Entrevistas


Entrevista a João Almeida, Presidente da ANVPC | ” A precariedade docente não afeta apenas os professores, mas sim também o próprio sistema.”

Mais um exclusivo ComRegras, desta vez uma entrevista a João Almeida, presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados. Uma entrevista pertinente, tendo em conta o momento atual em que a tutela apresentou uma proposta para o concurso de professores.

Fica claro nesta entrevista que a ANVPC tem um rumo bem definido e que tem dado um contributo muito válido aos professores contratados.

Lembro que a ANVPC está a recolher contributos para o diploma de concursos por parte dos professores contratados e que podem fazê-lo hoje em plenário às 16:00 horas na cidade do Porto, ou enviar até dia 12 de dezembro para [email protected]

Fica a entrevista e o meu agradecimento pela disponibilidade.


Entrevista ao Presidente do CNAPEF Avelino Azevedo (2ª parte) |”Deveriam ser as universidades a fazer a seleção final dos seus alunos”

logo_cnapefConcorda com o atual modelo de acesso ao ensino superior? Que opinião tem sobre um modelo de média seletiva, onde apenas algumas disciplinas contariam para a média de acesso, dependendo das características do curso superior?

Não concordo e tenho a mesma opinião manifestada publicamente pelo Ministério da Educação e pela CONFAP: deveriam ser as universidades a fazer a seleção final dos seus alunos, até para não passar a ideia que Ensino Secundário é um ensino pré-universitário e não um ciclo de escolaridade com valor em si mesmo. Pessoalmente considero que o atual sistema é injusto, colocando com o mesmo peso disciplinas que são dadas durante 3 anos e as que são dadas só num ano.

Quanto ao modelo de média seletiva, é uma proposta que pode ser discutida, à qual até estou sensível. Tal como estou entendo a proposta de pais e alunos que me contataram durante esta semana, solicitando a possibilidade de um regime transitório, no qual a disciplina de Educação Física pudesse contar, de forma opcional, para a médias dos atuais alunos do 11.º e 12.º anos de escolaridade, justificado pelo facto de eles nunca terem desvalorizado a disciplina pelo facto de ela não contar para a média. Julgo que no momento próprio todos terão oportunidade, através das suas organizações, de manifestar as suas propostas ao Ministério da Educação, com quem temos tido uma prática de diálogo muito interessante.

Quer concretizar essa prática de diálogo?

Nos últimos quatro anos fomos recebidos duas vezes no Ministério da Educação e nunca nos conseguiram explicar a nós, nem a nenhuma entidade oficial que temos contatado, o motivo de terem tirado a paridade à disciplina. Nestes últimos meses, para além de termos reunido regularmente com diversos membros da equipa ministerial, sentimos que algumas propostas apresentadas tem uma abertura que queremos concretizar, tendo entendido algumas justificações plausíveis para a sua não implementação, ou seja, apesar de alguns casos não estarmos naturalmente de acordo, há diálogo com resultados!

 A disciplina de Educação Física deve ter exame nacional no 12.º ano?

Não me parece assim tão importante que tenha ou não tenha, tal como acontece com outras disciplinas do currículo do Ensino Secundário que também não tem exame nacional. Não significa isso que rejeite outros tipos de avaliação, nomeadamente externa, processos esses que nos possam não só dar indicações válidas, como monitorizar a Educação Física ao longo dos vários ciclos de escolaridade. Repare, o objetivo final da Educação Física, uma disciplina eminentemente prática, não é a simples reprodução de conhecimentos, valorizando-se antes a dimensão experiencial.

Concorda quando se diz que existe um preconceito para com a disciplina de Educação Física e seus profissionais? Dentro e/ou fora da escola?

Para quem está na escola há cerca de 30 anos e passou um por um número diferenciado de situações, existem realidades muito diferentes em termos da valorização da nossa disciplina, como acontece, com algum exagero em outras.

Nas escolas a disciplina de Educação Física tem um papel fundamental na implementação das respetivas atividades, uma vez que é conhecida a interdisciplinaridade que proporciona em termos da aplicação dos programas nacionais. Este aspeto é ainda reforçado pela importância que se reveste a disciplina na promoção do sucesso dos alunos e da escola dentro e fora da mesma, na resolução de situações de conflito e de inclusão, bem como as potencialidades que tem revelado para combater o maior problema do sistema educativo: o abandono escolar.

Infelizmente os professores têm a consciência que a cultura vigente, pelos muitos processos burocráticos que tem constantemente de responder, é de desvalorização das questões da corporalidade, porque só contam os números. É muito importante lembrarmos que tudo aquilo que nós efetivamente somos passa pelas vivências do nosso corpo, entendendo-o como um todo.

Concorda com a distribuição da carga letiva da disciplina de Educação Física, ao longo dos diferentes ciclos de ensino?

Recomendações e pareceres, como da Organização Mundial de Saúde, da União Europeia, do Parlamento Europeu e do Português, determinam como determinante uma média da atividade física diária de, no mínimo, de 45 minutos para todos os alunos em idade escolar. Consequentemente considero que em todos os ciclos de ensino a carga letiva é diminuta, mas no Ensino Básico o caso é mais gritante, face ao processo de crescimento, desenvolvimento e transformações corporais destes escalões etários, sendo neste espaço curricular onde a carga letiva é menor, já que no Ensino Secundário esta aumenta ligeiramente.  Para além disso, e por questões meramente organizacionais, o que está previsto como tempo útil de aula não é cumprido na maioria das escolas. Mas ainda mais grave que isso é ter escolas com 135 minutos semanais de Educação Física, todos dados no mesmo dia!

Que expetativas tem quanto às recentes intenções da tutela, em definir competências essenciais e uma intervenção ao nível do 1º ciclo?

O processo de gestão flexível do currículo do 1.º ao 12.º ano de escolaridade, que está a ser discutido neste momento com as associações profissionais, tem um cronograma comum de procedimentos, mas, no caso da Educação Física, vai trabalhar em colaboração estreita com a Sociedade Portuguesa de Educação Física, procurando obter contributos de diferentes parceiros – instituições do Ensino Superior e do maior número possível de Professores de Educação Física -, como iremos brevemente comunicar, por consideramos que serão uma mais valia. Conforme já preveem os atuais programas de Educação Física, apontamos a necessidade de desenvolver modelos curriculares e de instrução robustos e validados, tanto no plano teórico, como no terreno da prática, para encetar um processo de revivificação do ensino da educação física.

Quanto ao 1.º ciclo, e apesar de acreditarmos na coadjuvação no sentido de melhorarmos uma disciplina de Educação Físico Motora que não é devidamente aplicada nas escolas num momento tão importante e decisivo do desenvolvimento do aluno, estamos a trabalhar para alterar esta situação e as provas de aferição do 2.º ano irão dar-nos o primeiro feedback real da atual situação que se vive nas escolas.

Eu acredito que as reformas educativas e curriculares só ganham verdadeiro significado pedagógico e social quando contribuem para melhorar a formação daqueles que frequentam o sistema educativo, beneficiando a sociedade no seu conjunto, em função de um perfil final do aluno.

Obrigado pela sua disponibilidade

Podem ler a 1ª parte da entrevista aqui


Entrevista ao Presidente do CNAPEF Avelino Azevedo (1ª parte) | “Qualquer aluno pode ter uma boa classificação a Educação Física” 1

logo_cnapefUma semana depois do Secretário de Estado da Educação ter anunciado que a disciplina de Educação iria ver a sua classificação incluída na média de acesso ao Ensino Superior, o ComRegras foi ouvir Avelino Azevedo, Presidente do Conselho Nacional de Profissionais e Professores de Educação Física (CNAPEF) para perceber melhor a dimensão desta medida:

A inclusão da disciplina de Educação Física na média de acesso ao ensino superior, criou uma grande polémica. Estava à espera desta controvérsia?

Não me parece que tenha havido muita controvérsia, nem vejo razão para tal, uma vez que se trata apenas de repor aquilo que estava anteriormente em vigor, sem nunca termos percebido as razões oficiais pelas quais a disciplina deixou de contar para a média. Repare, a inclusão da Educação Física no currículo escolar, tal como qualquer outra disciplina, legitima-se pela evidência do seu valor educativo, que no caso concreto da Educação Física tem o poder de aumentar a capacidade de compreender e agir no mundo, para além de ter um contributo para o bem-estar, para a realização das pessoas e para a melhoria da sociedade.

Educação Física é só dar pontapés numa bola e dar umas cambalhotas?

Basta saber um pouco dos programas oficiais e das metas em Educação Física para entender que a conceção de Educação Física, implícita no seu plano curricular (conjunto dos programas de Educação Física), sistematiza os conteúdos numa atividade física eclética, pedagogicamente orientada para o desenvolvimento multilateral e harmonioso do aluno. Esta conceção concretiza-se na apropriação das habilidades e conhecimentos, na elevação das capacidades do aluno e na formação das aptidões, atitudes e valores (bens de personalidade que representam o rendimento educativo), proporcionadas pela exploração das suas possibilidades de atividade física adequada – intensa, saudável, gratificante e culturalmente significativa.

Ou seja: procura-se um desenvolvimento integral e harmonioso da pessoa, na perspetiva da melhoria da qualidade de vida, saúde e bem-estar, favorecendo a compreensão e aplicação dos princípios, processos e problemas de organização e participação nos diferentes tipos de atividades físicas, na perspetiva da animação cultural e da educação permanente, bem como reforçar o gosto pela prática regular das atividades físicas e aprofundar a compreensão da sua importância como fator de saúde ao longo da vida e componente da cultura, quer na dimensão individual, quer social, para além de assegurar o aperfeiçoamento dos jovens nas atividades físicas da sua preferência. Por isso é ir muito mais além do que os pontapés na bola ou as cambalhotas.

A disciplina de Educação Física tem características muito específicas. Não devia ela ter um contexto próprio a nível avaliativo, por exemplo uma avaliação meramente qualitativa?

Um juízo avaliativo, seja ele qualitativo ou quantitativo, implica sempre uma decisão. A avaliação em Educação Física está claramente explicitada nos programas e nas suas normas de referência. Assim, no processo avaliativo o Professor deve assegurar o princípio de ajustamento do programa ao estádio de desenvolvimento de cada aluno, o que equivale a dizer que as normas que se apresentam têm de proporcionar o equilíbrio e potenciar os pontos fortes de cada aluno, garantindo que se encontre em cada um a sua “mais valia”. Dois alunos podem alcançar o critério de sucesso demonstrando domínio em matérias diferentes e eventualmente em categorias diferentes desde que cumpridas as regras constantes nas normas de referência.

Conforme está escrito nos Programas de Educação Física e operacionalizado nas Metas – cuja leitura aconselho vivamente a muitos que escrevem sobre o assunto, sem nunca os terem lido, logo, não conhecendo o conteúdo dos mesmos -, os pontos fortes de cada aluno têm de ser devidamente considerados. Na verdade, não sendo possível, nem desejável, garantir o “mesmo” currículo a todos os alunos, aliás como acontece em qualquer outra disciplina, é, todavia, desejável que se procure determinar um patamar no qual se possam inserir todos os alunos, que demonstrem possuir as competências essenciais promovidas por esta área disciplinar.

Assim sendo, e havendo uma regra comum para todas as disciplinas, não há motivo para termos escalas avaliativas diferentes em função da nossa especificidade.

Considera justo um aluno com dificuldades motoras, ser prejudicado na sua média de acesso ao ensino superior, pela inclusão de uma disciplina com características tão específicas?

