Estendal


Ainda a Cristina Ferreira, os trabalhos de casa e a indisciplina. 5

A apresentadora Cristina Ferreira foi duramente criticada nos últimos dias, por ter feito, no âmbito de uma entrevista, comentários considerados levianos e inconsequentes em relação aos trabalhos de casa do seu filho. Declarou então publicamente que não obrigava a criança a fazer os trabalhos de casa e que apresentava à professora razões por si inventadas para justificar o incumprimento.

Alguns saíram logo em sua defesa, que também eles não viam pertinência nessas tarefas, parecendo-lhes ver nas palavras de Cristina Ferreira um problema que lá não estava: se bem repararmos, em momento algum ela refere ser contra ou a favor dos trabalhos de casa. O que diz a apresentadora, tão-somente, é que às vezes o filho não tem vontade de os fazer – e ela não o obriga.

E se achamos que se expressou de forma desabrida e frívola, tendo em conta a sua condição de figura pública com acrescida responsabilidade mediática, esse é o menor dos males. Mais não fez Cristina Ferreira do que beliscar a sua imagem de cidadã e mãe e criar eventuais constrangimentos na relação pessoal e institucional com a professora do seu filho.

O que me parece preocupante nesta situação – muito mais do que a forma despropositada que a apresentadora utilizou para manifestar a sua indisponibilidade para acompanhar as tarefas escolares do filho – é dar-se o caso de tantas pessoas, por via de um quotidiano extenuante, a abarrotar de compromissos exigentes (e lamentavelmente sem a equivalente compensação financeira), se reverem nas palavras de Cristina Ferreira.

Quantos pais não chegam a casa exauridos e assoberbados com a vida profissional e se vêem ainda perante um sem-fim de tarefas inadiáveis que muito pouco tempo concedem à atenção familiar?

Quantos pais não disseram já – ou tiveram muita, muita vontade de dizer – num final de dia infernal “então não faças, quero lá saber!”, sentindo na pele a frustração e o ónus da má parentalidade?

Quantos pais não caem na tentação de “atalhar” na resolução de problemas educativos e tensões familiares quotidianas com “pequenas e inofensivas” mentiras?

Afinal, não vem grande mal ao mundo, infere-se das palavras de Cristina Ferreira, se afiançarmos ao professor que a criança não pôde realizar as suas tarefas, quando – efectivamente – apenas não lhe apeteceu.

“O que é importante”, oiço tantos pais dizerem diariamente, “é exigir respeito, é ensinar os miúdos a respeitar o professor, que eu, faltas de respeito, não admito!”

Sim senhor, o respeito é fundamental, estamos todos de acordo. Mas também não é assim tãããooo importante que não possa permitir uma mentirinha aqui e ali. E se podemos fazer uma trafulhicezinha quanto aos trabalhos de casa e isso não interfere no respeito que é suposto termos, umas brincadeirazitas com o colega do lado também não devem fazer mal. E recusar fazer uma tarefa na sala de aula também não é nenhum crime. Optar por dizer umas graçolas em vez de prestar atenção, ou remorder umas respostas tortas quando a professora nos insta a fazer o que não nos apetece também não há-de ser “morte de homem”. E se indevidamente estragamos algo que não nos pertence, não deve igualmente haver problema em fingir que não fomos nós. Afinal, é só mais uma mentirinha inofensiva, como as que a mãe inventa para justificar a ausência dos trabalhos de casa.

Depois, quando estudos nos provam que a pequena indisciplina aumenta paulatinamente nas escolas, pasmamo-nos, de olhos escancarados de surpresa, e desconfiamos que a raiz do problema só pode estar nos métodos obsoletos de ensino e na natureza anacrónica do sistema escolar.

MC

Professora e autora do blogue Estendal


Os queixinhas dos professores. 5

Os professores são uns privilegiados que estão sempre a queixar-se, toda a gente já sabe. São uma classe profissional useira e vezeira na arte do resmungo; que o digam os senhores ministros da educação ao longo dos anos, coitados, o que sofreram para os apaziguar, aparentemente sem sucesso.

Os professores são pessoas que não conseguem passar muito tempo sem estar sob as luzes da ribalta. São gente carente, que quando não tem nada do que reclamar, inventa. Ora digam-me lá se não é isto. Primeiro, ai jesus que não ganham vínculo, que não têm estabilidade, e mi mi mi. E depois de finalmente ganharem vínculo que tanto desejaram, ficam contentes? Não ficam.

Os professores lembram-me sempre a vizinha Miquelina, coitada, que tem a mania das doenças e a quem não se pode perguntar “como está?”, que ela vai logo de desenrolar a eterna cantilena dos achaques, vai para mais de quarenta anos. Com os professores é igual.

Aqui há uns anos era um ai ai ai que não queriam ser avaliados, porque isto e porque aquilo. Madraços que só querem ganhar sem fazer nenhum, é o que é. Vá lá, vá lá, que aquela senhora ministra (abençoadinha) lá os conseguiu pôr a trabalhar e agora é vê-los a fazer os seus relatórios de auto-avaliação todos os anos que é um rigor! Agora é que a coisa funciona em pleno. É assim mesmo, ou pensavam que eram mais que os outros?

Passa-se um tempito, lá vêm eles outra vez: é um deus-nos-acuda que não há democracia nas escolas e patati patatá. Não há democracia? Ó senhores, tende juízo. Vê-se logo que não sabem o que são verdadeiros problemas laborais.

Digam-me lá, senhores professores: vocês porventura têm – só a título de exemplo – um dress code obrigatório, como têm os cirurgiões e os funcionários do McDonalds? Não têm. Pois não. Chega-se o Inverno e os senhores professores têm TODA a liberdade de ir para as aulas carregados com quantos casacos, cachecóis e gorros quiserem, não têm? E podem perfeitamente mantê-los nas salas de aulas geladas e escrever no quadro com as luvas nas mãos, que ninguém vos proíbe, pois é? Queria ver-vos, se só pudessem usar aquele véuzinho diáfano como as meninas da Emirates. Ah, pois é.

E não têm os senhores professores TODA a liberdade para poder desempenhar em casa, no morno aconchego do sofá, tarefas de âmbito profissional? Estarão, por acaso, impedidos de corrigir os testes das suas oito turmas na madorra ensolarada de uma manhã de Sábado? Ou até mesmo de aproveitar as horas tranquilas e silenciosas da madrugada para calmamente preparar as suas aulas? Alguém os chateia com isso? E já alguma vez viram um funcionário do pingo doce ter o privilégio de poder aproveitar o serão aconchegante do lar para fatiar o fiambre ou embalar os croquetes do take-away? Disso não falam eles.

E não têm igualmente os senhores professores toda a liberdade para se queixar, gritar, barafustar, espernear, enfim – gritarem aos quatro ventos a sua indignação e revolta quando são insultados e / ou agredidos no cumprimento das vossas funções? Serão porventura impedidos de verbalizar as suas dores e partilhar com o mundo as suas mágoas? Talvez os senhores professores nunca se tenham apercebido – por serem pessoas sobejamente conhecidas pelo seu egocentrismo e alheamento perante as desditas dos seus concidadãos – que têm sido (incompreensivelmente) poupados à estrita observância do lema incontornável das empresas prestadoras de serviços, “o cliente tem sempre razão”. Os professores são uns privilegiados do pior.

