Mediação Conflitos


Workshop para “Escolas ComRegras” | Aula de Convivência – Uma Resposta Integrada na Cultura de Mediação 2

O ComRegras e o projeto Mediação de Conflitos – Por uma Nova Cultura de Convivência, estabeleceu um parceria na qual tem resultado em textos semanais da Dra Mónica Nogueira Soares. Numa tentativa de aprofundar a mediação nas escolas e por acreditar que esta pode ser uma clara mais valia, a partir de hoje, todas as Escolas ComRegras podem solicitar uma workshop que será apresentada pela Dra Mónica Nogueira Soares.

A workshop é gratuita, apenas implica custos de deslocação.

Lembro que esta é uma oferta exclusiva às Escolas ComRegras. Se ainda não é uma Escola ComRegras, conheça as condições aqui e para aderir ou solicitar a workshop, basta enviar um email para [email protected]

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“(não) Quero os pais na escola” 3

sentido-unicoNão é assim tão incomum analisarmos o estado da arte da indisciplina com os argumentos “os alunos não têm educação em casa”, “os pais não querem saber da escola”, “no tempo da outra senhora é que era” e outros tantos argumentos criativos.

Não há dúvidas que a escola deve efetivamente articular e colaborar com as famílias, numa lógica de colaboração e cooperação, ambicionando que as duas estruturas “puxem o aluno” no sentido de um desenvolvimento saudável e estruturado…

Mas porque não colocamos isto em prática?

Os tempos que vivemos efetivamente representam um desafio na análise da escola atual… escolaridade mínima até ao 12º ano, uma escola para todos, cursos ora de educação e formação, ora vocacionais, ora outra coisa qualquer com o objetivo de categorizar alunos (ao invés de formar alunos)… Não é fácil!

São diversos os estudos que se focam nesta temática. Os professores referem constrangimentos de tempo (“trabalho na escola e em casa, papéis e plataformas para preencher, aulas para preparar, testes para corrigir….sim, tenho lido os imensos desabafos e comentários dos últimos textos publicados sobre este tema”), a descontinuidade no acompanhamento efetivo aos pais (“ora sou diretor de turma, ora só o sou num ciclo, não podendo ser no ciclo seguinte”), a falta de mecanismos de apoio para as famílias ditas mais difíceis (“onde está a CPCJ?”), a desvalorização do papel do professorsabiam que os pais muitas vezes dizem aos meninos antes de estes começarem a frequentar a escola “Estás a fazer asneiras? Tu vais ver quando fores para a escola..”. Convenhamos, que rico bicho papão que é a escola e os professores, claro»), a desresponsabilização das famílias quando não se envolvem na vida escolar dos seus educandos (“o estatuto do aluno não previa qualquer coisa para estes casos?”) e a necessidade de maior reciprocidade (“por isso é que há aqueles colegas sempre dispostos a atender os pais fora do seu horário de atendimento – Ai não há? Pois claro, a lei do trabalho prevê o direito de os pais faltarem ao trabalho para assuntos relacionados com os seus educandos… Há que fazer valer os nossos direitos, já que a maioria das entidades empregadoras é efetivamente school-friendly”).

Curiosamente a literatura também refere que as famílias assumem esta necessidade de apoio por parte da escola, mas também refere que os pais se sentem indesejados (“quando vou à escola sem marcar nunca encontro o professor, mando recados pela caderneta e nada acontece”), que o contacto com a escola tem uma clara conotação negativa, a maioria das experiências de contactos é num registo negativo (“qual a vossa reação quando o telefone toca da escola dos vossos filhos? Pois…”), que há falta de disponibilidade e de tempo para responder a todas as solicitações da escola (“basta ver o que acontece se houver um boato de ter havido uma agressão por parte de um professor a um aluno… a falta de disponibilidade mantém-se, claro”) e que muitas vezes as queixas são formuladas de modo a que os pais se sintam incompetentes na sua tarefa de educar. Também há aqueles que simplesmente se preferem resguardar no argumento que desconhecem a realidade escolar atual, sendo preferível não se intrometerem.

