É Só Uma Ideia


Hoje fui a Yale. 2

aula-virtualImagine que chega a casa, depois de um dia de trabalho e faz a habitual pergunta ao seu filho: “O que fizeste hoje na escola?” Ele responde “Hoje estivemos a assistir a uma aula da Universidade de Yale.”

– Desculpa? Yale?

– Sim, tivemos a assistir a um curso de Psicologia, dado pelo Professor Paul Bloom. Mas hoje foi só uma introdução, nada de mais. Vamos assistir a vários temas. Acho que vou gostar muito daquele que fala sobre Felicidade. Sabias que há um curso sobre isso?

Terá compreendido bem? Com o acesso ao iTunesU, os alunos poderão assistir a aulas de diversas escolas do mundo, desde escolas primárias às Universidades mais prestigiadas como Yale, Cambridge, Oxford.

Da Universidade de Yale, só para dar um exemplo, foram escolhidos sete cursos para fazerem parte da Yale University Open Education Resources Video Lecture, que significa a disponibilidade de livre acesso através da internet e de forma gratuita de diversos cursos dos mais diversos temas, como Engenharia, Ciência, Literatura, Psicologia, etc.

O que esta realidade permite é colocar o tecnológico ao serviço da pedagogia. Há recursos que podem ser incorporados na educação com claros benefícios para os alunos. Podem ver células vivas em 3D, observar galáxias como se vê através de um telescópio, aceder a exposições de arte ou de ciência presentes num qualqer museu longínquo… Se hoje foram a Yale, amanhã podem ir visitar o  Museu do Louvre.

Para além do evidente benefício de aceder a informação atualizada em tempo real, este recurso abre a perspetiva do que pode ser o ensino nos dias de hoje. Seria impensável, há muito pouco tempo atrás, aceder a conteúdos reais presentes em França, Índia, EUA, Japão, China, a partir da sala de aula ou da sala de estar, com o custo de uma ligação à internet.

Aproveitar as diversas potencialidades das novas tecnologias no ensino, com conteúdos disponíveis a todos, acessíveis em qualquer parte do mundo, é mais do que uma possibilidade.

À medida que a nova cultura de acesso a conteúdos vai sendo incorporada, há procedimentos e rotinas que vão ter de mudar. Vão surgir dúvidas, desafios, questões, aos quais teremos – todos – de dar resposta. Vão surgir novas formas das escolas comunicarem entre si, estejam elas no bairro ao lado ou do outro lado do mundo.

Pode ser uma realidade assustadora – de tão nova e tão provocadora dos que pensávamos que conhecíamos – mas qualquer pai/mãe ou qualquer diretor escolar tem a obrigação de ir ver o que se passa, se não quiser negar aos seus educando uma realidade presente já nos dias de hoje.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


Cyberbullying

Ou assédio, perseguição, ameaças, insultos, mensagens abusivas online. Em Portugal ouve-se pouco falar deste fenómeno, mas ele existe e pode ter consequências desastrosas na vida dos jovens. O mais provável é que o seu filho não lhe conte o que se passa, por isso aqui ficam alguns sinais de alerta:

Fica nervoso quando está online ou quando recebe uma mensagem no telefone; fica claramente zangado e irritado depois de estar no computador ou ao telefone; esconde o écra do computador ou telefone quando você se aproxima; passa cada vez mais tempo online; afasta-se de amigos, desleixa o trabalho escolar ou quer evitar a escola; perde o apetite, está excessivamente sensível, chora, parece depressivo, tem dificuldades em dormir; pode haver baixa no rendimento escolar.

A resposta a este fenómeno tem de ser rápida. Não é raro os adolescentes ponderarem o suicídio para acabar com o mal-estar.  Se descobrir que ele está a ser vítima, seja empático e apoiante. Leve muito a sério a possível gravidade da situação. Nunca coloque a hipótese de ele ter provocado esta situação – mesmo que tenha cometido um erro, este tipo de ataque é sempre injustificável. Não seja duro com ele. Estudos mostram que muitos adolescentes não contam aos pais o que se passa porque têm medo de perder os privilégios de aceder à internet. Avalie a gravidade da situação. Se as ofensas forem de baixa gravidade, o melhor é ignorar ou simplesmente não responder. É essencial que o seu filho não responda da mesma forma. Se for grave, imprima as mensagens e guarde. Bloqueie o endereço do agressor – há aplicações disponíveis – ou identifique como SPAM. Mude o número do telefone do seu filho e retire-o das redes sociais. Contacte o diretor da escola – habitualmente o agressor é colega – e peça-lhe que tome medidas imediatas. Pode haver outros colegas a serem vítimas. Se persistir, contacta as autoridades. Considere apoio psicológico.

Não confunda os “arrufos” da sua adolescência com este fenómeno. Este tem dimensões demolidoras.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


Quero conhecer-te. 2

Fotolia_OK_SNas minhas pesquisas livres pela internet, encontrei algo que gostaria de partilhar consigo. Trata-se de uma lista de perguntas que se podem fazer aos alunos do início do ano. Foi criada por Terry Heick e abrange uma diversidade de tópicos relevantes para aprendizagem dos alunos. Parece-me que esta lista pode ser um bom método para conhecer os alunos da primeira semana de aulas. Pode ser usada em trabalho individual ou em grupo. Existem, naturalmente, diversas outras questões que poderá acrescentar.