MC, autora do blogue Estendal.


“Ó badocha, se te chibas, já sabes o que te acontece!”

Encosta-se à parede, num desejo inconsciente de se fundir com ela, de ficar invisível, num milagre de osmose desesperada de camaleão atabalhoado. Avança devagar, com o bater do coração a ressoar-lhe nos ouvidos em estereofónico alvoroço.

Dobra a última esquina e pára em frente da maldita porta, aflito para controlar a respiração e o medo. Pretende bater ao de leve, um toque suave dos nós dos dedos, quase inaudível, mas um barulho súbito ao fundo do corredor sobressalta-lhe o passo e fá-lo castigar a madeira da porta com o ímpeto dos nervos.

Todos se viram para o ver entrar: a professora olha-o com desagrado pelo atraso e queda-se, expectante, a aguardar uma explicação. Os colegas fitam-no, divertidos com o seu embaraço titubeante, as roupas desalinhadas, grandes círculos escuros debaixo das axilas e à volta do pescoço, os atacadores das sapatilhas soltos a arrastar no chão da sala, a mochila semi-aberta de rojo pelo chão.

Quer afastar de si todos os olhares, mas não sabe como fugir da maldita exposição que tanto temia. A gaguez trava-lhe fala, prolonga e confunde as explicações: desculpe, professora, tive de… ir a casa… porque… pronto… foi uma coisa… foi lá no balneário… pronto…

As gargalhadas dos colegas ecoam na sala e interrompem-lhe o discurso desconexo. O semblante da professora carrega-se de zanga e a impaciência aumenta proporcionalmente ao barulho dos risos. “Senta-te de uma vez! No fim da aula conversamos.”

Senta-se no lugar, o dorso enrolado como um bichinho de conta, o peso do mundo alapado nos ombros. Sente sobre si, como brasas incandescentes, os olhares maldosos deles. Largou na sua direcção uma olhadela medrosa e logo ali legitimou as razões do seu terror: lá estavam eles, displicentes, a fitá-lo, de expressão malévola e sorrisos velhacos a rasgar-lhe o rosto trocista. O Rúben, líder incontestado do grupo, levanta as sobrancelhas com sonsice e mostra-lhe, dissimuladamente, a navalha escondida no bolso do casaco.

O terror regressa-lhe ao peito em grandes golfadas e inunda-o como uma onda gigante a avançar sobre os incautos banhistas. Voltam-lhe à memória – ou talvez nunca tenham partido – os momentos de martírio que viveu há pouco: a espera que lhe fizeram, desta vez no balneário vazio, depois da aula de Educação Física; a humilhação de ser imobilizado por uns quantos velhacos, enquanto os restantes lhe arrancavam as roupas e a dignidade, de ficar desnudo e arrepiado de frio e vergonha no chão molhado da casa de banho, de sentir a lâmina gelada da navalha no rosto vermelho, ao mesmo tempo que a urina quente resvalava pelas pernas nuas e formava um pequeno lago de enxovalho em torno dos pés paralisados. “Ó badocha”, remorde o Rúben, a testa borbulhenta colada à sua franja empapada em suor, “se te chibas, já sabes o que te acontece!”

As gargalhadas deles, sonoras e acintosas, seguem-no pelos corredores, pelos caminhos desarvorados até à solidão do seu quarto. A vontade de gritar, de fugir da escola, de nunca mais voltar, de deixar de existir, calcada à força dentro de si, revolve-lhe as entranhas em guinadas agudas. Dói-lhe a barriga – ou será o peito? – e sente que não consegue ficar mais ali, naquela sala, a sentir sobre si a chacota dissimulada. Uma cólica mais rija ferra-lhe com força na carne e impele-o como uma mola. Levanta-se num ímpeto e sai da sala, perante as risotas à socapa e o olhar perplexo da professora. “Ora vejam só”, matuta ela – “um rapaz tão calminho… deu-lhe agora para se armar em rebelde.”

MC

Professora e autora do blogue Estendal


Pronto, lá está o professor outra vez zangado! 1

professor-zangadoOs minutos escorrem lentamente, como gotas de soro a deslizar na transparência do tubo. Na sala impera um silêncio profundo mas artificial, apenas recortado pela voz calma do professor, que espraia o conhecimento com gestos amplos dos braços. As mesas de trás fervilham de actividades, camufladas pelo volume protector das mochilas estrategicamente colocadas. Aqui e ali traçam-se gatafunhos na contracapa do caderno, mais além joga-se ao galo ou à batalha naval, trocam-se recados em bilhetinhos voadores, manda-se mensagens no telemóvel, meticulosamente entrincheirado no bolso largo da camisola.

“Rafael, estou a falar contigo!” – a voz subitamente levantada do professor sobressalta mais de meia dúzia. O Rafael endireita-se alvoroçado e regressa à força do mundo dos sonhos: “desculpe, ‘setor’, pode repetir?”

“Lá estás tu outra vez desatento, Rafael! Nunca estás com atenção! Não ouviste nada do que eu disse, não é verdade?” – reclama o professor, antes de repetir a pergunta para a qual o Rafael, obviamente, não sabe a resposta. Encolhe-se mais ainda no seu lugar, acabrunhado e genuinamente desgostoso. Gostaria tanto de conseguir concentrar-se e ouvir o professor, a aula todinha! Mas é que gostaria MESMO! Ah, se fosse capaz, havia de responder acertado, palavrinha por palavrinha… e o professor havia de dizer “muito bem, Rafael” e olhar para ele agradavelmente surpreendido.

O professor sabe muitas coisas e tem o cabelo grisalho, como o avô Rui. A lembrança do avô Rui crava-lhe com força nas entranhas a ferroada da fome. Quem lhe dera estar agora a almoçar na cozinha acolhedora dos avós: a sopinha cremosa a saber a coentros, o frango no forno, os pires de aletria alinhados na bancada. Suspira, desalentado e afunda a mão discretamente na mochila, à procura do telemóvel. Meio-dia e quarenta. Ainda. Mais quarenta e cinco minutos, para acabar o terceiro bloco de noventa minutos daquela manhã.

“Rafael, estás a mexer no telemóvel? Outra vez, Rafael? Não te disseram já tantas vezes que não se pode usar o telemóvel nas aulas?” Pronto, lá está o professor outra vez zangado! Pede desculpa de olhar baixo, confessa que estava a ver as horas. O professor respira fundo para controlar a impaciência e avisa: “ não volto a avisar, Rafael. A próxima vez tiro-te o telemóvel e vou deixá-lo na direcção! Presta mas é atenção à aula!”

Acena que sim vigorosamente. Agora vai prestar atenção. “Vá lá, concentra-te”, sussurra para si próprio. Há muito tempo que está naquela sala, sentado naquela cadeira. Matemática, Português, História. Noventa, mais noventa, mais noventa. Ora deixa cá ver, tenta calcular de cabeça, mas acaba por recorrer ao amparo dos dedos – três vezes nove, vinte e sete – ah, mas depois acrescenta-se mais um zero, faz duzentos e setenta minutos. Ali sentadinho, a escutar a matéria. Tenta esticar as pernas para aliviar a dor nos ossos, que teimam em crescer mais depressa que o resto do corpo.

