Do que se fala


Carta aberta aos conselhos gerais: sejam democratas! Não reconduzam diretores! (I) 9

Este ano vai discutir-se bastante a questão da democracia nas escolas. Há propostas em discussão no parlamento, secundadas por ideias dos sindicatos, para mudar o estado cadavérico a que a democracia escolar chegou. Podemos teorizar imenso sobre democracia, mas, mesmo na sua forma mais atómica e depurada, democracia é voto, democracia são eleições.

O debate sobre este tema interessa muito pouco a muita gente que devia ter atenção por ele.

Perdoe-se a analogia, mas muitos dos que se queixam dos problemas nas escolas e querem soluções e acham desinteressante falar dos modelos de gestão, estão como os que têm um carro que deita fumo a mais e acham que o problema não é do motor….

Quem está num conselho geral (porque se candidatou e foi eleito) não pode contudo invocar que este assunto não é consigo. Na verdade, a gestão de cada escola depende de si como membro de um órgão de gestão. Embora não pareça, o Conselho Geral é, no contexto atual, o mais importante dos órgãos que há nas escolas. Daí escrever este texto (e o seguinte), em especial, para esses.

A mensagem aos membros dos conselhos gerais dos agrupamentos (em especial destinada aos que tenham diretores em fim de mandato) é esta: reforcem, com a sua ação, esta ideia – democracia é eleger, democracia é votar.

Por isso, façam eleições e recusem liminarmente as reconduções de diretores.

Os órgãos centrais do ministério podem empurrar insidiosamente, com as suas circulares, para esse caminho das reconduções (com a desculpa de que é da lei”), mas a lei não manda reconduzir (apenas o permite, não o impõe). E, digo eu, se a lei o permite, é mau que seja assim porque é antidemocrático.

Se as instituições de controle do país funcionassem no devido tempo creio que esse ponto da lei teria dificuldade em passar o crivo da constitucionalidade.

Uma nomeação (e uma recondução, é realmente isso e não é comparável a uma eleição) não tem o mesmo valor de legitimidade de base que uma eleição verdadeira.

A nossa Constituição e a Lei de Bases requerem que as escolas sejam dirigidas democraticamente e que os seus órgãos de gestão sejam eleitos (para ser democrático).

Assim, o Conselho Geral, embora tenha membros cooptados, é, na sua maioria, constituído por eleitos. O Diretor é eleito pelo Conselho Geral. Era o mínimo porque, mesmo indireta, é uma eleição e, só por ser eleição, é que a lei “lurdista” de autonomia das escolas ainda pôde passar no crivo constitucional.

Os legisladores da gestão e autonomia de 2008 e o de 2012 queriam diretores nomeados, mas esbarraram nessa dificuldade: o diretor tem, por via de outras leis de valor reforçado, que ser eleito.

Como o legislador só tinha casca de democrata, em ambos os casos (curiosamente os ministros eram gente com histórias pessoais de extrema-esquerda, que guinaram à direita periférica em curva apertada) tentou tornear a exigência de eleições e manipular o processo, evitando reviravoltas eleitorais.

Isso vê-se na lei em vários pontos. Entre eles: o absurdo procedimento concursal prévio à eleição (uma coisa nunca vista, e que nunca mais se verá, porque foi uma invencionice de quem realmente queria um concurso e acabou por ter de encaixar eleições) ou a eleição ser feita por um microuniverso de eleitores de legitimidade curta e indireta.

A recondução: uma batota anti-democrática

O pior de tudo é a introdução da possibilidade de recondução no final do mandato eletivo.

Conhecem algum presidente de junta ou de câmara, ou qualquer outro cargo que tenha de ser eleito, que tenha sido reconduzido sem haver novas eleições?

Imaginem que, na próxima mudança da lei eleitoral, alguém se lembrava de dizer que, após o 1º mandato, o presidente da câmara podia conseguir ser dispensado de novas eleições e do confronto com candidatos alternativos por uma simples votação maioritária da assembleia de freguesia ou municipal.

Continuava em funções mais um mandato e não havia novas eleições.

O que não seria por esse país fora! Desde acusações de fascismo e de regresso à ditadura, o que não seria a banda sonora do rasgar de vestes de tanto democrata encartado em defesa da democracia local.

Nas escolas, a mesma habilidade manhosa passou, por entre as frinchas da lei, e a recondução pode ser regra. Calculo que, por esta altura, num número muito elevado de diretores nem se pode, em rigor, dizer que estão a exercer um mandato eletivo.