Integrar estas questões no início do ano pode trazer dois benefícios. Primeiro, permite aos alunos apresentarem-se e darem a conhecer as suas expectativas e necessidades de aprendizagem. Os alunos se envolvam numa auto reflexão e meta cognição, dois processos estruturantes para o crescimento cognitivo. Em segundo lugar, as respostas dos alunos fornecem informação valiosa para compreender as necessidades e as expectativas de aprendizagem, um bom ponto de partida para qualquer professor. Aqui ficam alguns exemplos:

1. O que é que eu preciso de saber acerca de ti?
2. O que precisas de mim, acima de tudo?
3. O que significa para ti ter sucesso?
4. Qual é a coisa mais criativa que já fizeste?
5. Como é que sabes que compreendeste uma coisa?
6. Qual é o momento de que mais te orgulhas?
7. Qual é o tema que gostavas de aprender?
8. O que é mais importante do que tudo, na vida?
9. Onde vais buscar a tua motivação?
10. Quais são os teus heróis ou fontes de inspiração?
11. Porquê estudar (a sua disciplina)?
12. Em que é que os professores se costumam enganar, a teu respeito?
13. …

Espero que esta sugestão ajude. Tenha um excelente ano letivo!

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

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A ser verdade, é inacreditável. 1

colégio Frei Gil

Colégio Frei Gil

Li hoje num jornal diário que uma certa Associação de Pais, dos que beneficiavam dos contratos de associação propôs a um Colégio que os funcionários prescindissem de parte do seu salário para ajudar a suportar as mensalidades dos seus filhos. A ser verdade, é inacreditável. Deixem ver se percebi. Os pais recorrem a um Colégio para ali receber um serviço, a educação dos seus filhos. Esse serviço tem de ser pago. Antes, por razões várias que já cansam referir, o Estado suportava o pagamento desse serviço. Agora o Estado já não suporta. Então, os clientes sugerem aos trabalhadores que fornecem o serviço pelo qual devem ser remunerados que sejam estes a comparticipar nas despesas do serviço que prestam.

Isto só terá lógica se houver aqui algum privilégio desconhecido. Mas não, consta que não. Consta que o único privilégio que têm é o direito ao trabalho. Consta que a proposta baseie-se na ameaça velada, ou na gestão do medo, ou na chantagem emocional, de dizer a estes funcionários “pensem bem, porque se não colaborarem espera-vos o desemprego”.

Isto é a inversão de tudo. Desculpem-me a indignação, mas ter sequer a coragem de colocar por escrito uma ideia tão perversa – foi enviado um e-mail, ou vários – é sinal de uma total falta de respeito e consideração por estes profissionais.

Vamos supor que a proposta é aceite, o que não me chocaria porque é preciso muita coragem para olhar para as contas e para o e-mail e decidir pela dignidade. Como seria a vossa relação com estes profissionais, caríssimos pais? O professor do seu filho detém agora a qualidade de corresponsável pelo pagamento da sua educação e assim sendo pode opinar, pôr e dispor, participar na educação parental, porque se paga manda, certo? Naturalmente que não, seria abusivo. Então é só um profissional de educação, certo? E qual é o estatuto deste profissional, que agora está submetido à suas exigências e ao seu abuso de posição dominante que até se permitiu ir-lhe à conta bancária? Quando houver uma divergência na escola – porque vai haver! – e o seu filho for fazer queixas do professor, o que lhe dirá o caríssimo? “Respeita-o porque o professor é quem manda”? Mas manda? Não é o caríssimo que desempenha uma posição parecida com uma entidade patronal da pior espécie, que põe e dispõe da retribuição que lhe é devida? Como é que este profissional vai exercer autoridade sobre o seu filho, se está sob a sua alçada? Parece-lhe boa ideia que o seu filho faça o que quer na escola daqui para a frente? Um professor é uma autoridade! Tem de ser respeitado como tal, não pode estar fragilizado de forma nenhuma, a bem do seu filho! Uma escola é uma sociedade, onde há figuras de autoridade que estabelecem as regras que têm de ser respeitadas, que indicam o caminho a seguir, que os afastam dos caminhos errados e os incentivam a seguir pelo caminho do bem. Humilhe os profissionais que fazem mais pelo seu filho do que “dar aulas” e alguns podem decidir cruzar os braços e assobiar para o ar em tudo o que não é sua obrigação.

E a direção do colégio, o que fará? Vai ceder? Ou vai mostrar de que fibra é feita, proteger os seus profissionais, arregaçar as mangas e garantir que o serviço que prestam tem excelência suficiente para justificar que os clientes estão dispostos a pagar pelo serviço e que não dependem de esmolas, nem de subsídios nem se sujeita a chantagens ? Vou estar a assistir, com muito medo do desfecho desta história, porque este gesto inqualificável  já revelou muito do caráter dos seus responsáveis, e isso já não se retira.  A ser verdade, claro!