O traseiro está gelado e dormente e o estômago vazio revolta-se em espasmos endiabrados. Ainda tentou ir ao bufete no intervalo de vinte minutos a meio da manhã; mas já se sabe, o bufete é um ecossistema hostil onde as leis de sobrevivência não são favoráveis aos mais novos; ainda ia a meio da imensa fila quando ouviu o toque para a entrada. Ora toda a gente sabe que a professora de Português não é grande apreciadora de atrasos e não aceita como válidas desculpas mais leves do que diarreia, vómitos, coma ou morte súbita. Acabou por abandonar a fila, murchito, o olhar tristonho cravado nos croissants com chocolate. Lá estavam eles, na prateleira do meio, lustrosos, o chocolate a escorrer-lhes do ventre e a alastrar no vidro da vitrine – “E então, Rafael? Vais demorar muito a responder à pergunta?”

MC

Professora e Autora do Blogue Estendal


“Ó pá, porra, mãe, não sejas estúpida!” 2

crianca-reiA chuva começa a cair em bátegas fortes e impiedosas. Na fila, as pessoas entreolham-se indecisas, a vontade de manter o lugar a fraquejar, submersa pelas gotas pesadas e súbitas. Como num acordo tácito e silencioso, a carreirinha ordenada esboroa-se: todos procuram, apressados, o abrigo envidraçado da paragem e ali permanecem, murchos e incomodados com aquela intimidade forçada, as respirações mornas a voltearem no ar e a embaciarem os óculos.

A mulher encosta-se ao fundo envidraçado da paragem, hirta e carrancuda. Fixa os olhos num ponto indefinido à sua frente, a observar a trajectória da chuva. A rapariguita olha-a com ansiedade e impaciência. “Ó mãe, vá lá, pára com isso”, diz-lhe, empoleirada nas pontas dos pés, para melhor lhe chegar aos ouvidos. “’Tás a ouvir?” insiste. “Mas ainda ‘tás chateada comigo?”

“Deixa-me sossegada”, atira-lhe a mulher entre dentes.  “Estou muito desapontada contigo, Cláudia Sofia”. A Cláudia Sofia respira fundo, sai-lhe o ar furioso pelas narinas, a irritação a esganiçar-lhe a voz: “Fosga-se, pá! Já te expliquei, não expliquei?”

“O teu comportamento não tem justificação. Quantas vezes já te disse, Cláudia Sofia, que não podes ser respondona, que não podes ser mal-educada, que tens de respeitar as pessoas, especialmente os professores, quantas? E vale de alguma coisa o que eu te digo, Cláudia Sofia? Nada. É o mesmo que nada!”

“Ó pá, porra, mãe, não sejas estúpida!”, grita a gaiata, mas logo baixa o volume quando se apercebe do interesse da plateia circunstancial. “Já te disse que a culpa foi dela, não disse? Já te contei que ela embirra comigo, não contei? Eu já te tinha dito que a mulher não gostava de mim, logo desde o princípio do ano, foi ou não foi?”

A mãe vira para ela os olhos magoados: “não sei onde é que eu errei, Cláudia Sofia. Eu dou-te toda a liberdade para fazeres as tuas escolhas, faço o que me pedes, sou compreensiva contigo, estou farta de te dizer que quero que me vejas como uma amiga – eu sou tão tua amiga, minha filha! Esforço-me tanto para respeitar as tuas vontades, Cláudia Sofia! E é esta a paga que recebo!

Todos os olhares se viram alternada e tacitamente na direcção das duas protagonistas, como os espectadores atentos de um jogo de ténis. Alguns fitam o rosto sofrido da mulher com solidária benevolência. Outros acompanham as suas palavras de sobrancelha arqueada e um sorriso sarcástico cravado no rosto.

“Mas a culpa foi dela, já te disse! Ela está sempre a implicar comigo e tu sabes bem que eu não me calo quando tenho razão! E ela teve a granda lata de me dizer que quem mandava ali era ela e que eu só tinha era que obedecer! E depois mandou-me calar! E eu respondi-lhe que em minha casa falava quando me apetecia e que nem a minha mãe nem o meu pai me mandavam calar e portanto ela não era ninguém para me mandar calar! Era o que faltava, de onde é que ela me conhece para me mandar calar?”

 “Mas eu já te expliquei, filha: os professores são pessoas de outra geração, têm ideias antiquadas, se calhar não tiveram a sorte de ter pais abertos e compreensivos assim como tu tens; tiveram uma educação mais severa, coitados – e agora acham que tudo se resolve na base da autoridade. Tens de ter paciência com eles, Cláudia Sofia.

“Ó mãe, deixa-te lá dessas conversas parvas de ser compreensiva! Eu sou como sou; quem quiser aceita-me, quem não quiser, temos pena! Anda mas é daí que vem lá o autocarro!”

“Ó filha, espera aí, olha as pessoas que já cá estavam…” Mas a Cláudia Sofia já não a ouve, segue altiva e apressada, com a resoluta intenção de ser a primeira a entrar.

MC

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“Em casa resolvemos nós os assuntos, lá na escola que os resolvam eles, que estão a ganhar o ordenado, não é verdade?” 2

mulher-chateadaA senhora entra resoluta no café, logo ao bater das oito. Com os braços cruzados sobre o peito, afaga a echarpe vistosa, tentando esconder do frio matinal os dedos gelados. Atrás dela, uma miúda magricela de jeans esburacados dedilha freneticamente as teclas do telemóvel.

“Por aqui tão cedo, D. Maria do Rosário?” surpreende-se a vizinha Silvina, enquanto ajeita na vitrine o tabuleiro dos pastéis de nata. A D. Maria do Rosário vira-se para trás, num movimento hirto do pescoço e confere com a mão a compostura das madeixas loiras que lhe repousam nos ombros. “Deixe-me cá, vizinha… é por causa desta menina.” E continua, após uma ligeira pausa dramática, coroada com um suspiro profundo: “Já tenho de ir outra vez à escola, por causa dela – parece que se portou mal novamente.”

A vizinha Silvina oferece-lhes um sorriso bondoso e encorajador: “ai sim? Então, rapariga, que disparates andas tu a fazer?”, pergunta com genuína curiosidade, incapaz de associar a figura escanzelada e apática a quaisquer malfeitorias. A rapariga brinda-a com um encolher de ombros desinteressado, sem despegar os olhos do telemóvel. A mãe lança-lhe um esgar de reprovação e aproveita de bom grado o incentivo para desfiar o rol dos queixumes:

“Sabe lá, vizinha… aqui onde a vê, assim calminha, ninguém diz do que ela é capaz… mas é uma sonsa, é o que lhe digo! Responde mal aos professores, marcam-lhes faltas disciplinares, veja lá a senhora a minha vida! E eu se mpre a dar-lhe educação, vizinha, toda a gente sabe que somos uma família de valores, que a ensinamos a tratar todos com respeito – sim, que o respeitinho é muito bonito – que lhe dizemos sempre, mas sempre, que não lhe admitimos faltas de educação! E ela faz-nos uma destas, vizinha, há lá explicação para uma coisa destas? Esta já é a terceira vez que sou chamada à escola este ano! Três vezes, vizinha! Quem é que entende esta rapariga?”

“Mas também lhe digo, vizinha: não a percebo a ela, nem percebo aqueles professores, sempre a queixar-se, sempre a queixar-se! Ora eu não estou lá na escola com ela, pois não? Quem lá está são os professores – eles é que têm de lhe dar educação, pois não é? Então, em casa resolvemos nós os assuntos, lá na escola que os resolvam eles, que estão a ganhar o ordenado, não é verdade?”