Nunca tal deverá acontecer. Tal como acontece com as dificuldades de qualquer outra disciplina, as dificuldades em Educação Física não podem ser assumidas como uma fatalidade do aluno, inata ou inamovível, mas antes encaradas como superáveis, se forem garantidas condições para a sua superação.

Qualquer aluno pode ter uma boa classificação, porque o que se avalia não é apenas o desempenho motor, contrariamente ao que algumas afirmações públicas de contestatários desta medida veiculam. O que se avalia é o processo em si e o desempenho motor, em função das possibilidades reais de cada aluno que são tidas em conta, tal como acontece nas outras disciplinas, pois, por exemplo, nenhum aluno gago pode ser prejudicado na oralidade nas disciplinas de línguas por esta sua limitação.

Finalmente relembro que, em último caso e algumas situações particulares, as classificações de qualquer disciplina atribuídas ao aluno não são da responsabilidade exclusiva do Professor, mas sim do Conselho de Turma. É ele que decide todas as classificações em todos os períodos do ano letivo e seria falta de bom senso de demasiadas pessoas responsáveis para que o sistema não funcionasse.

Reforço: a determinação da fronteira entre o aluno apto e não apto na Educação Física tem de assentar em pressupostos que conjuguem a grande diversidade de condições das escolas, as diferentes capacidades dos alunos e a própria filosofia do programa quanto à sua gestão e eventual diferenciação das matérias que compõem o currículo.

E mesmo os casos extremos, de alunos com Necessidade Educativas Especiais, o programa de Educação Física é inclusivo e permite adaptações do currículo à Lei/3/2008, que visam não só o sucesso dos intervenientes, como proporcionar a todos os colegas de turma vivências ricas de inclusão.

O Professor tem então um papel fundamental na forma como o programa é aplicado?

Exatamente. Como em qualquer disciplina, é o professor que põe em prática o programa, em função de um conjunto de decisões que tem a ver, no caso da Educação Física, com o currículo dos alunos e com os recursos temporais, materiais e humanos, interligando com o Projeto Educativo e o Projeto de Educação Física da Escola.

Reconhece-se, assim, ao professor a responsabilidade de escolher e aplicar as soluções pedagógicas e metodologicamente mais adequadas, investindo as competências profissionais desenvolvidas na sua formação nesta especialidade, para que os efeitos da atividade do aluno correspondam aos objetivos dos programas, utilizando os meios que lhe são atribuídos para esse fim. Na verdade, não sendo possível, nem desejável, garantir o “mesmo” currículo a todos os alunos, é, todavia, desejável que se procure determinar um patamar no qual se possam inserir todos os alunos, que demonstrem possuir as competências essenciais promovidas por esta área disciplinar.

Por causa desta medida vamos perder bons médicos, engenheiros, advogados, etc.?

Não, bem pelo contrário, com a paridade da Educação Física e a aplicação dos respetivos objetivos programáticos, vamos ganhar médicos, engenheiros e advogados com uma melhor noção da sua corporalidade, com uma melhor capacidade de comunicar, de interagir, de se superar e de responder melhor aos desafios com que se irá deparar pela vida fora. Prescindir da Educação Física equivale a empobrecer os cidadãos nas dimensões técnica e motoras, éticas e estéticas, cívicas e morais, anímicas e volitivas, favorecendo a proliferação do laxismo e relativismo, do individualismo e da indiferença.

Contínua…


Entrevista ao Diretor do Agrupamento de Escolas de Mangualde – “vejo os professores demasiado cansados até para lutar pelos seus direitos” 2

Este ano vou tentar cumprir com a publicação mensal de uma entrevista aos diretores das nossas escolas “ComRegras”. Este mês, cabe ao professor Agnelo Figueiredo, diretor do Agrupamento de Escolas de Mangualde, dar a sua visão sobre a atualidade.

A entrevista é de autoria de Gabriel Vilas Boas.

agnelo figueiredoQuais as motivações que estiveram na base da sua candidatura ao cargo de diretor do seu Agrupamento? Quais foram os seus maiores desafios?

Para responder à questão da motivação, teria de recuar a 1988, ano em que, pela primeira vez, me candidatei em lista ao Conselho Diretivo da Escola Secundária. Era uma altura muito especial porque a escola iria ocupar instalações novas a estrear. Era um desafio muito forte. Era quase como montar uma escola de raiz. E, essa terá sido a principal motivação.

Depois, com uma curta interrupção, foram 20 anos que passaram muito rapidamente até 2008 e ao DL 75/2008, na sequência do qual apresentei candidatura a director. Passados 2 anos, em 2010, fui escolhido pelo Ministério para presidir à Comissão Instaladora do então constituído Agrupamento de Escolas de Mangualde. Nessa altura, o desafio era ainda maior uma vez que não tinha sido pacífico, mesmo nada, o processo de junção das três escolas, tendo ficado muitas feridas por sarar, algumas das quais ainda hoje persistem. Era precisa uma pessoa capaz de estabelecer pontes e gerar consensos, para além de experiência de gestão e competências específicas, o que me levou a avançar. E, num Conselho Geral altamente partidarizado, acabei por vencer com 11 votos contra 10 do outro candidato.

Um estudo recente de Joaquim Azevedo evidenciou uma classe docente desmotivada. Como estão os seus professores?

Da minha já longa experiência, acho que esse não é um fenómeno de agora. Sempre houve professores desmotivados. Há 30 anos também havia professores com pouca dedicação à escola. Era o tempo em que se procurava um horário com tardes e/ou dias livres para se compor o vencimento dando aulas num colégio, numa escola profissional, num centro de explicações e por aí fora. A escola vinha em segundo lugar. Por isso, os efeitos acabavam por ser os mesmos do que agora. De resto, os professores hoje desmotivados são praticamente os mesmos que há 20 anos.

Mas nesta lógica de motivação, há um aspeto que me surpreende. É que, mais que desmotivados para o seu exercício profissional, vejo os professores demasiado cansados até para lutar pelos seus direitos. Lutar por melhores condições. Repare-se que vamos com mais de oito anos de congelamento das progressões. São dois escalões remuneratórios. Ora, se já se fizeram tantas greves e manifestações por razões quantas vezes fúteis, não seria esta uma razão fortíssima para os professores se mobilizarem? Ainda mais quando já foi declarado o fim da austeridade? Acho isto paradoxal.

Se pudesse escolher os professores e os funcionários do seu Agrupamento exerceria esse poder? Por quê?

Sem qualquer dúvida. Os professores deviam ser selecionados e contratados pelo órgão de topo de cada escola, que actualmente é o Conselho Geral. Essa seria a única forma de conferir real autonomia à escola e de lhe poder, legitimamente, exigir responsabilidades. Seria, também, a forma de acabar com o autêntico desvario que é a dança anual de professores, com todos os inconvenientes para a criação de equipas pedagógicas estáveis. Cabe aqui dizer que a forma de colocação de professores que temos tido, tem sido acerrimamente defendida pelos sindicatos, exactamente por conseguir atingir o efeito que eles pretendem: a proletarização dos docentes. Contudo, existe uma evidência que não se pode escamotear e que é: “Os professores não são todos iguais e todos igualmente proficientes”. Não são. Por isso, fico triste quando vejo que os professores se têm em tão pouca conta, como decorre dos resultados do inquérito que o “ComRegras” fez. O concurso centralizado parte do princípio que tanto vale um professor como outro qualquer. Ora, um professor que se acha igual a qualquer outro tem-se em fraca conta. Acaso os médicos serão todos iguais? Tanto faz ser operado por um ou por outro? E os advogados? Se tivermos hipóteses, fazemos escolhas, ou não? Isto, além do mais, é uma lástima para a minha classe profissional, para os professores.

Quais as limitações que a Lei e a tutela lhe impõem que mais condicionam o seu trabalho?

A obsessiva centralização do sistema é asfixiante, como é deprimente a desconfiança da administração educativa relativamente ao trabalho nas escolas. É infindável o número de “merdinhas” emanadas dos serviços centrais e regionais que têm de ser meticulosamente executadas, quantas vezes com prazos incumpríveis. É como tenho dito: Enche-se a boca com a autonomia mas cada vez mais se indiferenciam as escolas, fazendo tábua rasa das suas especificidades e tratando-as como meras delegações do omnipotente Ministério da Educação. Péssimo!

mangualdeQue estratégias devem ser prosseguidas para atrair os pais e restante comunidade educativa a uma maior participação na Escola?

Contrariamente ao que a pergunta induz, a participação dos pais na escola e na vida escolar dos filhos é crescente e não tem paralelo com o que se passava há 20 ou 30 anos. O que hoje acontece é algo de diferente. É que a escola acolhe hoje, e bem, uma gama de alunos que dantes a abandonava precocemente. Grande parte deste “novos” alunos é oriunda de meios sociais carenciados e tem agregados familiares instáveis, quando não desestruturados e disfuncionais. Malogradamente, é nestes estratos que a taxa de natalidade tem ainda alguma expressão, o que leva a que a percentagem deste tipo de alunos seja crescente. Ora, hoje, são principalmente os pais desses alunos os que não participam nem se interessam pelo percurso escolar dos filhos, isto é, exactamente aqueles que os professores e directores de turma mais gostariam de ter na escola.

Este é um problema com solução muito difícil no curto prazo, o qual, todavia, poderia ser encurtado através de políticas de incentivo e desencorajamento, mormente através da ponderação das prestações sociais pecuniárias.

Acha que o recente debate sobre o financiamento do ensino privado devia ser um tema prioritário no setor da educação?

Não sei. Trata-se de uma matéria que conheço mal. Mas, porque todos os anos publicito os custos reais do serviço de educação no nosso agrupamento, posso asseverar que uma turma nossa custa bastante mais do que os 80.500 euros que essa turma custaria num colégio com contrato de associação, e fiquei com a ideia de que a maior parte das pessoas ficou a pensar o contrário. Acredito que existam inúmeras razões válidas para decidir diminuir o número de turmas em contrato de associação, mas penso que a poupança de dinheiro não deve ser uma delas. E é o que posso dizer, uma vez que, como referi, conheço mal toda esta problemática.

Quem vai ganhar a “guerra” entre as editoras e o Ministério de Educação?

Acho que o Ministério tem tudo para a ganhar. Já agora, esta é uma guerra que não existiria num quadro legal de plena autonomia das escolas.

O que falta fazer para melhorar os resultados escolares?

Penso que já respondi, no essencial, quando abordei a questão da participação dos pais. Hoje, mais do que nunca, sem pais realmente interessados, sem pais que valorizem a escola, não haverá resultados animadores.

O que falta fazer para baixar os índices de indisciplina?

Para além do que já disse, urge conferir ao professor um estatuto de autoridade pública. Por outro lado, é premente que o Ministério não contribua para a perseguição dos professores quando estes se atrevem a impor a autoridade. E ainda este ano tive um caso desses.

Acrescento que, eventualmente, um sistema de transição automática poderia minorar a eclosão de comportamentos disruptivos precoces. Contudo, o preço não seria despiciendo, uma vez que, muito provavelmente, iria desabar no 9.º ano uma legião de iletrados que não o conseguiria concluir. Mas, ainda assim, as vias alternativas poderiam, nessa altura, vir a dar resposta à continuidade dos alunos, com posterior encaminhamento para vias profissionalizantes de nível secundário. De resto, a idade dos alunos no final do 9.º ano já não é propícia a que então descambem. Poderia ser uma forma de minorar a indisciplina, sim.

Que balanço faz ao trabalho realizado pelo atual Ministro da Educação?