 

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

Atualização:

Publicado no Facebook ComRegras

 

Comentário

E agora…

Contraditório de um professor que leciona no respetivo colégio


Como se mede o valor do professor?

imperador_professorÉ difícil aceitar o valor do que não tem visibilidade. Em tempos que correm, todos somos avaliados pelo que é visível do que produzimos. Procuram provas do que acrescentamos, quantificar o que damos. E se o que fazemos não fosse mensurável? Ainda assim teria valor? Se, por dedicação à verdade da sua profissão, o professor assumisse que fará só o que favorece o aluno, sem se preocupar com a medição do valor do que faz nascer no aluno? Qual seria a sua opção? A que dedicava mais atenção? Vou arriscar responder por si. Calava mais, ouvia mais. Conversava com os meus alunos, ouvia os seus anseios. Muito professores sentem que não têm tempo para os conhecer, tal é a pressa em cumprir calendário.

Vamos supor que na próxima segunda feira chega à escola e as regras mudaram. Confiam no seu saber, não lhe vão exigir provas. É livre para alimentar o espírito dos alunos, a curiosidade pelos temas do seu interesse. Nem precisa de ficar na sala, pois também ninguém lhe exigirá isso. Pode sair, sentar-se na relva para falar sobre botânica ou para ler os Lusíadas ou para conversar com os alunos sobre uma preocupação que lhes assombra o espírito, que por acaso não vem nos manuais mas vem nas suas vidas. Por ir passear com os alunos para a rua e observar o a realidade está cheia de matemática, de português, de história, de biologia ou física. Podem ter conversas interessantíssimas sobre tudo aquilo que se passa na vida real, aquilo que acontece enquanto estão fechados nas salas.

E se os alunos pudessem relacionar-se consigo como mentor, modelo inspirador, o mestre que espera que eles se tornem melhores seres humanos, que o admiram pelo significado que percebem nos seus gestos, nas suas palavras? Como se sentiria, caro professor? Inspirado, talvez. O que isso faria de si? Melhor, com certeza. 

E se, por convicção, decidíssemos que tudo o que nos move é o que nos movia no início da carreira? O que mudaria amanhã? Quem estaria ao nosso lado? Quem nos olharia nos olhos e nos diria “admiro-to pelo que fazes, não pela tua visibilidade”?

Provavelmente este será o último reduto do que é ser professor. Quando fazemos o que fazemos pelo que sabemos ser o seu valor efetivo, quando realizamos os sonhos dos outros realizando os nossos, quando acrescentamos valor aos outros valorizando-nos a nós próprios, então somos plenos.

Porque se só ensinamos o que é mensurável, o essencial fica de fora. O valor do professor não se mede nas pauta, está na relação que estabeleceu com os seus alunos.

O meu desejo secreto é que a longo prazo não seja possível medir o contributo do professor. Só se saberá pelas histórias que os seus alunos contarão aos filhos, numa noite de Natal. Saberemos qual foi a medida do nosso contributo pelas pessoas que nos cumprimentam com deferência com um leve aceno de cabeça, pelos sussurros à nossa passagem “foi meu professor!”. Sentiremos que estamos rodeado de amor e agradecimento, que todos querem beneficiar da nossa companhia, nem que seja dos preciosos silêncios.

Então saberemos que o que nos levou a escolher o ensino é o que nos mantém aqui até hoje.

 

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


Competências do Séc XXI 1

educa.futuroO papel do professor tem sido ajudar os alunos a desenvolver os conhecimentos e competências que os ajude a pertencer e participar na sociedade. O problema que se coloca atualmente é o rumo da nossa sociedade, as mudanças dos nossos tempos – particularmente com a influência das tecnologias – e o quanto têm desafiado a função do professor e provocado a reflexão acerca do tipo de competências que os alunos precisam de adquirir.

Ninguém sabe como será o futuro. Ninguém consegue prever o tipo de competências que serão exigidas a estes jovens quando entrarem no mercado de trabalho. O que sabemos é que a maior parte das profissões da próxima década ainda nem sequer existem. Sabemos que algumas competências, como a memorização, serão cada vez menos importantes devido ao suporte da tecnologia.

Várias organizações internacionais já estão a fazer um trabalho muito meritório neste campo. Estão a juntar especialistas de diversas áreas para que se pense no ensino que é urgente praticar hoje e que tenha validade num futuro próximo, mesmo que mude muito do que entendemos como estável e previsível. Na minha opinião, a resposta está no desenvolvimento das competências.

Por competências, entendo a junção entre conhecimento, aptidão e valores aplicados de uma determinada forma a um determinado domínio. As competências necessárias para suceder no séc XXI são diferentes das que eram no Séc XX, ou pelo menos, estão organizadas de forma diferente. Há diversos quadros de referência internacionais para estas competências do Séc XXI, dos quais destaco o quadro europeu – ver European Schoolnet.

Destas competências, o domínio da língua inglesa é inquestionável. É a língua internacional comum. Tal como é inquestionável a necessidade de integrar as disciplinas, agora divididas por uma questão de inconveniência surgindo áreas disciplinares onde os alunos estudam conteúdos reais. Por exemplo, num trabalho conjunto dos professores de matemática, história e geografia, e é pedido aos alunos que façam um projeto onde terão de integrar a história cultural do Egito, as influências que a cultura teve na demografia do País, e as características das pirâmides da Necrópole de Gizé. É mais complexo, dá mais trabalho, mas faz mais sentido do que pedir (em matemática) para calcular a área de uma pirâmide abstrata, ou pedir dados que podem ser compilados de qualquer wikipédia e “despejados” num teste. Pede-se a integração dos conhecimentos. Exige-se uma reflexão crítica.