“Mas não, telefonam-me, chamam-me lá, isto é uma chatice a toda a hora. Já no mês passado lá fui, falar com o director de turma. E para quê? Ainda saí de lá mais incomodada do que quando cheguei! O homem parece que não entende o que eu lhe digo: expliquei-lhe que a miúda tem um feitio muito especial, que não se pode enervar, que têm de lhe falar com calma porque ela reage mal às contrariedades – expliquei-lhe isto tudo, muito explicadinho, vizinha. E ele continuou na dele, que não podia ser, que aquelas atitudes não eram aceitáveis e patati patatá!”

“Mas será que estas pessoas não percebem nada de psicologia? Então andaram a estudar e são doutores para quê? Bem, o meu marido costuma dizer que isto é tudo gente fraquinha, que foram para professores porque tinham notas modestas e não conseguiram entrar em cursos como deve de ser e então fugiram para o ensino… e eu acabo por achar que ele é que tem razão.”

“Ora veja lá o caso do director de turma da miúda: é professor de matemática. Então, se ele tivesse boas notas, podia ter ido para medicina ou engenharia, não era? Isso é que são cursos a sério! Mas não, foi para professor de matemática, está a entender? E depois a pessoa está ali a falar-lhe de questões de psicologia infantil e vê-se logo que ele não está à altura, não está habilitado a lidar com estas coisas. O que é que ele quer que eu faça à miúda? Quem o ouvir, até pensa que a culpa é minha, que eu não a ensino a respeitar os outros – e isso é que não admito a ninguém!”

MC

Professora e autora do blogue Estendal


“Ó professora, por favor não me obrigues a ir ao quadro!”

dormir-na-mesaO dia começou há muito e parece não querer acabar. A alvorada pouco depois das sete, o acordar estremunhado e choroso, a relutância em largar a cama quentinha e o pijama de ursinhos amarelos. A rabugice a vestir, o pequeno-almoço mastigado a custo, o mano crescido a implicar logo pela fresca. A mãe, na pressa atabalhoada dos preparativos do dia, reclama razoabilidade e juízo; o pai procura eternamente as chaves do carro, a mala do portátil e o telemóvel; depois quer saber quem foi que lhe escondeu os óculos – os mesmos que equilibra artisticamente no cabelo revolto.

A primeira paragem é no emprego da mãe, alguns minutos antes das oito; depois sai o irmão, à porta da secundária às oito e vinte. Fica só ela no banco de trás, quentinho e confortável, a dormitar mais um bocadinho e a ouvir em surdina a rádio que o papá escolheu. À porta da escola desliza contrariada para o empedrado do passeio e lança um último olhar amoroso e envergonhado para o elefante de peluche semi-escondido entre os bancos, que ama desmesuradamente e sem o qual não sabe viver.

Logo de manhã há fichas de leitura e exercícios de vocabulário. A professora corrige os trabalhos de casa, faz perguntas sobre o texto, fiscaliza o aprumo da caligrafia, o asseio dos cadernos, a organização da secretária. O intervalo corre num rápido: o lanche é engolido de afogadilho, que cada momento é precioso. Há correrias, risos e zangas, salta-se ao elástico, sonha-se com os baloiços – só há dois, mais um escorrega e uma roda, para cerca de quinhentos meninos: está bem de ver que os mais pequenos nunca têm vez.

Depois há fichas de Estudo do Meio e a seguir aula de Música. Por volta do meio-dia, os meninos seguem em carreirinha ordenada e solene pela rua acima, para almoçar na escola ‘dos grandes’. O refeitório é imenso e ensurdecedor, a balbúrdia das vozes desregradas e das loiças a tinir nos tabuleiros agita e destempera os pequenitos. Regressam à sala de aula frenéticos e transpirados, as faces vermelhas e as roupas sujas.

Já o sol de outono está a poisar de mansinho nas copas das árvores e  agora é a vez do Manel no quadro. A conta arrasta-se ardósia fora, os números tortos e desalinhados como molas soltas. “Muito bem, Manel, vai lá sentar-te. Maria Inês, anda cá tu agora”, diz a professora, enquanto apaga os algarismos para escrever outro exercício. “Então, Maria Inês?”, torna ela, e procura com o olhar a razão da demora. A Maria Inês está debruçada sobre a mesa, a cabeça encostada à mochila aninhada entre os seus braços. “Não vou”, murmura como quem mastiga as palavras. “O que disseste?”, questiona a professora. E ela repete, agora num grito de revolta, com o fervor de quem atira balas: “não vou ao quadro! Não quero ir ao quadro, já disse!”

“Ó Maria Inês, que conversa é essa?” impacienta-se a professora. A criança continua imóvel, deitada sobre os braços. A agitação dos garotos dá agora lugar a um silêncio expectante. Todos os olhos estão postos nas duas protagonistas do episódio. A professora respira fundo, numa tentativa esforçada de camuflar o cansaço com uma serenidade que não sente. Caminha em direcção à mesa da gaiata, disposta a legitimar a sua autoridade com firmeza.

Mas ainda não chegou ao seu destino e já a Maria Inês se ergue e clama, olhos vermelhos e lacrimejantes, a franja empapada de transpiração, a angústia evidente a bailar-lhe na voz pequenina: “ó professora, por favor, não me obrigues a ir ao quadro! Estou tããõoo cansada! Não quero fazer mais nada hoje! Deixa-me lá estar aqui um bocadinho sossegada!”

MC

Professora e autora do blogue Estendal


“Ora mexa lá nas minhas coisas, para ver o que lhe acontece!”

mochilasA chuva miudinha escorrega pelas vidraças largas da sala de aula. O sonzinho suave das gotas a bater provoca, sobretudo àquela hora da sesta, uma madorna gostosa de canção de embalar. A voz serena do professor eleva-se na explicação do exercício que se espraia quadro fora, em irrepreensíveis carreirinhas brancas. Alguns alunos concentram-se na resolução do problema, a testa franzida e o olhar inseguro a denunciar confusão. Outros, há muito cederam à preguiça da tarde morna. Sentam-se alheados, a rabiscar gatafunhos nas margens do manual, a extirpar pequenos pedaços de borracha que amontoam delicadamente sobre a mesa, dois ou três a tentar manusear o telemóvel semi-camuflado dentro do estojo.

O rapaz sentado no último lugar da segunda fila lança aos vizinhos olhares furtivos de impaciência. Um ligeiro catarro simulado atrai a atenção de dois ou três outros, que se entreolham com um sorriso malicioso e entendedor. Num repente, uma cacofonia simultânea de cadeiras a arrastar no chão surpreende o professor, que interrompe a articulação do raciocínio para apreender o motivo da barulheira. Mas quando os seus olhos percorrem a sala, nada se passa já – apenas encontra entreolhares vagos e inocentes.

O raciocínio retomado, a aula segue. Não tarda, soltam-se na sala pequenos trinados, piu-piu-piu, num chilreio camuflado de origem indefinível que prende a atenção de todos e acaba por provocar risos generalizados. O professor lança ao rapaz do fundo um olhar directo e prolongado. O moço sustenta-lhe o olhar sem embaraço, e diz: “não fui eu”. Perante o semblante céptico da maioria, ainda reitera: “eu não fiz nada”.

