João Lima


A culpa é dos professores que estão por nascer (ou não)…

«Se dizemos do entendimento que ele é o poder de reconduzir os fenómenos à unidade através das regras, deve-se dizer da razão que ela é a faculdade de reconduzir à unidade as regras do entendimento através dos princípios. Portanto ela jamais se relaciona imediatamente nem com a experiência, nem com um objecto qualquer, mas com o entendimento, a fim de fornecer a priori e por conceitos aos variados conhecimentos dessa faculdade uma unidade que se pode chamar racional e que é inteiramente diferente da que o entendimento pode fornecer.»

Kant

… raramente pensamos nisto. Uma criança entra no “sistema” aos 4, 5 ou 6 meses. É metido numa sala com outros e orientado por “educadores” que não são os pais. Depois, só sairá do sistema aos 18 anos. Raramente pensamos nisto mas os pais, verdadeiros elementos fundamentais para a educação de uma criança, estão num sistema à parte onde o “trabalho” lhes leva 8, 9, 10, 11 ou mais horas da sua vida. Reservam depois, pouco tempo, para essas coisas da escola. Raramente pensamos nisto porque não nos interessa colocar em causa o sistema que tudo e todos transforma em seres presos nesse sistema que tudo consome. É agora esse mesmo sistema, criado por todos nós, que publica um novo modelo para o aluno. Imaginei logo na minha cabeça um enorme boneco de plástico, embalado como um brinquedo, com instruções, normas e indicações de uso. Ou o “novo homem” que alguns anunciavam no final do século passado. O sistema é uma besta. E como tal, recria-se para sobreviver. Grita, de tempos a tempos, para nos dizer que os alunos devem ser assim ou assado. Que o que se espera de um miúdo criado dentro das suas paredes é que ele seja “conhecedor” mas agora em todas as suas vertentes com a modernidade da “inteligência emocional”. Antes, se contarmos os anos, foram 3 ou 4, era a exigência e o conhecimento. “Só passa quem souber”. Agora é a “formação global do individuo” e as competências para além da escola. Andamos nisto, para a frente e para trás. Olhamos para os “modelos” lá de fora como exemplo e quando alguém partilha algo que esse modelo “atira” como sucesso lá vem o comentário: eles são civilizados. Acontece que nós também. Raramente pensamos é nisso. Nós também. E depois, no fim das contas e dos discursos atiramos a culpa aos professores. Curiosamente, todos eles, foram filhos desse mesmo sistema que agora integram sem questionar ou raramente pensando nele como algo que podia não ser assim. Daqui a uns anos haverá professores que estiveram, como anos, dos 4 meses aos vinte e tal anos. Sem dele sair. Sem o questionar. A serem orientados por “guias” para “o novo aluno”. Raramente pensamos nisto. Mas talvez seja esse o imenso pecado da escola que hoje eu, pai e educador, vejo como mortal: a escola é preciso ser crítica, cultura, ciência e saber. A sabedoria eleva a inconformidade. Talvez seja verdadeiramente isso que falta à escola. Porque guias, rumos e coisas que tais está ela cheia…

João Lima, Pai.


Da utilidade dos muros ou a urgência de ensinar a igualdade…

«Sempre que tiveres dúvidas, ou quando o teu eu te pesar em excesso, experimenta o seguinte recurso: lembra-te do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que alguma vez tenhas visto e pergunta-te se o passo que pretendes dar lhe vai ser de alguma utilidade. Poderá ganhar alguma coisa com isso? Fará com que recupere o controlo da sua vida e do seu destino?»