Naturalmente, há domínios subjacentes a estas competências que estão a desenvolver também. Falo de criatividade, capacidade de comunicação, colaboração, competências digitais, pensamento crítico e responsabilidade pessoal e social.

A criatividade é aqui entendida como a capacidade de expressar algo novo e com valor para o próprio ou para a colaboração com os outros. Envolve iniciativa, empreendedorismo, assumir riscos e aprender com os erros e avaliação destas criações para as melhorar. A comunicação, referindo-se à capacidade de falar e escrever, na própria língua e em língua estrangeira. Inclui a literacia “tradicional” e a digital. Falamos de leitura e escrita, falar e ouvir, considerar os diferentes perspetivas, a capacidade de influência ou saber fazer uso de recursos tecnológicos.

A colaboração refere-se à capacidade de trabalhar junto com alguém para resolver um problema ou atingir um objetivo. Implica contribuir com ideias e conteúdos, sentir-se confiante na interação com o outro, respeitar a opinião do outro e ser flexível nos papeis que representa no grupo – às vezes é-se o líder, outras a pessoa que suporta o líder, outras é o aluno que questiona ou desafia o líder. As ferramentas digitais podem apoiar a colaboração, dentro e fora da sala de aula, como no caso de terem de contactar um perito através do skipe.

A competência digital suporta todas as outras.

Exige-se que a compreensão dos conteúdos implique selecionar, aceder e gerir os recursos digitais para comunicar colaborar, aprender, resolver problemas. Outra componente importante tem a ver com a informação presente na net. Os alunos têm de saber avaliar a informação, proteger a sua privacidade, proteger os outros, manter-se seguro e ser responsáveis.

O pensamento crítico, capacidade essencial num mundo cada vez mais complexo, com a informação na ponta dos dedos, ajudará os alunos a saber gerir as opções que têm, tomar decisões, fazer julgamentos com base em quantidades de informações incomensuráveis. Precisam de saber construir argumentos, raciocínios e análises, fazer julgamentos e tirar conclusões com base em sistemas cada vez mais complexos.

A responsabilidade pessoal é outras das característica essenciais para os tempos que vivemos. Nós não conseguimos ensinar tudo o que há para saber até que saiam da escola nem que tentássemos. É essencial que aprendam a aprender, assumindo a responsabilidade de se tornarem aprendizes para o resto da vida. Para tal, têm de saber fazer uma gestão eficaz da aprendizagem, gostarem de aprender, serem responsáveis pela sua própria aprendizagem. Os alunos precisam de conhecer bem as suas forças e as suas fraquezas, fazendo uso da meta-cognição – reflexão sobre o conhecimento. Terá de saber, como nunca, o quão importante é manter-se atualizado, atingir os objetivos pessoais, adaptar-se à mudança. Aqui é importante que saiba gerir as frustrações dos insucessos, assim como festejar os sucessos.  Dentro desta categoria, encontramos a necessidade para a consciência social, ser um cidadão do mundo. Esta qualidade implica que se envolvam ativamente numa sociedade em constante mudança sociais e políticas.

Estas características devem estar presentes nos alunos, mas também nos professores. Têm de saber ser os modelos das aprendizagens que pretendem passar. É possível dar aulas que não desenvolvem estas competências mas atingem outros objetivos académicos? Claro que sim. Mas também é possível atingir os objetivos académicos, metas curriculares, conteúdos programáticos desenvolvendo estas competências ao mesmo tempo.

No final, mas não menos importante, encontramos a avaliação. Para aferir como está a correr o processo, temos de ir avaliando. É um grande desafio avaliar estas competências, é verdade. Será mais fácil avaliar se memorizou datas e locais. Mas, tal como é um desafio saber o quanto um aluno contribuiu num trabalho de grupo e nem por isso se deixa de fazer, também não podemos desistir de formar os nossos alunos em competências que lhes serão válidas para o resto da vida pela dificuldade que encontramos na avaliação. A tecnologia recursos válidos que permitem novas formas de avaliação formativa e sumativa.

Não digo que seja fácil nem rápido. Digo que é um caminho que tem de começar a ser feito. Esta evolução já está em marcha. Quanto mais tarde apanhar este comboio, mais difícil vai ser.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


Contratos de Associação 5

Primeira declaração de interesses: sou diretora de duas escolas privadas e nunca recebi um cêntimo de apoio do Estado.

Segunda declaração de interesses: Sendo colégios de jardim de infância e 1º ciclo, nem que quisesse poderia estar ao abrigo desses apoios, aplicáveis apenas aos 2º, 3º ciclos e ensino secundário.

Fotolia_88515208_SPosto isto, cumpre-me dizer que, por princípio, concordo que o Estado social se defina pelo apoio dos mais necessitados. As necessidades de uns são as obrigações de outros. Assim entendo uma sociedade civilizada na qual me orgulho de viver e para a qual contribuo – muito! – todos os meses, sem apelo nem agravo, considerando justo ou injusto, muitas vezes atrasando as retribuições que me são justas para cumprir com as minhas obrigações. Faço parte dos patrões que não têm offshores, que não roubam, que se sacrificam. O simplismo com que se rotula os patrões como se fossem todos bandidos por decreto é aterrador e tão demonstrativo de ignorância como dizer que todos os trabalhadores são honestos.

