Pupilas do Reitor


O Embate Realístico

Todos nós padecemos com as restrições que são impressas no ensino, desde o desinteresse numa área que nos é querida até ao culminar da não existência de um assunto que nos é diretamente familiar. 

É neste ponto que nos são colocadafortíssimas interrogações . 

Estaremos a entregar o material necessário? O material correto? Estaremos a moldá-lo de forma proveitosa? Estaremos a mastigar competências e a insignificar capacidades? 

A primeira anomalia sistêmica é o fator Especificidade vs. Generalidade. Reconhecendo desde já que cada ser é único e necessário na construção da sociedade, vejamos que a utilidade do mesmo sobe de nível cada vez que a quantidade de informação compatível às suas necessidades que lhe é entregue, aumenta. 

Daqui podemos concluir que o conceito de matéria interessante é diretamente proporcional ao termo aproveitamento escolar. 

Tornando teórico o funcionamento circular educacional onde expelimos mais tarde o que foi antes digerido e, olhando para a pintura geral e caótica que nos é real hoje em dia, estaremos nós a fornecer a “alimentação” correta aos jovens? 

É possível falar acerca da experiência de algo que existe, mas muito complicado falar da não existência de algo neste caso não conhecido. 

Ou seja, quando transmitimos determinado conhecimento, estamos a possibilitar a criação de espaço de manobra no mesmo mas, quando não transmitimos determinados saberes, estamos a impedir qualquer tipo de transformação/melhoria nestes. 

Um jovem que nunca ouviu falar acerca dos malefícios da toma desnecessária de antibióticos nunca irá reduzir em algo que lhe traz conforto imediato, e pior é continuar a transmitir essa não-experiência dando continuidade a um círculo vicioso opaco que beneficia empresas farmacêuticas multinacionais. 

Partindo do princípio que nos são entregues ferramentas não tão carregadas de esperança e portadoras de algum grau de realidade constrangedora, é possível mudar. 

Tratemos de afastar exageros positivos, de lhes dizer que quanto a determinado problema está a ser feito algo, levando à perda de adeptos na disciplina agir, pois existe sempre alguém a tratar de algo já. 

choque de ser de alguma dimensão no início, mas será muito menor do que o arrependimento do “e se …” 

Que de uma vez por todas, seja colocada uma barreira na noção de ensino como máquina fazedora de dinheiro, não sejamos egoístas ao ponto de achar que o alargamento de um problema é desculpa para a sua resolução… Porque todos sabemos que quanto mais plantarmos no fim, mais teremos de colher.

Martha Freitas, aluna.


Ter e dever… A falta de sinceridade para com a geração mais bem preparada de sempre.

Cessem os cálculos e as teorias por momentos, cortem nas explicações quanto a etapas para atingir o lucro e apostem no civismo. Não no simples ato de jogar um papel ao chão, nem na capacidade de sorrir ao próximo quando a vida está um caos… Apostem no civismo científico, nos cálculos e estimativas da loucura humana e no incentivo da procura autónoma de soluções para que assim nós não nos transformemos na próxima geração adulta que aponta os erros da mais nova, esperando que esta resolva o que outrora alguém deixou em standby .

Não nos digam só como funciona um motor, façam-nos  reparar nas pré e pós consequências caóticas que o seu funcionamento nos traz.

Não nos ensinem a modificar informação celular sem nos dizerem que a ciência só pode avançar se arranjarmos forma de eliminar a maior parte do impacto negativo que tem. Querem resultados? Querem um grupo honestamente empenhado, humano?

Proíbam os utensílios tecnológicos em demasia e ofereçam-nos livros, retirem as publicidades cor-de-rosa e mostrem-nos o que o que consumimos causa, ensinem-nos a andar de bicicleta e por favor ensinem-nos a perguntar e a questionar o porquê de tudo e, acima de tudo dêem o exemplo. Acabem com essa proteção e deem-nos uma chapada de realidade, revoltem-nos com os factos e façam com que essa revolta vire revolução! Mudança!
Retirem da cabeça a ideia de que professores são sábios que vão retirar todo o mal inscrito em cada futuro adulto. Abram-nos os olhos! Por favor cultivem esperança e não interesses monetários!