Ser reconduzido não é ser eleito. Ser eleito implica, pelo menos, a possibilidade de haver candidatos alternativos. Ainda que mais ninguém se candidate.

A recondução é a proibição de eleições porque impede a possibilidade de candidaturas alternativas. Uma recondução não é realmente uma eleição.

Aliás, conhecem alguma função eletiva em Portugal que tenha um período de 8 anos de funções sem ser submetida à possibilidade de candidaturas alternativas?

Se eu fosse presidente de conselho geral (e, por pensar coisas destas, é que ninguém me quereria para essa função), neste momento estaria a perguntar à DGAE pela legalidade efetiva da sua informação sobre este assunto e estaria a convencer o Conselho Geral da inconstitucionalidade da recondução (em suma, colocaria “paus na engrenagem”).

Mas não é preciso tanta elaboração de conceitos e chegar à questão da inconstitucionalidade.

Basta pensar assim: “sou pela democracia escolar e voto contra processos que a prejudiquem (e violem).”

Muitos meus ex-colegas diretores vão ficar zangados comigo por dizer e propor isto. Mas, se forem mesmo democratas, não ficarão, porque eu explico. E quem me conhece sabe que, já no tempo em que fui diretor era contra as reconduções. Fui, aliás, contra a lei que criou os diretores (mesmo tendo exercido a função) e defendi limitações de mandatos mais estritas.

Alguns, que gostam de procurar as supostas incoerências dos outros, raras vezes me atacam com essas oposições, embora gostem de mostrar um texto em que parece que defendi concursos para escolher diretores, sem perceberem a ironia que está por trás do texto (“se não querem fazer realmente eleições à séria então assumam com seriedade que são contra elas e não sejam manhosos e dissimulados”, era o convite mordaz do texto porque isso simplifica o trabalho de quem defende eleições; mas este não é um país para ironias).

É, muitas vezes, um país em que muitos se queixam da falta de democracia e de amordaçamento, mas quando têm o encargo de decidir ao lado da democracia, esquecem a alternativa.

Assim, os membros de conselho geral, que tenham de decidir uma recondução, têm 2 caminhos:

ou, são democratas de princípio e recusam fazer a recondução, obrigando a eleições, com possibilidade de outras candidaturas (mesmo no ambiente limitado do conselho),

ou aceitam a doutrina protofascista do “rosto da escola” e reconduzem.

Mesmo que o reconduzido ou reconduzida sejam estimáveis, o ato é democraticamente censurável.

Se o reconduzido for fraco e só o fizerem em nome da sempre invocada “estabilidade” ou do receio, o ato é quase criminoso.

Afinal onde já se viu eleitos renovarem mandatos, sem novas eleições e sem possibilidade de oposição?

E, para mais, escandalosamente, com requisitos mais suaves e leves do que os que teriam de cumprir se fossem a eleições (ninguém pode ir a votos, em eleições, sem curso ou formação específica em gestão escolar, mas pode reconduzir-se gente, que quer continuar diretor, mas nem se deu ao trabalho de estudar para isso.)

Mas isso é assunto de que se falará a seguir, amanhã, na segunda parte da carta. (continua)


Aos membro do Governo cuidado com a dialecto mas quanto à Oposição!!!!!!!!!!!!!! 7

Os membros do Governo, mesmo quando “picados “ ao limite, por uma Oposição que ainda não entendeu que tem que continuar “oposição”, deve pensar 10 a 20 vezes antes de dizer algo que esta mesmo “oposição” invejosa, transforme em espectáculo “muito” pouco digno para Deputados pagos pelos nossos impostos.

Assim se um membro de Governo quer dizer que o Deputado da Oposição não está a ver bem a ideia que está subjacente a alguma decisão deve dizê-lo abertamente e não com trocadilhos de palavreado. Para esta mesma Oposição reagir como não deve, mas, dada a situação fá-lo e de forma muito deseducada!

E, dai Deputados pagos por nós, portarem-se como crianças amuadas, darem murros nas mesas da Assembleia da República, mesas que são nossas e não deles e desatarem a amuar, a berrar, a retribuir o que consideraram ser um insulto, vai uma grande distância. E foi ultrapassada. E não deveria ter sido.

Unicamente com calma deveria ter pedido ao Senhor Presidente da AR, que transmitisse indicações para o Senhor Membro do Governo se retratar. Nada mais!