Gandhi

Há um tempo troquei umas linhas de pensamento sobre a questão da privacidade e identidade quando se registam fotografias no contexto de uma actividade na escola. Relato um acontecimento que me fez ver para além do meu eu. O meu filho frequenta a piscina e utiliza o  transporte disponibilizado entre a escola e o complexo onde aprende a nadar. Um dia fui espreitar a aula e no final disse para o condutor do transporte que levaria o meu filho no meu carro uma vez que estava ali. Foi-me negado. Não o podia levar, disse-me. Pedi a razão, algo incomodado por ser meu filho e porque me parecia natural. Porque precisa de uma autorização da escola para o fazer. Mas era o meu filho, pensei. Devia ter o direito de o levar. Mas não. Não tive e não o trouxe no carro como esperava. A explicação é simples e foi-me dada logo ali. Três razões claras e óbvias que nunca pensei: uma – não me podia pedir identificação e como tal não sabia o meu grau efectivo de parentesco; dois – a responsabilidade era dele, transportador, a quem foi confiada a tarefa de levar e trazer de um ponto ao outro em segurança; três – não havia meio de ele saber ali se eu tinha legalmente direito de levar o miúdo pois podia haver algo em contrário por alguma autoridade superior à dele. Depois de digerir esta informação fiquei profundamente descansado. Por um lado pela segurança, por outro porque o princípio de igualdade era ali claro e preciso. Que a regulação para o bem comum supera a lógica dos interesses individuais ou instantâneos. É por isso que, num tempo em que emergem cada vez mais ideais nacionalistas, de intolerância ou discriminação a escola tem que ser este pilar do que nos resta de uma original ideia de igualdade. Se associarmos a questão (recente legal e historicamente) da privacidade e a questão da identidade percebemos que a escola e a entidade que a tutela tem o dever único de proteger a imagem, nome e demais direitos que todos temos. Ceder neste aspecto é sempre fazer prevalecer o bem individual sobre o direito de todos. Esta é uma discussão quase inútil no tempo que corre em que tudo é imagem, incoerência e demonstração. Mas cabe a quem ensina nas escolas perceber que a democracia é construída com base em princípios gerais e do bem comum por muito que isso custe. Publicar nas redes sociais ou na rede global os nomes, imagens e outros elementos de alunos, professores, funcionários ou afins porque nos parece bom promover uma determinada informação ou actividade pode ir para além dos direitos de todos. Mesmo que, para cada momento, venha um papelinho cheio de justificações para autorizar isto e aquilo que passa a servir para tudo. Neste tempo, em que a europa e o mundo estão a mudar num sentido de reverter as conquistas humanas dos últimos cem anos, urge pensar nesse bem geral e ensinar que a privacidade, a intimidade, a identidade, a imagem e outras coisas corelacionadas são, na verdade, parte de nós e que ensinar tudo isso começa pelo exemplo e pelo respeito com que as instituições tratam quem é acolhido por elas. É simples. É um principio de direito, mesmo que, abandalhado…

João Lima, Pai.


Da profunda estupidez humana e da escola no meio…

[Um Valor:] A solidariedade voluntária, na medida em que é a marca do amor pelos outros; pelos que não conhecemos nem julgamos, pelos de quem não esperamos nada, principalmente qualquer agradecimento; a solidariedade com direito a notícia no jornal e entrevista na televisão, essa é um anti-valor e só exprime a insuportável vaidade dos ricos que são tolos.

Daniel Serrão

 

Reparo nas notícias que surgem com o espanto que já não sinto. Num tempo em que a sociedade dá mais valor ao não estar do que à presença sabemos a razão da emergência de uma violência animalesca entre alguns grupos de jovens. É o resultado do abandono. Tememos dizer isto porque não queremos assumir as culpas.

Enchem-se os meios de comunicação, virtuais ou não, de comentadores e especialistas para dizer que a culpa é de todos menos sua ou de ninguém e menos dos miúdos que são vítimas de tudo ou que é dos miúdos e de todos menos de quem devia olhar por eles. A violência é resultado sempre do abandono. Não do acto de abandonar mas da desistência da imposição de regras e de se ensinar aquilo que não é natural no ser humano. Se formos pensadores que assentam na ideia que a sociedade é o resultado de uma evolução humana que permite a civilidade dos comuns num lugar comum então percebemos que a relação entre as duas coisas é evidente. Não é o conhecimento, de per si, que cria cidadãos. É a aprendizagem de vida em comum. E uma palavra que caiu em desuso e tanta falta faz ser recuperada pela escola: respeito. E não me digam que não se ensina o respeito pelo outro, por nós mesmos, pela comunidade e acima de tudo pelos valores universais de não-violência e dignidade. Estas palavras já não se usam, eu sei. Mas como pai sei que é isso que quero que os meus filhos saibam. As palavras e os sentidos, mas acima de tudo, as acções que elevam o espírito e o ser humano a uma condição de civilidade. O abandono que hoje se vive de tudo isto dá no que hoje nos chega a casa por via de mais um vídeo ou de uma manifestação de barbárie entre jovens. A verdade é que há uma mancha imensa de miúdos que aprenderam a viver sobre estas regras. Mas também é verdade que há muitos que perderam esse caminho porque, aos poucos, alguém, algum momento, desistiu deles colocando num papelinho qualquer a indicação: sinalizado – e descansou com isto sem mais nada fazer. Somos frutos destes tempos. Mas somos também nós os conceptores deste tempo. A violência que assistimos e que dissecamos até ao momento seguinte surgir não desaparece porque outra notícia emerge. Continua lá. Até deixarmos de desistir e ir resolver a coisa com a força dos valores que um dia nos fizeram mais humanos…

João Lima

Pai


Desconstruir a Ignorância destes tempos…

“Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro. Porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo.”