Já chega de reclamar de toda a criatura que anda, de restringir caminhos e de colocar vendas nos jovens, chega de amarrar profissionais no lecionar de assuntos tão extensamente superficiais! Chega de colocar as culpas no preguiçoso que se senta na última fila e não quer saber da escola, porque esta não lhe oferece aquilo que procura, chega de colocar a culpa no professor que serve de simples transmissor de informação daquilo que alguém ordena.
Isto não é falta de humildade acerca do que me é dado, é revolta por saber que aquilo que me pedem é errado! Não faz absolutamente sentido nenhum, quer queiram quer não, a possibilidade de salvar a humanidade estar neste grupo de incompetentes cultos, digam-me como não me desimportar, não me desmotivar e, até mesmo desrespeitar e desistir, quando o que nos oferecem é uma caixa de Pandora. Quando o que nos dão é tão bom para o nosso conforto como mau para o fim do que nós conhecemos? Como querem que não me sinta revoltada se no fim do dia sei que estudo para ser empregada num mundo que não está a ligar a mínima.

Como não me sentir enganada, quando se dirigem a mim como incompetente ou irresponsável por não seguir o mesmo caminho que todos.
Respeito totalmente o vosso descontentamento geral connosco e, agradeço do fundo do coração a luta diária de muitos para melhorar a nossa instrução e o nosso conforto… Mas por favor tirem-nos a chão, mostrem-nos a máquina insensível por detrás da informação.

Martha Freitas, aluna.


Humanidade precisa-se! 1

Não é permitido exceder o número de palavras, nem abordar outros assuntos que não o ordenado, a utilização de recursos expressivos deve ser mínima sob pena de levar com um risco encarnado de uma ponta da folha à outra. As obras literárias são escolhidas e são-nos entregues de bandeja. Bem-vindo à escola, onde abusar da profundidade da imaginação… é mentira! Somos recrutas ensinados a não contrariar e a não duvidar da informação que nos é dada e, mais tarde, faremos o mesmo com a publicidade, com as notícias corruptas e com os falsos factos que nos forem inoculados. A capacidade de argumentação e de auto-raciocínio é eliminada, e em vez de um arco-íris de possibilidades temos escrita a preto e branco.

Voltemos por segundos às raízes, já dizia o velho ditado que “a educação começa em casa” e, digam o que disserem, é completamente diferente a maneira de absorver informação de um aluno que vive numa casa de pedra daquele que nunca viu o mar. Claro que seria injusto rezar ao sistema para que se adaptasse a tanta diversidade de almas, mas pior ainda, é exigir a tanta criança que se conforme na margem, quando existem tantas possibilidades que não são apresentadas. Antes de um caminho ser escolhido é necessário alertar a um ser (ainda não totalmente fixo em personalidade) que ele próprio pode construir um caminho, sem necessitar de percorrer um trajeto já várias vezes pisado. É urgente pôr um travão na ideia de conforto! É fundamental educar para o desenvolvimento sustentável; ensinem-lhes que dinheiro não é comestível ou inalável, que por mais conhecimentos científicos adquiridos, vivemos numa era com escassez de valores. Humanidade precisa-se!

Martha Freitas, aluna.


Desabafo de um professor 3

“mudar o mundo” era algo que me interessava. Ser responsável pela formação de futuros adultos e deixar a minha marca na história.

Mas cansei, cansei de me cingir a livros que caiem como obrigatórios por favorecerem editora X, de ter de abdicar de jantares de família, dos primeiros passos dos meus filhos e de momentos irrepetíveis pois, a mim ninguém proíbe os tpc’s! Há e aquele toque! O maldito toque do telemóvel que sempre se lembra de mim quando encontro tempo  para repousar a cabeça! Sou um super herói sem capa, que todos os dias se encara com personalidades completamente distintas e se esforça para conseguir passar-lhes exatamente a mesma informação. Horas extraordinárias em cima de um horário que acha que o trabalho é só feito dentro de uma sala! Sou alvo de comentários dia sim dia sim senhor, e de outros cenários que aprendi a dispensar ao longo do tempo. Oiço pais aflitos e lido com os que parecem nem saber que os filhos existem! Lido com cerca de sessenta alunos diferentes e sei o nome de todos eles, conheço personalidades e aptidões e, confesso que me faz confusão o rumo que muitos tomam, preocupo-me e há dias que nem voz tenho.