É -mais – um exemplo nada dignificante para o Povo Português, é claro um tema explorado ao limite por todas as televisões que não tem agenda própria, e é indignificante para o nosso Parlamento. Talvez o presidente da AR em casos futuros, idênticos, deva ter que suspender a sessão. Não se podem repetir situações idênticas, de pessoas que foram do Governo anterior e não sabem perceber que hoje, ainda, que já não são Governo, e não parece tão cedo irem voltar a sê-lo.

Haja algum bom senso de todos e lados e alguma educação, de quem não parece ter, ou acha que demonstrando estes comportamentos consegue anular um Governo que está com apoio de grande maioria do Parlamento e até da População, e que muito bem está a ser ajudado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa que sabe perfeitamente que não estamos em tempo de ir para eleições e que se o Governo, governa é de o deixar continuar.

Claro que, a Economia não está como deveria ter que estar, mas se o Governo fosse o anterior nada nos garante que estivesse melhor. E não é!

Claro que houve imperfeições na nomeação dos Administradores da CGD, mas quanto mais nos desviarmos do essencial que é salvar a CGD – que é nossa e não do Governo nem dos Deputados – pior vamos ficar.

E já chega de espectáculos tristes por quem é pago por nós, a cada dia que passa dá para pensarmos o que andam estes senhores lá a fazer. E depois queixem-se de como os contemplamos!

 Augusto Küttner de Magalhães


Haver só bons profissionais e não políticos, CGD, mas não só

cgdO filme da CGD, tal como muitos outros, vai “andando” em episódios explorados até ao limite dos limites, pela Oposição ao actual legítimo Governo e pela “maioria” da nossa comunicação social.

Em todos e cada um, não há qualquer interesse em ver esta situação bem resolvida.

A Oposição quer “deitar abaixo todo o custo” o actual Governo com maioria no Parlamento, pelo que não lhe interessa de facto, que o problema CGD se resolva, desde que o Governo fique mal visto, o resto como dizia o ex-futuro-PM, que “se lixe”. E parece, que não era bem o queria na ocasião dizer, se não hoje não estava tão incomodado por não ser Governo.

A comunicação social quer “encher espaço e ter espaço preenchido”, e continuando e cada vez mais, igual, e maioritariamente a não ter agenda própria “explora” toda idêntica o que está a dar.

A CGD, deve ficar sempre como banco do Estado, mas a banca por razões que aqui não veem ao caso, está toda menos bem vista pelo comum dos mortais, tal como os “Portugueses apontam corrupção como um dos maiores problemas do país”, em título de primeira página do Público 16.11.2016.

Augusto Küttner de Magalhães


O “imprevisível/impossível” Trump ganhou! 1

572279Quando, quase era certo os americanos terem um ataque de loucura e fazerem ganhar Donald Trump, a Europa achou que tal como com o Brexit “isto” era totalmente impossível de acontecer, mas, aconteceu.

Trump é o próximo Presidente dos EUA, e ao que parece com maioria dos Republicanos no Senado.

Trágico, sem dúvida. Depois do Brexit, esta é a cereja em cima do bolo, para as Democracia Ocidentais que já estavam meio podre, e numa Europa em total decomposição.

E, pasme-se, por tal ter acontecido. Não era possível, foi desgraçadamente possível.

E agora? Como, quando não votámos mas desejámos “fortemente” que Barack Obama fosse Presidente dos EUA, agora aconteceu o inverso.

E tendo supostamente sido o Obama a Pessoa indicado para estar à frente dos EUA, não conseguiu fazer “nem” metade do que prometeu.

E sai por certo desiludido, não só por não ter conseguido, ao fim de dois mandatos fazer o que se comprometeu, mas por ter sido o primeiro afro-americano à frente dos destinos dos EUA, sem maioria no Senado, que em nada o ajudou, mas também por quiçá ter deixado tanto por consolidar, e abriu o seu “posto” a um doido varrido.

E depois dos anglo-saxónicos terem votado pelo seu isolamento da Europa, os EUA fizeram o mesmo – com a diferença que os EUA são os EUA, e o Reino Unido é uma amostra insignificante do que já foi – e como nós europeus ainda imaginávamos que podíamos ter espaço vital na globalização, mas, sempre apoiados nos outros, estamos em apuros. E se não nos quisermos unir vamos implodir para muitos anos.

E hoje a Europa está em apuros. Os EUA lá se vão entender com o doido do loiro e vão fazer pontes com a Rússia do outro doido, Putin.