Friedrich  Nietzsche

 

A verdade é que a escola não serve só para passar o tempo de todos a “aprender”. Sou do tempo em que a palavra “estudante” imperava. Hoje só quero que a escola tenha um papel fundamental no ensino dos miúdos. Que os esclareça. Que os ilumine. Tudo isto porque, neste início de ano parei para pensar um pouco sobre esta coisa do “educar”. Li de relance um artigo do Pacheco Pereira sobre a “nova” ignorância. Discordo dele só numa coisa: que a culpa é das novas formas de comunicação. Houve um tempo em que os homens achavam que a terra era plana e que as bruxas eram reais e não tinham facebook. E lia também uma reflexão sobre a necessidade de um novo iluminismo. Pensei para mim mesmo, olhando para os pequenitos cá de casa, perguntando-me se não foi esse o propósito inicial da “escola”. Iluminar, esclarecer, trazer a recém-nascida ciência aos homens do futuro novo para os tornar um pouco mais sábios. Ora, a escola, neste momento é quase tudo menos isso. Esse lugar de esclarecimento. E precisamos disso como de água em dias de seca. De realçar a ideia que estudar não é coisa fora de moda ou que o mérito de se ser estudante pode ser esbatido pelo de ser conhecido. Num tempo de imagem e de instantes demasiado imediatos o futuro pertencerá, assim, a quem souber ler e escrever. É estranho alguém que esteve do outro lado olhar para a escola agora como esse lugar de desigualdades. A ignorância é hoje um dos maiores perigos que cada professor enfrenta na sua sala de aula e cada pai na resposta que dá a um filho. Quando se “cita” – uma coisa que se viu numa rede social – não se está a citar uma fonte, está a citar-se uma conversa ou algo que por si só não tem validade. Assusta-me que esta cultura de ignorância se estenda ao único lugar onde isso não pode nem deve ser usado: a escola. É função de cada professor combater esta imensa coisa negra que cria verdadeiramente desigualdade entre aqueles que conseguem (pela cultura, informação e conhecimento) descontruir uma “pós-verdade” que em seu tempo se chamou de propaganda ou desengano e aqueles que acham mesmo que tudo o que lhes aparece como “escrito” é verdade e real. A escola tem hoje um dos maiores dilemas de sempre. Equilibrar o jogo entre o conhecimento e a crítica/análise em modo contínuo em que vivem os miúdos. O professor é um elemento chave neste processo. Como são os pais. A verdade é que este é o tempo onde a cultura é uma velha pobre e o conhecimento seu irmão mais velho. O triunfo da ignorância só tem uma gigante para a travar: a escola. Ou… triunfará.

João Lima

Pai


Morram os TPC, morram, Pim! 1

“Quanto à psicanálise, eis a doutrina por excelência corruptora da sacralidade: o modo pior de fazer perguntas; são perguntas destinadas a obter respostas.”

Herberto Helder

cruz

Em Espanha dizem que os pais fizeram greve aos trabalhos para casa. De Espanha, diz-se por cá, que nem bons ventos nem bons casamentos. Devem estar errados. Bom é mandar trabalhar em casa para além da escola, coisas que na escola ficaram por fazer. Ou aquela ficha! Ah… a importância da ficha. A ficha que tem que se fazer para “rever” a matéria ou para “complementar” o estudo. Um dia direi ao meu filho: não faças. Vem brincar. Está bom tempo. Agora não que é pecado porque as crianças precisam ser obrigadas a trabalhar nas coisas da escola estando em casa que estar em casa é coisa de pecado capital. Eu ainda me lembro de todos os trabalhos de casa que fiz quando estudei. De todas as fichas fotocopiadas em rascunho para poupar tonner e papel. Aprendi tanto com aqueles TPC. Mas só me lembro de um. De uma professora que um dia escreveu à minha mãe para me ensinar o que era uma cadeira. Do ponto de vista filosófico. E prático. Eu não parava quieto. No primeiro teste, porque ainda havia testes e não provas, saiu essa pergunta. O que era uma cadeira. Filosoficamente falando. Inútil tal coisa. Esta de trabalhos de casa para pensar. Para discutir em família ou com amigos. Sou sincero. Um dia direi ao meu filho: não faças. Vem conversar comigo que o tempo está bom para isso. Deixa a ficha que amanhã terás tempo a mais na escola que te rouba tempo para conversar e pensar. Serei mais um apedrejado nesta coisa de dizer que os TPC são coisas inúteis num tempo de sistemas inúteis que nos fazem reproduzir sem parar um modelo que não devemos questionar. Não discutimos os TPC, nem as metas, nem os regulamentos! Para o trabalho escolar e em força! Ui… estou a exagerar. E agora vou parar de escrever. Vou sentar-me ali um bocadinho com o meu filho e brincar. Ou conversar. Ou simplesmente não fazer nada. É trabalho cá de casa. Regular. Coisa estúpida esta… Morra o tempo inútil, sem nada, morra, pim!

