Pupilas do Reitor


Não é escassez de produção, mas sim falta de gorgulho!

Os alicerces estão montados e a estrutura é mais que conhecida, ano após ano os andares tomam proporções gigantescas e não cessam o seu descontrolado crescimento.

Terá sido cavado um orifício suficientemente confiável para este empilhamento?

Reparem que, com o passar do tempo torna-se cada vez mais complicado alcancar a base deste edifício e, é isso que nos é exigido todo o santo dia! É nos depositada a responsabilidade de fixar material velho, para que assim, este consiga suportar os andares que também nós temos de continuar a construir.

Através de técnicas arcaicas que falham na segurança de todos os que lá vivem, através de vidros escuros que nos tapam constantemente a visibilidade de uma natureza a pedir socorro e, de vícios e prazeres que nos impedem de deixar o comum, sob pena de exclusão social. É perigoso olhar o mundo lá fora, e proibido saber mais do que nos é lecionado lá dentro. Caímos no ridículo de acreditar que a decoração interior é o unico objetivo e pior, incutimos essa noção a todos os seres que mal acabaram de deixar a maternidade, ignorando a sustentabilidade e privilegiando o lucro.

Torna-se de tal maneira confuso que ocupamos o nosso tempo a jogar, para outra classe qualquer, a culpa da conhecida queda, em vez de unirmos esforços para remodelar a técnica que forma futuros educadores.

Deixemos de lado o jogo da batata quente e cortemos de vez com a imagem que se infiltra e distorce informação, que nos torna diferentes na capacidade de realização do mesmo ofício, acabemos com essa praga que acredita na qualidade do grão pela menor quantidade de dentadas deste e não pela melhor consistência e sabor que atrai o gorgulho!

Martha Freitas, Aluna.


Vox adultorum

Por alto, através de trocas de palavras entre “adultos”, repito “adultos” veio à tona a suposta teoria da “geração mais bem preparada” de sempre!

Ponhamos isto em pratos limpos de uma vez por todas! O que aconteceria se porventura a humanidade, não sei… Resolvesse desenvolver-se ? Descobrir mais sobre o mundo que a rodeia? é óbvio e, atrevo-me a dizer, inevitável a absorção desses conteúdos pela parte mais jovem e, com eles, toda a experiência e lições retiradas de erros da geração mais antiga.
Por isso sim!É necessário lidar não com facto desta geração ter uma mina de ouro em termos de utensílios, mas sim com a precariedade, escassez e falta de diversidade das munições entregues pelos cabecilhas da armada!
Tão repetidas as vezes que nos é entoada a frase: ” Tu tens tudo! Tu não fazes nada!” 
Pedimos perdão pelas horas mal aproveitadas, pelo encanto pelos ecrãs e pelas notas baixas, perdão por não sermos o próximo génio capaz de inventar mais uma maquineta qualquer que em troca de capital causa alergia à sociedade. Perdão se somos diferentes! Porém diversidade é o conceito que explica toda essa “rebeldia” face à informação que nos é transmitida que, só assim por acaso, é tudo menos diversa! É que chega ao ponto de ser introduzida a mentira de só existirem X de cursos e X de áreas devidamente remuneradas! Em pleno século XXI e com tanta modernice por aí, ainda se incumbe nos jovens que os empregos socialmente corretos são relacionados com o poder jurídico, medicinal e, aí está, com a educação! 
Existem alturas específicas em que o cérebro decide cortar aquilo que não usa e, uma das alturas em que o faz é, precisamente aquela em que nos é oferecida de bandeja a escolha da área em que queremos depositar o nosso tempo e energia, sendo também a altura em que nos é ordenado o “foco”.
“Foco” para não perder ou gastar as energias em atividades que realmente nos interessam, porque é demasiado importante que as nossas ideias estejam viradas para algo que para além de fornecer editoras, ajuda a manter a fachada de uma realidade que se nos é mostrada é deitada abaixo, processo que iria causar inúmeros prejuízos monetários.
Reparem que, na altura da conhecida como “geração rasca”, também essa faixa etária era conhecida como a mais bem preparada, resultado? bem, os factos falam por si. Para além de uma oferta louca de emprego, uma carga de afazeres bem mais leves dos que os de agora. Pobreza? Dificuldades? Informo-vos que os jovens de hoje em dia também por isso passam!
Remato ainda que, a educação não se baseia apenas no passeio diário de livros a um edifício, nem na quantidade louca de tempo desperdiçado à frente de papéis! Trata-se da combinação de informação cultural, científica e moral, e não existe nada que não nos molde ou que não deixe um rasto em nós.
O pior? É que acreditam mesmo que uma geração careca de  receber tudo de mão beijada, uma geração materialista e consumista vai conseguir educar e passar valores segundo a canção do “faz o que eu digo não faças o que eu faço!”
Como é possível então a geração mais bem preparada de sempre ter capacidade de retirar os seus antecessores desse conforto estático e conformado para salvar o mundo?
Martha Freitas
Aluna do Ensino Secundário