Orgulho-me de ter mantida a minha equipa unida mesmo nos momentos de crise. Sei do valor de cada homem e mulher que que me acompanha todos os dias e que muito contribui para o crescimento dos meus Colégios. Sei que posso contar com cada um como eles sabem que podem contar comigo. Nos momentos de maior crise por que todos os Colégios privados passaram, soubemos manter-nos juntos, criando uma força que nos permitiu nunca despedir ninguém e apoiar muitas famílias que foram afetadas pelo infortúnio do despedimento e da imigração. Muitas vezes as mensalidades não podiam ser pagas, mas nunca fechámos a porta a ninguém nem negámos vagas aos mais necessitados. No pico da crise, soubemos manter os valores sociais acima dos valores financeiros. Fizemos o impossível. Agora que fizemos o impossível, somos mais fortes, estamos mais unidos, somos melhores.

Enquanto isso, vi – vimos – casos de escolas com contratos de associação que passaram incólumes pela crise pois o financiamento deles estava garantido. O meu trabalho tinha de pagar as minhas contas, apoiar a escola pública – que defendo de forma inquestionável – e as contas dos que nasceram por uma razão – deficit de oferta na escola pública – mas mantiveram-se por outra. Algo vai muito mal quando escolas públicas estão meio cheias e ao lado funciona uma escola privada subsidiada pelo Estado. Algo está terrivelmente mal quando escola privadas têm de despedir os seus funcionários porque a dois passos têm uma escola com contrato de associação, com equipamentos fabulosos, instalações imaculadas, cujos pais pagam pouco mais do que zero. É um máquina que alimenta muita gente sem vergonha. Vi pessoas com ordenados muito acima da média nacional a forjar a morada para fazer parte da “área de residência”. Ouvi conversas de mães a anunciarem com orgulho as negociatas que fizeram com habitantes da área de residência da escola, pagando umas mensalidades da televisão por cabo de alguém para que o contrato ficasse em seu nome no momento da inscrição. Um mercado negro da educação.

Por princípio, condeno um sistema que premeia a mão estendida e despreza o mérito. Admiro a coragem de quem quer separar o trigo do joio. Há escolas que se justifica manterem um apoio do Estado para garantir o direito gratuito à educação aos jovens que não dispõem de oferta pública? Mantenha-se. Há escolas que estão a sugar os recursos preciosos e escassos que poderiam a ser utilizados com quem realmente precisa? Acabe-se com isso. Faça-se uma averiguação séria, a bem da decência. Mas espere-se que estas medidas não deixem zangados só os diretores escolares. Há muitos pais que também não vão gostar de perder privilégios que não merecem e para os quais não pagam.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


O que Fizeste hoje na escola? 2

O que fizeste hoje na escola, filho?

Fotolia_37719692_XSNada de especial. De manhã fiz a apresentação de produções (os alunos comunicam aos colegas uma novidade e, uma produção, uma descoberta que tenham feito em casa. Falam para a turma, apresentam a sua produção, explicam o conteúdo, colocam desafios aos colegas, demonstram, ilustram), depois estive a fazer e avaliar o meu Plano Individual de Trabalho com o meu colega (os alunos refletem sobre as suas aprendizagens, avaliam os seus conhecimentos e competências, envolvem-se em reflexões com o colega, relacionam conceitos, comprometem-se a melhorar competências, negociam formas de trabalhar, colaboram com o seu par de tutoria, responsabilizam-se pela sua própria aprendizagem, desafiam-se a atingir novos patamares de aprendizagem, associam conceitos, participam em discussões entre pares e com o professor, reconhecem as suas limitações, ouvem críticas e elogios ao seu trabalho, partilham reflexões). Ainda tive tempo para trabalhar no projeto com o meu grupo de trabalho (os alunos aprendem a pesquisar informação para dar resposta a questões que tenham sobre tópicos do seu interesse, analisam e selecionam a informação pertinente, decidem como organizar a informação, interpretam e rescrever a informação por palavras suas, constroem conteúdos, preparam uma apresentação para comunicar à turma o resultado das suas aprendizagens). À tarde estive a falar com os correspondentes pelo skype (aprendem a usar tecnologias, usar línguas estrangeiras, trabalhar colaborativamente, trabalhar globalmente, falar, partilhar, empreender, criar, executar, refletir, arriscar, inovar, expressar). Como acabei mais cedo ainda ajudei o Tomé com uma dúvida de matemática (momento de trabalhar em tutoria, rever o que sabe e reformular para ensinar, cuidar, viver, emocionar, amar, libertar, apoiar, questionar, empatizar, solidarizar). À tarde trabalhámos com uma aplicação sobre o sistema solar no iPad (momento que permite a ampliação do conceito de espaço de aprendizagem, extensão das aprendizagens, inovação dos processos e produtos). Como hoje é dia de Conselho de Turma, discutimos umas regras da sala (os alunos fazem uma reflexão sobre os seus comportamentos e uma análise crítica das vivências do grupo-turma, aprendem a articular as suas vontades com as dos outros, aprendem a analisar, resumir, compreender e a moderar os conflitos sociais, a controlar impulsos, a liderar estratégias, a aceitar a liderança dos outros, a persistir na resolução de um problema, a desenvolver compreensão e empatia pelo outro, reformular estratégias que não estão a dar os resultados esperados, a compreender o ponto de vista do outro, a reconciliar, a alternar, a discutir, a defender pontos de vista). Só isso.