Desde logo, fui e sou muito crítico da decisão de eliminar os exames dos 4.º e 6.º anos. Os exames, contrariamente a muitos discursos inflamadamente proferidos, não chumbavam alunos. Pelo contrário, tendo em conta o peso que tinham, os exames até podiam permitir que alunos reprovados pudessem vir a reunir condições de transição. Era bom que isto ficasse bem claro. É que a real necessidade dos exames não tem nada a ver com chumbos, mas antes com a disponibilização de dados que permitiam que as escolas fizessem benchmarking, que investigassem práticas das suas congéneres, que reflectissem e que tomassem medidas com vista à melhoria das aprendizagens. E isso perdeu-se inexoravelmente com o fim dos exames.

Depois, e embora nunca a tenha podido utilizar, uma vez que não somos TEIP nem temos contrato de autonomia, não achei nada bem a eliminação da BCE, que era uma forma de conferir às escolas uma capacidade mínima para seleccionar docentes. A BCE tinha problemas, sim, mas de ordem técnica, sobretudo no primeiro ano, com autênticas barracadas que tardaram em ser resolvidas e que acabaram por inquinar o processo aos olhos da opinião pública. Contudo, o seu racional era o correto.

Quanto ao resto, naquilo que concerne ao quotidiano da Escola, o actual Ministro não se distingue dos seus antecessores.

Muito obrigado pelo tempo dispensado.

* os negritos são da responsabilidade do ComRegras

Entevista a Paulo Guinote (2ª parte) – “Não sei o que farei daqui a 5 anos”

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Nesta entrevista, Paulo Guinote igual a si próprio: claro, assertivo, não a dar opiniões sobre temas polémicos mas não buscando polémicas gratuitas e estéreis. Opinião livre e absolutamente independente, o professor Paulo Guinote procura contribuir com o seu pensamento para que a Escola portuguesa seja cada vez melhor e que os professores tenham consciência do seu papel preponderante nessa ação de renovação e inovação.

Paulo_GuinoteVários professores de História consideram que cumprir o programa da disciplina, no terceiro ciclo, na carga horária programada é como tentar “meter o Rossio na Betesga”. O que fazer: exigir mais horas para a disciplina ou alterar o programa?

Tentar fazer uma adequação mais correcta entre o que se pretende que os alunos aprendam e o tempo disponível. Pessoalmente, defendo uma unificação dos 2º e 3º ciclos num ciclo único de 5 anos, o que permitiria, no caso específico da escola, uma abordagem diferente do programa, com menos repetições, leccionando-se da Pré-História à queda do Império Romano do Ocidente no 5º e 6º ano e da Idade Média à Contemporânea do 7º ao 9º ano.

Acha que os Diretores dos Agrupamentos de escolas deviam ter limitação de mandatos?

Sim, sem qualquer dúvida. Três mandatos, sem subterfúgios.

Tem crescido o número de alunos com necessidades educativas especiais, em Portugal, assim como as queixas dos seus encarregados de educação relativamente ao pouco acompanhamento das escolas. Como fazer mais e melhor?

Despiste precoce das situações e acompanhamento por equipas multidisciplinares a sério e não apenas por professores “com jeito” para a coisa ou com formações apressadas.

Um dos aspetos fundamentais da política educativa da última década foi a concentração de escolas em Agrupamentos ou Mega Agrupamentos. Agora que o processo está consolidado, pode dizer-se que foi uma estratégia adequada do ponto de vista educativo?

Não. Acho que foi um dos maiores erros da política educativa dos últimos 15 anos, apesar de todos os ministros considerarem adequada essa medida por produzir economias de escala e baixar o custo médio por aluno. Esta estratégia conduz a uma desumanização das relações nos mega-agrupamentos, a uma macrocefalia da gestão e a um cada vez maior distanciamento entre os decisores e os corredores e salas de aula das escolas. Sendo as principais vítimas as escolas do 1º ciclo.

Já consegue fazer um balanço sobre o atual Ministro da Educação?

Não. Embora a evolução mais recente comece a deixar-me muito receoso quanto à possibilidade de se tornar mais um elo num processo de esvaziamento da Educação numa lógica de low cost.

A título mais pessoal, porquê um “Quintal” depois de um “Umbigo” tão bem sucedido?

Porque era necessário encerrar um ciclo, muito intenso. Ter uma pausa para respirar, pensar e arrancar com um projecto – que até apareceu antes do previsto – mais pessoal.

Sobre o livro 08/03/08 – Memórias da Grande Marcha dos Professores, o que o levou a escrevê-lo?

A necessidade que senti de preservar desde já a memória de um acontecimento singular da nossa História recente, principalmente a partir dos seus participantes de base. Evitar que essa memória seja amputada ou manipulada pelos “vencedores”, como acontece muitas vezes com a escrita da História.

Será professor até ao final da carreira ou caminhará para outras paragens no futuro? Alguma vez foi convidado para ocupar outros cargos?

Não sei o que farei daqui a 5 anos, em virtude do desânimo que mais cedo ou mais tarde nos atinge a todos. Mas sei que não tenho qualquer tentação por uma alternativa de tipo “político”. A ter uma aspiração seria a de poder ler e escrever a tempo inteiro e ensinar por prazer, sem cronometragem ao minuto.

Se voltasse atrás no tempo, seria novamente professor?

Não sei. O “efeito borboleta” torna muito aleatório esse tipo de previsão retroactiva. Sei apenas que continuaria a gostar imenso de História e de escrever (e ler).

Por fim sobre o seu Sporting, qual gosta mais: do presidente, do treinador e/ou do futebol praticado pela equipa?

No momento corrente, não gosto muito de nenhum, mesmo se o futebol praticado é o que me desgosta menos. O treinador diverte-me, até pelo facto de ter começado com um discurso que já teve de meter no saco, pois nada ganhará (é o meu prognóstico neste momento). Quanto ao presidente, enfim, no mundo do futebol acontece um pouco de tudo e este tipo de “cromos” nem é dos piores. Acredito que se considera, ele mesmo, uma “muralha d’aço”. Resta saber se o é e se não fragilizou o clube com tantas frentes de batalha.

Gabriel Vilas Boas

Podem ler a 1ª parte da entrevista aqui


Entrevista a Paulo Guinote (1ª Parte) – “A Educação deixou de ser uma prioridade” 1

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Paulo Guinote é um dos professores portugueses que mais tem escrito e opinado sobre a Educação em Portugal na última década. O seu blogue A Educação do Meu Umbigo foi lido e seguido por dezenas de milhares de professores durante uma década, especialmente por professores que se reviam na forma desassombrada, independente e opinativa como o professor Paulo Guinote abordava os diversos desafios com que a Escola Portuguesa se debate neste início de século XXI.

Amavelmente, o professor de História mais conhecido da classe, concedeu ao Comregras uma entrevista que publicaremos em duas partes. A segunda parte será publicada na próxima semana.

Paulo GuinoteA escola pública portuguesa está parada no tempo?

Não, de forma alguma. Esse discurso de bota-abaixo está muito vulgarizado, mas a evolução tem sido notória, tanto ao nível dos processos como dos meios usados em sala de aula e fora dela. Quem diz isso e está sempre a clamar pela necessidade de “mudança” esquece-se que desde final do século XVIII que existem visões conflituantes sobre o que deve ser a escola, não sendo uma “nova” e outra “velha”.

Os governos sucedem-se e cada vez há um maior desencanto dos professores faces às diversas equipas do Ministério da Educação. Eles são manifestamente impreparados ou a Educação deixou de ser importante para os governos?

A Educação deixou de ser uma prioridade – ou paixão – passando a existir uma espécie de pacto oculto entre os principais partidos (PS e PSD, com os seus apêndices em termos de coligações a acabar por colaborar nisso) no sentido da institucionalização de uma Educação low cost definida a partir de rácios e custos médios por aluno.

Muita gente refere que a escola deixou de ser um fator diferenciador na ascensão social, pois os filhos dos mais desfavorecidos não conseguem concluir os seus estudos superiores. Concorda com esta corrente de opinião?

Essa é uma discussão que começou a ter bastante relevância no pós-II Guerra Mundial e gerou diversas políticas ligadas à discriminação positiva de minorias raciais ou sociais (em especial nos EUA) ou de promoção de igualdade de oportunidades para os mais desfavorecidos (Europa Ocidental). Infelizmente, apesar de imensas conquistas, a Educação não consegue eliminar todas as desigualdades socio-económicas e permanecem factores que condicionam os trajectos educacionais dos filhos de famílias que, ao verem o investimento que necessitam fazer e a crescente incerteza do retorno, acabam por optar “racionalmente” pelo abandono prematura dos estudos em busca de uma inserção precoce no mercado de trabalho. Embora os estudos que existem provem os ganhos financeiros de uma escolarização mais prolongada, cada vez mais os indicadores do desemprego contrariam uma visão mais optimista, com um terço ou mais dos recém-licenciados sem emprego.

Acha defensável, na sociedade portuguesa, que os professores tenham uma carreira especial dentro da função pública, nomeadamente quanto ao horário de trabalho e na idade de aposentação?

Sim, sem qualquer margem de dúvidas. Essa especificidade não é qualquer novidade. Uma duração específica, com redução do horário com o avançar da idade e dos anos de serviço é algo que não surgiu com a Democracia, sendo uma evidência em Portugal mesmo durante o Estado Novo.

No seu entender, o que mais contribuiu para a acentuada perda de estatuto social dos professores, em Portugal, nas últimas duas décadas?

Dois factores no curto ou médio prazo: o primeiro, de ordem material, foi a sua proletarização com o congelamento das progressões de uma carreira que foi reescalonada de modo a limitar os encargos com salários. O segundo, de ordem simbólica, passou pela forma como os políticos optaram por colocar o ónus de tudo o que corre mal na Educação (mesmo quando não corre) nos professores. A esses factores, podemos juntar historicamente, a massificação da docência.

Os sindicatos de professores deviam apenas discutir questões laborais ou pugnar por um modelo global de política educativa?

É meu entendimento que os sindicatos devem agir no sentido de defender as condições laborais daqueles que representam, sendo que isso não se limita a discutir remunerações e horários de trabalho. No entanto, deve existir um limite para a sua intervenção, que não se deve confundir com o papel de partidos políticos ou de outro tipo de organizações representativas dos professores.

Se fosse Ministro da Educação e tivesse folga orçamental, que áreas de intervenção prioritária escolheria?

Intervenção precoce na determinação de dificuldades de aprendizagem por parte dos alunos do 1º ciclo com equipas multidisciplinares; inversão da política de encerramento e concentração de escolas em disformes “unidades de gestão”. Descongelamento da carreira docente e colocação dos professores nos escalões certos de acordo com os seus anos de serviço.

Os alunos passam demasiado tempo nas escolas?

Sim. E não falo apenas de aulas. Muitos são obrigados a ficar na escola devido à desregulação dos horários de trabalho dos pais.

O que pensa da Educação para Adultos, que o atual governo parece querer reintroduzir? Em que moldes devia fazer-se?

Penso que qualquer intervenção nesta área deve ser no sentido de qualificar efectivamente não apenas de certificar como aconteceu em grande medida com as Novas Oportunidades. E os meios devem ser canalizados para essa qualificação e não para uma burocracia certificadora ou para lobbys de entidades formadoras.

Há uma década, criou o blogue Educação do Meu Umbigo, o qual decidiu encerrar há um ano. Este projeto pessoal mudou a sua perceção dos seus colegas e da Educação em Portugal? O que mais o surpreendeu durante esses dez anos de troca de ideias, na blogosfera, com outros agentes educativos?