Mas nós com a total incapacidade da Hollande na França, com Renzi em Dezembro a cair de Itália e arrastá-la para um dos extremos, a Hungria e não só com saudades da União Soviética, a Alemanha a ver se em algum baú encontra um Hitler, parece um filme de terror do qual não se pode sair a meio, ou se for na televisão desligar o botão ou mudar de canal.

Não, acordemos para uma realidade, real, dura e crua, e dado que já não somos só nós Portugal que não nos sabemos nem nos deixamos governar, até pelo contrário neste momento, a Europa não sabe e afoga-se, ou se bate com a cabeça no chão.

E, ou agarramos a CETA com o Canadá, fazemos pontes com o norte do Mediterrâneo, tentamos não hostilizar os chineses e japoneses, e unimo-nos à séria, ou vamos mesmo, mesmo ficar o Museu do mundo, em total decomposição.

Os EUA elegeram, foi muito mau, tentemos depois destes e dos do Reino Unido, não fazer mais más escolhas, para ainda sobrevivermos. Ou não!

Augusto Küttner de Magalhaes

Eleições nos EUA ao minuto: Trump é o novo Presidente. Hillary aceita derrota

(Público)


Do Que Se Fala | Se Trump ganhar não é por acaso.

trump2O risco de Trump ser o próximo Presidente dos EUA não é um acaso, uma vez que tem pelo menos, já, meio País consigo.

Tanto Trump como Hillary são, quer por Democratas como por Republicanos, o pior que conseguiram para candidatos à Presidência. Trump um imbecil, malcriado, mulherengo, machista, que não sabe o que quer a não ser “admirar o seu eu”, qual narcisista.

Hillary a eterna candidata à Presidência, e em simultâneo tem feito, não da melhor forma, pior forma parte do sistema há demasiado tempo, e não lhe abona em nada ter usado – e claro estes “tiques” não serão por contingência – o seu computador e servidores pessoais, e tudo o que mais não se sabe, ao serviço dos EUA, quando Secretária do Estado de Obama, em vez de utilizar o que é necessário fazer.

Claro que ganhando Trump – e já este muito mais distante consegui-lo –  é muito pior que se for Hillary – o tal mal menor, como hoje por todo o lado se chega à política/politiquice –  dado que um “doido” à frente dos destinos do mais potente País da Terra, não vai ser nada bom de ser ver e muito menos de se viver!

E nós, Ocidente, e nós Europa, que estamos há mais de uma década sem rumo e em plena decomposição, ao ter nos EUA um Trump vamos passar mal, muito mal.

A NATO que ainda sobrevive, graças ao EUA vai desintegrar-se, de vez, dado que nós Europa estamos a beneficiar do que tem de útil, mas esquecemo-nos, de contribuir para que “aquilo” funcione.

A ONU, que já é um monstro de burocracia, pesado e cheio de interesses divergentes e estranhos ao seu “normal desempenho”, nem com o nosso António Guterres vai conseguir, minimamente, melhorar-se.

O tontinho do Putin – ex-KGB – que quer recuperar uma imagem da União Soviética – até com, Gulag se necessário – e que sozinho não tem como, dado que a Rússia está em pré-falência, vai ter um grande apoio estratégico dos EUA com Trump.

E a Europa em total putrefacção, aqui pelo meio, vai implodir, vamos implodir, todos sem acharmos que deveríamos ter tido discernimento e unidade há década e meia.

E de permeio poderá surgir a tão desejada por alguns- entre os quais os amigos Trump e Putin- a tal III Guerra Mundial, com os EUA e a Rússia a lideraram uma total trapalhada no Médio Oriente, com a China a ver o espectáculo e o Japão a ver qual dos lados lhe dará mais jeito apoiar.

Estes EUA, são o que Barack Obama, nos deixa. Obama que antes do tempo recebeu indevidamente o Prémio Nobel da Paz – está também em crise, quem os mais diversos Nobel´s tem escolhido – e foi de facto uma Pessoa muito desejada, essencialmente a Ocidente para ficar à frente em dois mandatos dos EUA, mas pouco conseguiu fazer do que prometeu.

E Guantánamo está como estava, a Síria e toda a sua envolvente em estado de Guerra – Obama com medo de voltar a pôr as botas do Exército em solo, pelo exemplo de Bush no Iraque, imobilizou-se e mal – a Economia americana numa crise de desemprego, e nada do que podia ter sido feito, o foi.

E por isso, nesta última fase da campanha Eleitoral para a Presidência nos EUA, Obama aparece e reaparece a tentar que Hillary não perca. Já nem se tratar de ganhar, é unicamente não perder.