Obviamente os comentários entre parêntesis e na primeira pessoa são comentários provocatórios e fictícios, mas que nos devem fazer refletir se faz sentido continuar a apostar nestes discursos que apenas reforçam o estado atual do envolvimento parental na escola. O mais importante é quebrar este ciclo e pensar, cada um por si, cada um de acordo com a sua realidade e com a sua vontade e motivação para mudar, “o que é efetivamente possível fazer?”.

São várias as iniciativas e práticas que podem reforçar o envolvimento das famílias na escola. Devem ser áreas de reflexão e prioritárias para a ação (se vos fizer sentido, concretizo em exemplos práticos cada uma destas áreas num texto no futuro): a participação dos pais na vida da escola, o envolvimento dos mesmos nos processos de tomada de decisão, as formas de comunicação entre a escola e a família, as dinâmicas de apoio às aprendizagens, assim como a colaboração com a comunidade (na qual se insere grande parte dos pais).

Tudo se resume aos níveis motivacionais e de entusiasmo… Os nossos e dos outros!

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
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Não estamos sozinhos 2

nósParece impossível, mas já estamos de novo em setembro… malas feitas para muitos, despedidas, ansiedade, borboletas na barriga, medo, excitação, curiosidade…  Entre alunos, pais, professores, técnicos e todos aqueles que de alguma forma estão ligados à escola, setembro é um mês único, de recomeço, em que tudo parece cheirar a novo. Também eu vivo este mês com uma emoção especial, este ano e a partir de agora ainda mais, porque vai ficar associado ao nascimento da minha segunda filha. Enquanto ainda a espero, confesso que me faz falta o regresso, os reencontros, a descoberta de novos rostos, o início da construção de novas relações. Quem vive (n)a escola sabe do que falo: todos os anos é diferente, não há rotina nem monotonia!

Pensei muito no que me apetecia escrever para iniciar este ano. São tantos os temas, tantas as histórias e as possibilidades… mas como este ano é diferente e o tempo ainda mais propício à reflexão e a alguma nostalgia própria do estado de graça, tenho-me lembrado das pessoas com quem me tenho cruzado e que vão deixando marca na minha própria história. Para além do meu trabalho como mediadora na escola, grande parte do meu tempo tem sido dedicado à formação. Nos últimos anos tenho percorrido grande parte do país e conhecido muitas escolas e professores. É muito frequente na primeira sessão sentir desânimo, cansaço, um certo sentimento de solidão. Há quem seja mais expressivo e o manifeste explicitamente de forma às vezes quase agressiva. Há quem se feche na sua concha, se remeta ao silêncio e apenas o diga pelo olhar ou postura. Há quem aos poucos vá dizendo como se sente. É neste momento que muitos olhares se encontram. Partilha-se pouco a solidão que tantas vezes se sente na escola. É fácil disfarçar este sentimento num espaço cheio de gente e de ruído. Mas ele pode ser tão marcante que cada vez mais é importante estarmos atentos para o “ouvir”. Lembro-me de como o meu filho, nos primeiros dias de escola, me dizia como se sentia sozinho. Eu respondia-lhe: “eu sei, mas tens muita gente ao pé de ti filho (e enumerava a professora, as auxiliares e os colegas), não estás sozinho”. Ao que ele me respondia e desarmava completamente nos seus 3 anos: “mas eu estou sozinho com tanta gente”. Também frequentemente encontro professores que se sentem “sozinhos com tanta gente”, por muitos motivos (muitos deles até pessoais, mas desses não falarei aqui), nomeadamente por sentirem que são os únicos a falar determinada linguagem, a acreditar que a escola pode ser um espaço diferente, a querer outra escola. Quando ouvem outros colegas que sentem e desejam o mesmo, é fascinante poder ver a mudança no olhar, na atitude, no discurso. É como se descobrissem que não estão sozinhos, que ainda há esperança, que não “são loucos”, como dizem tantas vezes com um humor fantástico. E aí ganham uma nova força, uma maior vitalidade, uma crescente cumplicidade com os colegas (mesmo quando já se conhecem há muitos anos). Apesar de pensarmos que a escola é um local de partilha (e é, obviamente!), a verdade é que muitas vezes nos fechamos e não partilhamos com os colegas o que sentimos e o que desejamos, num infinito de possibilidades que (sim, ainda!) estão ao nosso alcance. É essa partilha que me falta por estes dias e que tantas vezes tenho o privilégio de facilitar e observar que vos desejo para este ano. Que seja um ano de encontro com o outro, seja vosso colega, aluno ou familiar. Ou convosco próprios. De encontro e partilha. Acredito que, graças a esse(s) encontro(s), a escola será um espaço melhor para todos!