No entanto sou visto como mais um, apenas mais um “robô” que exerce a profissão apenas porque sim, porque sustenta no final do mês.

Sou encarado às vezes como “responsável” por todo um sistema, e sou eu que dou a cara todos os dias a jovens frustrados e desapontados com a educação.

Espero que um dia olhem para mim de forma diferente, até lá tento mudar um bocadinho do mundo de cada um… À minha maneira.

Martha Freitas, aluna.


Não é escassez de produção, mas sim falta de gorgulho!

Os alicerces estão montados e a estrutura é mais que conhecida, ano após ano os andares tomam proporções gigantescas e não cessam o seu descontrolado crescimento.

Terá sido cavado um orifício suficientemente confiável para este empilhamento?

Reparem que, com o passar do tempo torna-se cada vez mais complicado alcancar a base deste edifício e, é isso que nos é exigido todo o santo dia! É nos depositada a responsabilidade de fixar material velho, para que assim, este consiga suportar os andares que também nós temos de continuar a construir.

Através de técnicas arcaicas que falham na segurança de todos os que lá vivem, através de vidros escuros que nos tapam constantemente a visibilidade de uma natureza a pedir socorro e, de vícios e prazeres que nos impedem de deixar o comum, sob pena de exclusão social. É perigoso olhar o mundo lá fora, e proibido saber mais do que nos é lecionado lá dentro. Caímos no ridículo de acreditar que a decoração interior é o unico objetivo e pior, incutimos essa noção a todos os seres que mal acabaram de deixar a maternidade, ignorando a sustentabilidade e privilegiando o lucro.

Torna-se de tal maneira confuso que ocupamos o nosso tempo a jogar, para outra classe qualquer, a culpa da conhecida queda, em vez de unirmos esforços para remodelar a técnica que forma futuros educadores.

Deixemos de lado o jogo da batata quente e cortemos de vez com a imagem que se infiltra e distorce informação, que nos torna diferentes na capacidade de realização do mesmo ofício, acabemos com essa praga que acredita na qualidade do grão pela menor quantidade de dentadas deste e não pela melhor consistência e sabor que atrai o gorgulho!

Martha Freitas, Aluna.


Vox adultorum

Por alto, através de trocas de palavras entre “adultos”, repito “adultos” veio à tona a suposta teoria da “geração mais bem preparada” de sempre!

Ponhamos isto em pratos limpos de uma vez por todas! O que aconteceria se porventura a humanidade, não sei… Resolvesse desenvolver-se ? Descobrir mais sobre o mundo que a rodeia? é óbvio e, atrevo-me a dizer, inevitável a absorção desses conteúdos pela parte mais jovem e, com eles, toda a experiência e lições retiradas de erros da geração mais antiga.
Por isso sim!É necessário lidar não com facto desta geração ter uma mina de ouro em termos de utensílios, mas sim com a precariedade, escassez e falta de diversidade das munições entregues pelos cabecilhas da armada!
Tão repetidas as vezes que nos é entoada a frase: ” Tu tens tudo! Tu não fazes nada!” 
Pedimos perdão pelas horas mal aproveitadas, pelo encanto pelos ecrãs e pelas notas baixas, perdão por não sermos o próximo génio capaz de inventar mais uma maquineta qualquer que em troca de capital causa alergia à sociedade. Perdão se somos diferentes! Porém diversidade é o conceito que explica toda essa “rebeldia” face à informação que nos é transmitida que, só assim por acaso, é tudo menos diversa! É que chega ao ponto de ser introduzida a mentira de só existirem X de cursos e X de áreas devidamente remuneradas! Em pleno século XXI e com tanta modernice por aí, ainda se incumbe nos jovens que os empregos socialmente corretos são relacionados com o poder jurídico, medicinal e, aí está, com a educação! 
Existem alturas específicas em que o cérebro decide cortar aquilo que não usa e, uma das alturas em que o faz é, precisamente aquela em que nos é oferecida de bandeja a escolha da área em que queremos depositar o nosso tempo e energia, sendo também a altura em que nos é ordenado o “foco”.
“Foco” para não perder ou gastar as energias em atividades que realmente nos interessam, porque é demasiado importante que as nossas ideias estejam viradas para algo que para além de fornecer editoras, ajuda a manter a fachada de uma realidade que se nos é mostrada é deitada abaixo, processo que iria causar inúmeros prejuízos monetários.
Reparem que, na altura da conhecida como “geração rasca”, também essa faixa etária era conhecida como a mais bem preparada, resultado? bem, os factos falam por si. Para além de uma oferta louca de emprego, uma carga de afazeres bem mais leves dos que os de agora. Pobreza? Dificuldades? Informo-vos que os jovens de hoje em dia também por isso passam!
Remato ainda que, a educação não se baseia apenas no passeio diário de livros a um edifício, nem na quantidade louca de tempo desperdiçado à frente de papéis! Trata-se da combinação de informação cultural, científica e moral, e não existe nada que não nos molde ou que não deixe um rasto em nós.
O pior? É que acreditam mesmo que uma geração careca de  receber tudo de mão beijada, uma geração materialista e consumista vai conseguir educar e passar valores segundo a canção do “faz o que eu digo não faças o que eu faço!”
Como é possível então a geração mais bem preparada de sempre ter capacidade de retirar os seus antecessores desse conforto estático e conformado para salvar o mundo?
Martha Freitas
Aluna do Ensino Secundário