O nível de confiança que se estabeleceu entre pessoas que raramente se conheciam pessoalmente, algo que permitiu uma partilha de informações e conspirações sem paralelo no passado da profissão docente.

Contínua

Gabriel Vilas Boas


Entrevista ComRegras | Entrevista a um Professor de Educação Moral e Religiosa Católica 1

Eis a 3ª entrevista do Gabriel Vilas Boas para o ComRegras.

António MadureiraAntónio Augusto Nogueira Madureira é professor de Educação Moral Religiosa e Católica (EMRC) há um quarto de século e diretor do Secretariado Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas da diocese do Porto há mais de oito anos.

E.M.R.C. é, por várias razões, uma disciplina diferente das outras no curriculum escolar. Por essa razão, achei por ouvir o professor Madureira acerca da «sua» disciplina e para todos os agentes educativos poderem ter a perspetiva de quem gere os professores de E.M.R.C. no distrito do Porto.

 O que é que a disciplina de EMRC dá de mais relevante à formação/educação de um aluno?

A Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) contribui para uma educação integral, em que a dimensão transcendente e religiosa da pessoa, da sociedade e da cultura se oferece como instância de leitura interpretativa do sentido para a vida. Só uma visão ampla da cultura permite ao aluno, na sua caminhada pessoal de liberdade, assumir-se todo e em tudo como membro de uma comunidade/sociedade. O quadro da educação, onde a EMRC se insere, é a cultura, não uma cultura qualquer à medida da consideração de cada interveniente, mas a cultura de um povo, a compreensão da pessoa, da vida e da história, lida e assumida ao longo do tempo, em perspetiva cristã.

Apesar de não ter um caráter obrigatório, a disciplina é frequentada pela esmagadora maioria dos alunos das escolas portuguesas. Como interpreta este facto?

Começaria por clarificar a afirmação “esmagadora maioria” pois não é verdadeira a nível nacional! Eu prefiro olhar a disciplina de EMRC, distante das leituras estatísticas e mais como uma proposta qualificada e qualificadora, para o desenvolvimento integral e integrado da pessoa humana! Quando esta missão se cumpre na escola é razão que valida as opções dos pais e ou alunos!

Normalmente, todos os alunos obtêm boas notas em EMRC. Acha que isso é fator fundamental na atração dos alunos?

Aqui a resposta imediata é «não»; a avaliação deve ser muito dialogada para conseguir ser entendida como uma forma de ajudar cada um a rever as suas metas. As boas notas, penso que, derivam mais do estar ali com e por gosto!

A nota da disciplina não é contabilizada para a passagem do aluno. Não pensa que isso diminui a EMRC no cotejo com as outras disciplinas curriculares aos olhos dos alunos, pais e outros professores?

 Não olho para avaliação/nota como necessidade qualificadora! Esta circunstância é um desafio interno que nos exige cuidar sempre a própria dinâmica da nossa disciplina! Não podendo ser uma como as outras, a EMRC caminha sobre um fio muito fino, pressionada por muitos lados. O lugar que lhe cabe, à EMRC, é exigente. Mas conhecendo nós estes dados é mais fácil compreender e redesenhar o nosso lugar e possíveis modos de o habitar nesta escola, sem demasiada angústia, com razoável esperança.Moral

Que papel espera que o professor de EMRC tenha numa escola?

Sejam testemunhas credíveis de alegria! Adultos confiáveis! Cabe-lhes cultivar horizontes largos e respirar revitalizantes!

É fácil e colaborante a relação entre as direções das escolas e o trabalho dos professores de EMRC?

Tenho imensa dificuldade em responder a esta questão, pois cada escola é uma realidade diferente com modalidades de diálogo particulares e difíceis de generalizar.

O que posso dizer é que uma liderança comprometida com a escola obriga a um olhar para todos e com todos fazer caminho!

Quais as qualidades essenciais que um professor de EMRC deve ter?

A missão entregue aos professores de EMRC exige ter-se em conta o “equilíbrio e a maturidade humana”. Devem ter um comportamento sensato, uma personalidade equilibrada e maturidade adequada à missão a desempenhar, bem como “capacidade de relação e de integração escolar”. O professor de EMRC deve ainda primar pela simpatia, delicadeza e pelo bom relacionamento com todos, capacidade de comunicar e de criar empatia, além de uma atitude construtiva na comunidade, isto no perfil humano. Depois temos perfil cristão e as necessárias habilitações académicas e são estas as qualidades desejadas para o docente de EMRC.

Os professores de EMRC facilmente são confrontados com a docência de 20 turmas. Não julga que isso é excessivo e contraproducente?

Prefiro orientar o meu olhar para a sorte que tem o professor de Moral… Conhece quase toda a escola e com todos é feliz… Importante é encontrar tempo e disponibilidade para quem precisa. Braços abertos para abraços verdadeiros!

Atualmente os alunos portugueses passam cada vez mais tempo nas escolas. Este é um caminho que deve ser aprofundado e defendido?

Penso que o tempo em casa e com a família deve ser o mais amplo possível, dentro dos limites profissionais e sociais com que se debatem as famílias. É de evitar a tentação de atribuir à Escola a função de suplência ou de substituição em relação às famílias. A Escola deve respeitar o princípio dos pais como primeiros e insubstituíveis educadores e colocar-se a seu lado, mas não em sua vez. Um Estado paternalista e dominador pretende sempre formatar os seus cidadãos segundo a sua ideologia, desconfiando da família, como primeiro espaço educativo. A Doutrina Social da Igreja não apoia esta visão.

Moral_2Como avalia o modo como o ensino não católico se relaciona com a disciplina de EMRC?

No que diz respeito ao ensino estatal e ao quotidiano dos professores há boas e menos boas experiências. Por outro lado, o ensino não estatal nem confessional é uma realidade muito situada em cada instituição e com respostas muito diferentes: uns vêm a disciplina como muito importante para a formação dos alunos e promovem-na na sua comunidade educativa e outros pura e simplesmente ignoram a disciplina.

Os colégios católicos têm obrigação de dar uma relevância maior à disciplina de EMRC? Acha que é isso que se passa?

Há experiências muito díspares… Há colégios que levam muito a sério o primado do seu projeto educativo e são verdadeiras escolas católicas… Há outros colégios que esqueceram a marca essencial do seu projeto educativo e são apenas boas escolas! Obviamente a disciplina de EMRC devia ser uma das «marcas de água» da especificidade da Escola Católica e a alma da mesma.

O encontro de EMRC, em Maio, para os alunos do 8.ºano, é um momento marcante na carreira de qualquer estudante. Qual é o objetivo central dessa atividade?

O encontro promovido pela Diocese do Porto para os alunos de EMRC tem como primeiro objetivo apoiar e reconhecer os discentes que conscientemente fizeram esta opção. Depois promover encontro como espaço de cuidar do outro, agir com responsabilidade e liberdade. Promover uma experiência de alegria pela alegria de estarmos juntos!

Como reage à provocação de alguns agentes educativos que defendem a eliminação de EMRC dos curricula porque o Estado é laico?

O Estado é laico, mas a sociedade é plural. A reta laicidade não implica a eliminação da disciplina ou da dimensão pública do fator religioso, neste caso oferecida por uma instituição que, tem no campo social, educativo e cultural, uma marca história e ainda hoje um contributo essencial, reconhecido pelo próprio Estado e assegurado na Concordata. Essa opinião revela um desconhecimento do que é a missão da escola, o Estado Português, ao serviço da educação pretendida pelos pais, assume a sua responsabilidade na cooperação e na criação das condições necessárias para que os pais possam livremente optar, sem agravamento injustificado de encargos, pelo modelo educativo que mais convenha à formação integral dos seus filhos. Sem a abordagem desenvolvida na EMRC é claramente posto em causa a formação integral! A dimensão religiosa é constitutiva da pessoa humana, pelo que não haverá educação integral se o fenómeno religioso e as suas expressões e influências culturais não forem tomados em consideração!

Gere os professores de EMRC da diocese do Porto. O que lhe pede o senhor bispo no início de cada ano letivo?

A palavra gere não se aplica nesta missão que me foi pedida. O meu Bispo pede-me todos os anos para cuidar dos professores de EMRC que lecionam no espaço geográfico da Diocese do Porto… Saliento o desafio CUIDAR!

Quais as grandes compensações que o seu trabalho lhe dá?moral 4

Na verdade a sucessão dos anos de serviço, onde me sinto cada vez mais “em casa”, enriquece-me sobretudo pelo trabalho de equipa, e pela minha entrega mais situada e qualificada. O assumir, na minha Diocese, a função de Secretário Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas, isso obrigou-me a tomar contacto pessoal com a realidade da Disciplina e dos Professores na Diocese. Por outro lado, a necessidade de definir um percurso, de fazer opções, de elaborar e propor orientações, para os professores e disciplina de EMRC na Diocese, levou-me a investir na minha formação pessoal, nomeadamente no estudo mais apurado da legislação, na abordagem mais atenta dos documentos do Magistério, a fim de fundamentar devidamente o trabalho, que me foi confiado pelo Bispo Diocesano. Procurei orientar tudo isto no sentido de um desafio de crescimento pessoal e de maior e melhor serviço à Igreja.

Qual o grande desafio da disciplina de EMRC na próxima década, dentro da Escola portuguesa?

O desafio é conseguir ser lugar privilegiado para o cultivo da cultura e da sensibilidade espiritual, estética, ética e transcendente.

Qual é o professor de Moral desejável: um centrado na vertente humanista ou alguém mais concentrado no aspeto teológico?

O perfil do professor de EMRC contém aspetos que se aplicam a qualquer professor e aspetos específicos que decorrem da identidade da disciplina de EMRC. Este docente é caracterizado por três funções inseparáveis: testemunha, professor e educador.

O professor de EMRC desejável é aquele que assume educar com amor e educar para o amor e em colaboração com a família!

Gabriel Vilas Boas


Entrevista ComRegras | Paulo Gonçalves, Diretor de Comunicação da Porto Editora 1

Eis a 2ª entrevista de Gabriel Vilas Boas para o ComRegras.

A Porto Editora é a empresa líder no mercado de livros escolares, cuja temática, todos os anos, ouvimos falar ora por causa do preço ora porque existe a perceção que os manuais estão sempre a mudar. Por isso nada melhor que ouvir o responsável pelo Departamento de Comunicação da Porto Editora, Paulo Gonçalves, que nos concedeu uma longa entrevista.

A trabalhar na Porto Editora desde 1996, o nosso entrevistado é um dos cerca de 1400 trabalhadores do Grupo que possui um portfólio de títulos bem recheado. Começou por aí a nossa entrevista.

Porto Editora

Responsável pelo Departamento de Comunicação da Porto Editora – Paulo Gonçalves

Quais as empresas que pertence ao grupo Porto Editora?

 A Porto Editora, fundada a 2 de maio de 1944, é a casa-mãe de um grupo que é hoje constituído também pelas empresas Areal Editores, Bertrand Editora, Circulo de Leitores, Raiz Editora, Distribuidora de Livros Bertrand, Livrarias Bertrand, Plural Editores Angola, Plural Editores Moçambique, Plural Editores Timor-Leste e a unidade de produção Bloco Gráfico. Aquelas editoras integram um portfólio de chancelas que inclui Albatroz, ArtePlural, Assírio & Alvim, Contraponto, GestãoPlus, Ideias de Ler, Pergaminho, Quetzal Editores, Sextante Editora, Temas e Debates, 11×17 e, agora, a Livros do Brasil.