Claro que o Mundo está em mutação, os tais “valores e princípios” que nós “pestes grisalhas” achamos essenciais, ainda hoje,  para um melhor relacionamento entre Humanos, estão em total decadência e não foram substituídos por outros, nada, de nada,  entramos em vazios excessivos, o que “dá espaço” a serem preenchidos por “palhações nem de circo “  – com todo o respeito pelo Palhaço de Circo – como Trump, e não só, mas também.

E o FBI como medo do medo, deu o último encontrão a Hillary, com uma história fora de tempo sobre os emails indevidamente utilizados pela então Secretária de Estado, ao serviço dos EUA, mas agora já só para Trump ganhar. E pode mesmo ganhar. Qual cataclismo.

Se por mero acaso não ganhar, vai andar Trump por aí e não vai ser bom, claro quê seria menos mau do que se ganhasse, mas será quase milagre.

E talvez seja – enquanto ainda há uma réstia de tempo e esperança – de deixarmos todos de andar sempre e só nas redes sociais e na Internet a bloquear o nossos pensamentos e –ainda – conseguirmos ver o pensar, pesar, no amanhã, no pós 8 de Novembro que pode ser-nos muito mau!

Augusto Küttner de Magalhães


Do Que Se Fala | João Lobo Antunes

joao-lobo-antunesMais um exemplo de que somos capazes de ser dos melhores entre os melhores, nas mais variadas áreas.

 João Lobo Antunes, neurocirurgião, intelectual, escritor, professor, grande “sabedor” não só da sua área, onde foi “excelente”, como com uma vasta Cultura. Um pouco orgulhoso de si mesmo, havendo no caso concreto, razão para o “ser”.

Tive o gosto de por duas vezes, falarmos um pouco, em duas belas Conferências organizadas por Manuel Sobrinho Simões e Rui Mota Cardoso no IPATIMPU, em que João Lobo Antunes, era quem “dirigia” essas Conferências com vários convidados, e era muito bom.

E chegámos a jantar numa dessas ocasiões em Serralves. Onde, com piada nos disse para não comermos já “isto”: “que achei ser quiche , mas é um doce para o sobremesa”, era um buffet, e de facto “dava para nos enganarmos”, e tinha uma faculdade de se expressar com imenso conteúdo, deslumbrante.

Uma das vezes na noite em Serralves, coincidia se bem que não com o mesmo tempo, a Inauguração do Ipatimup, com a do Museu de Serralves, com Auditório cheio, João Lobo Antunes, falou de Utopia, excelente, excelente.

Muito bom, muito bom, e mais o tal exemplo de que somos bons, bons, bons, se soubermos aproveitar, muito melhor, o que somos e temos.

Fica João Lobo Antunes para a nossa História e Memória – algo hoje um pouco, muito esquecido, que devemos saber recuperar, já –  e temos, ainda o grande escritor mundial seu irmão, o português António Lobo Antunes, com que fugazmente tivemos umas boas conversas nocturnas nuns Agostos,  na Urgeiriça.

Augusto Küttner de Magalhães


Quando os políticos devem ficar calados e o não fazem e não só.

passos-coelho-jose-socrates-narizes-pinoquioEstamos num tempo em que demasiados, que têm acesso facilitado aos meios de comunicação social, e sabendo – o que não é nada difícil – que estes não têm agenda própria, e que se “agarram” a tudo e a nada, e todos ao mesmo, aproveitam a situação.

E em simultâneo, temos “ex-s” de tudo e de todos os lados, que estão sempre a aparecer e a falar, e os actuais, que têm necessidade de falar, falar, falar a tentar defender-se do que não é muito defensável. E como também está em “uso e costume”, a formatação em não assumir culpas – ninguém, tem culpas de nada hoje – atira “para o lado” e aponta os outros como culpados do que fez, ou se permitiu ter feito. E como o outro fez, esse é culpado o próprio, já não.

E circulamos em volta “disto” e andamos todos muto entretidos sempre no mesmo, com os mesmo e mais do mesmo.

Ninguém quer – ou já não consegue – pensar por si, fazer o seu percurso, e assim, faz o que é uso fazer mesmo que esse “uso” seja muito pouco e muito esvaziado.

E a manipulação para não se pensar, e deixar que os outros nos façam o pensamento está tão vulgarizada, que ninguém se quer dar ao trabalho, de ensaiar – se calhar já não consegue – desligar tudo à sua volta, e pensar, por si e não pelo outro.