Credo, não percebo a escola de hoje, passam o dia a brincar! E cópias? Não fazem cópias?

Não… Acho que não podemos… é plágio, não é?

Esta é uma história real. O ambiente de aprendizagem aqui retratado é possível e está presente em muitas escolas portuguesas, públicas e privadas. Encontra resistências de ambos os lados – se é que existem “lados” na educação. Os professores das escolas públicas encontram dificuldades em compreender como podem operacionalizar a utilização das tecnologias. Digo-vos que muitos agrupamentos ou escolas já o fazem, com sucesso, e que existe uma equipa no Ministério da Educação atenta a estes processos. Quiseram, procuraram, encontraram um meio. Os professores das escolas privadas dirão que ensinar segundo este modelo – aqui retrato o Movimento da Escola Moderna – não é aceite por diretores de muitas escolas que estão excessivamente preocupados com as notas dos exames. Sei que é verdade, infelizmente muitos colegas diretores estão mais preocupados com esta forma de visibilidade imediata da escola, baseada num fictício padrão de qualidade, do que com a formação duradoura dos alunos. Mas também conheço muitos e bons casos de professores que souberam mostrar o valor dos seus argumentos e demonstrar que este método de ensino não prejudica em nada esse objetivo, antes contribui e concorre para a sua obtenção.

É possível. Há quem faça. Com muito bons resultados.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


O que é um diretor escolar? 1

1041624Uma escola define-se pelo seu diretor. Um bom diretor não garante a escola perfeita, mas garante condições de melhoria. Há várias  características que definem um bom diretor escolar, mas hoje trouxe as que considero mais importantes. São elas: ser visionário, agregar talentos, ter inteligência emocional.

Liderança visionária

Um diretor visionário tem bem definidos os valores que acredita servirem os que melhor garantem uma aprendizagem de excelência. Não aceita a postura “vamos ver como está para ver como é que fica”, muito comum nas escolas portuguesas. Sabe que a educação está a precisar de reflexões profundas e não se furta a esse esforço. Aquilo em que acredita foi sendo construído com a colaboração de outras pessoas, com quem trabalha em parceria, e articulado com a sua visão de escola. Quando encontramos uma escola assim, surgem questões como “o que se passa aqui?”, “o que torna esta escola tão especial?”, “como se constrói este ambiente em que parece que tudo é possível?”.  O que ouvir como resposta será referente à visão da escola, e esta resulta da orientação do diretor. Se a percepção geral é esta, na base da evolução da escola está a forma como se sentem os colaboradores – professores, assistentes operacionais, administrativos – se estão motivados, entusiasmados, inspirados. Se sim, isto é o resultado de muito trabalho e de muitos processos de retaguarda, que criam a ideia de que trabalhar ali é um caminho fascinante. Um diretor visionário transpira a visão da sua empresa e tem uma atuação coerente. Mesmo quando há mudança – inevitável – elas estão de acordo com os valores centrais que foram definidos à partida, quando se definiu a visão e quando se negociou com a equipa os valores centrais que todos estão dispostos a defender. Assim tem a garantia de que a estrutura se mantém e que todas as mudanças estão alinhadas com os valores centrais.

Agregador de talentos

Um diretor sabe que só pode chegar longe quando reúne as melhores contribuições dos elementos mais talentosos. Toda a comunidade escolar está implicada em torno dos objetivos comuns. São os professores, os alunos, os pais a trabalhar para o mesmo, embora respeitando o espaço e o contributo de cada um. Os pais sabem reconhecer o valor dos professores e apoiam-nos. Os alunos percepcionam o valor que os pais reconhecem nos professores e por isso respeitam a sua autoridade. Os professores respeitam os alunos como seus semelhantes, embora com diferente estatuto. Embora na maior parte das vezes cada um destes agentes tenha na sua génese os valores que o inspiram a comportar-se assim, é fundamental haver um diretor que não trate estas boas relações como negociáveis ou opcionais. O respeito entre todos tem de ser garantido pelo diretor escolar, ele próprio um modelo inspirador, que deve agir firmemente quando algum destes elementos da equação – pais, alunos ou professores – falha na sua contribuição para um bom ambiente escolar. O diretor sabe que não pode implementar uma visão sozinho. Sabe que equipas altamente eficazes mantêm relações saudáveis, profissionais e respeitosas, o que contribui para a estabilidade, recrutamento e retenção de talentos. O que o ser humano mais valoriza são os vínculos sociais. O bom diretor sabe como criar e manter estes vínculos.

Inteligência emocional

Trata-se da capacidade de compreender e gerir as suas próprias emoções, reconhecer, compreender e gerir as emoções dos outros. Um diretor emocionalmente inteligente é calmo, racional, empático, capaz de lidar com os conflitos. Sabe gerir o seu próprio stress e as suas próprias relações pessoais / profissionais. Provavelmente está na presença de um diretor emocionalmente inteligente se se sentir ouvido e compreendido quando recorre a ele com uma dificuldade. Sente que ele está focado no seu assunto, não o sente impaciente, nem frustrado, nem zangado. Esta característica – inteligência emocional – tem sido apontada como um fator preditor de sucesso de uma organização, onde se inclui a escola. Todos sabemos que estamos a entrar num ambiente emocionalmente saudável pela forma como somos cumprimentados, pelas caras sorridentes dos colaboradores e clientes, pelas relações informais que se vê a acontecerem. O humor é sempre um bom indicador da verdadeira natureza das relações interpessoais.