Os livros escolares são caros ou os pais valorizam pouco o investimento na educação dos filhos?

Os pais e os educadores têm consciência da importância que os livros têm para os filhos. Os livros escolares são recursos indispensáveis para o percurso educativo dos alunos. São verdadeiras ferramentas de trabalho diário, quer na sala de aula quer em casa, e a sua utilização não se esgota num ano letivo, pois não raramente é necessário rever matérias nos anos letivos seguintes até para preparar exames de fim de ciclo. Mas há quem desvalorize os livros, quem os veja como descartáveis, e ao fazê-lo não entenda que está a transmitir uma mensagem errada desde logo para os mais novos.

O preço do livro escolar pode variar entre os nove euros no 1.º ciclo e os vinte euros no 3.º ciclo. Se formos a comparar, por exemplo, com os livros de ficção que ocupam os top de vendas, vemos que estes são, em regra, mais caros e, no entanto, são muito menos exigentes ao nível de desenvolvimento editorial. Sendo assim, será que um livro escolar pode ser considerado caro? Acontece é que não se compra um livro escolar, mas sim um conjunto de livros escolares considerando o ano de escolaridade, e essa compra acontece numa altura específica do ano, de mudança de estação, em que as famílias têm de comprar roupa e calçado, por exemplo. Daí ouvir-se falar dos preços dos livros – mas se o preço do cabaz de livros escolares for diluído por um ano letivo, verifica-se que, por dia, tem um custo inferior a um café.

Ciclicamente, em todos os inícios de ano letivo, jornais e associações de pais falam do elevado custo por aluno dos manuais escolares. Por que razão a PE editora não exerce o contraditório?

É verdade que os media, sobretudo os mais populares, fazem manchetes sobre os preços dos livros escolares. Fazem-no de forma superficial e, 99% das vezes, manipulando números para sustentar a “informação”. E com a emergência da crise económica dos últimos anos, essa tendência tornou-se mais evidente seguindo uma lógica de assegurar audiências.

A Porto Editora exerce o contraditório sempre que tem a oportunidade, mas a Porto Editora não pode falar pelo setor. Quem representa os editores escolares portugueses é a Comissão do Livro Escolar da APEL, que tem tentado esclarecer a sociedade e desmontar a desinformação e a manipulação que se tem verificado.

Os pais queixam-se muito da subida do preço dos livros escolares acima da inflação, mas o Ministério da Educação não. O Estado paga e não reclama ou o tem um desconto especialíssimo? É fácil negociar com o Ministério da educação?

Desde 2003 – e porque não tenho dados anteriores – apenas nos últimos dois a três é que os preços dos livros aumentaram acima da inflação. E isso aconteceu porque a Convenção de Preços de 2011 foi assinada sob a influência da intervenção externa e, por conseguinte, não podia ser alterada durante aquela intervenção. No entanto, quando a convenção foi assinada, a inflação estava em 3,1 % e a atualização definida pela convenção era de 2,6%, ou seja, não haveria um aumento efetivo dos preços, pois a atualização era 0,5% abaixo da inflação. Contudo, o cenário económico alterou-se e verificou-se uma descida sustentada da inflação e, a partir desse momento (2012/2013), os livros aumentaram de facto.

Neste momento, está a ser negociada uma nova convenção de preços com o Ministério da Economia, tendo o acompanhamento do Ministério da Educação. Importa dizer que somos dos únicos países europeus onde os preços dos livros escolares não são livres, mas sim regulados por convenção com o Estado. E esses preços aplicam-se em todas as situações, sem exceção.

A lei diz que os manuais escolares devem ter uma vigência de vários anos, mas na prática tal não acontece. Acontece sempre algo que obriga à impressão de novos livros escolares, antes do fim do prazo. O lobby das editoras é assim tão poderoso? De quem é a culpa destas sucessivas mudanças na edição de novos manuais escolares?

É mentira – os livros não estão sempre a mudar. Essa perceção é alimentada erradamente por vários setores, pese embora todo o esforço de informação e esclarecimento que é feito ano após ano. Mas bastava ter o cuidado de consultar a legislação para se perceber que a realidade é bem diferente.

Os livros têm uma vigência definida por Lei e os editores cumprem escrupulosamente a legislação. Para que se saiba: nos inícios da década de 90 do século passado, a vigência dos manuais escolares passou a ser de quatro anos. A partir de 2006, essa vigência foi alargada para seis anos. Ou seja: os livros duram por seis anos, período durante o qual não há qualquer alteração aos manuais.

Um exemplo concreto: em setembro de 2016, os únicos livros novos que vão chegar às livrarias são dos 1.º, 5.º e 11.º anos de escolaridade. Todos os outros permanecerão inalterados.

Este é um aspeto que está regulamentado pela Lei N.º 47/2006, de 28 de agosto, pelo que não há quaisquer dúvidas sobre esta matéria.

As eventuais mudanças que ocorrem dentro dos prazos de vigência são impostas pelo Ministério da Educação, entidade responsável pela formulação dos programas curriculares pelos quais as editoras e os autores têm de orientar a elaboração dos livros escolares. Se o Ministério da Educação decide alterar os programas, as editoras e os autores são obrigados por lei a alterar os livros para que possam ser utilizados por alunos e professores. O que aconteceu no passado recente com as Metas Curriculares é bem o exemplo disso. As editoras não têm, nem nunca tentaram ter, qualquer influência neste assunto. A responsabilidade das editoras está em fazer livros e recursos didático-pedagógicos, não programas curriculares.

Já pegou numa mochila de um aluno do 5.ºano? Pesam imenso! Eles andam com elas várias horas por dia, percorrendo centenas de metros diários. As editoras não deviam fazer manuais escolares mais leves? (mais…)


Entrevista a Uma Professora Contratada – Gente Feliz Com Lágrimas. 1

Eis a primeira entrevista realizada por Gabriel Vilas Boas para o ComRegras.

Gente Feliz Com Lágrimas

Alice CostaMaria Alice Azevedo Costa é uma professora da escola pública que começou a lecionar em 1997. Durante quase duas décadas percorreu o país ensinando Inglês, Português e, mais recentemente, trabalhando com os alunos da Educação Especial. Natural do Marco de Canavezes, distrito do Porto, está atualmente a lecionar em Lisboa. Perto de casa só esteve sete anos, porque os outros doze passou-os em sítios tão distantes como a ilha Terceira, nos Açores, Guimarães, Gaia, Viana do Castelo, Lousada, Cinfães, Baião, Rebordosa, Paredes, Amarante, Carrazeda de Ansiães e Torre de Moncorvo.

Milhares de quilómetros percorridos, milhares de alunos diferentes pela frente, muitos obstáculos pessoais e profissionais ultrapassados, muitas lutas diárias vividas com paixão e a almejada meta da vinculação ainda por cortar.

 

O teu percurso profissional enquanto professora foi atípico: primeiro professora de Inglês, depois de Português e agora professora de Educação Especial. Isso tornou-te, involuntariamente, melhor professora?

 A educação especial surgiu como mais um recurso que me complementou. À questão se me tornei melhor professora não te posso responder, pois essa avaliação deixo para os meus alunos. Todavia, consigo dizer-te que cada vivência contribui para o meu crescimento enquanto professora.

Os professores contratados são os mais bem preparados e atualizados professores da Escola Pública portuguesa?

Não gostaria de fazer um juízo desses, porém acredito que cada vez mais os professores contratados se preparam e atualizam mais para o exercício das suas funções. Aliás, é a este grupo de professores que são exigidas todas as qualificações e todos os requisitos. Na BCE, por exemplo, “eram” aqueles critérios todos: formação específica, experiência na área, avaliação, dinamização, etc. Até o registo criminal e o atestado de robustez física, os professores contratados têm de fazer prova. Curiosamente, entrando-se nos quadros, todos estes requisitos deixam de ser relevantes e deixam de ser solicitados.

Os professores efetivos são os “instalados” do sistema?

Não querendo ser injusta com aqueles professores efetivos que continuam a dedicar-se à sua profissão, e eu conheço alguns, na minha opinião há um número bastante significativo daqueles que se “instalaram” no sistema.

O Ministério da Educação determinou o fim da BCE (Bolsa de Contração por Escola). Concordas com esta medida? No teu entender, qual o método mais correto para a contratação de professores?

Concordo plenamente. Já vai tarde. A BCE foi o concurso mais injusto. Julgo que a lista de graduação será o método mais correto para a contratação de professores.

Como resolver o problema dos professores contratados há vários anos sem causar injustiças entre eles?

Aplicando a mesma lei que obriga as empresas privadas a cumprir. Isto é, se o professor é necessário e tem três contratos com o Ministério deveria passar aos quadros, salvaguardando o caso de professores que, como eu, lecionam há quase duas décadas e que, por injustiças como a BCE e a dita norma travão, ainda permanecem contratados.

Achas que os vários sindicatos de professores têm feito tudo o que está ao seu alcance para vincular os professores que estão em regime de contrato há vários anos?

Não sou sindicalizada nem estou por dentro do trabalho por eles desenvolvido, mas tenho a sensação de que poderiam ser mais persistentes nesta questão.

Os sindicatos deviam apenas discutir com o governo questões laborais ou também deviam marcar uma posição clara quanto à política educativa que os professores defendem para a Escola portuguesa?

Acho que, se calhar, uma coisa devia implicar a outra.

Costumas sentir pressões de elementos da Direção das escolas onde lecionastes para melhorares as notas de alunos “problemáticos”, no sentido de facilitar a sua transição ou dos melhores alunos para que este atinjam determinada média?

Felizmente nunca senti qualquer pressão. Sei que as Direções têm de mostrar resultados, sei que apelam às responsabilidades de cada um de nós, mas comigo nunca nenhum elemento das Direções por onde tenho passado me pressionou para fabricar resultados.

O atual modelo de gestão das escolas públicas portuguesas, que muitas vezes perpetua os diretores no poder, é benéfico ou prejudicial ao aumento da qualidade de ensino?

Acho que não é apenas o atual modelo de gestão de escolas públicas que perpetua os diretores à frente das escolas, também os anteriores modelos o permitiam. Quanto ao ser benéfico essa continuidade, é como tudo, se o diretor corresponder às necessidades da escola, esta só ganha com o seu trabalho.

O que achas do chamado “Ranking” das escolas?

Acho uma verdadeira farsa. Discordo com os princípios orientadores de tal comparação de resultados. É como comparar uma grande cidade cosmopolita a uma simples aldeia no interior.

O que pensas das recentes medidas do novo Ministro da Educação quanto ao sistema de avaliação, com o aparecimento das provas de aferição e o fim dos exames do 4.º e 6.º anos?

Concordo com as medidas. Nos exames do 4.º e 6.º anos fazia-se a comparação entre o incomparável. Quanto às provas de aferição, há toda uma cultura de se desvalorizar tudo o que não é quantificável para a nota, porém poderá servir como um descritor para cada escola.

As escolas públicas portuguesas têm as condições materiais necessárias para que os professores desenvolvam corretamente o seu trabalho com os alunos?

Neste momento existem as escolas que tem todas as condições físicas com bons recursos materiais e aquelas que estão no esquecimento, onde muitas vezes até o básico falta. Esta dicotomia mostra um bocadinho a realidade das nossas escolas públicas.

Achas que as escolas privadas melhoram a Educação em Portugal ou apenas aprofundam as desigualdades sociais?