 

Mafalda Branco

Do Outro Lado do Espelho


Sobre a PAZ na Escola

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Parece uma utopia falar de paz na escola. Na verdade, às vezes sinto-me como um extraterrestre a defender que a escola é, deve e pode ser um lugar de paz. Não de paz no sentido que muitas vezes se entende, como sendo a ausência de conflito (um dos primeiros passos para a paz é aceitar o conflito e aprender a lidar com ele de forma pedagógica), mas no sentido do respeito por si e pelos outros. Não sou ingénua, sei bem o mundo em que vivo. Conheço a escola por dentro. Conheço os jogos e as séries que os miúdos (e os adultos…) devoram. Vejo e leio as notícias. Vivo. Todos os dias lido com situações duras, dramáticas, difíceis. Situações para as quais nem eu nem ninguém tem resposta. E, ainda assim, sei que a paz é o caminho. Todas as situações de violência com que lido têm como uma das raízes a violência do contexto em que as crianças e jovens cresceram. E falo aqui de diferentes tipos de violência, desde a física à psicológica, passando pela verbal, entre outras. Porque a violência nem sempre é visível ou “tipificada”, aliás, ela é cada vez mais, em minha opinião, abrangente, camuflada, disfarçada, escondida atrás de outros nomes. Não sei se existe mais do que no passado. Mas sei que existe muito mais do que pensamos. Que há novas formas de violência. Que é preciso estarmos muito atentos. Agir. Sei que andamos muito apáticos, acomodados e resignados. E é precisamente nestes tempos que a violência cresce, mesmo debaixo dos nossos olhos. É quando pensamos que “não há nada a fazer”, “não vale a pena”, “dá muito trabalho” ou frases que vou ouvindo com muita frequência. Demasiada frequência.

Estamos num mês especial. No primeiro mês do ano, que começa precisamente com o “Dia Mundial da Paz”, assinala-se também a 30 de janeiro o “Dia Internacional da Não Violência e da Paz nas Escolas”. O dia foi instituído em 1964 com o objetivo de alertar alunos, pais, professores e toda a sociedade para valores como o respeito, a cooperação, a solidariedade, a não-violência e a paz. Urge promover a paz na escola. Na sociedade. Se uma data for o pretexto para o fazer, façamos então. É preciso falar sobre paz, ensiná-la, mas é preciso, sobretudo, construi-la. Diariamente. Não é utopia dizer que a paz se constrói com e nos pequenos gestos de cada dia. Curiosamente, no dia em que escrevo comemora-se também o “Dia Internacional do Obrigado”. Porque não começar por aqui? Agradecer mais. Agradecer as pequenas coisas que nos acontecem todos os dias e que muitas vezes não vemos, “abafadas” por aquelas de que nos queixamos. Talvez uma das maiores mudanças de que a escola precise seja reaprender a importância de gestos e palavras simples: é aqui que pode começar a paz.