 

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


Questione o óbvio 1

Letra_CursivaO modelo educativo que habitualmente se desenvolve nas escolas tem origem no séc. XIX com a Revolução Industrial, quando se tornou necessário ensinar muitas pessoas, ao mesmo tempo, a desempenharem tarefas repetidas.

Fazia sentido, quando era necessário difundir informação num mundo sem as características daquele tempo. Para a informação viajar, tinham de construir uma verdadeira rede social, que precisava de ser alimentada por milhões de pessoas que tivessem em comum códigos de comunicação, para garantir que sabiam do que estavam a falar. Tornou-se essencial criar espaços onde se pudesse ensinar as mesmas coisas, a todos, ao mesmo tempo. A caligrafia, hoje considerada uma arte visual, devia ser treinada à exaustão porque a informação tinha de ser entendida por pessoas distantes e desconhecidas.

A educação anda de mãos dadas com a economia e se era esta a necessidade da economia, tudo fazia sentido! E agora, faz sentido?

Questiono o modelo que insiste na letra cursiva no 1º ciclo. A “letra de escola” que, como o nome indica, só  se usa na escola, não está presente em mais lado nenhum, nem neste artigo, nem nas letras do teclado, nem em jornais, revistas, livros, legendas dos filmes… Se o objetivo da escrita é comunicar, e não bordar letras, questiono porque se insiste neste tipo de letra, muitas vezes em detrimento do prazer de escrever.

Para que serve reproduzir letras soltas e sem sentido? Para que serve aprender a escrever se não for para comunicar? Conto-vos uma história verdadeira: Uma professora pediu aos alunos do 1º ano para treinar o “P”. Uma aluna que já sabia escrever, pediu para escrever uma carta à mãe – que estava a trabalhar fora de Portugal – para lhe dizer que sente a sua falta. Professora: “Pois, mas hoje estamos a aprender a letra P, se quiseres escreve ao pai”. “Mas eu não tenho saudades do meu pai…” diz a aluna, do alto do seu pragmatismo. A lição do dia desta menina: a escola é um sítio onde se aprende coisas que não servem para nada e onde não cabem as minhas necessidades.

Este método de ensino não responde às exigências no mundo atual. “Mas porquê mudar, se sempre trabalhámos assim nas últimas décadas?”, perguntam alguns. Por isso mesmo! O mundo já não é “assim”! Interessa-me muito mais que os alunos aprendam a escrever com o intuito de comunicar – e que gostem de o fazer – do que treinar atividades repetidas sem sentido nem aplicabilidade, sem questionar porque é que se faz.

Um sistema de ensino que insiste em métodos obsoletos, que valoriza mais os produtos do que os processos, que se esquece que, mais do que o conhecimento importa ensinar a capacidade de nos adaptarmos à mudança do conhecimento, está a hipotecar o futuro das gerações e o futuro de um País. O acesso aos dados é a parte mais fácil. Está num telemóvel com ligação à internet. O que é difícil é descodificar, interpretar e contextualizar, perceber as implicações. Difícil é imaginar soluções alternativas para velhos problemas, interpretar tendências sociais que estão a nascer espontaneamente,  aprender uma forma de viver feliz e plena.

Nicholas Negroponto faz uma pergunta inquietante: “estaremos a caminhar para um futuro em que o conhecimento é obsoleto”? É assustador, mas se pensarmos na velocidade a que tudo muda, nas certezas que tínhamos e agora não temos – as respostas que não temos para os problemas da economia atual, uma ciência que transforma folhas de papel em chips, os políticos que caem com os posts no facebook – parece que a chave está na capacidade de adaptação.

Este é um processo longo e complexo, que deve ser iniciado o mais cedo possível na escola, que é um local preferencial para a transformação de mentalidades.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


A Criatividade

A criatividade é olhada como o parente pobre da educação, aquele que não queremos convidar para os convívios em família porque é “estranho”.

Mas o que é a criatividade senão o início de todos os processos que nos trouxeram evolução,conforto, soluções para os nossos problemas? Porque é que querem tirar a criatividade das escolas, se nós dependemos das futuras gerações para que sejam suficientemente criativas para resolver os problemas complexos que se avizinham, muitos criados por nós? Uma ideia criativa não é sempre boa, muitas vezes não tem valor na sua forma inicial, muitas vezes é preciso tempo para a testar, refinar, ou mesmo rejeitar a favor de outras que entretanto surgem. Mas é preciso tempo e espaço para a discussão, reflexão, avaliação, testar caminhos novos que não nos dão garantias de sucesso.

Não estou a falar só das aulas de artes. Eu defendo que a criatividade deve estar presente em todas as disciplinas da escola. A matemática, por exemplo, é um processo constante de tentativa e erro. Surge uma ideia, a comunidade educativa trabalha nessa ideia durante um tempo, discute, debatem-se estratégias, argumenta-se, fazem-se experiências. Chegamos à conclusão de que é uma ideia errada. Partimos para a próxima. Não se perdeu tempo; abriram-se as mentes a novas ideias, a novas propostas de solução. Estas discussões abriram caminhos, modificaram a estrutura dos cérebros dos alunos, aumentaram as conexões neuronais e este ganho não mais será perdido.