Torna a equação, ninguém sabe já onde encontrar y, retrocedem-se os passos. Pouco minutos passados, balem agora ovelhas, béééé, bééééé, como se fosse a sala um verde prado bucólico onde um rebanho pastasse. A turma desmancha-se a rir e o professor zanga-se a sério. Quer saber quem prevarica, quer apurar responsabilidades. Todos os olhos vagueiam desorientados pela sala, arregalados de candura e inocência. Nada. Ninguém. O professor, amofinado, recorre à cartada triunfal da responsabilização colectiva: em não havendo um culpado, toda a gente sabe, são todos culpados.

Um burburinho indignado eleva-se na sala. Os justos raramente estão interessados em pagar pelo pecador. Uma voz alterada ressoa difusamente de entre as outras: “… são os toques do telemóvel do menino Miguel…” Imediatamente, todas faces agastadas se viram na direcção do rapaz sentado no último lugar da segunda fila. O ‘menino Miguel’ sustenta com altivez e tranquilidade os olhares críticos de todos, questionando a plateia com ar entendido: “e provas, alguém tem provas de que sou eu?”

O professor respira fundo, dividido entre a relevância de dar um seguimento adequado à situação e a necessidade de consolidar os conteúdos do teste da próxima semana. Está incomodado com o tempo perdido e dirige-se ao rapaz com impaciência: “Ó Miguel, deixa-te lá de palermices. Com essas brincadeiras parvas, não deixas fazer revisões para o teste e não tarda está a tocar! E se eu for aí à tua mesa procurar na tua mochila e encontrar o telemóvel ‘dos barulhos engraçados’? Depois não vais gostar de ter uma participação disciplinar, não é verdade?”

O Miguel soergueu-se ligeiramente e sustentou o olhar do professor sem qualquer acanhamento. “Era o que faltava”, disse, com um sorriso carregado de desdém a arreganhar-lhe os lábios. “Você não tem autoridade para mexer na minha mochila nem para tocar em nada que seja meu. Pensa que me assusta com essa conversa? Eu conheço os meus direitos, ok? Olhe que o meu pai é advogado e ele já me avisou que ninguém pode revistar as minhas coisas sem a presença dele, porque eu sou menor, ok? Fartinho está ele, de lidar com os chico-espertos dos professores! Ora mexa lá nas minhas coisas, para ver o que lhe acontece!”

MC

Professora e autora do blogue Estendal


“Ó pá, raça do moço mordeu-me outra vez!” 2

desesperoO calor peganhento do Verão tardio alaga a sala de aula. A luz do sol, no seu caminho oblíquo em direcção ao poente, bate nas mesas e mistura-se com os cheiros de um dia inteiro de actividades, brincadeiras e correrias. Nas mesas há uma profusão de cores e materiais. Os estojos descuidadamente abertos derramam lápis de cor e canetas de feltro, nas folhas brancas começam timidamente a despontar as criações artísticas. A aula ainda há pouco começou e já a professora não tens mãos a medir: circula de mesa em mesa, no afã de acudir a tantos braços no ar. “Ó professora, chegue aqui”, chama um do fundo. “Professora, não consigo fazer, sai-me tudo mal”, queixa-se outra do outro lado. “Ó professora, o Manel tirou-me o lápis”, brada um terceiro. “Já vou, já vou”, promete ela, e afasta com impaciência uma madeixa que teima em deslizar pela face transpirada.

Na primeira mesa, mesmo em frente à sua secretária, duas meninas com necessidades educativas especiais sentam-se em silêncio, o olhar parado na folha imaculada, os lápis intocados sobre o papel, no rosto espelha-se a resignação paciente de quem está habituado a não conseguir. A professora respira fundo e faz a sua voz sobrevoar o burburinho generalizado. “Ora vamos lá a ter calma. Eu sei que precisam que eu os ajude, mas eu sou só uma, não é verdade? Não é por me chamarem com muita força que eu vou conseguir desdobrar-me e atender todos ao mesmo tempo, é ou não é?”

Um coro de “siiiiiiiiiiins” descontentes brinda a sua intervenção. “Ok. Vão então fazendo a vossa tarefa que eu irei aos vossos lugares não tarda nada”. Aproxima-se das meninas da frente com um sorriso luminoso e encorajador. Explica e torna a explicar, toma nas dela as mãos pequeninas e desajeitadas, prende-lhes o lápis nos dedos e acomoda-os na sua própria mão que desliza pelas folhas. “Está a ficar muito bonito”, enaltece, como se não fosse ela a autora camuflada da obra.

A algazarra cada vez mais intensa leva-a a levantar os olhos, à procura de uma perspectiva panorâmica do cenário. Dois rapazes debruçam-se sobre as folhas entretanto encardidas e simulam uma luta com os x-actos. Um garoto franzino ao fundo da sala, cansado de aguardar pela ajuda que tarda, cola na parede pequenas bolas de papel impregnadas de saliva. Uma miúda segura os braços gorduchos do colega do lado, enquanto a da frente tenta escadear-lhe o cabelo com a tesoura de recorte. A professora sobressalta-se e ralha, o rosto congestionado e vermelho. Percorre as filas rapidamente, a repor a ordem, tenta ajudar quem precisa, mas a sala está cheia de miúdos e ela não pode deixar de supervisionar.

De repente, um ribombar no fundo da sala apanha todos de surpresa. O Vasco, talvez desassossegado pelo barulho ou sabe-se lá porque razões, levanta-se num rompante, atira ao chão com estrondo a mesa e a cadeira, afasta com um safanão a professora do apoio e rodopia pela sala numa espécie de dança desarticulada e assustadora, que acompanha com sons guturais e incompreensíveis. O Vasco é um aluno portador de uma patologia severa que lhe concede o estatuto de inibidor da formação de turma. O Vasco quase não fala, não escreve, não lê, não interage com os colegas, não é autónomo na maior parte das actividades diárias. Os alunos quedam-se, num misto de apreensão e pesar. Alguns não conseguem esconder o medo, quando o vêem investir cegamente contra tudo e todos, enquanto solta gritos aflitivos.

As professoras tentam como podem repor a serenidade, acalmar o rapaz, persuadi-lo a parar de esbracejar e de gritar, mas a tarefa é árdua e o caos instala-se. O Vasco está agora junto à porta, movimenta-se desarticuladamente para cá e para lá, em vigorosos movimentos desconexos, como uma traça a bater na vidraça. Uma das professoras agarra-o pelo braço, na tentativa de impedi-lo de continuar a bater com a fronte, onde um ‘galo’ avermelhado começa a inchar, mas é ela que solta um grito involuntário e sentido. “Ó pá, raça do moço mordeu-me outra vez!” exclama e mostra o antebraço, onde um semicírculo arroxeado lavrou com perfeição a suavidade da pele.  O silêncio estarrecido da turma é agora polvilhado aqui e ali por risinhos abafados. As professoras lançam-lhes um olhar gélido de censura e continuam, resignadas e briosas, a tentar gerir as vicissitudes da escola inclusiva, com a mesma eficácia de quem recebeu um garfo para comer canja.

