Por uma nova cultura de convivência


Hierarquia Professor – Aluno | “Os alunos desde cedo devem desenvolver a capacidade de lidar com o poder desigual”. 1

Ano Novo, mas a vida nas escolas não é assim tão nova…

Para todos os leitores do ComRegras, desejo que seja um ano pleno de realizações pessoais e profissionais e que encontrem neste novo ano o melhor de vocês e o melhor para vocês.

O texto de hoje recairá num tema muito chato mas tão fundamental na gestão das relações (e das ralações) na escola.

As regras e os limites.

A existência de regras e limites é inerente a qualquer interação social, seja esta no contexto escolar, familiar ou profissional. Nos diversos contextos em que atuamos, vamos encontrando hierarquias, normas e padrões de conduta.

Na escola concretamente, o professor é o líder, é quem toma as decisões e mantém a disciplina. Isto não deve ser interpretado de modo a pensarmos em padrões de submissão, mas antes uma forma de os alunos desde cedo desenvolverem a capacidade de lidar com o poder desigual (que estará presente de forma mais ou menos evidente no futuro deles e delas).

Assim, espera-se do professor compreensão e boa comunicação, mas nunca falta de liderança.

 

O que importa que o professor faça:

  • Estabelecimento de regras razoáveis (desde o primeiro dia de contacto);
  • Definição de regras explícitas, concretas, claras, concretas e formuladas na positiva;
  • Estabelecimento de um número razoável de regras – devem ser pertinentes e funcionais;
  • Definição das regras a cumprir (das quais não abdicamos mesmo) e as consequências a aplicar pelo seu incumprimento e cumprimento;
  • Estabelecimento de regras que consiga e que queira fazer cumprir;
  • Estabelecimento de regras gerais para toda a turma;
  • Utilização como ferramenta de avaliação dos comportamentos dos alunos;
  • Regras refletidas e discutidas com os alunos e alvo de reformulação, sempre que necessário;
  • Exigência pelo cumprimento sistemático das regras estabelecidas.

As regras estabelecidas devem ser claras, sendo de evitar frases formuladas na negativa (por exemplo: “Não se pode comer na sala de aula…”, “Não se deve interromper o professor…”). Todas as regras podem ser transformadas pela positiva (por exemplo: “O lanche pode ser consumido nos tempos de intervalo nos locais apropriados”, “Podes falar quando puseres o dedo no ar”).

Os alunos devem ser envolvidos no estabelecimento de regras e das sanções e prémios, pois o envolvimento na criação de regras é uma forma de potenciar a identificação com os objetivos da escola e fomenta um clima de cooperação entre professor e alunos.

Quando se opta pela estratégia de premiar ou penalizar os alunos, estas consequências devem ser de conhecimento prévio. Deixo-vos de seguida alguns exemplos. Como é evidente, são apenas propostas e todas estas propostas carecem das dinâmicas existentes na escola, da cultura de escola, do regulamento interno, das características pessoais do professor, das faixas etárias dos alunos, etc.

Exemplos de benefícios inerentes ao cumprimento das regras:

  • Dar tempo extra de intervalo (sob vigilância de um funcionário);
  • Proporcionar louvores perante a turma (diploma e/ou presente no final de cada período, elogios);
  • Reduzir a quantidade de trabalhos de casa;
  • Ir a festas e/ou atividades extracurriculares;
  • Dar aos alunos a possibilidade de escolher uma questão para teste, de entre várias propostas pelo professor;
  • Dar aos alunos a opção entre fazer um teste ou um trabalho individual como forma de avaliação;
  • Permitir (a escolha de) uma  visita de estudo no final do ano de interesse geral;
  • Ouvir música nos últimos 5 minutos da aula.

Exemplos de penalizações inerentes ao incumprimento das regras:

  • Perder tempo de intervalo;
  • Repreensão oral, escrita e/ou contacto direto com Encarregado de Educação;
  • Ficar no intervalo a explicar à professora ou a um colega que também seja alvo de penalização o que foi dado na aula;
  • Ficar no intervalo a realizar o trabalho que ficou por fazer devido ao incumprimento das regras;
  • Copiar um texto e/ou as regras (desde que esta atividade tenha um momento de reflexão conjunta);
  • Perda do direito de realizar atividades lúdicas com os colegas;
  • Aumento do número de trabalhos de casa;
  • Trabalho cívico e/ou comunitário (limpar e arrumar a sala de aula, escola, etc.);
  • Realização de um trabalho extra como forma de avaliação.

Ao longo do desenvolvimento da criança e do adolescente, a relação vertical aluno/professor terá níveis crescentes de negociação, sendo efetivamente importante que esta negociação exista mas sem inversão da relação de poder, nem demissão por parte de quem o deve exercer. Assim os alunos aprenderão de forma prática, como as relações profissionais funcionam e terão a possibilidade de treinas competências básicas de comunicação e saber estar.

BOM ANO!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

ABC da Disciplina

A dquira cada vez maior consciência de si em ação.

B atalhe pela colaboração dos pais na vida da escola.

C rie uma atmosfera de respeito pelos outros.

D escubra o seu estilo de professor(a).

E nvolva os(as) alunos(as) ativamente nas tarefas.

F aça um inventário das necessidades e interesses dos(as) alunos(as).

G uie-se por comportamentos assertivos.

H abitue o (a) aluno(a) a cumprir as regras previamente acordadas.

I mplemente estratégias que promovam a autoconfiança e a autoestima.

J ogue com os aspetos cognitivo e sócio-afetivo.

L eve os(as) alunos(as) a serem autodisciplinados.

M ostre entusiasmo nas atividades de ensino.

N ão rotule o aluno.

O rganize atividades extracurriculares.

P lanifique aulas motivadoras.

Q uestione-se sobre os motivos da indisciplina.

R eforce o comportamento adequado dos(as) alunos(as).

S eja coerente com os seus comportamentos e os que deseja do(a) aluno(a).

T enha em conta as diferenças dos alunos.

U se métodos de ensino adequados às situações.

V isualize toda a sala de aula.

X eque-mate à “pedagogia da saliva”.

Z ele por uma boa organização e gestão de aula.

 

Amado, J. & Freire, I. (2009). A(s) indisciplina(s) na escola. Compreender para prevenir. Coimbra: Almedina. 

Boas Festas!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

Dicas reais para lidar com o “Rafa”, um aluno indisciplinado! 2

Depois de dicas e estratégias, vamos lá tentar ver isto sob o ponto de vista da prática.

 

Hoje gostava de vos falar do Rafael…

 

O Rafael, ou Rafa – como ele gosta de ser chamado, é um aluno de uma turma dita indisciplinada de 7º ano, tem 15 anos e acumula 3 retenções (5º ano e duas no 6º ano).

O aluno é frequentemente indisciplinado, sendo o líder da turma e a sua influência sobre os colegas é bastante notória. Para além de não cumprir as indicações dadas pela professora, por exemplo, passar o que está escrito no quadro ou fazer as tarefas solicitadas, desafia e afronta frequentemente e, por vezes, chega mesmo a insultar e a ameaçar a professora. Levanta-se repetidamente para falar com os colegas ou para lhes tirar objetos. É geralmente ele que incita os colegas a atuar de acordo com as suas indicações e intentos. Apesar de afirmar diversas vezes que não gosta da “forma como a professora dá aula”, por vezes assume o papel de aluno “bem comportado”, mostrando-se atento e interessado. Sempre que isto acontece, começa a denunciar os colegas, dizendo que estão a perturbar e que dessa forma não consegue estar atento. Implora mesmo que a professora atue junto dos colegas, como se pode verificar na situação que ocorreu na semana passada.

A professora questionou os alunos sobre o sistema solar e, nessa sequência fez uma pergunta ao Rafa que parecia estar atento. Ele tentou responder, mas logo de seguida disse ”não me consigo concentrar. Olhe ali uma revista pornográfica, oh stôra não a vê ali?!” Perante a denúncia do aluno, a professora interveio, dizendo para um dos alunos que suspeitou estar na posse da revista: “Vou levar-te à Direção. É uma falta de respeito o que estás a fazer.” Este aluno perante as palavras da professora acusou outro aluno. Estava lançado o caos. Ninguém assumia ser o dono da revista e esta passava de um aluno para outro sem que a professora a conseguisse agarrar. Por fim, um aluno atirou a revista pela janela.

No que diz respeito ao contexto familiar do Rafa, este vive com a mãe, uma irmã e o padrasto. O padrasto é servente de pedreiro e está desempregado. A mãe trabalha como embaladora numa empresa e a irmã, de 11 anos, estuda no 6º ano. Quanto ao pai biológico, este não mantém qualquer relacionamento com o filho. O Rafa diz mesmo que não o conhece. As habilitações académicas do agregado familiar do aluno são baixas. A mãe frequentou o ensino preparatório mas não o completou. O padrasto tem apenas o segundo ano de escolaridade. A encarregada de educação até ao momento, não revela preocupação com as participações disciplinares do Rafa e afirma que no próximo ano letivo o Rafa irá trabalhar.

 

Antes de dizerem que têm muitos “Rafa’s” nas vossas escolas, que comentários e reflexões vos apraz fazer sobre o comportamento deste aluno?

Naturalmente que…

  • O Comportamento do Rafa visa atingir/afrontar a professora;
  • O Rafa reconhece as relações de controlo professora/aluno e possui as regras de reconhecimento;
  • O Rafa é capaz de identificar as atitudes e condutas legitimadas pela professora no contexto regulador da sua prática.

Mas o seu comportamento na aula é desadequado… Então que características comportamentais devemos realçar/valorizar no Rafa?

  • Reconhece o poder legítimo da professora mas tenta subvertê-lo;
  • Sabe como proceder para “enfraquecer” as relações de poder professora/aluno;
  • Mostra consciência que através da atuação em grupo, consegue aumentar o seu poder informal e diminuir o da professora;
  • O desempenho do Rafa parece resultar da ausência de disposições sócio-afetivas favoráveis para a prática pedagógica da professora;
  • O nível de indisciplina em que se enquadravam os seus atos parece ser o resultado de reconhecer, no contexto regulador da prática pedagógica, as relações de poder professor/aluno e atuar de forma a enfraquecer essas relações.

Vamos pensar em hipóteses que possam sustentar e reforçar a reincidência de comportamentos…

  • O Rafa não se identifica com a prática pedagógica da professora;
  • A desvalorização que a família faz da escola é, naturalmente, percecionada pelo Rafa, podendo conduzir à ausência de aspirações/valores relacionados com o discurso escolar;
  • As disposições sociofamiliares, nomeadamente ter uma irmã com menos 4 anos mas a um ano de escolaridade dele, poderão contribuir para o reforço da crença disfuncional de fracasso que, por conseguinte, reforça a manutenção de comportamentos que traduzem essa crença.

Propostas de abordagem:

  • Capacitação e Educação Parental;
  • Evitar que domine o grupo – dependendo da turma pode ser através da estratégia de sentar o aluno sozinho;
  • Tentar falar com o Rafa a sós e em contexto informal – promover a empatia, a compreensão e sentimento de pertença;
  • Voltar a esclarecer/definir regras e consequências para essas regras (incluir o Rafa nestas propostas de forma a responsabilizá-lo e promover o sentido de justiça);
  • Envolver e informar o Conselho de Turma sobre as evoluções, retrocessos e compromissos estabelecidos com o Rafa;
  • EVENTUALMENTE encaminhar para o SPO, contudo este elemento e serviço da escola deve ser usado para consultadoria relativamente ao caso (sempre!).

Não é fácil analisar casos como este… Muito menos (re)pensá-los desta forma, ainda “pra mais” quando se juntam às dúzias dentro de uma sala de aula… mas não nos podemos esquecer que o diagnóstico nunca é igual para todos, portanto as receitas também não o poderão ser.

Antes de diagnosticar, vamos analisar, sem ter pressa para encontrar a solução mágica… e depois sim, perante factos reais e concretos, vamos ponderar linhas de ação adequadas, adaptadas e articuladas entre os vários agentes educativos.

Bom resto de feriado!

(Sou só eu a achar que todas as semanas deveriam ser como esta e a que passou? Este descanso a meio da semana sabe tão, mas tão bem!!!)


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

Estratégias para lidar com as diferentes personalidades dos alunos. 1

xadrezNa semana passada abordei algumas dicas (de entre muuuuuitas outras) que potenciam a disciplina dentro da sala de aula.

Não tardou a que caíssem críticas sobre “os teóricos” que lançam estas dicas. Por isso, hoje decidi continuar numa de dicas, mas daquelas que funcionam, que eu própria testei… No terreno, sim…

Há 4 pontos que são fundamentais e transversais a qualquer situação de interação:

  • Focar-se nos sinais não verbais da comunicação através da OBSERVAÇÃO DETALHADA do comportamento não verbal dos alunos;
  • ESCUTAR ativamente antes de intervir;
  • Comunicar verbalmente em concordância com o não verbal (agressividade gera agressividade);
  • Ser intuitivo, utilizando experiências acumuladas de forma a tomar decisões assertivas e não emotivas.

Vamos pensar em atitudes do professor face a determinados comportamentos que tipificam alunos. Claro que não é correto etiquetar alunos, mas será mais fácil de compreender de que “tipo de alunos” se trata, se os agrupar desta forma.

“O Distraído”

  • Definição clara de regras e imutáveis ao longo do ano;
  • Ordens simples e diretas (“faz isso, pega na caneta, pára de falar”);
  • Colocar estes alunos afastados da janela e de lugares de passagem, mas junto do professor.

“O Tímido”

  • Averiguar se tem problemas auditivos ou de visão (e encaminhar se for o caso);
  • Solicitar ao aluno que explicite o que tem para fazer (em privado para evitar sentimento de exposição ou de humilhação);
  • Fazer algumas perguntas acessíveis para que o grupo valorize a sua participação e fomentar a motivação;
  • Procurar integrá-lo lentamente no grupo turma;
  • Tentar que participe em atividades de grupo (fora do contexto das aulas).

“O fala-barato”

  • Cortar delicadamente a palavra, dizendo que a observação que fez é interessante, mas retoma o tema da aula, por exemplo, colocando-lhe uma pergunta;
  • Fazer dinâmicas em que ganha quem esperar mais tempo para falar (com crianças mais pequenas);
  • Averiguar sobre as razões deste comportamento junto de outros colegas do conselho de turma (necessidade de atenção, perturbação de comportamento, nervosismo, etc…).

“O Palhacito”

  • Dar a conhecer ao aluno, em privado (pois de outra forma continua a ter palco perante a turma), o que se espera dele na sala de aula e quais as formas de comportamento que ultrapassam a barreira do aceitável;
  • Investir em áreas de interesse do aluno;
  • Fazer um roleplay de forma a “sentir na pele” o efeito dos seus comportamentos (esta estratégia só funciona se o resto da turma colaborar e não der palco ao aluno para mais “atuações de circo”).

“O Sabe-tudo”

  • Passar o ponto de vista para o grupo (validar a intervenção – desarmar);
  • Evitar que domine o grupo, procurar falar de outro assunto;
  • Dar mérito a algumas das suas participações;
  • Dizer-lhe que os problemas individuais serão resolvidos depois, em particular.

“O Desafiador”

  • Esclarecer, com a sua colaboração, as regras para os diferentes momentos escolares;
  • Encarar as regras como algo positivo e não só de controlo;
  • Manter as regras claras e simples;
  • Propor aos alunos alternativas para a resolução de problemas.

“O Agressivo”

  • Focar a atenção no comportamento e não no aluno;
  • Explicar que em turma não se toleram determinados comportamentos, justificando as razões;
  • Esclarecer que o comportamento “X” do aluno tem determinadas consequências e que as vai aplicar;
  • Exitem situações que não são controláveis, tanto pela situação em si, como pela “incapacidade” que o professor pode sentir para a gerir – é importante o professor conhecer os seus limites e pedir orientação a outros serviços da comunidade escolar ou a outros colegas de profissão sempre que achar necessário.

Experimentem e depois partilhem como correu 🙂

Bom trabalho e bom resto de feriado!


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
mediação de conflitos

Dicas para diminuir drasticamente os índices de indisciplina escolar. 2

dicasComo prometido, vamos hoje abordar algumas dicas que reforçam e potenciam a disciplina na escola.

Muito frequentemente ouço que a culpa do estado das (in)disciplinas nas escolas se deve às famílias, à falta de proatividade das famílias e outros tantos argumentos que sustentam “um problema de sociedade sem cura” (será?).

Naturalmente e numa ótica de prevenção, vários estudos indicam que as famílias com menor prevalência de conflitos, revelam determinadas características sociais e contextuais, nomeadamente um envolvimento mais acentuado da figura paterna, uma articulação estreita com a direção da escola e/ou diretor de turma e professores em geral e os pais que se envolvem ativamente nas atividades de lazer e extracurriculares dos alunos. Por isso, sem dúvida que a família e a escola têm responsabilidades compartilhadas na educação e no desenvolvimento dos alunos, sendo essencial a existência de uma comunicação cooperativa entre todos os agentes educativos, pela influência positiva que tal interação tem na melhoria do clima geral da escola.

É fundamental pensar estratégias junto das famílias, mas não nos podemos esquecer do que nós, que estamos nas escolas, podemos fazer também.

A pensar nisso decidi elencar alguns tópicos que permitem pensar e repensar os nossos modelos de ação na escola:

  • Apresentar as aulas com recurso a materiais ou formatos de apresentação apelativos;
  • Cooperar no estabelecimento de regras disciplinares e punições;
  • Proferir com grande frequência elogios e expressar expetativas positivas acerca do desempenho dos alunos;
  • Transformar as aprendizagens em projeto: criar opções e não expectativas.
  • Exigir trabalho regular e planificado (e monitorizar);
  • Não etiquetar alunos como “bons” ou “maus” (evitar comentários tipo “tinhas de ser tu”);
  • Demonstrar aproximação e preocupação pelos problemas dos alunos;
  • Valorizar a sua carreira e opção profissional (investir em competências pedagógicas, interpessoais e sociais);
  • Manter-se calmo, sereno e seguro, no sentido de modelar o comportamento dos alunos;
  • Ser flexível, desde que coerente e estável, na forma de atuação, podendo alguma surpresa no comportamento do professor em relação aos alunos permitir uma maior eficácia na influência sobre estes (por exemplo, o professor pode aproveitar e manifestar humor nalgumas situações inesperadas em vez de se mostrar perturbados com elas);
  • Por vezes é preferível fingir que não percebe algumas situações e deixá-las passar, do que tentar controlar tudo e perder a eficácia de intervenção quando realmente é necessário;
  • Não distanciar-se dos alunos ditos indisciplinados, isto é, só falar com eles quando têm comportamentos inadequados – lembrem-se que nenhum aluno é indisciplinado durante todos os minutos da aula;
  • Atuar no sentido do empowerment dos alunos – mostrar que acredita na capacidade de estes terem resultados positivos;
  • Orientar, valorizar e incentivar à participação dos alunos;
  • Identificar os casos de alunos com problemas familiares e fazer parte da construção de uma solução para o mesmo;
  • Trabalhar em equipa, com partilha de experiências e num clima de autenticidade, empatia e cooperação.

Acima de tudo, o que importa é encontrar uma motivação para nos orientar naquilo que nós acreditamos ser a nossa função enquanto adultos e educadores.

Uma boa semana!


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia

“(In)Disciplinas”

indisciplinaPensando numa lógica de criar um fio condutor para os próximos textos e responder às questões mais comuns que me colocam no dia-a-dia na escola, faz-me sentido iniciar esta cadeia de textos com um breve enquadramento do grande bicho papão que é a indisciplina.

A indisciplina não é de todo um conceito recente e já todos certamente conhecem os escritos que remontam à época antes de Cristo e que referenciam a indisciplina como o maior problema dos adolescentes (ooops, são muitos anos de indisciplina).

Um aluno indisciplinado é o que apresenta um comportamento desviante de uma norma social, contudo a existência de problemas disciplinares depende, até certo ponto, da definição de boa disciplina e consequentemente dos valores do professor. O que para um professor constitui um problema, pode constituir para o outro uma irritação e para outro ainda, apenas uma manifestação exuberante de bom humor por parte dos alunos.

Por norma os comportamentos de indisciplina têm como objetivo a chamada de atenção, a luta de poder, a vingança por se sentir desprezado e/ou magoado pelos outros, poderá também ter subjacente uma incapacidade assumida e motivada pela baixa autoestima, entre outros.

Importa então enumerar algumas necessidades básicas a considerar na gestão de comportamentos indisciplinados:

  • Necessidade de uma conduta coordenada junto de todos os professores
  • Necessidade de uma conduta coordenada junto de todos os professores e assistentes operacionais;
  • Necessidade de quando existe uma regra para aplicar, fazer-se um esforço para a aplicar, mesmo que não se concorde – não se deve criar resistências à sua aplicação;
  • Necessidade de articulação adequada entre os elementos da comunidade escolar de forma a carga que recai sobre quem exerce diariamente a sua atividade na escola seja reduzida e a gestão dos comportamentos flua naturalmente;
  • Necessidade de treinar opções de resposta para um leque diferente de situações, de forma a evitar entrar em jogos de poder ou ser encarado como incapaz;
  • Necessidade de equilibrar o social “porreirismo” e a exigência do contexto da sala de aula.

Analisando estes pontos de modo mais detalhado, percebe-se o quão importante é que os professores assumam a supervisão e o controlo nas diferentes áreas e espaços da escola e não apenas na sala de aula, para que os alunos não sintam que há professores a passarem por eles enquanto têm comportamentos desadequados sem fazerem qualquer reparo, pois naturalmente isso reforça esses mesmos comportamentos. Por exemplo, quando passam pela algazarra que se gera enquanto esperam pelo professor à porta da sala, quando há alunos que correm dentro dos blocos e andam pelos corredores a jogar a bola, etc. Claro que o assistente operacional também tem as mesmas funções mas a ação consertada terá um maior impacto, eficácia e funcionalidade.

A disparidade de critérios para classificar um determinado comportamento (um regulamento interno nem sempre é suficiente para uniformizar os critérios) e a falta de consenso entre os professores relativamente a um conjunto de regras, abre precedentes para que se ouça “não é justo aplicar esse castigo porque o stôr Arnaldo não aplica nenhuma consequência quando faço o mesmo” . Também o manter muitos problemas de indisciplina por resolver, na lógica da ideia de conduta por conformidade, potencia a indisciplina. Por exemplo: um professor acha que a escola onde foi recentemente colocado apresenta muitos problemas de indisciplina e então resolve, numa reunião, mencionar isso e colocar à consideração a discussão sobre formas de intervir para minorar o problema. Face a esta proposta, o resto do grupo, composto por professores que já estão na escola há mais tempo, começam a dizer que já no passado se tentou mas que é impossível alterar o problema e ninguém parece interessado em ponderar a sugestão do professor novo. Claro que este professor vais resignar-se à ideia de que nada há a fazer e irá adotar uma postura de conformismo para com a opinião dos restantes docentes.

Também ouço frequentemente discursos de professores desanimados que se dizem sentir incapazes de lidar com comportamentos indisciplinados. Esta falta de autoconfiança leva a que em situações mais ansiogénicas a ação deles se fundamente segundo dois tipos de resposta (que fazem parte da natureza humana), nomeadamente, ou enfrentam a situação (numa lógica de ataque), ou retiram-se da situação (numa ótica de fuga). Sendo que normalmente a opção mais fácil parece ser a da fuga, acaba por ser mais frequente e leva ao desprezo do comportamento, dando início ao processo de “perda da turma”. O professor também não pode ter medo de ser rejeitado pela turma. Faz parte da natureza humana sentir necessidade de ser aceite pelos outros e naturalmente os professores também gostam de sentir que são valorizados. Contudo, nesta necessidade podem surgir momentos em que o professor numa ambição de evitar a rejeição por parte da turma, ignore determinados comportamentos e leve mais uma vez a precedentes que potenciam comportamentos indisciplinados.

Em suma, não adianta entrar em classificações e na procura incessante de culpados pela indisciplina. As dimensões referidas neste texto são fatores promotores de indisciplina, contudo nada é vinculativo ou de cariz de diagnóstico. Encare-se como alertas.

Todos os comportamentos são viáveis. Não existem comportamentos certos ou errados, mas sim comportamentos adequados e desadequados, mais ou menos adaptativos em determinados contextos e em determinadas situações. A indisciplina faz parte da vida escolar, o comportamento de desobediência e de confronto com a autoridade do adulto pode, em certos casos, até ser bastante saudável quando o enquadramos na adolescência, pois nestas faixas etárias poderá ter como função, a ajuda a ensaiar a tomada de decisões, o desenvolvimento de opiniões pessoais, a definição de uma identidade e até mesmo o desenvolvimento da autonomia pessoal.

O complicado não é os comportamentos indisciplinados existirem, mas sim não serem encarados, trabalhados e resolvidos de modo a promoverem uma aprendizagem de crescimento e desenvolvimento da responsabilização e de uma autonomia ponderada.

Sugiro que ouçam e leiam as palavras de Inger Enkvist que descreve como é a educação na Finlândia (tema já debatido neste blog) mas que nos deve fazer refletir nas nossas práticas e na representação que a nossa sociedade faz do papel do professor (estando talvez parte da solução nessa representação).

http://cadenaser.com/programa/2016/11/15/la_ventana/1479229219_699520.html

Boa Semana.


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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Somos todos “amercianos”

“Somos todos americanos”

trump-alienOntem acordamos todos em choque. O que muitos consideravam impossível tinha acontecido: Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos da América. Não deixa de ser irónico a Europa acordar com esta notícia no mesmo dia em que se recorda o dia mágico que pôs fim à guerra fria, a queda do muro de Berlim a 9 de novembro de 1989.  

São muitos os desabafos, opiniões e críticas sobre este momento de política internacional.

Não conseguirei esquivar-me de comentar também este dia.

Confesso que refeita do choque e tentando racionalizar isto tudo, de facto não é um resultado que me surpreende. Reflete bem a crise de valores e de princípios que vivemos nos dias de hoje. Muitos falam que estamos perante um Presidente (até custa escrever) machista, racista, xenófobo, desrespeitoso das mulheres, verbalmente violento e outro mundo de características humanamente reprováveis. Ao olhar para estas características consigo rever tantos problemas que enfrentamos diariamente nas nossas escolas e que são vividas pelos nossos alunos como se de meros “problemazinhos” se tratassem. Certamente todos nós conseguimos identificar nos últimos meses nas nossas escolas situações de racismo, violência de género, violência de namoro, violência entre pares de formas camufladas, e certamente que conseguimos também associar a essas situações discursos de desvalorização e desculpabilização, como se estes problemas (graves) fossem males menores da nossa sociedade.

Pensemos nas audiências que determinados programas de horário nobre conseguem atingir, quem são as personagens mais enaltecidas nesses programas, quem são os artistas que conseguem momentos de fama (efémera, claro) em meia dúzia de dias… Vejam quais são os eventos que conseguem arrastar multidões para a rua e comparem com as manifestações de caráter cívico e social…

Só consigo concluir que o que eu achava serem características deste povo à beira mar plantado, afinal são características da humanidade no geral… Confesso que tenho receio do caminho que estamos a traçar e onde este nos vai levar.

A nós, figuras diariamente nas escolas, um acordar como o de hoje, só vem reforçar a extrema importância que temos na educação, no crescimento e no desenvolvimento da geração que se seguirá.

E como uma amiga me dizia hoje, ensinem os vossos filhos que todos os seres humanos têm valor e que é a diferença entre pessoas que faz a humanidade grandiosa…

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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Existe a minha verdade, a tua verdade e a verdade verdadeira.

“Eu sei que você acha que entendeu o que você pensa que eu disse, mas não estou certo de que você tenha percebido que o que você ouviu não é precisamente o que eu quis dizer.”

verdadeoumentira“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com um o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso d’esta dupla existência da verdade.”

(Fernando Pessoa, p. 476, 2010)

 Livro do Desassossego – Tomo I, volume XII,

Edição de Jerónimo Pizarro, Imprensa Nacional – Casa da Moeda

Pois, é mesmo assim… Existe a minha verdade, a tua verdade e a verdade verdadeira.

Por isso quando entramos numa disputa, numa discussão, numa mera partilha de opiniões, importa lidar com o conflito (não necessariamente negativo) de forma construtiva, de modo a levar as partes ao entendimento, privilegiando a comunicação efetiva e promovendo a compreensão das razões da diferença de opiniões, de interesses, de necessidades e, naturalmente, de posições.

Assim, resolvi esta semana partilhar 5 condições fundamentais para que a resolução de conflitos, ou seja, a partilha de verdades, seja construtiva e positiva.

Procure soluções, não culpados

O foco na culpa/inocência, no certo/errado não promove a colaboração, mas sim a concorrência e competição. Promovendo este (errado) paradigma de resolução também promovemos a desculpabilização e desresponsabilização dos atos em detrimento do diálogo e da cooperação.

Analise a situação detalhadamente

Cada situação tem as suas características e os seus atores e estes, por sua vez, têm cada um a sua história, o seu passado, as suas crenças, os seus valores, as suas expectativas. Não existem receitas universais mas também não existem doenças universais. É pela abordagem do contexto particular que é possível conseguir resultados satisfatórios para todos, uma vez que essas informações integradas permitem um constante reajustamento da comunicação para que produza os efeitos desejados.

Mantenha um clima de respeito

Não posso pedir um ambiente de respeito, se eu próprio não o fomento (seja através do verbal ou do não verbal).

Aperfeiçoe a capacidade de ouvir e falar

A eficácia do discurso exige o conhecimento do “outro”- o nosso companheiro de interacção. Mas o “outro” revela-se se nos envolvermos e escutarmos activamente. A escuta ativa favorece o conhecimento dos sujeitos envolvidos no processo comunicacional, permite a recolha de informação relativa aos objetivos a atingir e potencia a relação interpessoal (reduz a atitude de defesa, aumenta a auto-estima, favorece a cooperação) e ao mesmo tempo, abre caminho para também se ser ouvido e respeitado.

Seja empático

A perspectiva da empatia deriva de um princípio fundamental nas relações interpessoais: “Todas as pessoas têm motivos para agir”. Só com uma atitude empática pode ser gerada a motivação e a mobilização dos indivíduos, pois só desta forma se criam e expandem “territórios de comunicação” comuns. A empatia é a capacidade de se colocar na “pele” da outra pessoa, de entendê-la, de tentar compreender o que se passa na sua mente e identificar e compreender os seus sentimentos. Tentar compreender como e porquê se sente assim, mas não a partir da nossa perspetiva, mas tentando sempre pensar como aquela pessoa com as suas crenças e os seus valores.

É, portanto, importante procurar uma solução em que todas as partes envolvidas sintam que ficam a ganhar, evitando preconceitos e estereótipos e reconhecendo o erro quando este existe.

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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“(Re)Pensar a Escola e a Convivência na escola” 1

repensarO texto desta semana surge no seguimento dos dias celebrados na semana transata: o Dia Mundial da Resolução de Conflitos e o Dia Mundial de Combate ao Bullying. A rubrica de hoje tem como objetivo contribuir para a sensibilização da comunidade educativa, para que aposte em dinâmicas facilitadores de intervenção e de prevenção para os fenómenos de violência, da conflitualidade e da indisciplina. É preciso sistematizar e divulgar princípios de boas práticas que ajudem a tornar estas dinâmicas mais eficazes e mais generalizadas, focando não apenas a resolução e remediação de conflitos, mas também a sua prevenção, isto é, contribuindo para a convivência escolar e promovendo o sucesso escolar, para o desenvolvimento harmonioso da criança e do jovem. Isto só é possível se a escola for encarada como um novo espaço de intervenção, enquanto espaço privilegiado do ato educativo, que é, em si mesmo, também um ato social.

Até mesmo a Organização Mundial da Saúde defende que as estimativas dos custos da violência podem servir como pontos de referência para a alocação de recursos e definição de prioridades nos diversos contextos, garantindo também que a prevenção da violência é superiormente classificada em termos de investimento. Isto é, numa avaliação custo-benefício e custo-eficácia, este deve ser um primeiro passo para explorar os benefícios de potenciais intervenções destinadas a prevenir violência.

A convivência escolar é um conceito que permite situar e compreender as interações num contexto de relações institucionais e sociais. Passa pela inter-relação entre os diferentes membros de um estabelecimento de ensino, influenciando significativamente o desenvolvimento ético, socioafetivo e intelectual dos alunos. A participação ativa dos alunos é tida como condição sine qua non para que a cultura de convivência na escola seja cada vez mais positiva. No entanto, existem diversos obstáculos, pois cada vez mais a escola é um espaço onde se encontram alunos muito diferentes, com interesses, motivações e culturas cada vez mais divergentes. Ainda assim, a escola deve tratar todos de igual forma, como se tivessem as mesmas origens e os mesmos valores, como se reagissem com iguais emoções e refletissem semelhantes expectativas vivenciais. E será que isto é possível?! Esta pluralidade e diversidade populacional, ainda não provocaram as mudanças organizacionais e pedagógicas que o contexto educativo atual necessita. A escola continua, de facto, a ter genericamente as mesmas práticas, ainda que a sociedade na qual se insere apresente uma rápida e permanente mutação. A crescente heterogeneidade social e cultural das instituições escolares acentuou as discrepâncias e a conflitualidade daí resultantes por diferenças que se apresentam a todos os níveis.

Acreditando, então, que a escola tem como imperativos e objetivos tanto a formação académica dos alunos como a formação pessoal, relacional e social, o contexto escola revela-se assim o contexto ideal para promover esta alteração no paradigma da abordagem e resolução de conflitos. A manutenção das tradicionais medidas disciplinares punitivas a que o sistema educativo usualmente recorre, não é a estratégia que cumpre as exigências e as necessidades que as escolas apresentam atualmente. De todo…

É preciso pensar estratégias que promovam aspetos como o exercício responsável da cidadania, aprender a envolver-se na escola em si e na vida social, a aprendizagem do diálogo, do respeito pelos direitos humanos, a empatia, a atitude positiva face aos conflitos, o desenvolvimento de competências sociais e de controlo emocional, o autoconhecimento e desenvolvimento da autoestima. Estas são competências essenciais e que devem estar presentes para uma sã convivência na escola, independentemente do agente educativo em causa. As instituições educativas devem ser espaços de convivência caracterizados por interações positivas entre todos os seus membros, sendo que a existência de conflitos deve ser encarado como algo normativo e natural.

É difícil mudar mentalidades e paradigmas de ação, mas podemos e devemos começar por nós próprios!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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“Mania do perfeccionismo”

Obviamente que esta semana não poderia desviar-me do tema que mais abalou o blog na semana passada (deveria era abalar outras estruturas).

Realmente chega a ser assustador a quantidade de horas que as nossas crianças “perdem” na escola… E porquê a expressão “perdem”? Pois bem, quando vemos um horário tão pesado nas crianças do 1º ciclo garantidamente a escola não está a dar às crianças o que mais precisam… Tempo para descobrirem o mundo, descobrirem a vida e com estas descobertas aprenderem a crescer e aprenderem a pensar. Muita escola não significa muita aprendizagem. Muito pelo contrário, esta carga associada à obrigatoriedade cria condições para que as crianças fujam da escola e condiciona obviamente o sucesso escolar.

Assim se criam alunos desvinculados da escola, sem qualquer interesse associado. Os ditos alunos hiperativos, “stressados”… Hoje sabe-se que um dos maiores problemas das crianças nas nossas escolas se deve ao stress e à ansiedade. A hiperactividade, o défice de atenção, os problemas de comportamento… É por querermos que as crianças tenham muitas atividades, façam muitas coisas, que cumpram com as metas, que saibam estar, que se controlem, que cheguem a horas, que saibam ser, que saibam fazer, que não corram, que estejam quietas, que não falem alto, que não chorem, que tirem boas notas… (Ufa, até eu já me cansei).

Exigimos às nossas crianças níveis de perfeccionismos que não são adequados às fases de desenvolvimento delas e para a criança é duro ter de fazer tudo perfeito (para mim também). Claro que as regras são importantes e fundamentais, mas queremos tudo de forma perfeita e isso não é viável. A exigência e o perfeccionismo da nossa sociedade são terríveis e trazem consequências graves para o desenvolvimento das nossas crianças. Mais do que terem boas notas, é importante que as crianças se queiram dedicar à aprendizagem, que tenham uma representação positiva daquilo que é a escola e da utilidade da mesma, é fomentar o gosto pela aprendizagem, pela leitura, pela descoberta… e não chegamos lá impondo o contexto escola a tempo inteiro às crianças.

Bem sei que as realidades familiares não permitem pensar num modelo de escola com um horário mais reduzido, mas os planos curriculares sim… A gestão da escola, dos horários, dos currículos, das ofertas para as famílias… Quantos CAF funcionam? Quantos alunos abrangem? Há algum balanço oficial sobre estas estruturas?

É preciso repensar a escola, repensar estratégias que acima das competências académicas, promovam aspetos como o exercício responsável da cidadania (e sim, podemos fazer isto desde o ensino pré-escolar), aprender a envolver-se na escola em si e na vida social, a aprendizagem do diálogo, do respeito pelos direitos humanos, a empatia, a atitude positiva face à escola, o desenvolvimento de competências sociais e de controlo emocional, o autoconhecimento e desenvolvimento da autoestima. São indispensáveis respostas que estejam associadas à melhoria do relacionamento global e à convivência entre as crianças. É preciso formar a criança e visar a aquisição de estratégias que sejam facilmente transponíveis para outros contextos da vida dela, sendo passíveis de aplicação recorrente durante toda a sua vida e face a qualquer situação. Assim são criadas relações mais positivas e respeitadoras, mas também se cria um espaço educativo que fomenta hábitos saudáveis e cooperativos. E à escola cabe essa função, paralelamente ao ensino formal, a criação de condições para a promoção dessas aprendizagens “informais” de estratégias de autonomia, desenvolvimento e crescimento nas formas de pensar, ser e agir.

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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“Hoje vou falhar” 3

Caro Alexandre

Eu sei que me comprometi contigo, que era suposto cumprir as regras que previamente acordamos e que eventualmente até esteja a defraudar as expectativas que os leitores do ComRegras têm para com esta rubrica, mas tive de tomar esta decisão. Vou falhar e não vou escrever nenhuma rubrica esta semana.

Estou na reta final da entrega do doutoramento… Tem sido difícil gerir este momento de stress com os cuidados aos filhos, as tarefas do quotidiano, com o trabalho diário na escola, com aqueles incidentes que acontecem (já te disse que fiquei sem o meu disco externo e todo o trabalho que lá estava? – felizmente já está resolvido). No meio disto tudo ainda dou formação ao sábado. Tenho dias em que acho que sou louca e que não vou aguentar. Nem sempre é fácil e tenho momentos em que me apetece desistir. Hoje estou a desistir do nosso compromisso. Não significa que seja para sempre, é só esta semana…. Alivia a pressão. Faz-me sentir melhor e mais capaz de enfrentar o resto. Resolvi expor-me assim e tenho a certeza que compreenderás.

Com estima,

Mónica

falhar_gritarAproveito para partilhar convosco uma história:

O Professor António chegou à sala de aula e enquanto aguardava que os alunos se sentassem, foi tirando o teste da sua mala. Estava muito satisfeito consigo mesmo, pois tinha a certeza que, sem descurar da exigência, tinha ali um teste acessível para todos os alunos.

Reparou no semblante da Margarida. Já andava assim há algumas semanas. Os seus pensamentos foram interrompidos pelo grito do Pedro, que se lamentava do Manuel, que terá dado um chuto na sua mochila ‘de propósito’. O Professor António lá mandou calar os alunos e relembrou as regras em dia de teste. “Que turma agitada esta… Hoje está ainda mais que o habitual”, pensou ele.

O professor começa a distribuir o teste. Quando chega à Margarida esta diz-lhe “Oh stôr, escusa de me dar o teste. Não o vou fazer!. Apesar da Margarida já andar com comportamentos desadequados há várias aulas, o Professor António não estava à espera daquela atitude. Mas o que se passa Margarida? Não vais fazer o teste porquê?”. “Porquê, porquê, porquê… Sempre o porquê! Toda a gente sempre a falar no porquê! Não me apetece! Não quero! Qual é o stress?!, retorquiu a Margarida. Começou a gerar-se um burburinho com alguns risos pelo meio. O professor não sabia muito bem o que fazer, pousou a folha do teste na mesa da Margarida e terminou de distribuir as restantes folhas aos alunos que ainda não tinham. Entretanto a Margarida continuava a reclamar que não ia fazer, que ia deixar em branco, entre outras frases que o professor não conseguiu perceber. Mandou-a calar mas o resto da turma não sossegava. Entre risos, colegas a incentivarem a Margarida a fazer o teste, comentários entre alunos copiando respostas sobre o teste que cada uma já tinha à sua frente… Tudo estava a deixar o professor com a sensação de estar a perder o controlo da turma. Já irritado dirigiu-se à porta, chamou o assistente operacional do piso e mandou a Margarida para fora da sala. “Era inadmissível a postura daquela menina. Tinha de aprender a saber estar … Que falta de modos. Bem merecia aquele ‘zero’ que ele lhe ia dar naquele teste”.

No Gabinete de apoio ao aluno, a estrutura que recebe os alunos com ordem de expulsão de sala de aula, estava a Professora Edite. Ela percebeu logo que a Margarida não estava para sermões, muito menos para cópias do Regulamento Interno. Com o objetivo de a acalmar e sem nunca a recriminar pelo seu comportamento, disse-lhe Margarida, não sei o que aconteceu mas tenho uma sugestão: que me dizes de escrever um texto para o Professor António, explicando os teus comportamentos. Não a mim, apenas ao teu professor que foi afetado com esta situação.”

A Margarida começou a escrever:

Caro Professor António

Eu sei que me comprometi consigo, que era suposto cumprir as regras que previamente acordamos e que vou deixar os meus pais tristes com isto quando souberem do que aconteceu, mas tive de tomar esta decisão. No intervalo decidi, ‘hoje vou falhar e não vou fazer o teste’.

Estou numa fase complicada na minha vida… Tem sido difícil gerir este momento de stress com os cuidados à minha avó que agora mora connosco, as tarefas de casa que tenho de partilhar com a minha mãe que trabalha 10 horas por dia, com as coisas da escola, com as cenas que acontecem todos os dias (já lhe disse que me zanguei com a minha melhor amiga, a Andreia? – felizmente já está resolvido). No meio disto tudo ainda ajudo o meu pai lá no café ao sábado. Tenho dias em que acho que estou doida e que não vou aguentar. Nem sempre é fácil e tenho momentos em que me apetece desistir. Hoje desisti do nosso compromisso. Não significa que seja para sempre, é só hoje…. Alivia a pressão. Faz-me sentir melhor e mais capaz de enfrentar o resto. Resolvi contar-lhe um bocadinho da minha vida e tenho a certeza que compreenderá.

Com estima,

Margarida

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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Dia Internacional da Paz

A paz não pode ser mantida à força. Só é atingida pelo entendimento”

Já dizia Albert Einstein.

pazCelebramos ontem, dia 21 de Setembro, o Dia Internacional da Paz. Esta iniciativa mundial foi promovida pelas Nações Unidas no ano de 1981 mas foi em 2002 que a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou oficialmente o dia 21 de setembro como o Dia Internacional da Paz. Esta comemoração pretende sensibilizar para a necessidade da paz no mundo, promovendo  atos que tenham como resultado o fim dos conflitos entre povos e a consagração da paz mundial. O grande objetivo deste dia é que a pessoa faça algo pela paz.

Como não poderia deixar de ser, também a escola tem uma grande função nesta tarefa de educar para a paz. É possível trabalhar no contexto escola o princípio da paz, integrando esta educação numa ótica de transversalidade do currículo não formal. Um professor pode, e deve até, introduzir no âmbito da sua disciplina a educação para a paz e para a convivência.

Educar para a paz pressupõe ensinar e aprender a resolver conflitos. É perceber que o conflito está presente de forma constante na nossa sociedade como uma manifestação da diversidade de interesses, culturas e necessidades. Não há soluções mágicas mas existem mecanismos que permitem pensar e resolver conflitos de forma diferente e que promova a cultura da paz. A pensar nisso, decidi de forma muito breve estruturar alguns dos princípios que as escolas devem promover neste grandioso trabalho que é educar para a paz e sã convivência:

  • Criar igualdade e equidade nos contextos educativos;
  • Prever situações de conflito e não ter receio de dialogar sobre os mesmos;
  • Gerir de forma positiva e controlada as situações de agressividade;
  • Optar pelo diálogo, negociação, mediação, suprimindo a cultura do vencedor/vencido, culpado/inocente, certo/errado;
  • Promover, defender e alimentar valores como a justiça, a liberdade, a cooperação, o respeito, a solidariedade, o compromisso, a autonomia, o diálogo e o envolvimento em detrimento da discriminação, da intolerância, da violência, da indiferença e do conformismo;
  • Proporcionar situações que favoreçam a comunicação e a convivência, numa lógica de empowerment, reconhecimento e legitimação das partes;
  • Participar e criar actividades relacionadas com a paz, solidariedade e resolução positiva de conflitos;
  • Criar climas cooperativos, democráticos e positivos no contexto de sala de aula e noutros contextos relacionais de escola;
  • Fomentar a reflexão, a troca de argumentos, pontos de vista e opiniões numa lógica de crescimento e empatia;
  • Difundir estes princípios regularmente por todos os agentes da comunidade educativa;
  • Apostar no trabalho em grupo e projectos educativos colectivos;
  • Utilizar técnicas de reflexão e desenvolvimento moral, debatendo experiências, clarificando valores, discutindo dilemas e formas alternativas de resolução de conflitos;
  • Apostar numa cultura de escola, numa ótica de compromisso educativo (um professor sozinho não terá o mesmo impacto/efeito) Implica construir e potenciar no processo de ensino-aprendizagem relações fundamentadas pela paz entre alunos-pais-professores-escola.

É extrapolar esta vivência para fora da escola. Levar de dentro para fora. Porque o que nós fazemos é importante e se eu conseguir avançar um centímetro pelo caminho ‘certo’, então já estou a contribuir com a minha parte.

Feliz Dia Internacional da Paz!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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“Os alunos estão sempre prontos a atacar”

mediação de conflitosDepois do último texto recebi um contacto que visava um esclarecimento mais aprofundado sobre a construção de expetativas e representações e o modo como estas podem efetivamente influenciar o sucesso da relação pedagógica em sala de aula.

E assim, surgiu a ideia de esclarecer este processo neste novo texto.

Na maioria das escolas hoje foi dia de apresentações e amanhã o ano letivo irá começar a valer.

Partindo do modelo desenvolvido por Good e Brophy é importante termos consciência de que as nossas expetativas em relação ao aluno influenciam o seu desempenho, tanto a nível comportamental como a nível do desempenho académico. Por exemplo, isto significa que os alunos mal sucedidos são encarados, à partida, como alunos incapazes e com dificuldades, o que leva a que estes alunos se assumam como tal, construindo ciclicamente crenças de fracasso e de incapacidade acerca de si mesmo, o que pode levá-los ao insucesso ‘crónico‘.

Vamos tentar perceber isto por etapas:

  • O professor espera determinados comportamentos do aluno
  • O professor age com base nessas mesmas expetativas
  • Essas expetativas são comunicadas ao aluno de forma indireta, por exemplo, através do comportamento do professor (ai, a importância do não verbal)
  • O comportamento do professor influencia o aluno, afeta-o
  • O aluno age de acordo com as expetativas do professor
  • O comportamento do aluno reforça as expetativas do professor
  • O professor espera determinados comportamentos (repararam que voltamos à etapa 1?)

Assim se compreende porque é que com expetativas negativas, os professores, de forma inconsciente e involuntária interagem menos com estes alunos de forma proativa e positiva (a maioria das interações são fruto de algum comportamento desadequado por parte do aluno) e acabam por sujeitar mais vezes os alunos a comentários negativos, levando ao reforço das expetitivas e à manutenção de representações negativas sobre a relação pedagógica que se constrói neste contexto.

Ora vejamos isto com este exemplo prático:

Um professor que tenha uma crença de desconfiança em relação aos alunos, pensando frequentemente “os alunos estão sempre prontos a atacar”, adotará uma atitude de desconfiança, refletindo a sua expetativa de ataque ao seu estatuto/reputação/personalidade. Isto, por sua vez, fará com que assuma ao longo das suas aulas uma postura de hipervigilância relativamente ao comportamento dos alunos (“é preciso estar atento, pois a qualquer momento poderá acontecer algo”). Esta hipervigilância poderá, em determinados casos, levar ao enviesamento na perceção, análise e avaliação de um comportamento de um aluno (por exemplo, “está a bocejar de propósito para gozar comigo”), o que por sua vez, naturalmente, levará a uma reação (visível pela postura, olhar, gestos) por parte do professor a este comportamento.

Os alunos são extremamente sensíveis aos comportamentos e pistas não verbais dos professores (nunca se esqueçam que o não verbal chega a substituir a linguagem verbal), podendo reagir a esta mudançano comportamento do professor de forma agressiva (“oh stôr, está a olhar pra mim assim porquê? Não fiz nada”), levando assim ao reforço da crença inicial do professor de que “os alunos estão sempre prontos a atacar”…

Como já tive oportunidade de referir anteriormente, o adulto como autoridade na relação pedagógica deve estar consciente de que reações habitualmente automáticas contribuem para manter padrões de interação disfuncionais e, por isso, deve reagir com base numa estratégia (remediativa, preventiva ou conciliadora) e não com base em disposições automáticas para a ação. Pode por exemplo, supreender o aluno (quebrando a crença que este tem relativamente ao adulto) e assim melhorar a qualidade da relação. É muito importante basear a nossa decisão de ação em taxas reais de ocorrência de um determinado comportamento e não numa suposta intenção do aluno ou em boatos e testemunhos de terceiros.

Lembrem-se, o que nos incomoda é o comportamento e não o aluno; o que podemos rejeitar são os comportamentos e não os alunos.

Fácil? Claro que não (ou não falássemos de relações humanas), mas é possível, viável e altamente eficaz!

Bom regresso!

Mónica Nogueira Soares
Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora

Dia D – A importância do primeiro dia

dia 1O mês de setembro é sinónimo de regresso, de novas perspetivas e de novos começos. Terminado o merecido descanso, as aulas regressam em breve, o trabalho recomeça e muitas vontades e resoluções são projetadas para este ano letivo. Está na altura de arregaçar as mangas e abraçar este 2016/2017 com coragem, garra e energia.

A pensar nisso, achei que seria importante refletirmos um pouco sobre a importância do primeiro dia com os alunos e alguns fatores a considerar.

Na relação professor/aluno os primeiros contactos destinam-se a recolher informação necessária à confirmação das expetativas até aí geradas. Essas expetativaspodem ter sido geradas, por exemplo, nos conselhos turma do início do ano letivo entre professores (“Eh pah, aquele aluno é terrível”, “Tens de ter cuidado com ela”, “Se não fizeres assim, não fazes mais nada com ele o resto do ano”, etc), nos corredores entre alunos (“Ei, vais ter esse stôr?! É um cromo”, “Txi, a sério que vais ter essa stôra?! É uma seca… Não se faz nada nas aulas dela”, etc) ou simplesmente de experiênciasde anos anteriores.

Por muito que possamos racionalmente considerar que o que se segue é esterotipado, talvez até mesmo preconceituoso, a verdade é que a ciência define vários fatores que contribuem para formar as primeiras impressões. Falamos de índices físicos (alto/baixo; gordo/magro; louro/moreno), índices verbais (linguagem utilizada, sotaque, calão); índices não verbais (forma de vestir, postura, gestos, sorrisos) e índices comportamentais (comportamentos específicos e individuais observados no sujeito).

Por isso é importante adotar comportamentos minimamente neutros e coerentes com a postura e atitude com a qual nos identificamos e que pretendemos assumir ao longo do ano letivo (não devemos fingir algo que não somos).

Na primeira abordagem os alunos observam o tom de voz, a aparência, o discurso, as exigências, a forma como o professor reage… Desta forma definem em que ‘categoria’ o professor se insere (“é porreiro, é mau, é exigente, é fixe, é mal disposto”) e criam expetativas que vão determinar os seus comportamentos perante o professor em aulas posteriores.

A partir daí o professor estará na “fase do teste”, em que os alunos testam a autoridade do professor, tentando perceber quais os limites do aceitável e onde inicia a zona de conflito. Os alunos tentam determinar até que ponto o professor consegue manter a ordem dentro da sala de aula.

A fase da estabilização surge finalmente quando confirmam, ou não, as expetativas iniciais, baseando-se em juízos de cariz afetivo, relacional e instrumental, construídos ao longo dos momentos de interação até ao momento e são estes juízos que irão determinar os comportamentos ao longo do ano letivo.

A existência de regras é inerente a qualquer interação e é indiscutível que o professor é o líder, é quem toma decisões e quem mantém a disciplina. Só assim os alunos desenvolvem a capacidade de lidar com o poder desigual, inerente às hierarquias com as quais terão de lidar ao longo das suas vidas.

Espera-se do professor compreensão, diálogo, tolerância, empatia e boa comunicação, mas nunca falta de liderança.

Desejo a todos um ano letivo 2016/2017 cheio de trabalho produtivo, motivação e boas convivências!

Mónica Nogueira Soares
Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar| Formadora
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