E a necessidade de actualizar tudo – e nada de nada – ao segundo, feito com emissões em directo, a cores, com  dois ou três no estúdio e outros tantos no terreno, todos a dizer mais do mesmo, em  mais de 45 minutos que não deixam nenhum rasto e muito menos conclusão, está  demasiado vulgarizada.

E andamos nisto e não sabemos sair disto. E todos falam ao mesmo tempo de tudo e de nada, mas sempre do mesmo e dos mesmos.

E, de facto não há culpados. Ninguém consegue assumir que fez mal para o cargo que na hora ocupava, e por vezes, tantas vezes ainda ocupa, e não sai da lá, que “aquilo” deve ser muito bom, ou ter cola!

E, o outro faz/fez o mesmo, mesmo que mal feito.

Logo, por certo o lugar, o local, o posto, o cargo obriga a que seja igual. E todos arranjam pretextos, que já nem desculpas – nunca, hoje, alguém tem culpa, pelo que não se desculpa –  para rolar no vazio a que chegamos e que ficou tão esvaído de tudo, que é desgraçado pessoas –o animal superior existente à face da Terra – estarmos , como nós assim estamos. E ainda não bateu no fundo!!!

Augusto Küttner de Magalhaes


(…) nos próximos anos são ajustes “de cama” de Trump e do marido de Hillary (…)

Sábado é dia do Augusto Magalhães partilhar connosco a sua visão sobre o que anda quente na atualidade portuguesa e estrangeira.

As Presidenciais norte-americanas estão ao nível de “lixo”

Parece que as agências de rating se entretém a colocar ao nível de lixo, alguns países e as suas dívidas, o nosso ainda escapou, para já, dado termos a “ajuda” de uma canadiana, agência de rating.

Mas as eleições para o futuro Presidente da maior potência mundial, estão – mesmo – ao nível de “lixo”.

Um imbecil, que pode vir a ser o Presidente eleito a 8 de Novembro, um “tipo” egocêntrico, egoísta, sexista, xenófobo, contra a mulher de um Ex-Presidente, que foi Secretária de Estado de Obama – contra quem perdeu a sua candidatura às anteriores Presidências, pelo seu partido democrático – , que utilizou, mal, nestas funções o seu servidor pessoal em serviços ao País.

E, as ideias desta Campanha Presidencial para o futuro Presidente dos EUA, nos próximos anos são ajustes “de cama” de Trump e do marido de Hillary, e pouco mais.

Quando a política está chegada a este nível tão, mas tão baixo, e num País que se considera democrático, de facto estamos num mau momento da História da Humanidade.

E por muito que se esforce António Guterres como Secretário-geral da ONU, dado tratar-se de um organismo que depende de quase 200 países, entre os quais os EUA, mas não só. Tanto, tantos  outros – Rússia, China, Inglaterra, etc.-  que internamente, são um exemplo do que não·se deve fazer, de facto é assustador.  Isto, no mínimo.

Mas esperemos, com imensas dúvidas que os EUA não fiquem com Trump na Presidência, e ficará, como hoje em quase toda a parte se definem os políticos, o mal menor, que é a Hillary.

Mas, Trump dividiu os “amores políticos e não são nos EUA, e 50 % da População, gosta do seu estilo e tantos reveem-se ou até ambicionam “ser/ter” a sua imagem, que no mínimo é deplorável, sem conteúdo e sem qualquer humanismo.

E mesmo que perca, os EUA, têm que parar para pensar, e a era Obama que esperançou esta Europa em estado pré-comatoso, até mais que os próprios EUA, não conseguiu surtir efeito lá, e muito menos cá.

E o futuro próximo que de risonho tem muito pouco, em que os individualismos, os egocentrismos, as barreiras, os muros, os fechamentos, estão por todo o lado, acompanhados do total desprezo pelo “outro”, está por todo o lado e em força.

E como humanos, ou todos tentamos, já, em conjunto fazer algo pelo “todo”, não desejando – e muito menos fazendo – ao outro o que não queremos que nos façam a nós, sem qualquer sentimento religioso mas simplesmente humano, ou vamos rapidamente  fazer-nos implodir.

Vamo-nos trincar, amordaçar, amesquinhar como nem animais selvagens fazem uns aos outros, vamos reviver os tempos de Hitler, e vão ser muito mau.
Esperemos conseguir pensar – algo que deixou de ser “uso e costume” – melhor, depois desta vergonha que estão a ser as eleições Presidenciais norte-americanas, e que todos olham  – olhamos – de dentro e de fora, quase como um festival humorístico ou de alienados, e não o é, é a realidade, actual,  ao vivo e a cores! ou não!

