consequência de um acordo assinado entre ambas as partes que revogou o anterior, mais justo, que indexava os preços dos manuais à inflação -se este acordo se mantivesse, as editoras teriam, para o mesmo período, um aumento de preços de somente 0,1%… não vos parece, no mínimo!, estranho?

É caso para dizer Estado, Estado, os restantes sectores da economia também querem negociatas dessas!

Depois há ainda a questão da lei não cumprida da vigência dos manuais pelo período de seis anos tais as reviravoltas sofridas e impostas pela tutela que, não acautelando a estabilidade e os interesses das famílias, acautela, e de que maneira!, os interesses das editoras.

Assim, qualquer mudança é pretexto para a edição de novos manuais e estes não transitam de irmãos para irmãos tendo os pais e encarregados de educação e o próprio estado também, portanto todos nós, contribuintes, de suportar, ano após ano, a compra de novos manuais escolares com diferenças por vezes pouco mais do ténues entre os anteriores e os posteriores.

Por último, alerto de novo a Tutela para a questão, gravíssima, de saúde pública, que decorre do peso das mochilas literalmente arrastadas pelos alunos que frequentam as escolas portuguesas. Já dei conta do peso, obsceno, de mochilas de 10 kg carregadas às costas por miúdos de 12 e 13 anos que pesam 40 kg… e alguns nem isso.

Compete à Tutela, já que as Editoras parecem não querer saber disto para nada, impor pesos limite por manual e impor a divisão dos manuais em três blocos, a usar um por trimestre.

As costas dos miúdos portugueses agradecem… para que não se volte a verificar aquele exemplo do aluno(a) franzino(a) que, finda a aula, coloca a sua mochila às costas e cai para trás, estatelando-se imediatamente no chão, vergado por um peso brutal que não lembra ao diacho e cuja solução a tutela vem descurando, ano após ano, quando tem em si a chave e o poder para a sua rápida resolução.

A notícia que deu origem a esta reflexão pode ler-se aqui.

Anabela Magalhães