MC

Professora e autora do blogue Estendal


“É essa a educação que a tua família te dá?” 2

violencia-domesticaAcorda contrariada e aturdida. O olhar desorientado percorre a sala escurecida, ainda mergulhada no breu da noite. Os pés gelados pousam no encosto de um sofá, nas suas costas sente um calorzinho bom e aconchegante. A fonte de calor é macia e mexe-se suavemente encostada a si. Pelo vidro da janela, logo acima da sua cabeça, escorre a luz cálida do candeeiro da rua, numa perspectiva que não lhe é familiar.

Demora alguns instantes a compreender onde se encontra: na casa pequenina da avó Joana. Outra vez. Fugiram a meio da noite, esbaforidas e amedrontadas, pela rua fora, com os mais pequenos de braçado, em passo apressado e permanente sobressalto, a respiração ofegante do cansaço e do medo, como malfeitoras a monte. Outra vez.

Da cozinha volteiam as palavras abafadas mas veementes da avó, o choro empastelado e fanhoso da mãe, o tilintar metálico de uma colher a bater distraidamente na chávena de chá. Mexe-se devagar para ver as horas no telemóvel e a irmã pequenita aconchega-se mais a ela, no remanso do sono. Levanta-se com delicadeza e veste em silêncio as roupas do dia anterior, penduradas nas costas de uma cadeira.

Pela porta entreaberta, observa em segredo as mulheres na cozinha. A mãe, sentada à mesa, embala o irmão bebé, que dorme um sono agitado, entrecortado de soluços. Chora baixinho e vai debitando queixumes ininteligíveis, numa articulação tolhida pela turgência ensanguentada dos lábios e pelo inchaço do nariz. A avó ralha, de pé, encostada ao fogão, a mão furiosa a rodopiar a colher no chá fumegante. “Isto não é vida, minha filha, estou fartinha do to dizer”.

A rapariga encosta-se à parede, escondida na obscuridade da madrugada. Percorre a sala com o olhar, tentando vislumbrar a mochila e – já agora – uma saída para o novelo emaranhado que é a sua vida. Gostaria de comer uma torrada, derreter o gelo dos pés com uma chávena de chá quentinho, mas não tem coragem de entrar na cozinha. Não lhe apetece enfrentar agora o rosto novamente desfigurado da mãe, não quer sentir o olhar piedoso e triste da avó.

Fecha a porta devagarinho e sai para o ar frio e cinzento da madrugada. Caminha alguns metros na direcção da paragem e estanca quando se lembra que não tem dinheiro para o autocarro. Também não tem senhas, nem o cartão da escola para almoçar, nem os livros para as aulas do dia. Todas as coisas de que precisa estão na sua casa, esquecidas na ânsia de escapar à sanha animalesca do pai. Voltar atrás não é uma opção, decide, enquanto corre o fecho do casaco até ao queixo e apressa o passo, que o caminho é longo.

Chega à escola esbaforida e encharcada pela chuva que teimou em cair, logo naquela manhã, a inaugurar o Outono. A aula já começou há muito. O professor suspende as palavras quando ela entra e todos os olhares voam para a sua figura esgazeada e patética. “Outra vez atrasada, não é verdade?”, reclama o professor. Oferece-lhe um “desculpe” sumido e distraído de quem tem mais em que pensar.

“Isto assim não pode continuar”, torna o professor. “já tens várias faltas de atraso e de material, não é verdade? E agora, pelos vistos, vais ter mais! Onde está o teu livro? Fizeste os trabalhos de casa? Anda, tira os materiais e começa a trabalhar!” A rapariga cerra os dentes com força para não deixar passar a zanga. As narinas dilatam no esforço de tentar controlar a respiração. “Olha-me este agora!”, remorde entre dentes. O professor não entendeu, mas os colegas das mesas mais próximas ouviram o seu comentário e olham-na, num misto de expectativa e reprovação. “O que foi que disseste?”, interroga o professor. “Responde-me”, insiste, perante o silêncio dela. “E olha para mim, que estou a falar contigo! Estás a ouvir? Onde está o teu livro? E o caderno? Não trazes nenhum material?”

A cada nova interpelação do professor, a raiva e a frustração atravancam-lhe a garganta como uma represa prestes a rebentar. “Ó pá, não me chateie!” dispara, com a fúria irracional de um animal acossado. O professor revida, arreliado e sentido: “Mas isso são modos? É essa a educação que a tua família te dá?”

A menção da palavra ‘família’ é um fósforo aceso no cenário de guerrilha que foi a sua noite, no carrocel desgovernado das suas emoções. “Não lhe admito que fale da minha família!”, grita-lhe com o fôlego que ainda lhe sobra. Levanta-se resoluta e ofendida e caminha para a saída como rainha no exílio. “Bardamerda”, foi a última coisa que disse, antes de bater com a porta com quanta força tinha.

MC

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“Fónix, lá vem a estúpida da velha!” 6

The Changing PrairieO toque da campainha provoca uma torrente caótica de vozes estridentes e cadeiras a arrastar no chão da sala. A professora suspende o discurso, o raciocínio interrompido. A ideia paira no ar, incompleta, e esmorece no silêncio súbito da sala, abandonada pela turma, sem sombra de civilidade ou cortesia.

A professora aproveita a quietude da sala agora deserta para arrumar com vagar os seus pertences espalhados na secretária. Consulta mais uma vez o seu horário deste ano, que ainda não conseguiu memorizar. No tempo seguinte estará a lecionar numa sala do bloco oposto àquele em que se encontra. Terá de esperar para outra altura, o cafezinho que tanto lhe apetecia, sentencia com um suspiro. Melhor será pôr-se já ao caminho, que os dez minutos do intervalo passam num rápido e os seus ossos já não lhe permitem valentias. Passou há pouco a barreira dos sessenta – e de serviço leva já mais de trinta e cinco anos.

Uma vida inteira, cisma, enquanto caminha com lentidão e cautela. Lembra-se dos primeiros anos da profissão que escolheu ainda era ela uma menina de tranças. Recorda-se dos quilómetros que palmilhou por todo o país, de quantas madrugadas viveu estrada fora, de mala aviada e uma vontade imensa de exercer aquele ofício, um entusiasmo que lhe enchia o coração e compensava a falta que tantas vezes sentia da sua casa e dos seus.

O percurso ao longo dos corredores é penoso e necessariamente prudente. Ao desequilíbrio traiçoeiro das pernas aliam-se as armadilhas do caminho. Por todo o lado há correrias destravadas sem rei nem roque, há rasteiras, encontrões e boçalidades gritadas. Encostados às paredes, magotes de adolescentes pairam alheados, numa adoração hipnótica e pasmada do telemóvel.

Caminha em permanente sobressalto, como quem atravessa um campo minado. Ouve o toque estridente de entrada no preciso momento em que dobra a última esquina e escassos metros a separam da sala de aula. Ao fundo do corredor os seus alunos confraternizam ruidosamente, num ritual que se assemelha a uma dança tribal primitiva, com gritos e grunhidos, coroada a espaços com sonoros arrotos e gargalhadas boçais. Lá no meio da matula, alguém berra: “fónix, lá vem a estúpida da velha!” e é agraciado com um ramalhete de risos alarves.

Avança mais uns passos contrariados, o coração a encher-se-lhe de um desejo imenso de dar meia volta e sair dali para nunca mais voltar. Para se forçar a prosseguir, procura dentro de si resquícios do prazer que sentia em ensinar, mas só consegue encontrar cansaço e desilusão. Um sentimento avassalador de inutilidade e desperdício percorre-a como um espasmo. Sente-se irrisória e transparente, como um espírito etéreo de professora que agora vagueia fantasmagoricamente numa escola de que tanto gostou, também ela já desaparecida. 