 

Mafalda Branco

Do Outro Lado do Espelho


Ano novo… 1

vida nova! Para quem trabalha na área da educação, setembro é o nosso janeiro. Celebra-se um novo recomeço, fazem-se planos, 7f5db267ea93190f92db8f8f7f71d841listas de resoluções, mudam-se literalmente vidas. Para mim é um mês de borboletas na barriga, este ano vivido de forma especial como mãe. O meu primeiro ano como encarregada de educação. Agora estou, também, “do outro lado”. Na verdade, esta ideia sempre me fez alguma confusão. Pais/encarregados de educação e professores/escola devem estar sempre do mesmo lado e não em lados opostos, como muitas vezes parece ser o discurso dominante. Uma relação positiva, coesa e construtiva entre escola e família é determinante para o bem-estar e para o sucesso das crianças e, por isso, todos nos devemos esforçar por a criar e manter. Para isto é necessário estarmos disponíveis para o diálogo e para compreendermos o “outro lado”.

Como mediadora, procuro essencialmente (re)construir pontes e espaços de diálogo, também entre professores e família. Não é fácil, hoje, ser família. Nunca o foi, é verdade, mas o mercado de trabalho atual coloca exigências à família às quais é difícil dar resposta, ao mesmo tempo que se exige presença, disponibilidade, apoio no percurso escolar. Como profissionais da educação temos que procurar entender aquilo que se exige hoje à família. Basta pensarmos em nós como pais. Quantas vezes queremos estar disponíveis, chegar a casa cedo, estar presentes e estamos em reuniões na escola até muito tarde, com uma viagem ainda longa tantas vezes pela frente? Quantos professores tiveram que abdicar do primeiro dia de escola dos filhos para estarem no primeiro dia de escola dos seus alunos? Termos a consciência que não é fácil ajuda-nos a ajustar expectativas e a sermos capazes de compreender aquilo por que passam hoje tantas famílias, sem nunca desistirmos, no entanto, de aprofundar esta relação essencial. Porque o mais importante é mesmo olharmos por e para os nossos miúdos, sejam nossos filhos ou nossos alunos. (mais…)


Mediação de Conflitos – O Poder do Diálogo

O PODER DO DIÁLOGO

empatiaOuço muitas vezes os dois lados: professores e alunos. Tento juntar as pontas. Ligar os pontos. Unir. Construir uma ponte. Às vezes é difícil. Outras, não gosto de o dizer, mas tenho que o assumir, é praticamente impossível. Quando estamos totalmente centrados na nossa posição e perspetiva, não conseguimos ver o outro lado, nem sequer colocar a hipótese de poder existir alguma razão (o que não nos retira a nossa). Aconteceu-me algumas vezes ao longo do ano. Mas também me aconteceu o contrário. E, como gosto de me focar no positivo (que é também o que de menos se partilha sobre a escola), é sobre uma dessas situações que me marcou, como mediadora na escola, que vos falo hoje.

Há já algum tempo que trabalhava com um aluno, que chegou até mim devido a uma situação de cyberbullying. Depois da resolução positiva da situação, continuei a intervir devido a situações de conflito na sala de aula, algumas das quais com a diretora de turma. Um dia, na procura de soluções, o aluno sugere que fizéssemos uma sessão de mediação com a professora, pois considerava que podia ser uma forma de resolver a situação. Dizia-me ele: “se me ajudou a mim e aos meus colegas, podia ajudar neste caso com a DT”. Comprometi-me a conversar com a professora, sem lhe poder garantir que a mediação acontecesse. Confesso que tive algum receio que a proposta não fosse aceite. Conhecia a professora e parecia-me uma pessoa muito disponível e aberta, mas não sabia até que ponto essa disponibilidade se estendia a uma sessão de mediação com um aluno. Abordei a professora e a reação foi fantástica e imediata: “Claro que sim! Acho que estamos mesmo a precisar!”. Fiquei entusiasmada. Conversei com o aluno, marcámos uma hora compatível para todos e encontrámo-nos. O que aconteceu a seguir foi um dos momentos que mais me emocionou na escola e que mais me fez reforçar a certeza que só podemos construir pontes através do diálogo.