João Lima

Pai


Gurus, feiticeiros e bruxos na educação.

“É muito fácil viver fazendo-se de tonto. Se o tivesse sabido antes, ter-me-ia declarado idiota desde a minha juventude, e poderia ser que, por esta altura, até fosse mais inteligente. Porém, quis ter engenho demasiado depressa, e eis-me aqui agora, feito um imbecil.”

Dostoievski

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Se me assusta entrar numa livraria e ver o “top” mais me assusta esta coisa dos especialistas em educação. Seres iluminados que dizem da sua alta cátedra o que devem os professores ou os alunos fazerem para “aprender”. Sempre gostei da frase: gosto de aprender mas nem sempre gosto que me ensinem. Dizem que pertence a Churchill. O que me assusta é mesmo a falta de equilíbrio em tudo enquanto pai. Ora colocamos o “brincar” como elemento central. Ora colocamos o “rigor”. Ora falamos em “métodos” para isto e para aquilo.

A didáctica, palavra velha e cansada nestes tempos foi pelo cano abaixo. Agora temos sempre que esperar pelo que os “especialistas” dizem. Eles, feitos em fábricas como latas de sardinha, debitam os seus “estudos” e pronto. Lá vai toda a escola num só sentido. Eu, por princípio, confio nos professores. Posso gostar mais de uns do que de outros no que respeita à abordagem que fazem. Mas é da diversidade que nasce sempre a razão. Nem que seja aquela que os meus filhos podem tirar de tudo. E sinceramente, apetecia-me dizer aos especialistas que leio em jeito de jornal do tipo “o Diabo” em que faço de muitas coisas uma boa e saudável gargalhada, que vão especializar para as suas casas.

Os professores sabem ensinar queiram os alunos aprender. Dê-se a todos uma coisa que falta e muito. Acesso à cultura da curiosidade. Uma escola e a sua comunidade deve viver disso. Gostava de ver um especialista defender acesso livre e gratuito a professores e suas famílias a museus e centros de ciência para no seu tempo poderem fruir de mais coisas que os enriqueçam e com isso as suas aulas. Gostava de ver especialistas falar de cultura. De saber e de conhecimento. Aberto para além da escola. E não só na escola ou em “métodos” que roubam o pouco tempo que os miúdos hoje vão tendo para estar sem ser orientados para qualquer coisa ou cheios de actividades e mais actividades que potenciam um desgaste de inteligência para além do limite. No meio de tanto especialista não seria bom ouvir quem sabe ensinar? E dar esses que ensinam todos os dias acesso à cultura para que todos possam saber um pouco mais? Não é a escola, supostamente, um lugar de conhecimento e cultura antes de tudo o resto? Gostava que fosse. Talvez façam um especialista em lata de sardinha que venha, um dia, dizer isto se isto for especialidade para tal…

João Lima

Pai


Não quero que um professor ensine os meus filhos.

Vivemos num tempo em que estas frases vendem mais do que os conteúdos que se seguem. Por um breve instante apeteceu-me cair nessa tentação. Uma frase provocadora para ser comentada. Depois, já nesta terceira linha, arrependi-me. Mas fica. Para ver. A verdade é que não quero. Não quero que um professor se limite a ensinar os meus filhos. Quero que lhes diga, oportunamente para não correrem num corredor da escola. Que não falem alto se isso acontecer num espaço onde isso não deve acontecer.

No meu tempo, quando estudava, era assim. Se corria ou a brincadeira extravasava o limite alguém, funcionário da escola ou professor, chamava-me a atenção. Também o fiz sempre como professor. Mesmo sendo daqueles que era olhado de lado pelos miúdos e pelos colegas. A verdade é que gostava que todos deixassem essa imensa estupidez de dividir educação e ensino. Há algo que caiu em desuso completo mas que, como pai, gostava tanto que a escola tivesse a capacidade de restaurar. Chama-se civilidade. É para isso que a escola serve, também. Nem cidadania nem nada dessas coisas. Civilidade. Descurámos nisto, todos. Agora andamos a colher o fruto de o termos feito. A reprimenda não é um ataque aos adolescentes e crianças. É ensinar que a regra do comum, num espaço de todos é tão valiosa como a afirmação da individualidade tão típica destes tempos modernos. Sei que todos estamos cansados demais para esta demanda. Nem já nos lembramos como se faz. Como se diz a um miúdo (sim, são miúdos) que não se grita, não se empurra, não se corre, não de dizem certas coisas. Infelizmente o cansaço de todos num sistema brutal levou a isto. Foi cultivado para isso. E fomos deixando. Eu quero ensinar os meus filhos. E ensino. E instruo que é coisa ainda pior ao olhar de muitos. Que é dizer-lhes o mundo é redondo e roda à volta do sol.