Na sombra de um 20

É com satisfação que anuncio a adesão da Martha Freitas ao ComRegras. A Martha é uma aluna do ensino secundário e escreve de forma muito incisiva conforme podem verificar. Precisamos de alunos assim, concorde-se ou não, mas que tenham um espírito crítico e com capacidade de se exprimirem através da escrita. Fica o seu primeiro artigo da sua rubrica Pupilas do Reitor.

 Na sombra de um 20

Somos os números cuspidos numa folha de papel em cada trimestre, com inúmeras oportunidades à espera de serem agarradas porém cortadas pelo sistema.
Diariamente lembrados de que as áreas honestas são as que nos fazem lucrar no final de um mês de trabalho, que é necessário escolher um caminho sem fazer desvios e, como se isso não bastasse, termos de aprender segundo regras, segundo o que já foi feito e inventado ajudando assim a manter o desenvolvimento de uma enorme bola de neve que começa por esmagar os nossos sonhos e, acaba por nos ensinar a fazer o mesmo aos outros com o passar dos anos.
Nós representamos o médico anti-social que nem sabe se és Homem ou Mulher, que evita o contacto visual e mal retira os olhos do computador, que se levanta todos os dias para se sentar num cubículo a aviar receitas conforme o exigido.
Aquele polícia que estaciona a meio da estrada em frente a uma saída de emergência da emir, aquele que abusa da autoridade e se safa a custo da mesma.
Aquele cozinheiro que aproveitou aquela salada imaculada de um prato já servido para a verter no prato de outro cliente.
Aquele professor que sai 10 minutos mais cedo com a desculpa do trânsito e, aquele que te transmite mais conhecimentos sobre o seu quotidiano do que sobre a matéria.
Estaremos nós a educar para viver, ou a fazê-lo apenas por pura sobrevivência através da lei do desenrasque?
Aquele médico que sai do trabalho e admira as medalhas, que guarda na sala, de torneios de ténis.
Aquele polícia que ainda retira o pó da velha yamaha que já não solta um sol desde os tempos do secundário.
Aquele cozinheiro que aproveita os papéis das ordens para escrever poesia nas horas da pausa.
Aquele professor que ensina aquilo que queria exercer.
São escolhas, escolhas que condicionam o resto da vida de cada profissional deste país que, ou estudam e são abrigados pelo salário de uma atividade estranha à sua essência e, por consequência mal desempenhada ou, estudam e são remunerados pelo desemprego.
E a dada altura aumentam as doenças psicológicas nesta faixa etária, porque ser diferente é ter colado na testa “sem abrigo”, porque gostar de uma área sem bases instrutoras legais implica desmotivação nas áreas existentes… e sejamos honestos ninguém gosta de permanecer na sombra de um 20.
Martha Freitas