Dialogar implica criar a possibilidade de, não só nos entendermos a nós próprios, mas sobretudo de entender o outro. É preciso reconhecer que se pode ter errado e perceber como essa nossa falha pode ter afetado o outro. Sem que isso seja na verdade uma falha. É preciso estar disponível para expressar o que se sente, mas também para ouvir e procurar perceber o que o outro lado sentiu. É desta forma que se gera mudança em si próprio e na relação com o outro.

Recordo aquele momento. A professora e o aluno sentados, um com o outro. A encontrarem-se num olhar. A descobrirem e a surpreenderem-se com o ponto de vista do outro. A desconstruírem ideias que tinham criado apenas por si. A criarem uma ponte naturalmente, porque o que sentiam era comum. Apenas nunca tinham tido a oportunidade de se sentarem, daquela forma, e de conversarem. Sem pressões, sem pressas. Sem juízos de valor. Todo este processo, pela sua simplicidade e pelo que foi partilhado de forma tão genuína, nos comoveu a todos. A partir dali, a tensão diminuiu, o olhar tornou-se cúmplice, as palavras transformaram-se em sinais. E o papel da professora e diretora de turma saiu reforçado. O aluno passou a vê-la de outra forma, a respeitá-la ainda mais. Todos ganhámos. Todos crescemos, acredito.

A mediação na escola pode ser simples e ter um impacto extraordinário, não só nas relações no imediato, mas também como formação em termos relacionais e sociais para o futuro. Esse impacto resulta do poder do diálogo. Só que às vezes esquecemo-nos dele, submersos em tantas tarefas e estereótipos. Como é que ensinamos a empatia e o respeito? Fazendo. Dando o exemplo. Ouvindo e estando disponível para o outro. Para mim, como mediadora, ver um professor e um aluno sentados, a dialogar, a procurar soluções para algum desencontro que tenham tido ao longo do caminho, é das experiências que mais dão sentido e ampliam o que procuro fazer na escola. Porque não fazê-lo mais vezes?

Mafalda Branco

Imagem: Edutopia

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Mediação de Conflitos – Por onde vamos?

POR ONDE VAMOS?

guerraÉ impossível fugir ao tema, trabalhando na escola e sendo Mediadora. Nas últimas semanas, a violência chocou-nos, gerou ondas de revolta e medo, preocupou pais e educadores, esteve em toda a parte. Estive atenta a tudo isto. Ouvi os miúdos na escola. Ouvi adultos. Li comentários e notícias, comentadores especialistas e outros nem tanto. [Há muitas pessoas a falar sem saberem o que se passa numa escola.] Falei com pais e com colegas. Pensei muito só para mim.

Infelizmente, nada disto é novo para quem todos os dias trabalha com jovens. Basta ouvir como falam uns com os outros, connosco próprios, como se relacionam nas redes sociais, como resolvem os problemas (muitas vezes não só com violência com o outro, mas consigo próprios de várias formas). Mas também basta estarmos atentos aos adultos, peça fundamental em todo este processo. Basta ler os comentários a estas notícias. O mais comum foi responder com violência. Incitar à violência contra quem foi violento. Querer fazer justiça pelas próprias mãos. Um sintoma poderoso do que se passa na nossa sociedade… Muito pouco se falou de paz neste processo. Muito pouco se falou do que nós, adultos, temos como responsabilidade. Do que devemos e podemos fazer. É fácil apontar o dedo ao elo mais fraco. E a verdade é que o elo mais fraco são as crianças. Não estou a desculpar o comportamento ou a dizer que não devem ter consequências, pelo contrário. Mas isso chega? Isso resolve o problema e o que nos assusta nestes e em tantos casos que conhecemos? Não. Responder à violência com violência só gera mais violência, mais ódio, mais vontade de vingança, mais revolta. É preciso encontrar formas de quebrar estes ciclos de violência. Como? Pela prevenção, que inclui não só trabalhar com os miúdos, mas também com os pais e com as comunidades. Pela educação para a paz. Parece utópico hoje falar de paz. Parece fora deste tempo. Mas é precisamente em tempos como os que vivemos que se torna mais urgente e necessário promover a paz. «É urgente destruir certas palavras,/ ódio, solidão e crueldade,/ alguns lamentos, muitas espadas.» (Eugénio de Andrade) (mais…)


Mediação de Conflitos

ÀS VEZES É “SÓ” OUVIR

listen4Vivemos num mundo cheio de ruído e distrações, estamos sempre em stress, andamos constantemente a correr. No meio de tantas coisas, a maior parte sem qualquer sentido, arriscamo-nos a perder daquilo que é realmente importante e essencial. Ouvir o outro parece ser um exercício cada vez mais difícil, cada vez mais raro nos dias de hoje. A escuta ativa, de que tanto se fala (mas que pouco se pratica), implica não só ouvir o que o outro diz, ou seja o conteúdo, mas também a forma como se diz, ou seja os sentimentos e emoções, tantas vezes “escondidos”, mas tão importantes. Para isso, é preciso tempo. E, mais do que tempo, é preciso disponibilidade e verdadeiro interesse e atenção ao outro. A questão é: será que hoje temos esse interesse? Ou será que andamos muitas vezes mais centrados em nós próprios e pouco disponíveis para o outro? Este outro são também os nossos filhos, os nossos alunos…

Todos os dias na escola sinto isto: não estamos a ouvir os miúdos. E eles dizem-nos tantas coisas, de tantas formas!… Só que nós continuamos surdos. E eles continuam a gritar por nós. Está na hora de pararmos, de nos sentarmos com eles e de os ouvirmos, verdadeiramente. Verdadeiramente significa com vontade e disponibilidade, com interesse genuíno, sem juízos de valor ou estereótipos, despidos do que são as supostas respostas certas, que temos como adultos.

No primeiro dia de aulas do 3.º período, tinha à minha espera uma aluna. Pediu-me para falar comigo. Sentámo-nos as duas. Ela falou, falou, falou. E chorou. Até sorrir e respirar fundo, aliviada. Perguntei-lhe como a podia ajudar. Ela respondeu: “Já ajudou. Eu só precisava de falar”. Às vezes é “só” mesmo isto.

Mafalda Branco

Imagem: http://little-people.blogspot.pt/


A Mediação na Escola – Apostar na Prevenção

20150316_151455O conflito é algo natural, que está constantemente presente na nossa vida e, desta forma, também na escola. Existem conflitos nas aulas, na sala de professores, na cantina, nos corredores, nos recreios… O que muitas vezes não vemos é que o conflito que acontece a todos os momentos na escola é uma oportunidade que todos temos para aprender e para crescer. Se formos capazes de ver o conflito como algo positivo, podemos também ser capazes de encontrar respostas mais eficazes e produtivas.

A mediação de conflitos pode definir-se como um processo pelo qual uma terceira pessoa, neutra (o mediador), ajuda as partes em conflito a alcançar voluntariamente um acordo mutuamente aceitável. É um processo essencialmente focado na comunicação e no diálogo, para que possa haver uma compreensão do ponto de vista do outro, das suas necessidades, interesses e sentimentos. Assim, a mediação escolar representa uma oportunidade privilegiada não só para prevenir a violência, mas também para promover a aprendizagem de competências sociais fundamentais que melhorem a convivência na escola.

Felizmente, as escolas portuguesas começam a despertar para a importância da mediação, quer através da formação de professores e assistentes operacionais, quer através da contratação de mediadores, técnicos especializados em mediação escolar, que implementam diversas atividades nas escolas em que estão inseridos. Assim foi comigo. Após ter concluído a especialização em Mediação Escolar, em 2011, dediquei-me à formação de professores nesta área e este ano tive a maravilhosa oportunidade de ser mediadora num agrupamento de escolas da zona centro. Esta tem sido uma experiência que me tem feito crescer e evoluir como técnica, mas sobretudo como pessoa. E é essa experiência que me proponho partilhar neste espaço, com todos aqueles que acreditam que a escola pode e deve ser um espaço de muito mais humanidade, paz e diálogo. Porque “a paz não é um conceito a ensinar, mas uma realidade a viver”.

Mafalda Branco

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