Augusto Küttner de Magalhães

Fica um vídeo (curtinho) do nível desta campanha…


A eleição de Guterres ensinará esta Europa Desintegrada? E não só?

guterresTentando colocar de lado o nosso patriotismo ao ver o português, António Guterres à frente da ONU a partir de 01.01.2017, deveríamos “pensar” – algo difícil e fora de moda, nestes tempos – se esta eleição de um Europeu para um órgão Mundial, terá ensinado alguma “coisinha” a esta Europa, em rápida desintegração.

Sendo que, o entusiasmo com as votações antecedentes, e bem em Guterres, não teriam que “ter” que implicar a sua vitória, uma vez que a mesma teria que ser rectificada pelas regras “caducas” – do pós II Guerra Mundial – das Nações Unidas, com o “acordo” dos cinco do Conselho Permanente. Como e bem, veio a acontecer! Mas, havendo um europeu /português, que por mérito próprio e também várias entidades portuguesas, do MNE ao PR, e não só – e o não apoio do actual secretário-geral, que agora deve dar o dito por não dito – estava à frente, a Europa não se deveria ter unido, como União, em vez de baralhar, confundindo e mais se partir?

Mas, claro, o País Europeu mais rico, que melhor está – sem dúvidas – economicamente retirou-lhe todo o apoio, e deu ordens a Bruxelas para à última hora enviar a Búlgara vice da Comissão Europeia, para não ganhar um tipo da Europa do Sul. Com o pretexto, de ser a vez de uma mulher e da Europa de Leste, o que possa hoje, “isto” querer ser. Será que agora a Alemanha, a Frau Merkel, o Sr. Schäuble e mais uns quantos, terão uns segundos para reflectir sobre este péssimo exemplo de desunidade europeia que deram ao Mundo, e dar “ordens “ a Bruxelas para fazer o mesmo!? E a Alemanha, e outra vez o Sr. Schäuble, com o estado pré-comatoso do seu Deutsche Bank, ainda achará que só os do Sul é que estragam a Banca? Só os do Sul é que são incapazes e incompetentes, apesar de terem ganho o lugar de topo na ONU? Claro que, Guterres não vai conseguir fazer milagres – mesmo sendo muito católico – e vai estar à frente da ONU, agora e na pior altura, nunca vivida depois da II Guerra Mundial, “esta”, que deu origem à criação das ditas “Nações Unidas”! E não se espera que faça impossíveis, mas é um Homem culto, empenhado, conhecedor. E no fim de um ou dois mandatos, sairá de certeza com mais prestígio e sem “procurar” outros lugares em outros locais, não apropriados com o anterior desempenhado. Como o fez, recentemente, o último português/ europeu à frente de algo de relevo na União Europeia. Aí, de certeza que será positivamente, muito diferente. Entretanto, teremos que esperar que Guterres, com a ajuda dos países poderosos e influentes- mas também em balbúrdia, veja-se se Trump vai ser Presidente dos EUA? – na cena Mundial, consigam reformar e bem a ONU.  Para esta – ONU- actuar no que tão necessário hoje seria  – mas não está a ser – a sua função, num tempo de guerras e guerrinhas por todo o lado e Pessoas a morrer à fome, por falta de gente capaz e digna para estar à frente de Países, de Comunidades, de Organizações. E que a Europa aprenda de uma vez por todas, que se não for um Bloco Unido num Tempo Global, desvanece totalmente.  E a Alemanha estando a fazer parte plena desta desconstrução, apesar de ter dado um exemplo único europeu quanto aos Refugiados, ou se torna Europa ou morre Alemanha!

Augusto Küttner de Magalhães


Desabafo de alma em 3 episódios: fui à catequese Turma mais….(III)

Mais Burocracia e engenharia social

No final do vídeo, que tenho vindo a analisar estes dias, e que constituiu ponto relevante de um programa catequético  para me converter à Turma Mais, fica a minha dúvida herética central:

Se os grupos de nível são tão bons, em doses homeopáticas de 6 semanas, porque não consumir a droga em dose canónica de ano letivo inteiro?

Promover o sucesso, até dos que já o têm, é uma posição ideológica que resulta clara do vídeo.  Chama-se a isso elitismo.