MC

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“essa senhora professora, já o ano passado era a mesma coisa, embirrou-me com o miúdo” 1

angel_chrisÓ senhor professor, desculpe lá: antes de o ouvir, começo já por lhe dizer que estou muito descontente e muito desiludida – ah pois estou! Ainda o ano mal começou e parece que vamos voltar ao mesmo do ano passado: já começam as implicações com o meu Fábio!

Não, não, espere aí, senhor professor, eu não estou a dizer que o miúdo é um santo, obviamente que não, mas também não está certo tomarem-no de ponta e acusá-lo de tudo o que acontece, pois não?

Ninguém o toma de ponta? Ah, isso diz o senhor professor! Porque os professores – desculpe lá – podiam ter um bocadinho mais de paciência, que isto já se sabe, são jovens, têm o sangue na guelra e há que lhes dar o desconto. O meu rapaz tem o seu feitio, que tem… Mas se o levarmos a bem fazemos o que queremos dele, agora a contrariá-lo é que não pode ser! É que ele é um rapaz muito especial, tem uma personalidade muito vincada.

Teve falta disciplinar? Na aula de Matemática? Ai, eu já estou mesmo a ver! Eu não lhe digo? Pois essa senhora professora, já o ano passado era a mesma coisa, embirrou-me com o miúdo, não há nada a fazer. O senhor professor sabe muito bem que há um grupo de rapazolas naquela turma que não são flores que se cheirem: fazem-nas pela calada e depois quem paga as favas acaba sempre por ser o meu Fábio. Sabe o senhor professor, o meu Fábio tem um feitio do caneco: para ele, os amigos são os amigos, e ele prefere arcar com as culpas do que acusar os outros! Se fossem todos como ele, outro galo cantaria! Mas não, são uma cambada de fingidos e sonsos, que fazem as patifarias e deixam os outros pagar por elas. Não têm educação em casa, é o que é.

E depois, os professores estão dentro das salas, mas parece que não vêem nada do que se está a passar e no fim castigam sempre o mesmo. Mal fiz eu, em não o ter mudado para uma escola melhor, quando os problemas começaram… Mas desta vez não vou deixar passar: vou com isto para a frente nem que tenha de ir até ao ministro, digo-lhe já. Isto tem de ser muito bem averiguado, para o rapaz não voltar a ser castigado injustamente!

Têm a certeza que foi ele? Mas têm a certeza como? Ai ele disse f*da-se? Na aula? Pronto, está bem… Então se todos ouviram, já cá não está quem falou… Pronto, eu vou ter uma conversa com ele. Garanto-lhe que vou. Mas também lhe digo, senhor professor: se ele disse isso, alguma coisa lhe fizeram, que o meu Fábio não é rapaz de dizer palavrões. Faço ideia a rebaldaria que deve ir naquela aula para o miúdo se enervar dessa maneira, coitado!

MC

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Indisciplina(s) 3

aluno dormirO calor gostoso de fim de Verão inunda o gabinete. Os estores semi-corridos lançam no espaço pequeninos rectângulos de sol que brincam nos objectos da sala. O rapaz está sentado à frente da secretária, se é que se pode chamar “sentar” ao despropósito da figura. Recostou-se displicentemente na cadeira, o traseiro mesmo à beirinha, as costas curvadas como quem se esparrama num sofá imaginário, os braços puxados atrás repousam nas costas da cadeira. De vez em quando, a mão de unhas roídas ajeita distraidamente as madeixas, acamando-as para o mesmo lado e forçando o penteado da moda, como o telhado de colmo de uma palhota.

Olha com descaso e insolência o adulto à sua frente. O interlocutor apercebe-se do seu enfado e interrompe o fio da conversa para lhe perguntar: “não estou a incomodar-te com as minhas palavras, não?”

O rapaz cerra os lábios e levanta as sobrancelhas com impaciência. Depois responde aos solavancos, como se o próprio acto de falar o cansasse terrivelmente: “quer dizer, setor, tipo, eu acho que não é caso para fazer uma escandaleira dessas, quer dizer…”

“Ah, ok. Então deixa-me lá aqui fazer um apanhado da situação: ora bem, estamos na primeira semana de aulas e tu já tens três participações disciplinares. Hoje faltaste às duas primeiras aulas. Entretanto, quando chegaste à escola, com um atraso de quase três horas, envolveste-te numa briga com um outro aluno, agrediste-o violentamente, atiraste-o contra uma viatura estacionada lá fora, causaste danos na porta do automóvel e partiste o espelho do mesmo. É isto, não é?

O rapaz mexe-se na cadeira, com ar incomodado. “Iá. E então?”

O olhar de indignada reprovação do seu interlocutor não atenua a petulância do tom: “ok, ok, não tou a ver que seja uma cena tipo assim tão grave; tipo o brother fixolas, na dele, bora lá acabar com o drama, boa?”

“Bem, vou então ligar para o teu encarregado de educação, para ver se ele é da tua opinião. Vamos lá ver o que ele acha de ter de pagar pelos estragos que fizeste.”

O rapaz move a cabeça rapidamente para o lado, para ajeitar a melena da franja. Sorri com o canto da boca, num esgar carregado de sarcasmo e confiança. “Olhe, boa sorte aí. O meu pai anda a trabalhar no longo curso, por esta altura anda pelas Américas, só deve regressar lá para o fim do mês. A mãe anda a fazer turnos duplos no hospital, já não a vejo desde o fim-de-semana. Ligue, vá! Ligue à vontade!” – e estende-lhe o iphone com um gesto de irónica generosidade. “ Tá-se bem. Ela tem sempre o telefone desligado: ou está a trabalhar, ou está a dormir – e toma lá umas mer… cenas para conseguir adormecer, senão fica toda marada. Bem pode tar aí o dia todo… você é que sabe.” Fita o professor com um olhar directo, atrevido, a saborear a força da sua posição vantajosa.

Estar ali, naquele gabinete, ao fim da tarde, a sentir o escrutínio e a reprovação de alguém a quem não reconhece legitimidade enche-o de um imenso enfado e impele-o a resolver o assunto de uma vez por todas: “Olhe, isto agora a sério, os meus pais têm uma vida muito ocupada, não curtem ser incomodados com estas coisas, de maneira que fazemos assim: você diz-me quanto é a despesa do carro e eu trago-lhe o dinheiro e não se fala mais nisso. Pode ser? Ficamos assim? Eu cá acho melhor. Que se lixem os duzentos ou trezentos euros, são menos uns shots na discoteca ao fim de semana, não é? E ao menos não chateio os cotas e ficamos todos contentes, é ou não é?”

MC

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Indisciplina(s) 6

abraço-sinseroNo princípio, calcorreou o país de lés a lés, naquele corrupio de saltimbanco multitasking que é a vida de professor. Mais de uma dúzia de escolas diferentes de norte a sul, dois anos nas ilhas. Muitos olhos a fitaram, das carteiras à sua frente, em tantas dezenas de salas de aula, nas fragas gélidas de Trás-os-Montes, no calor tórrido do Alentejo, na morna verdura insular. Conhecer assim tantos filhos de tantas mães, de tão diferentes cepas e embalos, revestiu-lhe os ombros de uma força inquebrantável que a empurrou sempre caminho afora, mesmo nos momentos em que mais lhe apeteceu mudar de rumo, afinar agulhas para outras paragens.