Mas também lhes digo que não se grita, não se corre e mais mil e uma coisas que para muita gente é educar e para mim é preparar para a civilidade. Para saberem estar em comum com outros. E os outros são todos. Amigos e professores. Adultos e outras crianças. E quero educar os meus filhos. Mas educar é um processo que envolve os dois anteriores. Porque nele cabem os valores e a moral. E um dia falarei disso. Não agora e não aqui. Aqui, esquecido que espero que esteja o título, queria só pedir que se lembrem de como se faz essa coisa de ensinar a estar em comum. E que, todos, mesmo cansados, sabemos como é. Como se fazia. Talvez seja dizer não, ensinar as regras, criar harmonia que falta. Valem as palavras o que valem. Se num sistema complexo uma das partes desiste disto tudo resulta num emaranhado de nada onde todos são culpados de não fazerem a sua parte. Essa estúpida discussão tem que terminar. Civilidade, chama-se. À coisa que falta nas escolas, agora…

João Lima

 


… coisas de ser pessoa. 2

6ª feira é dia do ComRegras dar voz aos pais. Fica o primeiro artigo do João Lima.

Sê bem vindo João 😉

… coisas de ser pessoa

“Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos sem respeito pela memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive connosco, muda connosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro. Representa a sensibilidade, a personalidade.”

George Steiner, em entrevista à Visão 16-07-2016

… durante anos estive do outro lado. Na sala de aulas, ensinando. Educando. Não gosto da divisão que todos brandam aos céus como se a mais alta das razões se fosse levantando de que em casa se educa e na escola se ensina. Sempre a combati. Na escola educa-se. E ensina-se. E fazem-se muito mais coisas, como dar civilidade. Agora, quando me desafiaram para voltar a escrever num blog tive sinceras reticências de pensamento e de reserva intelectual. Primeiro porque deixei de ser professor. Mudei de profissão. Depois porque fechei um blog sobre o assunto e não mais me apetecia andar por estes mundos. Mas o desafio surgiu noutra perspetiva. Inundada que anda a internet de mães e pais fotogénicos, eu, anónimo e muito pouco dado à exposição assumo aqui essa função. De escrever como pai. O que irei escrever será tudo menos politicamente correcto, ou bonito, ou com acordo ortográfico. Será a razão de alguém que sempre pensou e viveu a educação de forma diferente e que agora ensina e educa os seus dessa mesma forma. Fora da linha comum. Ou melhor, de outra forma que não a sistemática. Este é só um texto de abertura. Somente isso. Como tal, só um apontamento de apresentação. Tal como foi esta semana inicial na escola. Os miúdos, como gosto de dizer, voltaram à escola. Eles, que são o sangue e a alma de espaços de betão, voltaram. Quer dizer que as casas onde estavam estão agora mais vazias. Como pai sinto isso. E sinto que tenho pena de uma coisa muito simples. Quando eu era miúdo tinha que apresentar, por estes dias, e creio que foi assim até aos 12 anos, a cédula pessoal. Durante esse tempo dizia o sistema que eu era “pessoa” ou estava em vias de ser. Gostava desta coisa. Do pessoal. Do ser pessoa. Dizia o sistema, muito baseado na cultura e vivência política francesa, que a pessoa se forma em comunidade, para ser cidadão. Agora, o sistema encrava se o petiz não tiver cartão do cidadão. Imaturidade do sistema, penso eu. Imaturidade ao não dar tempo à pessoa para ser educado e ensinado a ser cidadão. As coisas e os nomes são reflexo do tempo em que estamos. Do cartão do petiz já nem o número de identificação interessa. Interessa o outro. O de contribuinte. Eu tive o privilégio do “sistema” me ter dado tempo para aprender a ser “pessoa”. Talvez seja por aqui que começam os males da escola hoje. É que disto, verdadeiramente, já ninguém se lembra…

Nota: O autor desrespeita com admiração, consideração e afins o acordo ortográfico em vias de obrigatoriedade séria.

João Lima