Não acho de todo que as escolas privadas tenham melhorado a educação em Portugal. Cumpriram apenas com a sua função. Têm recursos que a escola pública não tem. Não são escolas de massas, pelo contrário, são escolas seletivas e em alguns casos ainda beneficiam do erário público.

Que imagem fazem os portugueses do professor? Essa imagem têm em conta as diferenças entre o professor contratado e o professor efetivo?

Julgo que a grande maioria tem uma visão negativista do professor. Veem-nos como ociosos (muitos dias de férias), muito implicativos com as crianças (quando exigimos).

Na escola portuguesa, há uma excessiva cultura da nota?

Sim, há uma excessiva cultura pela nota.

Que valências deve ter o professor atual?

O professor atual tem de amar a sua profissão, ser dinâmico, estar atualizado e ter espírito aventureiro. 😉

Que consequências teve para a tua família andares duas décadas a saltar de escola em escola?

A família para mim é tudo. Como deves imaginar não é nada fácil chegar ao fim de semana e fazer a mala, partir para mais de 300 kms, deixando marido, filho e pais, estes com doenças como Parkinson e Alzheimer. Levo as saudades, as preocupações, a ausência dos momentos em família. E tudo isto que levo e que pesa mais do que a mala, também fica com eles. Felizmente, somos uma família consistente que se apoia mutuamente, pois de outra forma, se calhar já a teria perdido.

No que diz respeito aos professores efetivos versus professores contratados, hoje em dia não sinto tanta discriminação relativamente a estes últimos, pelo contrário, sinto que nos valorizam e apreciam.

Ser professora faz-te feliz?

Hoje, é com tristeza que te digo que me sinto cansada e muito injustiçada. Ainda assim sinto o apelo pelo ensino, o que me leva a avançar. O meu estado de alma pauta-se pela desilusão em virtude das políticas educativas que têm sido implementadas. No entanto, há um sentimento antagónico, porque quando estou em frente aos meus alunos, quando sou professora, ensino, partilho, demonstro e aprendo. Aí sou feliz.

Vinte anos é muito tempo. Muito tempo para continuar a acreditar que um dia a vinculação vai chegar, muito tempo longe da família e com a casa às costas, muito tempo para acreditar em erráticas políticas de educação por parte dos vários Ministérios da Educação, mas também muitos dias, semanas e meses de uma profissão vivida com gosto e paixão comoventes que temos de aproveitar e agradecer. Como diria Camões, n’Os Lusíadas:

“A gente vem perdida e trabalhada

Já parece bem feito que lhe seja

Mostrada a nova terra que deseja.”


Entrevistas: Agrupamento de Escolas da Trofa e Agrupamento de Escolas Raul Proença 2

Duas escolas, ambas bem colocadas nos exames de 2015, com um número semelhante de exames realizados no ensino secundário, mas com contextos socioeconómicos diferentes (mais favorecido e menos favorecido). A ideia desta entrevista é conhecer um pouco melhor a realidade de ambas as escolas e verificar diferenças e semelhanças apesar dos seus contextos.

As respostas a preto pertencem ao Diretor Paulino Macedo, do Agrupamento de Escolas da Trofa (Porto), incluída num contexto menos favorecido. As respostas a laranja são do Diretor João Silva, do Agrupamento de Escolas Raul Proença (Caldas da Rainha-Leiria), incluída num contexto mais favorecido.

ENTREVISTA

Os resultados obtidos em 2015 são semelhantes aos obtidos em anos anteriores, ou são a exceção?

O Agrupamento de Escolas com a configuração atual foi constituído com a agregação da Escola Secundária da Trofa ao Agrupamento Vertical de Escolas da Trofa em julho de 2012. O histórico comparativo é, portanto, reduzido, mas, sim, os resultados escolares obtidos em 2015 são, com algumas exceções pontuais que estamos a analisar, muito semelhantes aos de anos anteriores com ligeiras melhorias em algumas disciplinas.

Os resultados da Escola Secundária Raul Proença têm apresentado uma grande consistência ao longo dos últimos anos, não havendo oscilações dignas de registo.

Como sabemos, os resultados obtidos são o produto da conjugação de diferentes variáveis. Entre elas, a qualidade e estabilidade do corpo docente, os índices de indisciplina, o modelo pedagógico instituído, os pais, os alunos, os assistentes operacionais, entre outros. Como caracterizaria cada uma destas variáveis, na sua escola/agrupamento?

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Agrupamento de Escolas da Trofa

Corpo Docente

Corpo docente muito estável. A exceção é o 1.º ciclo que em ano de concursos é permeável a situações de mobilidade.

Apresenta uma grande estabilidade, mais de 90% dos docentes são do quadro, e são, no seu conjunto, excelentes profissionais. Os níveis de assiduidade são extremamente elevados.

Disciplina

As escolas têm um clima muito calmo. Não temos casos de indisciplina muito graves. Temos situações do dia a dia. Constatamos, como eventualmente acontecerá em muitas escolas do nosso país que a indisciplina se desloca dos recreios para o interior da sala de aula. É o “está quieto”, “está atento”, “trabalha”, “tira o material da mochila” que provoca casos de rejeição à autoridade do professor e potencia situações de indisciplina.

Não temos problemas graves de indisciplina e sempre que aparece alguma situação agimos com grande celeridade. Os profissionais que trabalham na escola são extremamente exigentes neste capítulo e têm o apoio da direção. Procuramos envolver sempre os encarregados de educação para que as medidas adotadas sejam mais eficazes.

Modelo Pedagógico

Desenvolvemos um programa de apoios e tutorias aos alunos identificados com dificuldades de aprendizagem. Criamos um gabinete do aluno (GA) que acolhe, com uma tarefa de natureza pedagógica prescrita, os alunos que são colocados fora da sala de aula, criamos um gabinete de informação ao aluno (GIA) com o objetivo de os informar e acompanhar e criamos um gabinete de acompanhamento de situações de carência económica.

O nosso Plano Anual de Atividades é rico e nele integramos as atividades das várias associações de pais, da associação de estudantes e com maior predominância todas as atividades propostas pelos Departamentos Curriculares.

Na Escola Raul Proença apenas funcionam os apoios educativos, os quais são aplicados assim que o respetivo Conselho de Turma deteta dificuldades. Após o términus das aulas, também proporcionamos apoios aos alunos que vão a exame.

Pais

Em todas as escolas do Agrupamento está formalmente constituída uma Associação de Pais e Encarregados de Educação. Os presidentes destas constituem uma comissão de presidentes (CAPEAT) com o objetivo de reunir com o Diretor e outros Órgãos. Além desta comissão, cada turma elegeu 2 encarregados de educação que os representa em assembleia de representantes para tratar de assuntos de interesse do Agrupamento em geral ou de cada turma em particular.

Digamos que é uma escola aberta à comunidade cuja intervenção/participação dos pais é sempre bemvinda.

Na sua maioria, os pais são interessados e acompanham o percurso escolar dos seus educandos. Normalmente, estão disponíveis para colaborar com a escola. Também existem situações em que a comunicação com os encarregados de educação é difícil, mas são situações mais residuais.

Assistentes Operacionais

Como em muitas escolas do nosso país o n.º de Assistentes Operacionais é muito escasso para o número de alunos e dimensão das instalações escolares.

Acresce a isto a dificuldade em gerir Assistentes Operacionais do mapa de pessoal da Câmara Municipal, portanto, com uma tutela, e Assistentes Operacionais do mapa de pessoal do Ministério da Educação.

Esta situação apresenta no dia a dia muitos constrangimentos.

São um corpo coeso que apresenta grande estabilidade e são muito profissionais. Sentem orgulho no trabalho que fazem e os alunos destacam sempre a sua afabilidade.

Alunos

Alunos de contextos socioeconómicos não muito favorecidos e com expectativas muito baixas em relação à escola. Alunos oriundos de contextos industriais, mas com alguma relevância, ainda, o contexto agrícola. O desemprego é acentuado e consequentemente uma percentagem muito elevada tem apoio do ASE.

Os alunos e os seus encarregados de educação conhecem o nosso projeto educativo e a nossa forma de funcionar. Quando nos procuram sabem que a escola está predominantemente orientada para o prosseguimento de estudos e que lhes proporciona as condições para atingirem os seus objetivos. São alunos que na sua maioria tem expectativas elevadas, o que contribui para o seu bom desempenho. Ao nível do ensino profissional, os alunos também apresentam elevados níveis de desempenho e a sua qualidade é reconhecida pelas empresas onde fazem a formação em contexto de trabalho.

Infraestruturas

Escolas recentemente requalificadas e outras a necessitar “urgentemente” de requalificação.

As infraestruturas são o nosso ponto fraco, não fomos intervencionados pela Parque Escolar e neste momento a escola precisa de obras de fundo. As coberturas, as janelas, as casas de banho, …, precisam urgentemente de obras. Não temos um auditório, o que é uma necessidade premente para a quantidade de atividades que desenvolvemos.

Ag Raul Poença

Agrupamento de Escolas Raul Proença

A sua escola é uma escola “alinhada”?

Sim alinhada. Os desvios entre os resultados internos e externos situam-se, em média, em 3 pontos de diferença.

A Raul Proença é uma escola alinhada segundo a análise do ministério. Em algumas disciplinas apresentamos resultados internos inferiores ao que seria esperado, face aos resultados obtidos nos exames.

A sua escola estabeleceu algum contrato (ex: autonomia) com a tutela? Este contribuiu para os bons resultados que foram obtidos?

Não.

A Escola Raul Proença faz parte do Agrupamento de Escolas Raul Proença, o qual tem contrato de autonomia. Contudo, considero que a autonomia que nos é dada é tão limitada que não tem reflexo nos nossos resultados.

É da opinião que o contexto socioeconómico determina os resultados escolares, em particular nos exames?

Sem dúvida. O contexto socioeconómico tem influência nos resultados escolares das nossas escolas. Temos a consciência, por conhecimento empírico, porque temos a noção da nossa realidade (contexto não muito favorecido) e do esforço que desenvolvemos para que os nossos alunos alcancem estes resultados.

A palavra determina é muito forte e vai contra um papel muito importante que a escola deve ter, o de proporcionar a igualdade de oportunidades. Mas não devemos ignorar esta variável porque tem um impacto muito significativo nos resultados obtidos pelos alunos. No entanto, considero que o nível de escolaridade dos encarregados de educação é o mais decisivo.

Denotou uma maior procura por parte dos pais em virtude dos resultados obtidos?

Não. O Concelho da Trofa é relativamente pequeno e o leque de escolha de escolas não é grande. Aliás só existe uma Escola Secundária.

O aumento da procura não é um fenómeno recente na Raul Proença, sempre fomos uma escola muito solicitada. Mas reconheço que os resultados obtidos nos dão maior visibilidade.

Que opinião tem sobre os rankings escolares?

Temos que saber interpretá-los e dar-lhe o valor que têm para nós Escola (Comunidade Educativa) e para os mass media.

Enquanto ordenação (ranking) das escolas boas e más não tem valor nenhum.

Os rankings não são a solução para todos os problemas, nem são a causa de todos os problemas.

Acaba por ser uma análise um pouco superficial, não sendo contempladas inúmeras variáveis. Contudo, não deixam de ser um indicador do trabalho que é realizado e, para uma escola que fica na tão falada “província”, os resultados que temos obtido são um incentivo e um reconhecimento do nosso esforço.

Sobre as recentes medidas implementadas pelo Ministro Tiago Brandão, nomeadamente as provas de aferição, qual é a sua opinião?

A Avaliação de alunos é tema que merece ser tratado de forma mais abrangente e mais aprofundadamente. Dentro daquilo que se costuma, em outras matérias apelidar por conseguir um “pacto de regime” para uma década. Não podemos andar sempre a fazer alterações.

No entanto, pensamos que os exames ao nível do ensino básico não podem ser instrumento de seleção. A cultura da nota que leva tantas vezes à retenção merece uma análise mais profunda.

Penso que voltamos sempre aos mesmos erros, as mudanças na educação são constantes e não deixam estabilizar o trabalho desenvolvido. A estabilidade do corpo docente é das coisas mais determinantes para o sucesso de uma escola e a estabilidade nas regras pelas quais se rege a educação devia ser a pedra de toque. Não se podem/devem fazer mudanças tão radicais a meio do ano letivo e se algumas poderão fazer sentido, outras parecem muito precipitadas. Defendo que em educação se devem ir fazendo pequenos ajustes e não revoluções. Os exames a meio de maio eram uma grande perturbação para as escolas, mudar o momento da realização para depois do fim das aulas é uma medida positiva. Agora, alunos do 8º ano de escolaridade saberem em janeiro que afinal vão ser sujeitos a provas de aferição, é não respeitar alunos, encarregados de educação e professores.

Quais as áreas que o atual Ministro devia dar maior destaque durante o seu mandato?

Só é possível defender a escola pública e consequentemente, à semelhança do que acontece na saúde e/ou outras áreas, um Serviço Nacional de educação se a ação da Escola for recentrada na aprendizagem dos alunos.

Por isso, entendendo a necessidade de qualquer ministro, seja de que área política for, deixar a sua marca na passagem pelo ministério, reformar por reformar não nos levará a lado nenhum.

É urgente uma definição do perfil de saída dos alunos no ensino básico e no ensino secundário.

Este desígnio arrasta atrás de si a necessidade de revisão dos currículos e programas, dos desenhos curriculares das turmas (horários), da formação dos professores, do regime de funcionamento das escolas, etc.

A implementação destas “reformas” deve ser acompanhada de meios/recursos físicos, económicos e humanos.

Mais do que áreas o fundamental é adotar medidas que ultrapassem os constrangimentos sentidos pelas escolas e que dificultam o sucesso escolar. O número de alunos por turma é um exagero, pelo que vejo como fundamental a redução do número mínimo de alunos para se constituir uma turma.

A substituição dos docentes nas escolas tem sido muito morosa, no entanto parece que estão a ser tomadas medidas para ultrapassar este problema.

A Parque Escolar recuperou inúmeras escolas que ficaram dotadas de excelentes condições físicas. Contudo, criou uma enorme desigualdade que é urgente ultrapassar. Na mesma cidade temos escolas que estão dotadas de todas as condições de conforto para os alunos e escolas que têm janelas que não vedam, coberturas que deixam entrar água, …

No que diz respeito aos programas das disciplinas, espero que não estejam a preparar mais um festim para as editoras.

Os meus agradecimentos a ambos os Diretores pela sua disponibilidade .

Comentário

Como verificaram, ambas as escolas têm pontos em comum: um corpo docente estável; pouca indisciplina; um sistema de apoio aos alunos; e pais envolvidos com a escola.

No entanto existem algumas diferenças ao nível dos assistentes operacionais, contexto socioeconómico, infraestruturas e o contrato estabelecido com o Ministério de Educação.

Não existem segredos na educação, todos sabemos quais os pilares em que se alicerça o sucesso, não é seguramente uma coincidência existir uma semelhança nos itens referidos. São pilares para o sucesso, mesmo com algumas diferenças, mesmo com algumas dificuldades é possível chegar lá.

Sobre os rankings, trata-se de um produto cosmético que não mostra a realidade. Dá indicadores sim, mas apenas isso. Colocar uma ordenação numérica, com “carimbos” de direito de abertura de telejornal como a melhor escola ou a pior escola é de quem não percebe nada disto. Tinta superficial para ganhar audiências…

Tanto merece um louvor aquele que nunca tirou uma positiva e após muito muito esforço consegue atingir o sucesso, como  também merece aquele que após muito muito esforço atinge a nota máxima.


Entrevista à Diretora Ana Gralheiro, do Agrupamento de Escolas D. Dinis – Odivelas

agrupamento D.Dinis

  1. Podemos começar por uma apresentação da sua escola, o Agrupamento de Escolas D.Dinis.

I – CARACTERIZAÇÃO HUMANA DO AGRUPAMENTO ESTRUTURAS EDUCATIVAS E SERVIÇOS – 2014/2015

PESSOAL DOCENTE

Total de educadores e de professores do Agrupamento: 99;

ALUNOS – 1227 distribuídos da seguinte forma:

Ensino Pré-Escolar: 69;

1º Ciclo: 553;

2º Ciclo: 235;

3º Ciclo: 370.

Taxa de alunos carenciados e ultracarenciados: 63%.

IV – OFERTA CURRICULAR

De forma dar resposta às necessidades específicas dos nossos alunos, e da comunidade em que estamos integrados, o nosso Agrupamento proporciona os seguintes cursos:

VOCACIONAL 2º CICLO – Nas áreas de: Introduçao ao Jornalismo Sonoplatia Luminotécnia e Animação Turística .

VOCACIONAL 3º CICLO (2 Anos) – Nas áreas de: Jornalismo, Gestão Desportiva e Animação Turística.

VOCACIONAL 3º CICLO(1 Ano) – Nas áreas de: Práticas Comerciais, Stocks e Merchandising e Animação Turistica.

Oferece ainda uma turma de Percurso Curricular Alternativo (a frequentar o 9.º ano de escolaridade no ano letivo 2015/2016), em que se procura integrar através das artes.

Dando grande valor à arte na formação do indivíduo, o Agrupamento oferece ainda a frequência do Ensino Articulado, em parceria com o Conservatório de Musica D. Dinis, havendo no ano letivo 2015/2016 cinco turmas integradas nesta oferta formativa, respetivamente, uma por ano letivo (desde o 5.º ao 9.º ano).

2- Nos último anos temos assistido a uma maior competição entre as escolas. Se precisasse de convencer um encarregado de educação/aluno a escolher a sua escola, o que lhe diria?

Temos uma oferta curricular diversificada e professores altamente motivados.

 

3- Tem algum projeto que na sua opinião mereça ser destacado? (mais…)


Os alunos do Agrupamento de Escolas de Carcavelos usam os telemóveis nas aulas – Entrevista exclusiva! 5

No passado dia 24 de setembro, foi notícia a permissão sobre o uso do telemóvel durante as aulas no Agrupamento de Escolas de Carcavelos. O ComRegras quis saber mais sobre esta iniciativa e por isso fizemos algumas perguntas ao Diretor Adelino Calado que amavelmente nos respondeu.

Entrevista ao Diretor Adelino Calado do Agrupamento de Escolas de Carcavelos

Arupamento CarcavelosRecentemente o vosso agrupamento foi notícia por permitirem a utilização do telemóvel como ferramenta de trabalho em contexto de sala de aula.

  1. O estatuto do aluno remete quatro alíneas, q), r), s) e t), no seu artigo 10.º “Deveres dos Alunos”, promovendo a não utilização do telemóvel. A vossa decisão de integrar o telemóvel tem fundamento legal?

 Julgo que não existe nenhuma ilegalidade, como poderá ser analisado face ao que o Estatuto do Aluno determina, e ao que o Regulamento Interno do Agrupamento prescreve:

 Estatuto do Aluno (artigo 10º)

q) Não transportar quaisquer materiais, equipamentos tecnológicos, instrumentos ou engenhos passíveis de, objetivamente, perturbarem o normal funcionamento das atividades letivas, ou poderem causar danos físicos ou psicológicos aos alunos ou a qualquer outro membro da comunidade educativa;

r) Não utilizar quaisquer equipamentos tecnológicos, designadamente, telemóveis, equipamentos, programas ou aplicações informáticas, nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas ou reuniões de órgãos ou estruturas da escola em que participe, exceto quando a utilização de qualquer dos meios acima referidos esteja diretamente relacionada com as atividades a desenvolver e seja expressamente autorizada pelo professor ou pelo responsável pela direção ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso;

s) Não captar sons ou imagens, designadamente, de atividades letivas e não letivas, sem autorização prévia dos professores, dos responsáveis pela direção da escola ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso, bem como, quando for o caso, de qualquer membro da comunidade escolar ou educativa cuja imagem possa, ainda que involuntariamente, ficar registada;

t) Não difundir, na escola ou fora dela, nomeadamente, via Internet ou através de outros meios de comunicação, sons ou imagens captados nos momentos letivos e não letivos, sem autorização do diretor da escola;

REGULAMENTO INTERNO DO AGRUPAMENTO

    Artigo 80.º – Equipamentos tecnológicos (telemóvel, tablet ou outro)

Quando expressamente autorizado pelo professor/Direção/supervisor, o aluno tem direito a usar equipamentos tecnológicos, de forma pedagógica e responsável, em contexto de sala de aula ou de outras atividades formativas, sempre que estes forem considerados como mais um instrumento de trabalho, em situações como:

  1. usar como relógio;
  2. usar como agenda;
  3. utilizar como calculadora;
  4. consultar a internet e utilizar outras aplicações a propósito de conteúdos programáticos abordados em aula.
  1. Em que condições é que o telemóvel pode ser utilizado?

Quando expressamente autorizado pelo professor/Direção/supervisor, o aluno tem direito a usar equipamentos tecnológicos, de forma pedagógica e responsável, em contexto de sala de aula ou de outras atividades formativas, sempre que estes forem considerados como mais um instrumento de trabalho

  1. A sua utilização é transversal a todas as turmas, ou está limitada a algumas?

A resposta anterior esclarece este ponto.

4. Ao ver a notícia, muitos professores devem ter pensado que é impossível os alunos não aproveitarem para enviar sms, jogar e afins. Isso acontece(u)?

Curiosamente, ou talvez não, estamos a 18 de outubro, e apenas se registou uma situação numa turma de 8º ano ! Convém recordar que a escola Sede tem 66 turmas e cerca de 1900 aluno do 5º ao 12º ano.

Claro que a penalização desta situação foi entendida como uma falta muito grave.

  1. Foi estabelecida alguma consequência para o caso da utilização indevida do telemóvel para dissuadir o uso indevido do telemóvel?

Sendo considerada uma falta muito grave, o aluno que comete a infracção é de imediato confrontado com a situação, o respectivo encarregado de educação é chamado à Escola e a suspensão das actividades letivas é aplicada no momento.

  1. Que balanço faz desta medida?

Sendo ainda prematuro avançarmos com conclusões muito completas, poderemos afirmar que o objectivo central que perseguimos está a seguir o curso que desejamos. Ou seja, proporcionar uma maior autonomia aos jovens e ao mesmo tempo consciencializar todos para a exploração adequada de um instrumento que apresenta muitas potencialidades.

  1. A escola aos poucos e poucos vai ficando cada vez mais tecnológica. Como imagina a escola do futuro? (mais…)

Entrevista exclusiva a Santana Castilho – 2ª Parte

santanaExistem cada vez mais escolas a estabelecer contratos de autonomia com a tutela, no entanto existem muitas queixas sobre uma autonomia meramente superficial. Terá havido ingenuidade por parte das escolas ou estas terão sido iludidas pelo “canto da sereia”?

Autonomia significa a capacidade de uma instituição se autogovernar, decidindo livremente sobre as normas que regularão a sua própria conduta, longe de qualquer condicionante restritiva, vinda do poder central. Se se quiser, a este conceito comum podemos adicionar essoutro de maior rigor técnico-jurídico, segundo o qual a autonomia se identifica pela capacidade que uma instituição tenha de produzir actos definitivos e executórios, apenas derrogáveis em sede de recurso contencioso. Ora todos sabemos que nenhuma destas características é pertença da escola, termos em que não passam do mundo da fantasia quantos apregoam o que não existe.

Em tese, ter a Escola mais autonomia é melhor do que ter menos. Mas é um perigo entregar mais autonomia a quem decide, quando quem decide não foi eleito pelos seus pares. Atribuir mais autonomia a quem não tenha sido escolhido pelo colectivo dos seus pares pode traduzir-se em menor liberdade para cada um dos respectivos membros. Daí serem cruciais órgãos de controlo de quem tem autonomia, para que não a exerça a favor de uns, contra os outros, mas sempre em defesa do colectivo.

Sobre autonomia, esse decantado conceito tão gasto de tão usado, temos, pelo menos, duas perspectivas díspares: uma falhada, a dos professores, outra conseguida, a do ministério. Eu explico.

Livraram-se os professores da carga burocrática, alijaram tarefas administrativas, escaparam ao jugo dos pequenos poderes e ganharam capacidade para decidir o que fazer para resolver os obstáculos à aprendizagem dos seus alunos? A resposta é um óbvio e rotundo não. Tudo o que queriam, não conseguiram. Falhada, pois!

Mas o ministério, que a todo tempo fala de autonomia e inunda diplomas legais com a palavra, que entende por isso? Mostra a realidade que não é libertar as escolas dele, ministério, mas sim libertar-se ele, ministério, das escolas: pondo-as em piloto automático, sob controlo remoto, através das plataformas informáticas, que coartam qualquer desvario personalizante; livrando-se delas, outra vez, ora despejando-as de alunos que faz transitar para as congéneres privadas, ora começando a entregar o que resta aos municípios e a “escolas independentes”, anunciadas para segunda etapa; entregando-as, ainda, a essa entidade virtual que designa por “comunidade”, apesar de entrar pelos olhos dentro de qualquer que a esmagadora maioria dos membros dessa “comunidade” não tem tempo nem protecção legal para ir à Escola tratar seja o que for que se relacione com os filhos e que o seu desígnio máximo é que a Escola os guarde pelo período mais prolongado possível.

O professor acompanha as vozes dos que acusam o projeto-piloto de delegação de competências na educação, implementado pelo M.E.C., de ser uma aproximação inequívoca à privatização do sistema educativo?

A municipalização é mais um passo que concretiza a estratégia (retomada no programa da coligação PSD/CDS-PP) empresarial e tecnocrática que o Governo tem para a Educação, bem fixada pela elitização do ensino, que o “dual” postula para as crianças de dez anos que reprovem duas vezes, pela adopção de pedagogias de adestramento, de que a hiperinflacção dos exames é exemplo, e pelo contributo generoso para a introdução de linhas de montagem no ensino, que os monstruosos mega-agrupamentos tipificam. A municipalização, com os pressupostos conhecidos de distribuição de competências, implode de vez a propalada autonomia das escolas e abre portas a iniciativas partidárias de que temos sobeja demonstração empírica, via experiência já colhida de intensa introdução de jogos políticos no funcionamento dos conselhos gerais. Cruzada com as intenções que foram anunciadas quanto ao cheque-ensino, poderá repetir no país o que se verificou na Suécia, no Reino Unido e nos Estados Unidos da América, com a criatividade activa dos grupos económicos a explorarem o “negócio” até que, anos volvidos, se reconheça a sua falência.

As questões comportamentais são uma preocupação constante nas escolas. O governo terminou com o observatório disciplinar e com a linha S.O.S. Professor. Concorda com estas decisões?

Não concordo.

Na sua opinião, que estratégias deviam ser implementadas para diminuir a problemática da indisciplina?
(mais…)


Entrevista exclusiva ao professor Santana Castilho – 1ª Parte

santanaCaro professor, as suas intervenções no âmbito da educação costumam ser bastante incisivas. A educação em Portugal terá “implodido”?

O vocábulo que usa colheu notoriedade por ter sido usado por Nuno Crato, na fase em que se ocupava a fazer insinuações (em rigor não se lhe conheciam ideias expostas, de modo consistente, sobre Educação) de oposição às políticas de quem viria a ser, em larga medida, um fiel executor: Maria de Lurdes Rodrigues. Em sentido exacto (rebentamento para dentro), o vocábulo peca por defeito, já que a Educação, na legislatura que agora acabou, implodiu e explodiu. Os estragos estão por toda a parte e os prejuízos serão para muitos e muitos anos.

O governo que terminou agora funções, inspirou-se no sistema “dual” alemão para criar os cursos vocacionais; a Finlândia continua a ser a referência sempre que se pensa em reformas educativas e o Chile inspirou a avaliação docente. Concorda que Portugal baseia a sua política educativa no processo da “cábula”?

A investigação abundante sobre a exportação/importação de políticas educativas alerta-nos para a recorrente invocação de modelos estrangeiros como simples argumento de autoridade subserviente para validar decisões já tomadas. Os que têm exercido o poder não têm conhecimento e reflexão produzida sobre Educação e sobre as realidades sociais que a informam. Resulta para eles mais fácil e imediato reproduzir o que lá fora se vai fazendo. Mas são criteriosos, nesse contexto, quando só copiam o que lhes interessa e desprezam o resto.

Este governo apostou, claramente, na vertente do ensino profissional. Estamos a tentar recuperar o tempo perdido ou esta aposta é “incentivada” pelos fundos europeus que financiam estes cursos?

Vai ter uma resposta longa, pois aproveito para reforçar a resposta à pergunta anterior.

No programa eleitoral do PSD, em 2011, é assumida a implementação do sistema de formação dual alemão, segundo o qual as empresas são chamadas a participar na estrutura curricular e conceptual das formações, a oferta formativa deve garantir empregabilidade e a responsabilidade da execução prática da formação é das empresas.

Com a assinatura do Memorando de Entendimento para a Educação Profissional, em 2012, entre Portugal e Alemanha, tornou-se claro o que poderia estar em jogo: a substituição do modelo escolar profissional e a demissão do Estado no que diz respeito à educação profissional. Ou seja, transferência desta via de formação para as empresas. Com uma economia débil, não percebi como poderiam as empresas financiar este modelo de ensino.

Os estudantes, neste modelo, vão um dia por semana à escola, não tendo relação identitária com a instituição escolar. A formação geral é descuidada e não é por acaso que, num trabalho de 2005, nenhum aluno austríaco (país que adoptou o sistema), em 40 entrevistados, conhecia o nome de Platão ou de Goethe.

Perguntas que então se colocavam:

Quem iria supervisionar as práticas pedagógicas?

Quem é que iria idealizar os currículos? É que o currículo não é apenas uma amálgama de conteúdos.

Em relação à empregabilidade, que é tão volátil: iríamos mudar os currículos de quatro em quatro anos?

Acresciam a isto diversas dúvidas:

Teriam estes alunos acesso ao ensino superior, se assim viessem a decidir?

Estaria a formação de professores preparada?

Quais seriam os requisitos mínimos dos formadores? E dos professores?

Quem iria assegurar e quanto iria custar a formação pedagógica dos formadores e dos professores?

O que já é observável permite concluir que não houve respostas coerentes e claras para as perguntas. A gestão foi feita de modo incoerente e à bolina. E a lógica dual, independentemente de qualquer juízo de valor sobre ela, foi desvirtuada. No que deu jeito, como já referi na questão anterior, foi importada; em tudo o mais, foi esquecida. Repare, a título exemplificativo:

Na Alemanha, as empresas asseguram a maioria do investimento no sistema dual, canalizando mais de 20 mil milhões de euros para este sistema. Em Portugal, a falta de protecção dos formandos leva a que sejam aproveitados para tarefas não formativas que, em nada, contribuem para a sua qualificação. Na Alemanha, os aprendizes têm contratos de formação, que são acompanhados pelos sindicatos onde os jovens se inscrevem, mal assumem o estatuto de aprendizes. Todos assinam um contrato de formação, que define a duração, o conteúdo, o objectivo e o salário que o aprendiz irá receber. Os valores mais altos, acima dos 900 euros mensais, são pagos a aprendizes nas áreas da construção e técnicos de electrónica. Depois, os aprendizes alemães recebem bolsas de formação pagas pelas empresas, que chegam aos 900 euros por mês, o que representa o dobro do salário de um terço dos trabalhadores portugueses.

Acima de tudo, há uma pergunta que teima: é isto que queremos para Portugal? Vale a pena importar modelos, neste caso o modelo germânico, que tem uma estrutura e uma lógica que nada têm a ver com a identidade portuguesa? É importante diversificar a oferta formativa, a diferenciação de percursos, para que todos os alunos atinjam alguma qualificação. Mas a canalização dos jovens para o vocacional não deve ocorrer no 6º ano e não deve ser obrigatória para os que chumbam.

Quando se soube que Nuno Crato seria Ministro da Educação, a maioria dos professores manifestou concordância. Hoje, muitos professores apontam-lhe o dedo. Que balanço faz do seu mandato?

Foi o pior ministro da Educação dos 41 anos da democracia. Ficará para a história como coveiro da escola pública. A resposta seguinte completa o balanço.

Consegue identificar algo de positivo do mandato de Nuno Crato?

Infelizmente, não.

O professor chegou a elaborar um projeto educativo para este governo. Podia indicar-nos quais as principais diferenças entre o que propunha e o que foi implementado?

Pedro Passos Coelho pediu-me que lhe escrevesse o programa eleitoral para a Educação, com que iria concorrer às eleições de 2011. Aceitou “com entusiasmo” (as palavras são dele) esse programa. Mas depois trocou-o por outro. Nada há, de meu, no programa do Governo. A história é pública e “passou” nas várias televisões. Mas aqui tem o que defendo, como programa político de intervenção em Educação: (mais…)


Amanhã, no ComRegras, entrevista exclusiva com Santana Castilho! 1

Conheçam as perguntas, amanhã as respostas…

  1. Caro professor, as suas intervenções no âmbito da educação costumam ser bastante incisivas. A educação em Portugal terá “implodido”?
  2. O governo que terminou agora funções, inspirou-se no sistema “dual” alemão para criar os cursos vocacionais; a Finlândia continua a ser a referência sempre que se pensa em reformas educativas e o Chile inspirou a avaliação docente. Concorda que Portugal baseia a sua política educativa no processo da “cábula”?
  3. Este governo apostou, claramente, na vertente do ensino profissional. Estamos a tentar recuperar o tempo perdido ou esta aposta é “incentivada” pelos fundos europeus que financiam estes cursos?
  4. Quando se soube que Nuno Crato seria Ministro da Educação, a maioria dos professores manifestou concordância. Hoje, muitos professores apontam-lhe o dedo. Que balanço faz do seu mandato?
  5. Consegue identificar algo de positivo do mandato de Nuno Crato?
  6. O professor chegou a elaborar um projeto educativo para este governo. Podia indicar-nos quais as principais diferenças entre o que propunha e o que foi implementado?
  7. A B.C.E. (bolsa de contratação de escola) pretende ir ao encontro das necessidades específicas de cada escola. Contudo, os seus inconvenientes são óbvios e sucedem-se. Acha que a ideia da B.C.E. tem algum interesse ou se deve abandonar? (mais…)