Um dia benfazejo, em que as vontades dos deuses se enfileiraram num alinhamento perfeito, ficou efectiva numa escola. O júbilo da segurança finalmente alcançada não tardou a ser toldado pelo aperto angustiado do coração: a sua nova escola, onde o milagre da estabilidade se concretizaria, era uma escola de subúrbio feio, caprichosamente entalada entre dois bairros sombrios, de blocos tingidos de fuligem e penúria.

Ali, ao longo dos anos, aprendeu muito mais do que ensinou. Acostumou-se às ruas do bairro, às transações manhosas em plena luz do dia, mesmo ao virar da esquina, às rivalidades encarniçadas entre grupos, à vandalização de automóveis dentro do recinto da escola, às cenas escabrosas de insultos e ameaças aos professores em plena rua, à banalidade da intervenção policial. Habituou-se a encarar navalhas, canivetes, borboletas e estrelas ninja como itens previsíveis no universo do material escolar. Adaptou-se ao permanente estado de alerta, à postura defensiva, aos gestos cuidadosamente estudados. Aprendeu, sobretudo, que por via de um qualquer fenómeno incompreensível, a violência e a criminalidade frequentemente se transformam em ‘indisciplina’ assim que cruzam os portões da escola.

Vários anos passados, decidiu mudar. Por razões lá da sua vida, mudou tudo. Concorreu para longe, mudou de casa, mudou de cidade, mudou de escola. Quando a visitou pela primeira vez, cuidou que tinha mudado de universo também. Viu paredes de um amarelo vibrante, canteiros (com flores mesmo a sério), viu bancos de jardim pintados em tons de alegria, reparou num grupo de jovens a pintar um portão.

A sala de professores, à hora do intervalo, fervilhava de conversas e cheirava a café. Uma colega, no centro da sala, fazia uma narrativa exaltada, seguida com atenção pelos restantes professores. “É que nem estou em mim”, dizia, “como é possível, uma atitude destas – e logo comigo, que tenho sido tão compreensiva, que os tenho ajudado tanto! Marquei falta disciplinar, obviamente! É que nem hesitei”, reforçou, perante os acenos concordantes da plateia. “Eu toda cheia de cuidados, a passar exercícios de consolidação – sim, que os exames estão à porta e eles nem querem saber! – e aquele inconsequente atira-me esta, alto e bom som, para todos ouvirem: mas tanto trabalho? A setora está-se a passar!”

“A setora está-se a passar!!??”, repetia a queixosa, o olhar magoado e cheio de lágrimas. “Isto diz-se a uma professora que tanto se tem dedicado a eles? Uns ingratos, é o que eles são! Marquei-lhe falta – ah pois marquei!” 

A visitante ouviu a narrativa com atenção complacente. Sentiu um sorriso largo, sentido, nascer-lhe lá dentro do peito. Apeteceu-lhe confortar a colega, contar-lhe sobre o seu bairro, dizer-lhe uma ou duas coisas sobre a escola de onde vinha, relativizar a mágoa, presenteá-la com um enquadramento realista e relativizado do conceito de indisciplina.

Depois reparou-lhe no menear nervoso das mãos, na decepção do olhar, nos ombros tombados, no verdadeiro pesar que a situação lhe causara. Não se atreveu a apoucar, com o seu sorriso condescendente, a legítima indignação com que narrava o incidente. Ao contrário, presenteou-a com a mais genuína solidariedade. Era o que faltava, a sua indisciplina valer mais que a dela. 

MC

Autora do blog Estendal


De volta

No início de mais um ano de cada vez mais prolífera actividade no ComRegras, o Alexandre entende continuar a publicar os meus textos nas tardes sossegadas de Domingo. Tenho matutado bastante na pertinência das minhas historietas, já que, mesmo sendo professora, nem sempre os meus textos se encaixam na linha editorial de um blog de educação. Para dizer a verdade, às vezes, tudo o que eu quero, ao fim de uma semana de trabalho, é estar o mais longe possível do universo escolar.

indisciplinaMas este ano decidi que vou fazer diferente. Pensei em escolher um tema recorrente da vida escolar e apresentá-lo, semana após semana, sob diferentes perspectivas. Afinal, o que eu gosto mesmo é de escrever sobre pessoas, pegar numa qualquer situação do quotidiano e criar uma história sobre gente com quem nos cruzamos diariamente sem tantas vezes nos apercebermos de como será a sua história. E escola é, afinal, o melhor observatório que podemos encontrar, a grande central de comboios da vida, onde todos os percursos se cruzam.

Só faltava, então, escolher o tema. Por estes dias, em que mais um ano lectivo começa a desenrolar-se, chegam-nos da comunicação social relatórios, estudos e artigos que sustentam que os professores estão envelhecidos, exaustos, desiludidos e desmotivados. Só novidades, portanto.

Há tempos, por ocasião de um encontro de profissionais do ensino e da saúde escolar, os técnicos de educação foram desafiados por um dos palestrantes a identificar o factor que mais constrangia e prejudicava a qualidade do seu trabalho nas escolas.

Ó diabo, pensei eu no primeiro instante, da forma como a profissão docente tem vindo a ser vilipendiada e terraplanada de todas as maneiras e feitios nos últimos anos, vou mas é precisar de uma folha maior. Mas antes que todos começássemos a desfiar o rol das lamentações, a trajectória foi logo afinada: havia que apontar uma – e apenas uma – variável intrínseca à rotina escolar que mais nos incomodasse nas tarefas do dia-a-dia, aquela variável que nos impedia de exercer as nossas funções com o rigor e a competência com que gostaríamos e que, por conseguinte, mais contribuía para a nossa frustração e desânimo.

Não precisei de pensar muito, que a minha lista tem dois permanentes e categóricos primeiros lugares exe quo, no que à rotina escolar diz respeito: a má burocracia e a indisciplina.

A má burocracia (passe a eventual redundância) é facilmente identificável: é a cultura suspeitosa do papel, das grelhas, dos relatórios, das evidências, da duplicação irracional e desconfiada de informação, do desperdício criminoso de papel, por conta, muitas vezes, de uma necessidade bacoca e inútil de validação da autoridade. Todos os docentes, por muito poucos anos de serviço que tenham, conhecem este imprestável e pernicioso sorvedouro de tempo e de energia, que muito melhor poderíamos utilizar ao serviço das aprendizagens. Afinal de contas, não há muito a reflectir sobre a má burocracia, havia era de se acabar com ela.

Já se está mesmo a ver que acabei por eleger a indisciplina. A indisciplina está longe de ser uma variável linear. A palavra indisciplina encerra em si um imenso universo de conceitos, numa amplitude de circunstâncias que vai da mais infantil travessura a cenários de efectiva e concreta delinquência. A indisciplina não é singular e não devia ser usada no singular. É um jogo social onde se cruzam muitas gradações e perspectivas, onde a crueza dos actos se mistura com a tonalidade subjectiva dos olhos que a testemunham e interpretam – e que os professores conhecem como ninguém. Falaremos então de indisciplina. Bom ano para todos.

MC

Autora do blogue Estendal