É fundamental dar espaço para avaliar as ideias que funcionam e as que não funcionam, dar tempo ao raciocínio crítico que está presente neste processo criativo, ou permitir o silêncio para as reflexões individuais.

Ninguém poderá acreditar que um cientista chega às ideias inovadoras de um dia para o outro, porque viu um mal-me-quer que o inspirou. Não há nada de místico na criatividade. Há trabalho, há discussão e há, com toda a certeza, muitas tentativas frustradas. Este será o ponto mais difícil de aceitar: o valor do erro. Só quem erra muito pode acertar às vezes. Mas enquanto tentaram chegar ao objetivo final, fizeram o caminho da evolução, desenvolveram competências, adquiriram conhecimentos, fizeram reflexões importantíssimas.

Voltemos à sala de aula. Deixamos os alunos errar? Queremos que eles desenvolvam competências ou estamos todos a correr para cumprir metas? O ensino privado, em particular, tem andado muito distraído com a obsessão pelas notas, que muitas vezes rouba espaço para estes momentos de crescimento, compromete o verdadeiro propósito da escola, que é ensinar a pensar. A criatividade está associada à liberdade de expressão, será por isso que é tão difícil de ganhar espaço na sala de aula? Ou será que os adultos acham que não há tempo para “brincadeiras” porque têm “trabalho sério” para fazer?

Às vezes ouço os adultos dizerem que esta geração é muito imediatista, que quer tudo para agora, mas não sei se os adultos que os rodeiam são muito diferentes.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura


Nova Rubrica – É Só Uma Ideia | O que é ser Professor. (Sofia Homem Cristo, Diretora do Colégio da Beloura)

Apesar das tensões que existem entre o ensino público e o ensino privado, o ensino privado faz parte do processo educativo e muitos são aqueles que lhe dão expressão. Também eles merecem ter voz, também eles merecem opinar sobre o seu ensino e educação em geral.

Por esse motivo enderecei o convite à Diretora do Colégio da Beloura, Sofia Homem Cristo para ser essa voz. A Sofia teve a amabilidade de aceitar e a partir de hoje pertence à família ComRegras.colégio da beloura

Fica o seu primeiro artigo da rubrica “É Só Uma Ideia”. Sê bem-vinda Sofia 😉

O que é ser professor

Inauguro esta rubrica sobre educação a dirigir-me aos professores.

Começo por dizer que tenho um profundo respeito por si. Não foi uma escolha fácil, esta de ser professor. Se a fez, é porque gosta mesmo disto! Enfrentar os desafios e as responsabilidades deste sonho agora tornado realidade não é para todos! Agora que chegouaté aqui, vamos embora. Aperte os cintos, porque isto vai abanar!

ponto interrogaçãoNão lhe vou falar de teóricos ou teorias. Falo do que não vem escrito nos manuais. Vou falar de vida real. Quando enfrenta a sala de aula, não terá Piaget nem Vigotsky ao seu lado. Vai levar os seus planos de aula, as suas expectativas, dúvidas e medos. No início da carreira as dúvidas são imensas! “Devo ser simpático ou altivo?” “Devo mostrar-me próximo ou distante e autoritário?” Se me permite, nem uma coisa nem outra. Não é amigo – os amigos são íntimos, próximos, confidentes, iguais, tudo o que os alunos não são – nem adversário – nada vos opõe! Mantenha a distância de um salva-vidas: está ali para os ajudar, mas se se envolve demasiado, ambos se afogam. Se mantiver demasiada distância, não cumpre a sua missão.

Comece por olhar nos olhos dos alunos. Eles dizem tudo o que precisa de saber. “Não estamos a entender”, “Está a ir rápido demais”, “Estou a adorar”, “Não tenho interesse”. Está tudo lá. A ansiedade vai levá-lo a falar mais e fazer mais. Tente resistir. O caminho é ouvir mais e ver mais. Não me entenda mal, não deve oscilar tudo em função do agrado ou desagrado do aluno. Compreender o olhar é o seu ponto de partida, não o ponto de chegada. Educar é, com frequência, contrariar a vontade imediata. Mas o olhar vai dar a medida do tempo de exposição, do tom de voz, da cadência das palavras. É um bom recurso de informação, até que o olhar se transforme em curiosidade e sede de saber.

Depois perceba o privilégio que é dar aulas. Todos os dias encare de frente estes jovens, e perceba as elevadas expectativa e a esperança que depositam em si, a energia que ilumina a sala. Algures nesta sala pode estar a pessoa que descobre a cura para o cancro, a solução para a paz no mundo. Pode estar o próximo compositor de uma sinfonia que inspira a humanidade. Pode estar o futuro líder do seu País, o médico que vai salvar o seu filho, a enfermeira que cuida dos seus pais, o atleta olímpico que honra a sua Pátria.

Nunca saberá quem serão. Sabe apenas que faz deste processo longo e contribuiu para o seu sucesso porque nutriu o que de melhor ele tenha para dar, alimentou o seu talento, para que um dia possam disso tirar um benefício, mas também trazer um benefício para os outros.

Haverá profissão com maior responsabilidades e oportunidades? Penso que não.

Ninguém disse que esta profissão era fácil. Mas as coisas com valor nunca são fáceis.

 

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura