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Saga noticiosa destes dias: vinculo, vinculas, vincularás?

A grande saga da vinculação de professores prossegue.É ridículo como estas coisas são feitas: ora vincularão com uns anos, umas vezes mais, outras menos; ora este ano, ora no próximo; ora precisam de um ano inteiro deste ano, ora de vários seguidos, ora aumenta, ora diminui.

Tanto adjunto nos gabinetes do ministro e secretários de estado e não há ninguém que lhes explique que a ação comunicacional está a ser uma m….. neste assunto?
A credibilidade do Estado vai às ruas da amargura com esta produção de decisões a olhómetro e com a aparência de encenação atamancada de um mau espectáculo, que só ajuda a angustiar mais os que têm a vida dependente dessas coreografias político-sindicais.

Hoje, o ministro veio dizer que vai vincular milhares. Não sabe, ou não diz, quantos (regra um da comunicação política: evitar falar se nada se tem a dizer e, o que disse, já se sabia). Dá a ideia de que falou só porque lhe puseram um micro na frente.

Imaginem que o Ministro das Finanças vinha anunciar grande descida de impostos mas não dizia quanto nem por aproximação…Trucidavam-no. No setor da educação vale tudo e as regras da política séria valem pouco.

Notícias sobre isto na SIC e no Sol, por exemplo. Há pouco, apareceu nova confirmação do que já se sabia: vai haver negociação suplementar e o assunto ainda vai rebolar mais um pouco.

Entretanto, como uma reportagem do fim de semana na SIC mostrou, continua muita gente a sofrer com o problema dos professores contratados deslocados (e vai continuar a sofrer, já que nem toda a gente que faz falta ao sistema vai ser vinculada ou, mesmo que isso acontecesse, continuariam deslocados).

Direitos das mulheres e depois manuais escolares

Um tema aparentemente menos importante no agendamento do dia: coeducação e a questão da presença da religião na escola pública, a propósito da decisão do Tribunal Europeu dos DH que obrigou pais muçulmanos na Suíça a deixarem as filhas ir à piscina. Comentário a merecer leitura de Fernanda Câncio no DN.

O tema tem interesse em Portugal e vivi-o na questão da frequência da escola por meninas ciganas (que não tem a ver com questões religiosas, mas com um certo posicionamento, por alguns setores dessa comunidade, em relação aos direitos da mulher).
Será que em Portugal o Estado lutaria pelos direitos das mulheres como aconteceu neste caso? (Duvido que a falta de coragem de alguns servidores do nosso Estado fosse tão longe na defesa de direitos, que nem deviam discutir-se).

A grande questão destes dias foram, contudo, os manuais escolares.

Manuais escolares: 1º round – RTP

A RTP apresentou uma reportagem (fraquinha) no Sexta às nove (o programa já fez muito melhor, mesmo em educação).
A confusão, constante no texto da peça, entre os livros amostra para escolha de manual (que são os chamados livros de professor que os alunos não podem usar) e os manuais dos alunos, usados ao longo do ano, é chocante pelo mau resultado de perceção que gera (e pelo que mostra de falta de cuidado na investigação).
O debate, no Sexta às 11 (na RTP3) mostrou as fragilidades da peça (em especial, graças à, sempre sintética e clarividente, intervenção do Paulo Guinote).

Manuais escolares: 2º round – TVI

Ontem, a TVI arrancou com uma série de 2 reportagens sobre o mesmo assunto (que andava a ser preparada desde Novembro, pelo menos) com um título ilustrativo sobre o negócio dos manuais escolares.
Esta reportagem da TVI foi, pelo que se viu na 1ª parte, muito mais sólida na construção e investigação (Alexandra Borges mostra mais uma vez o seu profissionalismo e acutilância).
Momento alto: a confrontação dos donos das editoras com livros iguais de capa diferente e o ar atrapalhado, de quem fica com a careca à mostra, com a revelação nacional do truque dos ISBN.
Momento menos positivo: a cena repetida das colegas professoras, na escola, a apagar manuais escritos a lápis. O custo hora de um professor para fazer aquele serviço é capaz de ser excessivo…. 2 ou 3 horas semanais de 2 professoras de borracha na mão dá uns quantos manuais.  A fazer assim, realmente, não haverá poupança.

Pecadilhos e comentários

Alguns professores poderão ficar zangados por se ter falado na peça de uns pecadilhos nos processos de adoção (não é aí que está o problema mais fundo e são casos pontuais, que, mais que desonestos, mostram como as editoras tendem a violar os princípios da concorrrência e a conspurcar nisso alguns das escolas).

A verdade é que o tom geral da peça acabou por mostrar (ao contrário da da RTP) que o problema está nas editoras, e no seu negócio milionário, em ambiente protegido não concorrencial (com abstenção reguladora do Estado) e não nos professores e na sua forma de atuar em geral. Como o Guinote destacou com precisão na sexta-feira na RTP, de forma que prescindo de repetir.

Nota pessoal: participei uns segundos na reportagem da TVI, porque respondi a uma mensagem em que a jornalista pedia ajuda e tive uma longa conversa, em que respondi ao que me perguntaram, de que a jornalista aproveitou (e bem) o que entendeu.
Nunca me arrependi de colaborar com jornalistas. Hoje, tive uma maioria de comentários simpáticos (entre outros, dos meus alunos que festejaram ver-me no quadrado, com a generosidade de quem gosta de nós, sem duvidar).

Os 2 ou 3 antipáticos anónimos são gente que me diz coisas no género da “gestão de comunicação à soviética”: “o que disseste é mesmo verdade mas podias não ter confirmado que é assim” ou “cala-te pá que sabes o que dizes mas é inconveniente”.

Os comentários sobre a minha falecida mãe, por conta de ser minha progenitora, nem merecem outro registo, além de que são sintomas de que Trump e os seus trolls têm muita companhia, que se julga ilustre…..

Manuais escolares 3º Round….hoje na TVI

Como disse, respondi ao que me perguntaram, e o facto curioso da peça, é que, a dada altura, é o próprio responsável de uma editora que confirma: há escolas que recebem ofertas para a escola (ele até disse para os órgãos….mas expressou-se mal, claramente) por conta do sentido das suas adoções de manuais.

Hoje, a reportagem segue para um âmbito mais vasto e penso que teremos revelações interessantes sobre a questão macro do mercado dos livros e do papel do estado e dos governantes.

É pelo menos o que promete a promoção. Veremos daqui a pouco, uma meia hora depois das 20.


Notícias de resistência no ensino da história….

A notícia do dia é hoje uma só. Nem vale a pena tentarmos desfocar do ponto de fuga único da atenção noticiosa.

Nos momentos emocionais é normal em Portugal cair-se no carpir e no exagero.

Mário Soares foi o tema do dia numa monocultura noticiosa que resulta do excesso barroco do direto, em que se tem sempre de falar, mesmo que nada haja para dizer.

Ou, em que não se entende que o simbolismo cénico silencioso das imagens vale mais, sem comentários desconexos.

E este comentário às notícias do dia fica aqui, sem desvalorizar. Antes pelo contrário merecia mais qualidade das notícias a pessoa, o democrata e o político com sentido da História e apaixonado pela sua leitura e estudo.

Histórias de resistente

Da sua biografia, aliás, escolho aqui referências aos pontos de maior risco e maior rasgo, destacando das notícias de hoje os temas que o próprio mais valorizava com orgulho.

Ser resistente e político num tempo, antes da Democracia, em que, sê-lo, só dava como prémio a cadeia. Ou a alternativa do perigo físico e, até, da vida, para si e para a família.

Fica assim só a remissão para uma notícia do DN em que se recorda o percurso de resistência. Mário Soares chegou a ser prisioneiro de consciência adoptado a nível mundial pela Amnistia Internacional (estatuto que a organização só atribui a alguém que resiste à opressão sem violência e é perseguido por isso). A notícia relata com detalhes o que foram o exílio e a deportação e essa coragem vale, sem mais nada, as honras de Estado.

E, nesse percurso de ativismo pela liberdade, foi reconhecido também pela sua luta pela defesa de outros, como advogado, e pela divulgação internacional arriscada das violações de Direitos Humanos no país e nas atuais ex-colónias, nos anos 60 e inícios de 70.

No final dos 90, foi, em Portugal, já depois de ser chefe de Estado,  Presidente da Comissão de comemorações dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Década da educação para os Direitos Humanos da ONU. Nessa sua função contribuiu para um impulso forte (e que agora bem precisava de ser renovado) para se produzirem materiais e elementos curriculares nesse campo que, ainda hoje, quase 20 anos depois, são úteis.

O lugar na História ensinada

Curiosamente um assunto (a educação cívica e da memória democrática) que teve hoje destaque nas notícias sobre a sua morte. Destaque para uma muito interessante notícia do Público sobre o que se ensina (ou devia ensinar) de Mário Soares nas escolas. Jerónimo de Sousa falou disso também ao queixar-se da História dos vencedores (leia-se, a história que desvaloriza o papel do PCP).

A TSF fez uma peça engraçadíssima, com crianças de visita ao seu estúdio, a quem perguntaram sobre a figura do dia.

Vale a pena ler e ouvir as notícias, como pistas para um problema que é mais vasto: serão os nossos programas e tempos destinados à História ao longo da escolaridade, suficientes para se fazer alguma coisa de impacto na educação de democratas?

A notícia do Público conclui que não. O meu quotidiano de professor de História leva-me a dizer que as perspectivas futuras de melhoria são pessimistas.

Mas, como Mário Soares era realmente um optimista, talvez valha a pena, neste dia, ir ao básico mais fundamental e reler António Sérgio, que tanto estimava, e a sua obra Educação Cívica.

Talvez se ganhe ânimo, bebendo dessas utopias sobre o que “educar para a democracia” tem de prático, que não se realizarão, mas que estão muito longe do atual e paralisado estado de coisas.

Num tempo em que até já há eleições de associações de estudantes a serem convocadas pelos diretores das escolas (e não por auto-organização dos alunos) ou leio, com mágoa, pela estima à pessoa, a posição dos “diretor dos diretores” (presidente do conselho das escolas), no Público de hoje, sobre o manifesto para a democratização da gestão escolar, publicitado há uns dias, o tema da educação para a cidadania devia ser mais debatido nas discussões sobre escola.

Mário Soares acharia isso uma homenagem.

PS: No último caso, do presidente do Conselho de Escolas (melhor dito “dos diretores”), texto a que só tive acesso na edição em papel, mas que imaginam o que seja, a releitura de António Sérgio seria mesmo proveitosa para não soar tão mal, a desconversar sobre Democracia, mas havemos de voltar ao assunto.


Este mundo está perdido e com falta de educação (?) (!) mas eu tenho um herói da bola….

Título de velho? Já vão perceber porquê se lerem até ao fim. Afinal já estou na média etária da classe.

Neste blogue falamos de educação e, todos os dias, por esta hora, fazemos destaques das notícias do dia sobre educação.

A educação é a vida e, por isso, tudo tem a ver com esta nossa área de atividade. As notícias de economia já tiveram mais saída e, quem assumiu a obrigação de ver notícias sobre o tema educação todos os dias, vai percebendo que as nossas começam a suscitar mais interesse nos jornalistas.

Mas, mesmo as que não são, no imediato, de educação podem ter a ver com isso. Por exemplo, é uma falta de educação o que se diz que se passou, quanto ao pagamento de impostos, de alguns jogadores (tema com que o Correio da Manhã fez destaque hoje).

Não percebo nada de futebol, e nem o conhecia antes de hoje, mas já escolhi o meu herói da bola: chama-se Martin Rafael Ødegaard.odegaard_efe2

Pelos vistos, foi-lhe proposto aderir a um sistema de fuga ao fisco e paraísos fiscais e recusou, por si e por conselho do pai. Alegadamente, aos seus ouvidos nórdicos soava-lhe imoral, diz o mesmo Correio da Manhã na edição de hoje em papel.

Tanto referencial de educação para tanta coisa e andamos mesmo a esquecer a educação cívica que, pelos lados da Europa gelada, nunca passou de moda.

E ora digam lá que a Educação não melhora o mundo: se são jovens os únicos que recusam a imoralidade que todos os outros normalizam.

Ao contrário do que muitos dizem o mundo talvez não esteja nada perdido…..(nenhum professor pode acreditar nisso, certo?)

Dose diária de Marcelo, racismo e diarreia legislativa

Olhar diariamente as notícias que tenham a ver com educação obriga também a falar muito do Presidente da República que hoje deitou o olhar para o ensino superior (aquele de que é, de origem, bom professor). Apelou a mais dinheiro, diz o Correio da Manhã. Era preciso que as organizações representativas da nossa área o fizessem ver o básico e secundário com lentes de mais proximidade e talvez saíssem outras frases, a merecer a atenção noticiosa e que pusessem na agenda os nossos problemas.

Por exemplo, será que, se lhe perguntassem, dizia que tinha vontade de dar aulas numa escola básica, no fim de mandato, como vem dizendo que tem, num Instituto Politénico? Disse hoje outra vez.

O Público fez destaque com várias notícias que tem a ver com educação: as queixas sobre problemas de discriminação e racismo de associações de afro-descendentes, que incluem referências às questões escolares. Tema que merecia muito debate (mesmo se alguns, há uns tempos, tentaram instrumentaliza-lo, como é costume, fazendo arremesso contra os professores).

O BE veio anunciar uma proposta legislativa para dar direitos a pais que sejam estudantes.Ideia simpática, e que qualificaria de boa, se não soubesse, como sei, que os direitos vão ficar muito lindos no papel. Como os deputados do BE (e dos outros partidos me geral) pouco sabem de como administrar operacionalmente, o que quer que seja, a lei vai ser linda, mas de concretização inviável. É o costume e, desta vez, dificilmente escapa. Direitos na lei já todos temos muitos…..Vejam lá a trapalhada que são os direitos dos pais professores para irem à escola dos filhos.

Espingardas ou manteiga? Desportos marciais ou preservativos?

5820c0e9caea0O ministro participou no anúncio de que o judo vai entrar no desporto escolar em 10 escolas diz o mesmo Público. Acho bem, mas já agora porque só o judo merece tal destaque?

A associação de planeamento familiar (APF), a instituição da sociedade civil mais prestigiada na área, veio esclarecer melhor a questão do referencial sobre educação sexual e falar, bem, de problemas práticos do tema, que a polémica fácil e a lógica de leitura da papelada teórica fazem esquecer.Fazer bem implica algo menos proclamatório.

Além da educação sexual, as escolas parece que também vão tapar a “lacuna” da educação para a segurança, paz e defesa, diz o ministro da área.

Nós, faz-tudos que nos amanhemos….. com estas novidades levianas ejetadas da boca de quem acha que, pondo mais coisas em cima das escolas, a educação melhora.

Uma que nos carregou bastante, nunca se penitenciou disso e agora fala como especialista encartada, é Maria de Lurdes Rodrigues. Não li a prosa (abstenho-me bastante, desde que verifiquei que fala de educação, como se percebesse mesmo) mas deixo o link porque o tema pode ter interesse: manuais escolares.

Tudo isso são opiniões, me dirão, mas remeto para outras 2. Uma de Joana Petiz no DN, que começa num tom que me alarmou (a elogiar o sistema educativo chinês), mas acaba a salientar problemas reais dos professores portugueses (mesmo se me parece que o texto leva água no bico):

“Mas nunca se chega ao essencial: a criação de um entendimento alargado que permita um compromisso real para a educação. E que tem de ter uma componente muito forte de respeito e atenção à carreira de docente. Num estudo da Fundação Varkey – que decidiu contribuir para aumentar o respeito pela profissão e distinguir os melhores com um milhão de dólares -, Portugal surge entre os países onde o salário de um professor é menor, há menos compensações e recomendações para seguir esta carreira. Melhorar esta realidade incentivá-los-ia a trabalhar de forma diferente. É aí que começa a verdadeira mudança.”

Cantinas, professores velhos e a melhor escola é a da Shakira….

Noutra onda, destaco os problemas relacionados com refeições escolares relatados por um texto de opinião, em Coimbra, no Diário das Beiras.

Mas, alegremo-nos, tudo na escola vai mudar porque, com grande sentido de oportunidade, um secretário de estado veio dizer que até queria injetar sangue novo no sistema de ensino só que os professores estão envelhecidos. Como os governantes não abrem espaço a aposentações e a malandragem morre tarde, talvez só a exaustão lhes dê abertas ao tal sangue novo.

refeicoes-escolaresSangue, sangrar, fazer sangue ,esta área de palavras é capaz de não ser a mais feliz para um governante se situar nestes temas (sangrar lembra-me logo a Milu) mas, desde que se fale do tema e se ouçam os problemas dos próprios professores (como a peça até faz), deixemos.

Podemos não ser a Jennifer Lopez, que pondera abrir uma escola de dança, ou a Shakira, que financia a melhor escola da Colômbia dizem as notícias, mas acho que não merecíamos ouvir ou ler que o nosso envelhecimento é a causa de obstáculos às reformas, como se vai dizendo em tom de desculpa, sem resolver o problema real.

E, afinal, as duas artistas que referi acima até têm, mais ou menos, a idade da maioria dos professores portugueses (a Shakira já tem 39 anos e JLo passou os 45)

Se os professores estão velhos, aos 40 e 50 (e caminham para mais porque ninguém se reforma e ninguém entra), e se isso parece ser problema, que até o Secretário de Estado tenta uma piadinha, dizendo que há velhos muito jovens e jovens muito velhos, a nossa resposta vai na linha das metáforas anatómicas. Aqui fica uma que a minha mãe dizia perto da reforma: quem lhes comeu a carne há-de lhes roer os ossos…….


Banalidades ministeriais e lata de alguns deputados…

Isto até vai parecer um daqueles noticiários da RTP antes do 25 de Abril (nem no dia em que o homem foi à Lua deixaram de abrir com notícias de uma Excelência Governamental).O ministro da educação, hoje, decidiu falar de ensino profissional numa visita à Guarda. Não saiu das banalidades mais redondas e habituais: “importante ver como o ensino profissional é um dos pilares mais importantes da qualificação dos portugueses” ou “Nós temos um objetivo básico e fundamental: chegar a 2020 com 50% dos nossos alunos que concluem o ensino secundário através de vias profissionalizantes”. Falta saber se o valor do ensino profissional é só proclamado nestes momentos solenes, em banalidades, ou passa por real valorização dos profissionais, dos alunos e do conhecimento que lá se produz.

O ministro diz frases vagas, com que toda a gente concorda e, dos assuntos importantes, vem outros falar. Por exemplo, Carlos César fala da entrada de precários na função pública, lá para Outubro do próximo ano (assunto que muito interessa às escolas como todos sabemos).

Com uma lata desproporcionada e despudorada, uma deputada do CDS, diz o Correio da Manhã, quer reposicionar professores na carreira. O texto só se lê na edição em papel mas a imagem merece ser guardada para a posterioridade, com o riso largo da senhora deputada, que julga que nos faz de parvos (a proposta é só um rodriguinho parlamentar).

reposicionar-professores

Não sei porquê, lembrei-me de um aluno de uma escola onde dei aulas que partia retrovisores e amassava para-lamas de carros de professores, no parque na escola, porque candidamente queria ajudá-los, depois, encaminhando-os para o pai que era batechapas numa chafarrica vizinha.

Médias ou dissonâncias nos alunos por turma e na desvalorização

Outro assunto importante é a questão do número de alunos por turma, sobre o qual o Diário da República de sexta-feira publicou oficialmente um interessante documento do Conselho Nacional de Educação que vale a pena ler.

Quem for à página 34474, nas tabelas que lá estão, pode ficar, por exemplo, a saber dos desvios (contra o hábito geral de falar disto usando médias): no 1º ciclo, 17,5% das turmas tinham, em 2015/16, mais alunos que o máximo permitido (por exemplo, nas situações com alunos com necessidades educativas especiais). Sendo os limites máximos já excessivos, isto mostra como usar médias para decidir dá mau resultado. No 2º ciclo, 15,4% das turmas tinham alunos a mais. 12,9% no 3º ciclo. Cerca de 11% no ensino vocacional e 7,5% no Secundário.

Se a média é aparentemente baixa no todo nacional, desvios, com estas percentagens do total de turmas (e face a limites de número de alunos, que já são excessivos e deviam baixar), merecem atenção. Mas parece que a esquerda engavetou isto para Janeiro. Ou então vai ser como o reposicionamento da outra parlamentar de taxa arreganhada….

brinquinhoPela Madeira, hoje protestou-se com um concerto dissonante contra a “desvalorização e discriminação profissionais”.

Os docentes do Conservatório Regional, numa nota distribuída à população, afirmam que “não aceitam a desvalorização e discriminação profissionais a que estão a ser sujeitos por parte da Secretaria Regional da Educação [da Madeira]” e exigem “que a sua carreira e tabela remuneratória sejam as do Estatuto da Carreira Docente da Região, como acontece com os demais professores da rede pública” do arquipélago.

O “concerto dissonante” teve como programa a interpretação do 1.º andamento de ‘Eine Kleine Nachtmusik’, de Mozart, em três partes.

Condenações, campos de refugiados e violência

Por Braga, o Tribunal decidiu condenar diretores de um jardim de infância a penas de prisão (suspensas) por burla tributária. Podem ler aqui, no Público, e ficar a saber que ainda estão em dívida à Segurança Social 15.127 euros:

“A suspensão das penas de prisão fica condicionada à restituição daqueles 15.127 euros à Segurança Social.” Ponto importante e exemplar da notícia é que “A mulher foi ainda condenada por seis crimes de coacção, por causa da “pressão psicológica” que exerceria sobre funcionários e educadoras” que espoletaram o processo através de denúncias.

Por Viseu, uma escola e o Exército vão fazer uma atividade sobre qual não sei o que pensar (mas o instinto faz-me ter algumas dúvidas…. mas com o benefício nelas pela intenção): reconstituir com um grupo de alunos “um campo de refugiados” para eles experimentarem a situação.

O texto da agência Ecclesia – a atividade é da disciplina de EMRC – explica: com a atividade “Refugiados para a Paz” pretende-se “simular um Campo de Refugiados”, proporcionando aos alunos uma “experiência única que complemente o seu percurso escolar e que lhes dê a possibilidade de “refletir sobre a condição humana e a dignidade da pessoa” e “formar consciências esclarecidas, fomentando o desenvolvimento do sentido crítico”, revela a nota.

Pela UTAD, divulga-se uma ferramenta que podia dar jeito em muitas escolas. Chamam-lhe violentómetro e serve para medir  e caracterizar a violência nos comportamentos dos alunos da Universidade. Vale a pena ver e talvez quem sabe importar a ideia para algumas escolas.

Crianças a viajar de graça e velhos em escolas abandonadas

pic004Entre as outras notícias do dia deixem-me ser ronhoso e provinciano e fazer uma pergunta sobre uma delas. Na cerimónia de entrega da Carris ao município de Lisboa, o presidente Fernando Medina anunciou passes de graça para crianças até 12 anos.

Mas a medida é só para os utilizadores da Carris (e o resto do país em que os padrões de mobilidade até são piores?).

O centralismo está assim. Já nem se preocupa em esconder os benefícios localizados no centro que todos pagam sem beneficiarem também (sendo que o Estado fica com a dívida histórica e ciclópica da nova empresa municipal que nasce limpa desses encargos).

E, por isso, é que o interior e a “província” estão como estão. As escolas fecharam e a solução é fazer lares de idosos (e não pensem que acho mal, mas acho triste). Aconteceu em Alfândega da Fé em que uma escola, fechada há 10 anos, foi assim reconvertida como mostra a reportagem da RTP.

E, para terminar, remeto-vos para um texto publicado num jornal de Braga sobre autonomia e sobre municipalização. Rui Rio veio no fim de semana falar de como renega a campanha que fez contra a regionalização no referendo de há quase 2 décadas (lágrimas tão retardadas que devia estar calado e só voltar a falar quando estiver a liderar o PSD e decida concordar com nova tentativa).

Mas, mesmo com estes regionalistas penitentes serôdios a alternativa tosca da municipalização continua a ser receitada como panaceia ou como emplastros para dores articulares do Estado sem ver outras alternativas.

No domínio das escolas há quem pense esses temas e fale claro e com conhecimento como faz o Jorge Saleiro neste texto objetivo que podia ser Autonomia? Existe mesmo? Ou é um mito do género unicórnio?


Fraudes em exames escritos em Português….. 2

Nos destaques de notícias de hoje vamos atravessar o Atlântico.

Pelo Brasil, o escândalo do momento é a descoberta de um esquema fraudulento relacionado com exames no setor de Educação (no caso o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio). A notícia completa pode ser lida aqui no site da Veja.

As operações da Polícia Federal brasileira realizadas, ontem, domingo, em pelo menos oito estados, tinham os nomes sugestivos de Operação Jogo Limpo e Embuste,  resultaram em prisões e na descoberta do esquema que fazia com que alunos pagassem entre 150 mil a 180 mil reais (uns 40 a 50 mil euros) para ter notas para entrar no curso que desejavam. O esquema da fraude parece ser impossível de reproduzir em Portugal em circunstâncias semelhantes mas os recursos usados merecem atenção. Fica a descrição em Português saboroso:

“Membros do grupo – entre eles, professores e alunos veteranos, chamados de pilotos – faziam a prova rapidamente e saíam no tempo mínimo, com as respostas anotadas. Depois, de um hotel, eles transmitiam o gabarito para candidatos do exame em várias cidades do país. As alternativas corretas eram passadas por celular para receptores do tamanho de um cartão de crédito – com um chip semelhante a de celulares, que os candidatos grudavam no peito, e o áudio era ouvido por meio de pontos minúsculos no ouvido.”

A Folha de São Paulo acrescenta mais dados, nomeadamente que a pena para os detidos pode chegar a 20 anos de cadeia e que um dos instrumentos usados no esquema era tão pequeno que teve de ser retirado com uma pinça do ouvido do aluno que o estava a usar.

Por cá, as notícias do dia em educação têm centro na questão dos concursos e na negociação da sua nova legislação que está ao rubro na sequência do que Mário Nogueira anda a dizer estes dias.

Por cá, concursos ….

O tema concursos apareceu hoje, pelo menos, no Correio da Manhã e JN e há novidades das propostas em discussão: incentivos para a manutenção no interior, concurso anual (isto é, todos os anos mesmo para os professores de quadro), bolsa de substituições regional para acabar com ofertas de escolas de 8 ou outras menores de 22 horas, etc. Vale a pena todos os professores estarem informados sobre isto e terem opinião (seja ela qual for). Quando nos abstemos alguém decidirá por nós.

E espera-se que Mário Nogueira não caia nas armadilhas passadas de umas negociações à volta de umas pizzas de madrugada. Não escondo que até gosto dele e até tenho aprendido a viver com ele como representante mais visível da classe docente. Mas espero que também tenha aprendido algo com o passado e não caia no costume destas coisas: muito espalhafato inicial e resultados coxos.

A CGTP volta à carga com o descongelamento dos salários para 2017 (que não vai acontecer mas é bom que não se deixe esquecer).depositphotos_55076389-businessman-counting-50-euro-banknotes

Como se percebe, nas opções de divulgação que por aqui fazemos, essas questões estruturais (salário e carreira) são para este blogue muito mais importantes que a discussão sobre as licenciaturas falsas e as declarações do ex-secretário de estado sobre o ex-licenciado ex-chefe de gabinete (assunto que já fedeu que baste). Quem quiser ler mais alguma coisa sobre isso pode mesmo assim ir ao Expresso que tem a melhor síntese. Outra notícia a que escolhemos hoje não dar destaque são as atividades de tipo propagandístico e pseudo-participatório do Ministro, na sexta-feira, que pessoalmente, acho que já entram no domínio de folclore para entreter. Especialmente, se ainda não sabemos qual o critério legitimador das pessoas que foram ouvidas (sejam alunos ou outros quaisquer). A TVI fez notícia e podem ver aqui.

imageAntes de terminar, destaque às opiniões de Richard Zimmler sobre a ligação entre o que se passa nas eleições americanas e os problemas educativos. Às tantas, uma reflexão para Portugal, em que o problema não é tão grave, mas os níveis de ignorância publicamente exibida estão a subir (vejam-se os comentários na internet e redes sociais):

“Existe um fenómeno estranho nos Estados Unidos que quase não existe na Europa: a palavra intelectual tem uma conotação negativa. Quem tem mais conhecimento é uma pessoa suspeita, duvidosa. Temos [nos Estados Unidos] muitos milhões de pessoas – e isto vai parecer muito estranho – que valorizam a sua própria ignorância. Que se orgulham de ser ignorantes, de não conhecer o resto do mundo, de não conhecer bem os temas mais importantes e que realmente só valorizam os Estados Unidos como o país mais poderoso, mais interessante, com gente mais rica”


Notícias de licenciosidades no serviço público

O meu tio Adelino Nemésio não era licenciado. Era um homem cultíssimo, com uma erudição latina invejável e um domínio do português incrível. Não se licenciou porque não calhou. Nem por falta de dinheiro para estudar, nem de capacidade sua. Não calhou. Tinha um sentido fino de ironia. No dia em que acabei a licenciatura, tinha ele mais de 80 anos, fui lá a casa para comemorar. O primeiro movimento que fez foi agarrar-me no braço e levar-me à frente do prato cerâmico, que tinha pendurado na parede (que hoje é meu) e que mostro na imagem, e dizer-me com ar gozão: os meus parabéns, és um burro carregado de livros.

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Estas semanas ficamos a saber que andam a aconselhar o Governo uns burros que nem os livros carregaram mas gostam de nos enganar sobre isso.

Os pseudolicenciados que esta semana conspurcaram a nossa vida política (que já não estava muito asseada) e nos fazem desviar energia de assuntos realmente importantes, seguiram a linha ilustre do que já fizeram um primeiro-ministro e um ministro. A esses “anexos ao governo” tinha feito bem ter conhecido o meu tio.

Não se teriam em tão boa conta e veriam as coisas com mais perspetiva. E para que raio precisavam das licenciaturas, se não as tinham realmente? Como dizia Ricardo Araújo Pereira: achavam que não íam ser apanhados? Maus estudantes e burros….

Ao meu tio, também não lhe teria custado nada chamar-lhes burros, além de aldrabões.

Anjos que caem

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Talvez valesse a pena, para entendermos o quadro fundo deste assunto deplorável, lermos de novo a Queda de um Anjo de Camilo (o meu tio Adelino Nemésio também era fã) e verem como ele caracterizava os “anexos” à política lisboeta e as suas veleidades. Leia-se, por exemplo, o retrato que fazia do rapaz que ía ser o opositor da personagem principal, numa candidatura a eleições:

“(…) O ministro do Reino redobrou instâncias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha escrito revistas de espetáculos, e recitava versos dele ao piano, cuja falta ou demasia de sílabas a bulha dos sonoros martelos disfarçava.”

Os poetas de Lisboa, agora já não são pianistas. Matraqueam smartphones. Fazem promessas de empreendedorismo de bola de sabão em posts das redes sociais. Mas, como se viu esta semana, o quadro nem é muito diferente. Nuvens de fumo, muita ilusão e intriga q.b., longe dos reais problemas das pessoas.

No contexto político futuro, o que o Ministro da Educação há-de dizer, quando disser alguma coisa, será relevante, mesmo com a confiança reafirmada do PM.

01238b0d0-c075-497d-a2c5-df4c1e63f2c3-r-mzuwedi1maParece que tem o ex-secretário de estado à perna (mas a baralhar-se, como se viu hoje no Expresso). Lamento que a treta, dada em desculpa pelo ex-chefe de gabinete, licenciado de aviário a dobrar, não seja bem esmiuçada.

Veio queixar-se de vingança e má fé de outros. Seria assim se alguém negasse o que fosse verdade. Neste caso, 2 licenciaturas, sem ter sequer um ano de cada, é capaz de ser demais.

Veja-se, por exemplo, a notícia do Porto Canal, que passou ao lado de muita gente, de que, já em 2011 (há 5 anos) se dizia do senhor em causa ser licenciado, num louvor publicado no Diário da República. Não leu o louvor que lhe fizeram? Não reparou que precisava de ser corrigido? E volta a acontecer em 2015 e não repara? Dois enganos a diplomar quem não teve diploma nenhum, é muito azar….

E tanto se me dá que o senhor fosse ou não licenciado. Pergunto-me é se punha o mesmo rigor nas outras tarefas de chefe de gabinete, que lhe pagávamos, que pôs na organização da própria informação curricular para publicar no jornal oficial.

Opiniões sobre isto há muitas, mas destaco só as que foram publicadas no JN de hoje ou no CM, noutro ângulo. A temática chegou a quase todos os cantos do país até em jornais locais.

Outras notícias realmente importantes.

O tema cómico, e com um lado teatral de queda em desgraça, ocupou muito espaço noticioso, deixando de lado questões que podiam ser bem mais importantes no dia.

O assunto até é cansativo e inesgotável neste país da cunha e da licenciosidade concursal.

O site noticioso Educare dá, por seu lado, destaque a um estudo sobre o perfil dos ministros que passaram pela educação desde o 25 de Abril.

Diz a notícia que “não há caso de um ministro da Educação que tivesse estudado numa escola técnica. Mais: nenhum dos 27 titulares do ensino em Portugal tinha licenciatura em educação ou pedagogia, apenas dois deles fizeram pós-graduações na área.”

Um paralelo com a Justiça ou a Saúde seria bem ilustrativo (por exemplo, na Justiça, desde que me lembro, e tenho memória longa, são juristas, ou advogados, ou professores de Direito ou magistrados). Na educação não há gente da educação.

Algo bem interessante, neste dia em que se vem falando tanto de habilitações.

Seria engraçado fazer um estudo destes sobre diretores de escolas e ver quantos deles, realmente estudaram para isso, antes de o serem, ou quantos só têm requisitos para tal, porque já passou muito tempo a serem.

Muita gente que fala das fraudes dos pseudolicenciados tem pouca memória e esquece estes assuntos conexos. Por meu lado, ainda me lembro, há uns anos, de um caso de um diretor de escola que nem a licenciatura tinha terminado.

Estão a ver como vem a propósito? Podem ler a notícia (que tem anos) aqui. Pelo Minho diz-se que quem cospe para o ar…..

Os dinheiros da educação e o país esquecido

Viele Euro GeldscheineMas, lá está, muitas notícias importantes ficaram para trás. Por exemplo, o orçamento de educação de 2017 que, alegadamente será menor que a despesa deste ano de 2016, diz a TSF, com direito a críticas da Fenprof ao Governo e aquele tom, sempre moderado e equilibrado, e nada trauliteiro, que caracteriza o Observador nestes assuntos orçamentais contra a geringonça.

Mas, picardias esquerda/direita à parte, quer-me parecer que PS e PSD estão mais próximos (e, no caso da educação, bem juntinhos para tramar os profs, se dormirmos na forma). Noutras muitas coisas votaram juntos no Parlamento, mais do que julgávamos. Umas 70 vezes, ao longo do ano, o arco da governação substituiu a geringonça, notícia de hoje.

estudantescOutra notícia importante, pela confirmação de que a estupidez humana é mesmo infinita, foi a praxe ocorrida numa praia, perto da linha de rebentação, por estes dias. As formas para cozinhar pseudolicenciados do futuro já estão a ser preparadas e estes meninos não aprendem mesmo nada. O Governo quer explicações e a escola vai ter de as prestar, dizem os jornais.

Muito me custa ver que algum ensino superior está reduzido a isto: praxes maradas e licenciaturas marteladas.

E, na linha daquilo que seriam notícias a valer a pena destaque maior, refira-se um debate na Assembleia Municipal de Odivelas em que alguém resume o estado da educação do concelho, como sendo do Terceiro Mundo. Li o texto e pergunto-me se será exagero.

E o problema aí, não é chegar à licenciatura, mas apenas conseguir ter um 1º ciclo digno. Por isso é que os corredores de Lisboa e os meninos armados em doutores estão longe do país que tem problemas. E Odivelas nem é assim tão longe de São Bento, do Rato ou da São Caetano à Lapa. Até dá para ir de metro….


Taxis, notícia do dia: e se a uberização fosse na educação?

Os motoristas não seriam mais educados e o ministro não precisava de apelar a menos chumbos.

Num sistema baseado na satisfação do consumidor não haveria chumbos…..Não seria melhoria, acreditem.

taxiImaginem a conversa lá para 2025, ou antes (duas mães dentro de um robotaxi) :

“- Os meus filhos não vão à escola da cidade. Inscrevi-os na Uberescola (ainda hesitei face à alternativa da Escolafy). Têm aulas na net com um professor virtual. Posso escolher a aparência do professor, a voz, se é homem ou mulher, obeso ou em forma, e os miúdos até o classificam no fim de cada aula. Já despediram uns 3 ou 4 com as suas avaliações e os professores vivem aterrorizados com a perspetiva de terem pontos negativos e irem para a rua. Um deles levou uma “estrela negra” (dá despedimento) por ter exigido que o tratassem pelo nome. Validei a avaliação feita pelos miúdos porque o professor insistia em falar inglês …na aula de inglês. Os miúdos andam interessados neste passatempo e divertem-se (e não chateiam). Como se paga pouco à hora aos profs. é muito mais barato que a escola antiga e ainda sobra dinheiro do contrato de prestação de aulas à hora que o Estado me paga para os educar. Oferecem muito material promocional para tatuar e deram-me uma viagem à Arábia Saudita.

-Parece que os professores da escola da cidade vão fazer uma manifestação contra isso ….

-Não vai dar nada. Desde que os taxistas perderam a luta contra as plataformas de transporte na década passada (Uber e outras) que estas lutas contra a uberização nascem e, no fim, o setor onde elas acontecem fica extinto, dominado pelas plataformas. Os que lá trabalham ou uberizam ou deixam de comer. As plataformas já controlam uns 60% da economia de serviços.”

Se acham que os taxistas são grunhos (e muitos foram hoje) não vejam o mundo só a preto e branco e pensem na fúria que teriam se fosse o vosso emprego a ser destruído pelo suposto progresso (que não está na forma como se transporta mas como se rege o mercado e a relação consumidor/prestador do serviço).

E, às tantas, há de chegar o dia da total desregulação dos professores e da educação. Se os taxistas ainda podem parar o trânsito e armar o banzé de hoje, que poderão fazer os professores?

Por isso, se a Uber é mesmo moderninha e os taxistas são só grunhos, esperem pela Uber escola ou o que seja. E quando as plataformas robotizarem todos os negócios que controlarem, muita gente perceberá, tarde, que o problema não era só uma questão de consumo.

Conduzir na Arábia Saudita(Nota: quem quiser perceber a referência à Arábia Saudita na fantasia acima pode ler aqui o insuspeito Finantial Times e espantar-se como pode uma empresa de prestação de serviços de mobilidade, baseada na condição livre de automóveis, ser detida, em parte significativa, por capital de um país que proíbe as mulheres de conduzir. Talvez por serem boas clientes potenciais….ou por outra explicação menos inocente. Paradoxos da liberdade….)

Mas que têm taxistas a ver com educação? E se a uberização for estudar em casa?

Não cabe aqui realmente dar tanto destaque a notícias de táxis e de problemas de fora do setor da educação, mas talvez o assunto não seja assim tão distante e a fantasia inicial talvez possa chegar um dia. Por muito que alguns estranhem, estou pelo lado da razão dos taxistas (mesmo se acho muito mal que irracionalmente se partam carros e se façam motins).

Mas o 14 de julho de 1789 (embora do século XVIII) também foi um motim e sem ele não poderia estar aqui a escrever ….

Para os que se interessarem pelas razões da minha simpatia pelos interesses dos “grunhos” deixo um texto de um jurista canadiano,de há meses, que me ajudou a pensar o tema numa perspetiva de direitos humanos. Texto em português, registo um do Le monde Diplomatique que outros blogues também destacaram hoje.

Vão ambos contra a corrente próuber, tão popular na comunicação social, porque quem resiste é gente tão pouco simpática como os reacionários e brutos taxistas.

Sem querer fazer o paralelo direto entre taxis e escola, mas estas coisas surgem conforme vou batendo no teclado, vejam, por exemplo, a difusão das ideias de escolarização doméstica.

children-teaching-the-cat-to-read-jan-steen-1663-oil-on-panel-18inc-x-14-held-by-kunstmuseum-basel-switzerland-894x1024O DN dizia hoje que o número de crianças que não vão à escola, porque os pais os ensinam em casa, cresceu 10 vezes. Chamem-me grunho mas tenho dificuldade em achar que isto seja assim um progresso tão significativo. Ou sequer progresso. E claramente é coisa à moda do século XVIII….

Há quem ache, noutro campo, que partos em casa é melhor que partos no hospital. Não me entra tal ideia.

E na minha grunhice, não consigo largar o paralelismo.

Na reportagem especial de ontem na SIC, um miúdo sujeito a escolarização doméstica fala disso e o balanço, de quem sabe por experiência, não parece ser dos melhores. Vejam o olhar triste do pianista no vídeo a meio da peça.

A opção das aulas domésticas continua a não ser consensual (parece que não sou o único grunho). Em entrevista ao DN, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos defende que as crianças “gostam de estar na escola” e é lá que devem estar. “O ser social que é o humano, a partir dos 6 ou 7 anos, gosta de estar com os seus pares a maior parte do dia”, diz.

Coisas horríveis pela Grécia e o ministro anti-chumbo

Pela Grécia houve manifestações de grunhos mesmo grunhos contra a ida para a escola de crianças refugiadas. E foi preciso escoltá-las com a polícia à escola. Coisas que julgaríamos já não ser possíveis.

Para não ficar o sabor amargo, registe-se, por Braga, a Casa do Professor que vai liderar um projeto europeu de formação contínua.

O destaque maior devia ter ido, contudo, para a recomendação antichumbo do ministro da Educação, que fez a primeira página do I de hoje. Diz o jornal, tendo como fonte diretores de escola, que o Ministério da Educação quer travar o ‘chumbo’ dos alunos e facilitar as passagens de anos escolares.

“Para isso está a aplicar medidas e a dar orientações oficiosas às escolas – semelhantes às que foram transmitidas durante o governo de José Sócrates – para que a retenção dos alunos seja o último dos recursos e que seja considerada “excecional”. (…) “Resultado: há escolas onde os alunos transitam de ano escolar com sete notas negativas, como é o caso do agrupamento Poeta Joaquim Serra, no Montijo, já noticiado pelo “Público”.

Por engano de um jornalista, que confundiu duas terras da margem esquerda do Lima,  estive, em 2009, envolvido sem culpa nenhuma num desses casos noticiosos de alunos passados com 9 negativas e não gostei da sensação.

Tenho para mim que muitas ideias sobre os custos e problemas dos “chumbos” são tão consistentes como as dos partos em casa. Deve ser grunhice minha, mas o assunto fica para outro dia.

O Ministro já desmentiu a notícia? Até à hora em que se escreve este texto parece que não.Esperemos então, não faltarão oportunidades de falar disto.


Mais de metade dos professores tem horário reduzido (?!), diz o Público. 2

Hoje, neste resumo diário de notícias, só tive olhos para a 1ª página do Público. Fiquei meio atordoado com o “horário reduzido de menos de 20 horas semanais”.

wp_20161003_14_31_23_proO Público mudou e normalmente gosto das mudanças do meu jornal. Mas o meu dia de leitor começou mal…porque falou mal dos professores, sem consistência nenhuma. Chamou à primeira página uma notícia, com o título acima, e que começa assim:

“A maioria dos professores do 3.º ciclo e ensino secundário estão menos de 20 horas por semana nas salas de aulas, segundo revela uma análise sectorial do perfil do docente em 2014/2015, divulgada na sexta-feira pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Ou seja, mais de metade dos cerca de 73 mil docentes destes níveis de ensino tem horário reduzido.”

Lida na forma simplista (e para a qual o jornal não se preveniu, especialmente com o título usado) e como alguns comentadores, na própria página de internet do jornal, leram, isto quer dizer que os professores (num país em que o Presidente da CIP acha que trabalhar só 35 horas é uma tontaria) são uns madraços que trabalham menos de 20 horas por semana.

O Público errou…

b1O Público errou ao dizer isto, mesmo se se pode defender que foi com base na DGEEC….

E, leitor diário do Público, mesmo mantendo com ele uma relação de ódio e amor, fico triste.

Era estudante quando o jornal começou e acompanhou-me nos grandes acontecimentos que o mundo viveu na minha idade adulta. A Guerra do Golfo, as mudanças da União Soviética, o alargamento da Europa, sismos, desastres, vitórias desportivas, eleições, a crise. O Calvin, o Bartoon, as belíssimas fotografias, o grafismo diferente de tudo o que se fazia, o livro de estilo, a capacidade de inovar: tudo isso faz com que leia o jornal todos os dias, ainda em papel, mas também no digital.

Fiquei feliz com a ideia de que hoje começava uma nova mudança, com um novo diretor e com o regresso às páginas do fundador Vicente Jorge Silva a cuja família de fotógrafos notáveis – ver aqui – , que não contacto há décadas, me liga, contudo, gratidão pessoal emocionada, pela solidariedade e apoio humanos que deram à minha mãe (e à criança que fui), em tempos muito difíceis.

O ato de, às 7h45, comprar, e ler com o café, o jornal, como faço todos os dias em que tenho aulas, podia hoje ter tido um lado de renovação e gerar satisfação por um aspeto relevante da minha vida cultural iniciar mais um momento de mudança.

Tive um dos dias de ódio: acontecem muitas vezes quando o Público, que é dos poucos jornais que tem espaço regular e consistente para temas de educação, diz asneiras. E, desta vez, na primeira página.

Degradar o trabalho docente: um velho passatempo noticioso nacional

Há uns anos foi a conversa tosca das faltas dos docentes, em que os jornalistas perceberam mal as intenções por detrás de se andar a contar e fazer notícias das faltas docentes, agregadas aos milhares (e esquecendo nas contas as licenças de maternidade). O namoro do jornal com Walter Lemos, Maria de Lurdes Rodrigues e Albino Almeida fizeram-me ficar bastante ciumento, como leitor fiel. O problema era semelhante ao do texto de hoje: solidificar, sem base, a ideia de que os professores e educadores são gente cheia de privilégios e vícios, que trabalha pouco, folga muito e tem horários de trabalho reduzidos.

Clara Viana é uma muito boa jornalista de Educação que não cai nessas coisas: informa-se, estuda, vê com perspetiva alargada, procura ângulos diferentes. Hoje, não sei porquê, não percebeu que o título da peça e a sua cabeça estão em contradição com o conteúdo real do caso e até têm contradição com partes restantes do texto. Começou por se basear num relatório da DGEEC mas, depois, não saiu dos limites estreitos da visão burocrática, para ver mais longe.

Se os professores estão menos de 20 horas nas salas de aula todas as semanas, o que andam a fazer no resto das suas 35 horas de trabalho? E que fazem com essa redução para menos de 20 (na verdade 22) horas? Preguiçosos….. (disse o Senhor Silva que comentou a notícia).

Afirmação estatística falsa

O problema é que a frase do início do texto é objetivamente falsa. “Torturem os números que eles confessam”, já dizia o título do livro que os jornalistas deviam todos ler.

Aqui os números confessaram pecados que não existem e que, em alguns casos, são penitência.torturem-os-numeros

Para se perceber porquê, a explicação é longa e passa por saber o que se entende por “estar nas salas de aula”.

Curiosamente, quem passe por uma escola portuguesa descobrirá que uma boa parte dos professores, mesmo com a dita redução para menos de 22 horas (a base de partida não são 20), estão em boa parte do período de redução, dentro de salas de aulas, só que, embora estejam a dar aulas, e qualquer cidadão ache que as estão a dar, se as observar, o que fazem não são aulas do ponto de vista da definição burocrática…… (e são essas “definições” que a DGEEC conta nas suas “estatísticas”).

Muito bem, um comunicado da FENPROF, que não teve grande destaque nas páginas do Público, chamava, há dias, a atenção para este problema. Valia a pena ler esse, e outros anteriores, antes de fazer o título.

Trump também não fugiu aos impostos, do ponto de vista legal e estatístico, mas também não os pagou……

Mas o que é uma aula? E estão mesmo “fora das salas de aula”? Há aulas não letivas….

Em Portugal, há uma definição legal unívoca do que é um ato médico. Mas não há definição legal rigorosa do género, que permita distinguir o que seja realmente “uma aula”. E as “aulas” não acontecem só “nas salas de aulas” e, as mais das vezes, nas horas de redução de aulas, os professores estão em “salas de aulas”.

Por exemplo, dar uma aula de apoio a matemática cabe na definição do que se faz nesse tempo de redução letiva, mas é aula ou não?…. Não vos maço com a transcrição das normas regulamentares destes assuntos que fazem doer a cabeça, com frases inteiras que resultam em que haja “aulas não letivas”  ….. Só por curiosidade, que me ocorreu agora, sabiam que há escolas em que professores, que acompanham visitas de estudo durante 10 ou 12 horas, têm de entregar justificações de faltas por conta das aulas que, por causa desse trabalho letivo, não deram? Uma visita de estudo não é aula?

Se um médico estiver sentado a ler um livro, para preparar uma cirurgia, no senso comum social, está a trabalhar. Se um professor fizer o mesmo, está com “horário reduzido…..”

Por isso, a frase do título é falsa: até mesmo os que tem horário letivo reduzido estão, em boa parte das reduções, não em casa, mas a trabalhar “em salas de aula”. A dar apoios, (a grupos de 5, 10, 15 ou 20 ou mais alunos), a fazer reuniões de preparação de aulas, a substituir colegas em aulas, a desempenhar cargos pedagógicos ou a gerir atividades extracurriculares, com mais alunos do que algumas turmas que seriam “aulas” das “letivas”.

Não dizer isto, não explicar estas subtilezas nominalistas da realidade das escolas e de como a estatística é feita, e começar a notícia como se fez, é escamotear o real. Redução simplista de uma realidade complexa. Daniel Innerarity, ontem, no Público explicava bem o processo.

Para que efeito aparece esta notícia (que o DN também reproduz citando o Público), não sei. Pela DGEEC não ponho as mãos no fogo, em matéria de rigor estatístico, mas confiava que a Clara Viana não se deixaria enganar assim.

Um resumo da realidade real….

O leitor médio que não conhece as subtilezas do Estatuto da Carreira Docente e da cascata de regulamentos anexos, e que leia, com aquela invejinha irracional que graça pelos comentários, dirá logo (houve um que disse mesmo): se estão menos de 20 horas nas salas de aulas andam a preguiçar! A gente paga-lhes para dar aulas e eles dão menos de 20 horas por semana num horário de 35.”

Um dos pontos mais discutidos da configuração da carreira é essa questão do horário docente. Em todo o mundo civilizado, o horário docente tem 2 partes: as aulas e a preparação. Em Portugal, as aulas chamam-se componente letiva; a preparação, componente não letiva individual. Assim, um horário docente tem, no caso do 2º e 3º ciclo, de forma simplificada, 22 horas letivas (medidas em minutos que incluem os 10 minutos de intervalo dos alunos em cada hora). No 1º ciclo são mais, 25 horas. O resto, até às 35, é preparação, reuniões e tempo não letivo a prestar no estabelecimento.

Quando o Estatuto da Carreira foi feito, há muitos anos, sendo os professores licenciados, foi negociado que, em vez de atingirem o topo salarial das carreiras de outras categorias de licenciados da função pública, fossem compensados de terem salários de topo mais baixos, reduzindo ao horário letivo (aos 40, 2 horas, e sucessivamente, em intervalos de 5 ou 10 anos, até ficarem no fim com 14 horas letivas). As 8 horas de redução (ou, menos, conforme as idades) seriam acrescidas ao tempo de preparação. Com Maria de Lurdes Rodrigues (com as carreiras congeladas e a miragem de aumentos salariais), a carreira docente foi ainda agravada com a colocação dessas reduções a começar aos 50 anos, e não aos 40 (a peça fala disso pela voz de Filinto Lima), e a obrigação de serem prestadas na escola.

Os professores têm assim hoje redução do horário letivo (o tempo letivo sendo o que dão em aulas a turmas regularmente constituídas) mas, nessa redução cabe quase tudo e, muitos, prefeririam até prescindir dela a ter de fazer o que está destinado para essas horas. Por exemplo, mesmo os bons gestores da coisa pública, que andam sempre tão preocupados com o orçamento, acharão que ter professores a vigiar cantinas é bom uso de dinheiros públicos (especialmente se compararmos o seu custo hora com o dos assistentes operacionais, que tanto faltam nas escolas)?

O assunto é assim mais profundo do que o título e a cabeça da notícia sugerem….

A citação de Filinto Lima, mal contextualizada, mas que podia ter sido útil, se aprofundada, não permite deslindar totalmente as contradições.

Não sei se quem começou lerá isto até ao fim, ou, sequer, se a Clara Viana o lerá até aqui, mas depois de o escrever, fica-me a esperança de que o Público corrija a 1ª página de hoje, me passe o dia de ódio e amanhã veja a coisa menos cinzenta e volte ao prazer de ler o jornal.

Quem sabe, até pode ser que este desabafo, sirva de pretexto para alguém ver porque é que o comunicado sindical, que citei acima,  tem tudo a ver com o que está escondido na 1ª frase do texto (que insisto, e acho que expliquei porquê: é objetivamente falsa). Às tantas a divulgação dos dados até pode nem ser inocente, quem sabe….

A maioria dos professores que têm redução letiva não está “menos de 20 horas nas salas de aulas”. Estão, em muitas semanas, muito mais que 22 horas, na escola, e, na sua maioria, trabalham bem mais que 35 por semana (experimentem uma semana das minhas, em que tenham 120 testes de 5 ou 6 páginas para ler, carregadinhos de erros ortográficos….).

Se quiserem trocar isso por um horário das 8 às 17 pode ser bom negócio para mim (especialmente face ao salário pago, e congelado há 10 anos, com cortes – reduções salariais, as tais que a DGEEC esquece – pelo meio).

Assim, talvez já não trabalhasse ao fim de semana…..e tivesse mesmo horário reduzido face ao meu atual…..


Início do ano letivo: falta de notícias, a razão dos sindicatos em Caminha, côdeas, turmas mistas e roupa suja

Fazer destaques das notícias sobre este início de ano letivo é difícil. Destaco, contudo, uma reportagem de sexta-feira sobre a situação da cooperativa que tinha contrato de associação em Vila Praia de Âncora, Caminha.

O Sexta às nove da RTP deu largo destaque aos trabalhadores que a cooperativa, que decidiu fechar, quer despedir, usando o subterfúgio abusivo da caducidade dos contratos e pagando-lhes, como diria a minha avó, uma côdea

CodeasOuça-se com atenção uma funcionária que, a meio da peça, pergunta, com candura e acertando no alvo: no tempo das vacas gordas entrou na cooperativa muito dinheiro e agora não há dinheiro para indemnizar?

Os sócios decidiram encerrar, a um par de dias do início do ano, ignorando os 900 mil euros que o Estado lhes pagaria para o 8º e 9º anos e secundário. A escola pública correspondeu aos alunos e já estão a ter aulas, no momento em que escrevo. Os professores, na sua maioria esmagadora, já estão colocados, mas os trabalhadores não docentes estão em situação bem pior.

Aquando do folclore das “camisolas amarelas” apareci em reportagens e publiquei textos a defender a escola pública na questão dos contratos inúteis e redundantes (e falando desse caso na terra onde trabalho).080701601300021

Fui a uma Assembleia Municipal de Caminha lembrar os fartos proventos passados da dita cooperativa. Deve ser bom ser empreendedor privado e defender energicamente as vantagens da iniciativa privada: uns “empreendem” e o Estado paga. Quando o Estado decide, legitimamente, pelo interesse público, os empreendedores amuam e fecham a porta, deixando na mão aqueles com cujos interesses encheram a boca: os alunos. E tentam furtar-se aos direitos dos trabalhadores.

Direitos dos trabalhadores: os sindicatos têm razão.

Nesses dias de polémica, houve ocasiões em que, ao estacionar o carro no parque da escola, ouvi ruídos, gritados ao longe por uns vultos (que fiz por não conseguir identificar), que berravam uns dizeres sobre a virtude da senhora minha Mãe. Se fosse viva ironizaria, como muitas vezes a vi fazer, a apelar a que me portasse bem, porque era a fama dela que pagava….

Como a coisa não passou de umas berrarias, compreendo a raiva e até relevo a falta de educação e respeito. Mas eu defendia então um interesse público legítimo, com uso da minha liberdade de expressão.

Em nome disso, tem de se dar hoje aqui destaque à luta dos trabalhadores. Numa rádio local (Rádio Alto Minho, em Viana do Castelo), o sindicato que os representa esteve ao ataque e muito bem lembrando os deveres de quem decidiu desertar e tentar fazer tábua rasa do Direito.

Parabéns ao (s) Ministro (s)….

Esta é uma das poucas notícias não rotineiras do início deste ano letivo. Até analistas profissionais estranham. No seu Barómetro de notícias na TVI 24, Miguel Crespo, do ISCTE, diz mesmo: “Não teve destaque: O arranque do ano letivo parece ter sido o mais calmo em muitos anos.” Mais à frente: “em 2016, apesar do arranque do ano escolar ter obtido 4,4% dos destaques da semana na comunicação social (…), só uma minoria era relativa a problemas e dificuldades estruturais. Olhando para as notícias, temos uma maioria de professores, alunos e pais satisfeitos com o regresso às aulas.”

Tiago Brandão pode assim habilitar-se a parabéns do resto do Governo. O PSD e o CDS tem é de dar os parabéns a Mário Nogueira, que dizem ser o ministro na sombra.

Pelos vistos, o ministro oculto governa bem o barco e evita tempestades.

Cadeados nos portões de escolas: as “turmas menos” no país da “turma mais”

CADEADO-E-CORRENTE.

Em Vieira do Minho, uma turma que junta alunos de 2 anos, veio perturbar esta paz santa com o retorno pontual de escolas fechadas a cadeado e com destaque, entre outros, na RTP, Rádio Renascença, JN e DN.

Turmas assim há muitas. No ano letivo passado existiram até 226, com os 4 anos. No final do ano, o Público destacava que essa solução não era tão má como o senso comum parece crer, e no DN mostravam-se mesmo os dados estatísticos gerais do país. Dizia o jornal que eram milhares as turmas e os alunos nessa situação. Neste tempo em que se fala tanto de sucesso e se anda a dividir turmas com base em “homogeneidades relativas” e outras balelas pseudoteorizadas isto é um problema prático e de grande impacto na opinião pública, a merecer mais cuidado.

Escola gratuita nos manuais? E as resmas para fotocópias?

E nestes resíduos noticiosos de início de ano, registe-se a análise do Expresso sobre a reutilização dos manuais. Ainda nesse tema dos livros, uma notícia algarvia sobre uma feira do livro escolar que deu origem a queixas de deputados por alegada venda ilegal de livros aos alunos de uma escola.

À atenção dos senhores deputados deixaria um assunto, mais premente talvez que o custo dos manuais.

Que dizem dos pagamentos e “doações” que algumas escolas públicas do 1º ciclo e jardins de infância ainda exigem aos pais para resmas de papel e até papel higiénico?

Papel higiénicoOu bem que a escola é gratuita e o Estado as dota com orçamento, ou bem que até se paga a higiene. Se forem ver, encontram ainda muitas em que se apela à doação de papel higiénico ou de resmas para fotocópias (que se anexam aos cadernos, em doses brutais de fichinhas e testinhos, empastadas em cola e que os pais pagam em acréscimo aos manuais).

Para o tema da gratuitidade, uma pesquisa aos sítios onde isso ainda se passa seria bem útil. Em 30 segundos, googlei e encontrei muitos exemplos das resmas… Fica um, tirado à sorte, e que teve o azar de ser o primeiro da listagem da minha pesquisa. Mas há mais…

Como os alunos não sabem tirar fotocópias, se cada aluno trouxer 1 resma de 500 folhas para que quererá uma professora com 20 ou 25 alunos, mais de 10000 folhas?

Resma de papelRealmente ainda há muita coisa a melhorar na escola pública. Vejam, por exemplo, este caso noticiado pela RTP de alunos que andam 3 horas em transportes para ir à escola.

Não sendo pessimista, mesmo vendo os problemas, há coisas a festejar. Por exemplo, a notícia das doenças infantis que o país erradicou, com investimento público e com uma gestão adequada de recursos: o sarampo e a rubéola estão erradicados em Portugal mas as vacinas continuam a ser imprescindíveis, como lembrava hoje o Observador (jornal que se destaca aqui, entre outros, porque muitas das lunáticas teorias antivacinas têm dedo de ultra-liberais anti-Estado a que, felizmente, ao contrário do que acontece noutros campos, este jornal não deu destaque).

Saúde Pública, vacinas e escolas, sintomas de todo um programa de progresso do país. Começou nos anos 70 e, com mais intensidade após o 25 de Abril, fez-nos reduzir a mortalidade infantil a níveis espantosos.

A máquina de lavar: vacina contra o absentismo escolar?

As escolas são vacinas contra a ignorância e às vezes precisam de algum engenho para funcionar.

Não resisto a partilhar esta notícia, que me chegou via Brasil, pelo jornal Folha de São Paulo. Numa escola dos EUA, a diretora descobriu que o absentismo começava pela dificuldade em ter roupa lavada para lá ir. Com algum engenho e máquinas de lavar doadas, resolveu o problema, lavando na escola a roupa dos alunos. O projeto foi alargado a muitas outras escolas americanas e efetivamente promoveu o sucesso sem fantasias.

33-1238019826RNNxQuando ouço as esdrúxulas ginásticas horárias e curriculares do “turma mais” (e outras coisas que tais) penso que a simplicidade pragmática produz melhores resultados. Ironicamente já vi fazer isto numa escola, em Portugal, com miúdos que moravam num bairro de barracas, mas não vi notícias disso no meio da verborreia portuguesa sobre promoção do sucesso.

E para terminar, lembremos o fulcro do que se faz todos os dias nas escolas: celebremos o sucesso nas olimpíadas ibero-americanas da Biologia de um grupo de alunos portugueses (de Ermesinde).

De certeza que não precisam de apoios sociais para lavar a roupa, mas quem sabe, se não serão eles os criadores das vacinas futuras?


Notícias da educação: um dia no país do faz de conta … 1

Começo por um texto do Público de sábado em que Luís de Sousa, presidente da TIAC, Transparência e Integridade, associação cívica escreve sobre o Código de Conduta que o governo fez por conta dos azares das viagens da GALP. Curioso o título: Faz de Conta.

Como se perguntou neste blogue: e se um professor aceitar uma prenda de 150 euros?

bandeira-da-espanhaMuitas vezes este é um país de faz de conta e não é só nessas condutas. Em Espanha, atua-se a sério: um tribunal multou pais em 1440 euros por 247 faltas acumuladas de uma criança. A notícia é do Diário de Notícias de hoje, citando jornais espanhóis. Em Portugal o Estatuto do aluno faz de conta que há multas.

Não ir à escola, ou sistematicamente faltar, ou precisar de ser suspenso por hábito, pode ou não ser fruto de (ir)responsabilidade dos pais? Devia ou não, poder ser abrangido pela ação penal? Quem diz sim, defende multas, ou o que seja, desde que funcione. Quem diz “não, nunca é assim”, acreditará no Pai Natal?

A escolaridade é obrigatória. E qual é a sanção para quem acha que não é? Ou quem acha que andar na escola é, para os seus filhos, sinónimo de andar à pancada aos colegas, assistentes ou professores?

Num país em que agredir um animal (e bem) dá sanção penal, qual é a pena para quem quotidianamente priva os filhos de aceder à escola?

Fez-se uma petição, que parece que ganhou a causa, mas a lei que existe sobre isso foi mal feita. A imagem com que se fica dos deputados é péssima, em geral. A sessão do parlamento a que assisti, por causa da petição, mais parecia uma aula de indisciplinados. Talvez por não ouvirem bem, por falta de atenção, ligaram pouco às subtilezas da questão.

Sala das Sessões Os deputados da esquerda e os da direita, não perceberam que não chegava escrever no Estatuto do Aluno, com pouca gramática, umas ocas balelas proclamatórias sobre responsabilização e pedagogia corretiva.
E quantas das propostas cidadãs acolheram os deputados para essa lei? Poupo o trabalho de ir ver: pouquíssimas. Até nenhumas. As poucas que leram, distorceram-nas, até serem inúteis. É esse exatamente o caso das multas aos pais, mesmo os criminosamente desleixados, que passaram a coimas e que só estão no Estatuto do Aluno para inglês ver. Adiante.

Outras notícias do dia em que faz de conta que arrancam as aulas

O JN faz eco das notícias governamentais que dizem: os professores estão colocados a tempo. É verdade, em geral, mas será caso para tanta pirotecnia? A subtileza do ministro (todos os solicitados pelas escolas”) diz tudo sobre o valor desta festa.Na educação especial, será que estão os que fazem falta? Todos?

O Público ecoa a toada ministerial. Ouviu diretores, que lembram que as aulas só começam mesmo na quinta-feira. Filinto Lima, presidente da Associação de Diretores, recorda que “como não querem arriscar, adiam o arranque lectivo.” 

Ângulo parecido pode ver-se na SIC ou TVI,  a qual fala dos 2900 auxiliares que renovaram contrato. O ministro fala de professores (aí correu razoavelmente), mas tem de defender o flanco nos assistentes operacionais. As associações de pais lembraram-no no início do dia. Jorge Ascensão, um homem sensato à frente da Confap, depois dos anos alucinados do presidente da Assembleia Municipal de Gaia, falou disso na RTP.

Tarde finda, o Governo lançou a girândola de efeito, na sessão de foguetório, que a TVI apanhou: notícia, já requentada, de 200 milhões de obras em 200 escolas. Dá um milhão a cada. Uma festinha perante a festança socrática. Mas venham eles. No meu agrupamento já pedíamos obrinhas há muito tempo.

Sonsice, espertezas saloias e crendice

A futura vereadora de Lisboa (esperemos que não da educação), Assunção Cristas, diz que o arranque de ano está a correr bem porque há um sindicato da CGTP a mandar no ministério da educação e, por isso, a pouca contestação é natural. Às tantas, ser mandado por quem sabe alguma coisa, poderia ser melhor do que utopias desconexas. Cristas mostra que não sabe o que dizer a sério sobre escola, apesar da prole numerosa.

A sonsice também foi tema no PSD para o alegado potencial líder, nas jornadas parlamentares, iniciadas, como se impunha, com uma visita a uma escola.Luís Montenegro acusou de sonsice  quem pede propostas ao partido. Coisa para a qual um partido realmente não serve: fazer propostas….

Depois da sonsice, o mesmo político, horas depois, afirmou que António Costa sofre de esperteza saloia a propósito dos números de entradas no ensino superior.Sonsos ou saloios espertos, eles lá sabem, mas, dizia o outro, os burros somos nós que os aturamos.

Pelo meio, Montenegro lá foi vincando que tanto se pode prestar serviço público nas escolas estatais e noutras que não são propriedade do Estado.” Volta, fraquinha, a conversa dos contratos de associação, também focada na Rádio Renascença, na entrevista ao ME, sugestivamente titulada Contratos de associação: Ministro da educação diz que vai poupar. Colégios não percebem como. Deve ser sonsice dos colégios, com certeza. A esperteza saloia foi no passado.

Na Renascença ministro volta à carga com a promoção do sucesso escolar. Por aí as espertezas saloias de alguns promotores do modelo que escolheu darão fartas notícias de interesse no decorrer deste ano. Há a sonsice e a crendice….

Agora temas sérios: segurança da Internet, IRS e Taylor Swift

De fundo mais sério, que este vazio politiqueiro, vale a pena ver o destaque do Público à segurança da Internet e na TVI 24 as explicações sobre despesas de educação no IRS. Depois da sonsice das mudanças do pomposo “novo IRS” convém andar atento.

No fim, Taylor Swift que, diz o JN, doou muito dinheiro a escolas públicas.

No passado havia quem fizesse isso em Portugal e pagasse, às vezes por inteiro, escolas públicas e professores. Parece que já não há. Fica a Taylor Swift para nos lembrar que há ricos que pagam escolas públicas e há quem queira que o público lhes pague as escolas para fazerem de ricos.


Professores: vocação ou profissionalismo? Salário ou palavras bonitas? 4

Não sou professor por vocação. Vocação vem de vocare, “chamar” e acho que não fui chamado para coisa nenhuma. Por pouco romantismo que isso traduza.

Não é muito comum alguém falar de vocação para se ser engenheiro, polícia, cavador ou eletricista mas, para exercer a profissão de professor, a visão poética do senso comum exige, quase sempre, que o discurso leve doses cavalares da dita vocação.

Como dizia alguém que me era próximo: a conversa da vocação é só um atalho para a desvalorização.

Os professores começaram na Antiguidade por ser escravos e o seu serviço ainda é vulgarmente chamado de “dar aulas”, como se a gratuitidade da dádiva fosse parte dele.

A ironia dessa ideia de senso comum sobre o peso da vocação na docência é que traduz um sinal real de desvalorização da docência no seu profissionalismo.

Afinal, ser incompetente ou competente é ou não diferente de ser vocacionado?

Por exemplo, eu até sinto larga vocação para a cozinha, tal o apelo que tenho pelo ato de comer, mas sou definitiva e totalmente incompetente, por falta de olfato, paciência e sentido do equilíbrio de sabores para aprender a cozinhar. Sou um cozinheiro frustrado, com muita vocação, e admito ser um professor competente, sem ela.

Não quero que o meu mecânico ou advogado seja especialmente vocacionado, quero que perceba de escapes ou de códigos e trabalhe com competência. E lá terei de lhe pagar o correspondente, esteja ele motivado, desmotivado, vocacionado ou iludido na profissão.

O estudo do Público e o tema da desmotivação. E o dinheirinho?

Vem tudo isto a propósito do estudo sobre a desmotivação docente hoje divulgado no Público (com direito a mais umas colunas de seráficas lágrimas de crocodilo sobre a dignidade docente de Joaquim Azevedo) em que se passa por cima destes assuntos em nome de discussões esotéricas sobre motivação.

Infografia sobre estudo no Público aqui

Porque é que a desmotivação dos professores é uma grande questão noticiosa no início dos anos letivos e quando se chega à fase em que alguém diz: “estamos realmente mal pagos” (e fomos roubados nos últimos anos), se foge logo para o caminho da conversa da vocação, do respeito e do valor social?

E quem fale do “dinheirinho” leva logo com a etiqueta de oportunista explorador e corporativo na defesa de interesses de luxo. (No meu caso o luxo corporativo são menos de 1200 euros mensais líquidos, após 21 anos de alegada “carreira”).

O dinheirinho não ajudará à motivação?Honestamente, viveria muito bem com a desvalorização social da profissão, e até com a gestão, que vou fazendo, da indisciplina, se me pagassem realmente o valor do trabalho que faço, se tivesse realmente uma carreira (e não um retrocesso) e se a reforma não fosse miragem, para mim, no futuro, e para os outros da minha profissão que hoje precisam imperiosamente de se reformar.

E, já agora, se se calassem aqueles que falam com verborreia das condições e requisitos da docência do ensino básico e secundário, sem a praticar há décadas …. ou sem nunca a terem praticado.

Dêem-me estas coisas todas e até me podem chamar nomes…. (aliás, já chamam hoje, e estou mal pago). Estou farto da conversa da vocação e da valorização da dignidade, sem dinheiro, direitos mais efetivos e melhores condições de trabalho.

A um profissional não se paga a motivação ou a vocação mas o trabalho (palavra que muitos exilaram dos dicionários, desde que as empresas passaram diletantemente a ter colaboradores).

Escolher os melhores para o futuro? Os de hoje são maus?

Acho particular graça que se diga, na análise  do estudo, que é preciso dar espaço a que os melhores alunos entrem na profissão.

Primeiro ataque à minha inteligência: mas alguém vai entrar nos próximos tempos?

Segundo ataque, este ofensivo: já repararam que essa afirmação indica que se considera, sem o enunciar, que os professores de hoje serão oriundos dos contingentes de piores alunos das suas gerações? Quem disse?

E, se nos deixássemos de poesias vocacionais e de tretas sobre a “busca dos melhores” e falássemos de coisas realmente importantes:

Quanto pagam? Pagam o justo?

Que carreira nos dão? Que condições de trabalho nos querem dar?

Que respeito concretizado em medidas efetivas nos querem permitir ter?

Em que outra profissão qualificada, no setor público ou privado, um técnico superior com formação especializada, com mais de 20 anos de experiência, e que até foi dirigente, ganha menos de 1200 euros mensais?

Ser professor é uma profissão e, como dizia uma pessoa que muito respeito, ser professor não é ser mercenário mas também não é ser missionário.

Reconhecimento ou salário? Poesias ou realidades?

Os discursos delicodoces sobre a dignidade e valorização dos professores, que andam na moda e que hoje foram chapados no Público, não resolvem os problemas reais se não se for ver o que é desagradavelmente intestinal: carreira, salário e condições de trabalho.

E para aqueles que não deixam fluir a discussão, realmente profissional, sobre o preço da competência e da nossa utilidade como trabalhadores, vivendo agarrados ao devaneio da vocação e da procura da dignidade metafísica, só digo que é possível ser excelente profissional sem ter vocação nenhuma para professor, mas tendo condições profissionais.

Recentemente, vi uma prova disso: a minha tia de 100 anos faleceu em Maio. Foi professora do 1º ciclo durante 40 anos. No fim da vida, dizia-me que tinha sido professora sem ter vocação nenhuma para isso, por circunstâncias da sua vida. A sua vocação (e, numa arte, isso talvez exista) era a música, mas não pode concretizá-la.

Foi professora porque, para uma menina estudar fora da sua terra, nos anos 20, era preciso parentes para a vigiar e só os tinha em Braga. Por isso, só pode estudar na Escola Normal. Era boa aluna e boa profissional, diziam os alunos. Orgulhava-se do que fez para os seus alunos terem sucesso e vi a alegria tocante de muitos, ao reencontrá-la.

Vocação não tinha nenhuma, palavras suas, e gostar da profissão não gostava. Acabou por aprender a ser boa profissional com o tempo e a formação (excelente) que teve. Mas era competente. Muito competente. O indício final disso foi o número de alunos, já idosos de 60 ou 70 anos, que fizeram questão de estar e de o dizer no seu funeral, em homenagem à qualidade do que por eles fez.Foi bonito e comovente para os parentes, em especial os professores.

Será que, com a perspetiva politiqueira e treteira vigente sobre a profissão docente, o pouco reconhecimento profissional efetivo que estamos condenados a ter vai ser assim: no caixão, por conta da memória dos nossos alunos?


Notícias do dia sobre educação: o ano que arranca, connosco no meio e direito a lágrimas de crocodilo….

Várias notícias do dia de hoje tiveram origem neste blogue.

E amanhã há mais ….

O estudo sobre as opiniões dos Diretores e Presidentes de Conselho Geral, realizado pelo Alexandre Henriques, teve, entre ontem e hoje, largo destaque em vários órgãos de comunicação social. O espaço de debate que abriu foi vasto, como se vê pelos comentários aqui no blogue e nas notícias. O Correio da Manhã destacou a municipalização. O Público também  e o Educare foi pelo mesmo ângulo, além de ter havido outras notícias sobre este tema.

Concursos de professores

Contíguo aos temas do estudo, o DN deu notícia da discussão sobre o modelo de seleção dos professores. O título era “Escolas vão insistir com ministro para voltarem a poder contratar.” Parece que alguns diretores ainda não se consideram suficientemente escaldados com os lindos resultados que deram anteriores tentativas de “escolher” ad libitum professores e querem tentar outra vez arranjar um sistema que lhes dê ensejos de “autonomia” de escolha e puseram a ideia nos jornais.

O título da notícia confunde e esclarece ao mesmo tempo: mas, para quem tal propõe, são as escolas que devem escolher ou os diretores é que vão personificar a escola e escolher eles?

A pergunta arranha só a superfície do problema mas imagina-se a confusão que aí vem, se os professores não acordarem do seu sono letárgico.

No fim-de-semana, Maria de Lurdes Rodrigues, por sua vez, acordou da letargia e voltou a falar de educação. Assombrou a escola de quadros do CDS/PP a falar de compromissos.

Parece que as suas ideias andam a reencarnar pelo Brasil. No senado federal brasileiro, aquela assembleia que um dos próprios membros comparou a um hospício e em que os membros nunca param quietos ou sentados, entrou uma proposta para introduzir prova prática para seleção de professores.

Curiosamente, a proposta brasileira também prevê incentivos a que os professores se mantenham na mesma escola. A ver vamos ….

O desvio pelo outro lado do Atlântico só serve para lembrar que estas coisas não tem só a ver cá com a paróquia mas fazem parte de conjunções mais largas.

O arranque do ano

Por esta margem do Oceano, o dia foi realmente fértil em notícias sobre educação, agora que se aproxima o retorno às aulas.

Além das habituais reportagens sobre material escolar, os jornais e televisões ainda falaram de outros assuntos. Na RTP, o drama dos professores deslocados ainda em destaque, com histórias que nos levam do Minho ao Alentejo.

Há pouco, às 20, o Público lançou a notícia que parece vai ser um dos destaques de amanhã da agenda sobre educação. Após uma reunião no ministério, a Fenprof acusa o Governo de de não dar resposta a problemas do calendário escolar e do 1.º ciclo.

Pelos lados de Cristas e Passos o comentário, ou há-de ser que Nogueira é fraco manipulador de marionettes ou alinham com o cómico Marques Mendes que dirá que é tudo encenado…

Reformas e burnout

Pela estação pública, espaço também para o número de professores por colocar e a proposta da FENPROF para facilitar a aposentação e a reforma.

No I online, Ana Petronilho destaca o estudo da Universidade Portucalense sobre o burnout dos docentes universitários (62% estão assim). O estudo, resultante de uma tese de mestrado, que o JN também destaca, abrangeu 131 docentes mas, pelo que já se viu no passado, no pré-escolar, básico e secundário, os números talvez sejam do mesmo tipo. E a vai piorar se não houver solução para facilitar a reforma dos mais velhos.

Parece não vir a propósito mas, falando de reformas fáceis, talvez mereça atenção o destaque de 1ª página do Correio da Manhã de hoje sobre as reformas políticas.

Quando há tantos professores com mais de 60 anos, a ponderar as penalizações absurdas que a reforma lhes pode trazer, é sempre consolador ver notícias de gente de reforma bem nutrida, com pouco trabalho e 45 ou 50 anos de idade. O regime que as permitiu já acabou mas, o facto de ter existido, devia causar alguma perplexidade moral a quem decidir atrasar a aposentação de quem trabalha.

Colégios, crucifixos e lágrimas de crocodilo

No Correio da Manhã (e noutros órgãos) ainda apareceram os colégios com contrato de associação a fazerem mais uma daquelas manobras de intoxicação informativa a que nos tem habituado, queixando-se de falta de validação de turmas.

São as de início de ciclo ou são das de continuidade? Não é muito claro mas acho que pelos lados da associação de escolas privadas, depois de o caos geral do sistema de ensino não ter surgido, a estratégia é aparecerem, para o assunto não cair no esquecimento, a que a pouca quantidade de afetados reais o condena.

Pela SIC, o tema também teve destaque e o título incluiu mesmo acusação pelos colégios de que o Governo os persegue.

A propósito da tomada de posse do novo presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Vera Jardim,  o DN deu destaque à sua entrevista com um título que tem a ver com escolas. Para o novo responsável do diálogo interreligioso com o Estado, a questão dos crucifixos, que ainda restem em escolas públicas, merece reflexão. Mas o título que o DN pôs em primeira página, a apelar à retirada, é mais jacobino que as respostas moderadas da entrevista.

Os temas da educação especial também tiveram atenção. Por exemplo, a questão dos apoios financeiros atrasados às escolas do ensino especial e o caso focado pela TVI dos problemas dos jovens que ao atingirem os 18 anos deixam de poder ser apoiados.

A questão dos atrasos de financiamento das escolas de educação especial teve atenção do Observador  com direito a citação de Queiroz e Melo que preside à associação do ensino privado.

Pela TVI, houve espaço para um tema com interesse para muitas famílias: a forma como são geridas as IPSS que detém jardins-de-infância e creches.

Em Braga, os responsáveis de uma estão a ser julgados por burla tributária, coação grave e participação económica em negócio. Ponta de um iceberg no uso por privados dos dinheiros públicos para ação social e apoio à infância? Quantos casos se detetariam se houvesse mesmo fiscalização intensa em todo o país?

Mas, de tudo o que li e vi hoje de notícias de educação destacaria com o prémio “lágrimas de crocodilo” o texto de Joaquim Azevedo, hoje publicado no Público, sobre as escolas públicas que rejeitam alunos.

À sua pergunta final do texto responderia, como já aqui foi feito  com a observação de que, quem defendeu os rankings, não se devia espantar.

E isto mesmo que saiba que, no seu discurso, Joaquim Azevedo há muito que refere o problema mas, ao mesmo tempo que defende os rankings (veja-se esta entrevista de 2012) sem perceber a contradição.

Espanto tenho eu, após anos a trabalhar numa escola TEIP, na vizinhança de escolas “escolhidas por famílias, que recusam as TEIP” que alguém que defende coisas como a liberdade irrestrita de escolha de escola só agora (logo agora) se tenha decidido dar tanto espaço central a tal fenómeno e venha chorar pelo caminho que ajudou a traçar.


Jornalistas, Forças de Segurança, Sindicatos e Governo, eis a minha prenda para vós…

contadores

Um fantástico contador, daqueles que se carrega com o dedo, usufruindo de horas e horas de prazer contínuo, coisa fácil para polegares musculados via smarthphone …click click click…

É que a redundância dos afetados pela não renovação dos contratos de associação continuam a amarelar as ruas. A Escola Pública não quis ficar atrás e pintou também ela as ruas de todas as cores com alguns discursos úteis e outros nem tanto. Só que o sumo que vai caindo da laranja amarela (não é inocente a escolha do fruto e cor…) começa a ser pouco, cheirando o dito um pouco a ranço. E para mexer um pouco mais, abafando o cheiro que já é intenso, nada como arranjar uma polémica matemática sobre os números das manifs. Na Educação é assim, um mundo muito peculiar onde o meio termo é coisa rara...

O erro existiu, foi evidente, como existem em todas as manifestações que são contadas através do método cientifico mais conhecido, o “olhómetro”. Agora querer crucificar uma jornalista só porque disse que a manif COMEÇOU com 2 mil pessoas… é surreal e ridículo, pois se fosse uma hora mais cedo ainda diria menos.

A hipersensibilidade é uma característica da comunidade educativa e de algo pequenino fazem-se logo grandes filmes com enormes telas azuis e muito material pirotécnico. O direito ao erro existe, pode não estar escrito em lado nenhum mas existe, isso e aquela coisa do bom senso, uns têm outros perdem-se na sua procura. E quando a sua falta é gritante, pede-se despedimento e ataca-se a dignidade profissional de alguém que já provou no passado ter seriedade e ética profissional acima da média. Mas se vamos começar a despedir todos os que erram, então é melhor começarem a mudar os telhados que pairam em cima de muitas cabeças, pois segundo se consta, o vidro ainda não resiste a uma bela pedrada… cuidado com elas…

Serão os números o essencial de uma manifestação, ou serão os conteúdos e princípios invocados?

Canavilhas caiu na ratoeira dos números

(Editorial do jornal Público)

Um dia com a Educação nas capas dos jornais: avaliação, férias escolares e colégios. 2

Avaliação

Sou um defensor da avaliação como mecanismo formativo e que valorize os melhores (reparem que não falei em punir ninguém). Sou também um professor que teve estágio integrado e que teve todas as aulas observadas, quer por colegas estagiários, quer pela orientadora de estágio e supervisor da faculdade. Não concebo, acho mesmo ridículo que se fale em avaliação de escolas e de professores sem entrar no local onde tudo se determina – a sala de aula.

Existem muitas esquisitices por parte dos professores sobre esta matéria, a sala de aula é o seu santuário e existem muitas resistências na partilha e na análise do seu trabalho quando este está ao vivo e em direto. Ainda sobre a avaliação dos professores, atualmente temos um modelo indigno de avaliação num faz de conta negociado entre sindicatos e Nuno Crato, semelhante à carreira em si.

A reportagem do Público é muito boa, mais uma… E questiona se a avaliação externa deve basear-se em resultados internos e externos (exames) e painéis de consulta, fazendo também um paralelo com outros países.

Avaliação: o que deve mudar quando são as escolas que vão a exame

Em praticamente todos os países da Europa avaliar escolas significa avaliar aulas. Estónia, Hungria e (pelo menos por enquanto) Portugal são as excepções — os inspectores visitam os estabelecimentos de ensino, falam com professores e pais, mas não entram na sala de aula. Já na Islândia, por exemplo, não há avaliação sem que o trabalho de pelo menos 70% dos docentes do quadro seja observado, ao vivo e a cores, pelos avaliadores.

“Uma das lacunas da avaliação externa das escolas é os inspectores passarem pela escola e não ficarem com uma ideia sobre como trabalham os professores, como gerem uma aula”, sustenta. Essa informação deveria passar a ser recolhida.

Barreira lembra que no início do ano passado, o inspector-geral de Educação e Ciência, Luís Capela, disse, à margem de um seminário sobre avaliação de escolas, em Coimbra, que já havia inspectores a receber formação para integrar na sua observação as práticas dos professores em sala de aula. Por isso, acredita que acabará por acontecer.

Férias Escolares

Outono, é no outono que está a questão… O 1º período é demasiado longo e torna-se penoso. Uns dias de pausa irão permitir refrescar o corpo e a mente, a alunos, docente e não docentes. Ficar mais uns dias em junho não custa nada, e não venham com a argumentação do clima, pois como isto anda temos verão em outubro, outono em maio e chuvas em agosto…

Alunos têm férias de verão mais longas mas menos pausas

Relembro um artigo sobre este assunto e a sondagem feita sobre esta matéria.

Férias escolares, como são no resto da Europa?

Pausas Letivas

Colégios

Colégios garantem ter turmas mais baratas

Dois diretores de secundárias admitem que os custos possam ser superiores por os encargos com o pessoal e a oferta prestada ser diferente. Essa justificação é admitida pelo diretor do Centro de Estudos de Fátima: a tabela salarial e os horários praticados no sistema público são “insustentáveis” para os colégios, reconhece, ao JN, Manuel Bento

Mais um motivo para acabarem com a precariedade e integrarem mais alunos e professores no sistema público.


400 mil euros de desvio em associação que geria escola? 4

A notícia é do JN ao fim da tarde de ontem e é previsível que tenha largo destaque nos próximos dias.

Vai tocar noutro ponto do financiamento público a escolas privadas: o ensino artístico da música.

Desafinação financeira em Barcelos

Desta vez, a culpa não é da malandragem esquerdista do ME.

O Ministério Público, isto é, a magistratura independente que tem o poder de deduzir acusações penais em nome do Estado Português, decidiu acusar o presidente da Associação que antes detinha o Conservatório de Música de Barcelos de abuso de confiança agravado (que se traduziria num desvio de 430 mil euros).

A notícia completa pode ser lida aqui.

Em termos resumidos, a acusação imputa ao arguido o uso do cartão de crédito da associação para despesas pessoais e o arguido defende-se (pode ler-se na notícia), dizendo que a associação está bem melhor de património do que antes da sua gestão.

Antigamente havia um dito sobre um certo autarca português, acusado e depois julgado e condenado por tropelias financeiras, “Rouba mas faz”.

O dito era adaptado de outro, em voga no Brasil, onde, como se tem visto, há bastante disso.

Este artista (afinal a escola é artística e o epíteto não deve ofender) parece que terá tentado inventar a sua própria versão: “Até me podem acusar de abusar dos dinheiros alheios, mas, além do meu, aumentei o alheio….”.

Muito curiosos são 2 outros dados que se colhem na notícia:

0 1º é quanto se recebe por ser presidente de direção de uma associação que detem uma escola artística: 3700 euros por mês. Nenhum diretor de uma escola pública de Barcelos, também financiada por dinheiros públicos, deve ganhar nada próximo disso (e, claramente, não tem cartão de crédito institucional que lhe permita sequer ter tentações….).

0 2º é ainda mais curioso. O arguido era dirigente da associação que antes detinha o Conservatório de Música porque, segundo a notícia, “em agosto de 2012, o arguido constituiu uma nova associação, que é a atual proprietária do Conservatório de Música de Barcelos.”

Portanto o rigor do Direito manda dizer que o arguido, que é advogado, não é acusado como dirigente da associação que detém o Conservatório de Música de Barcelos mas, tão só, como dirigente da que antes o detinha embora a Associação que hoje o detém (outra) parece que o mantenha como dirigente (dizem os jornais).

Confusos?! Eu também fiquei.

E mais ainda, depois de ler a notícia do Correio da Manhã sobre este assunto em que se salienta que, parte da acusação agora divulgada, se baseia numa auditoria do próprio Ministério da Educação que arrasa a gestão que o arguido praticou (e que, pelos vistos, não foi suficiente para que se usasse um qualquer expediente para o retirar dela, mesmo sendo uma associação diferente a que hoje detém a escola).

Consola ver a citação de um dos artigos do regulamento interno do conservatório (Princípios gerais de ética) que refere o dever dos seus gestores “de observar no exercício das suas funções os valores fundamentais e princípios da atividade administrativa consagrados na Constituição e na lei, designadamente os da legalidade, justiça e imparcialidade, competência, responsabilidade, proporcionalidade, transparência e boa fé.”

O que interessa no fim do arrazoado é que os 430 mil euros  derretidos (alegadamente, pois então) eram dos nossos impostos.

PS: Os diretores da escola pública, mal pagos e carregados de trabalho, se se enganarem, mesmo por lapso, a pagar, até num salário alheio, umas centenas de euros e caírem nas malhas de qualquer auditoria, ficam sem o lugar depressinha, pagam multa ou são suspensos, e ainda devolvem a massa (coisa que me parece que, com esta habilidade das 2 associações, neste caso vai acabar por ser difícil de acontecer).