Na sombra de um 20

É com satisfação que anuncio a adesão da Martha Freitas ao ComRegras. A Martha é uma aluna do ensino secundário e escreve de forma muito incisiva conforme podem verificar. Precisamos de alunos assim, concorde-se ou não, mas que tenham um espírito crítico e com capacidade de se exprimirem através da escrita. Fica o seu primeiro artigo da sua rubrica Pupilas do Reitor.

 Na sombra de um 20

Somos os números cuspidos numa folha de papel em cada trimestre, com inúmeras oportunidades à espera de serem agarradas porém cortadas pelo sistema.
Diariamente lembrados de que as áreas honestas são as que nos fazem lucrar no final de um mês de trabalho, que é necessário escolher um caminho sem fazer desvios e, como se isso não bastasse, termos de aprender segundo regras, segundo o que já foi feito e inventado ajudando assim a manter o desenvolvimento de uma enorme bola de neve que começa por esmagar os nossos sonhos e, acaba por nos ensinar a fazer o mesmo aos outros com o passar dos anos.
Nós representamos o médico anti-social que nem sabe se és Homem ou Mulher, que evita o contacto visual e mal retira os olhos do computador, que se levanta todos os dias para se sentar num cubículo a aviar receitas conforme o exigido.
Aquele polícia que estaciona a meio da estrada em frente a uma saída de emergência da emir, aquele que abusa da autoridade e se safa a custo da mesma.
Aquele cozinheiro que aproveitou aquela salada imaculada de um prato já servido para a verter no prato de outro cliente.
Aquele professor que sai 10 minutos mais cedo com a desculpa do trânsito e, aquele que te transmite mais conhecimentos sobre o seu quotidiano do que sobre a matéria.
Estaremos nós a educar para viver, ou a fazê-lo apenas por pura sobrevivência através da lei do desenrasque?
Aquele médico que sai do trabalho e admira as medalhas, que guarda na sala, de torneios de ténis.
Aquele polícia que ainda retira o pó da velha yamaha que já não solta um sol desde os tempos do secundário.
Aquele cozinheiro que aproveita os papéis das ordens para escrever poesia nas horas da pausa.
Aquele professor que ensina aquilo que queria exercer.
São escolhas, escolhas que condicionam o resto da vida de cada profissional deste país que, ou estudam e são abrigados pelo salário de uma atividade estranha à sua essência e, por consequência mal desempenhada ou, estudam e são remunerados pelo desemprego.
E a dada altura aumentam as doenças psicológicas nesta faixa etária, porque ser diferente é ter colado na testa “sem abrigo”, porque gostar de uma área sem bases instrutoras legais implica desmotivação nas áreas existentes… e sejamos honestos ninguém gosta de permanecer na sombra de um 20.
Martha Freitas