Para os que me acusem de escrever estes textos com um preconceito ideológico (no meu caso anti-elitista), acho que essa clareza explica o meu ponto de vista: se carrego nas tintas do anti-elitismo é porque o compêndio metodológico, que consumi no vídeo, mesmo cheio de falinhas mansas, não esconde o seu elitismo (que é talvez da pior espécie para se combater: não consciente).

74907741_c2d59deb64Como também no vídeo não se esconde o seu lado burocratizador e até as ambições de engenharia social, ao invocar intenções de “mudar o figurino social da relação nas turmas” (já agora segregando-as?)

E até posso admitir a boa intenção dos colegas (mas, de boas intenções…). Na África de Sul, quando Mandela foi preso, havia muitas teorias explicativas polidas para o apartheid (ex: “desenvolvimento separado”) mas a realidade da coisa era mesmo o que era e tresandava.

A quantidade de vezes que se usa no vídeo a palavra “uniforme” ou a preocupação patente e dominante com o uniformizar dos descritores e a caça ao “cada professor a fazer da sua maneira”, mostra o esplendor burocratizador deste calibre de inovações (bem velhas).

No campo da gestão escolar, os “inovadores” em causa posicionam-se também claramente, proferindo, com aparente inocência, algumas teses arriscadas sobre contratualização e gestão por objetivos. Nem Peter Drucker, nem talvez até Frederick Taylor, diriam que as suas ideias sejam moderadas.

Marcha em ordem unida

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O clímax disso é o entusiasmo excitado (lá vem mais uns saltinhos na pantalha) com que falam de grelhas e descritores uniformes, armas contra os perigos, que o seu discurso faz parecer escândalo, da ação subjetiva dos professores.

A autonomia profissional é, como eles diriam no seu linguarajar sugestivo, um “domínio atitudinal” que não interessa nada, destruído que seja pela coletivização em equipas e por uma churrascaria bem provida de grelhas de monitorização de tom soviético.

Não é por se lhe chamar ecossistema (palavra que até se usa num dos quadros do vídeo) que uma burocracia ronceira, dominadora e ignorante da individualidade, passará a ser coisa diferente.

Uniformidade processual é o quadro mental dos protagonistas do vídeo: “todos usam os mesmos descritores” (e dizem até, com voz embargada, a dada altura, que se superará o passado “em que cada um faz da sua maneira”,). E tudo regado, até ensopar, com muita medição em “grelhas” e monitorização constante.

O sucesso das aprendizagens é, por isso, para quem assim fala: não um processo criativo, interior ou de valorização individual, mas sim uma canseira de papéis e descritores.

Horatio_Pig_Bronze_-_Rundle_MallA isto respondo só com uma frase que ouvi de um professor que respeito muito, também pela ironia: “não é por muito pesar o porco que o porco engorda….”.

Valores e atitudes: não perturbem….

Centrando uma das prioridades do seu método na questão dos valores (o “domínio atitudinal”, como dizem os autores do vídeo, na sua linguagem castiça) creio que é aí que se vêem as maiores fragilidades da teoria que gera este exercício audiovisual.

E nem me estendo muito. Não há que temer que tanto discurso sobre valores e atitudes resulte em algo consistente.

Veja-se só um dos exemplos, num dos quadros em que os autores mostram um indício dos seus próprios valores. Na dita monitorização dos valores, um dos descritores para os alunos é “não perturbo”.

Não perturbar dificilmente se poderá dizer que seja um comportamento com valor elevado, ou de cidadania, em qualquer escala. Um cidadão morto, em princípio, também não perturba, mas as suas atitudes serão as que se sabem.

Tudo isto, bem embrulhadinho num discurso recheado de objetividade e “auto-regulação” (mais regulação que auto) e parece que temos uma teoria que resultará em ações “iguais para todos os professores” e “procedimentos uniformizados”.

Nada disto terá a ver com cidadania, criatividade ou até com liberdade individual dos alunos, mas soará bem a muitos ouvidos, sequiosos de respostas fáceis para problemas difíceis.

Postos em sossego e sem perturbar lá teremos o sucesso pré-fabricado.

Pelo meio, umas referências bibliográficas com uns 20 anos (1998), um esquema da organização escolar, com níveis múltiplos, a parecer um organograma de uma organização em sovietes, com forte lógica hierárquica, e uns deslizes de linguagem revolucionários curiosos: “está-se a construir uma nova cultura de escola” e a “promover o sucesso dos alunos à guarda do conselho de turma”.

As palavras são o que são e, realmente, preocupa-me uma cultura que se baseie na separação, consagrando e formalizando a desigualdade.

Serei zeloso….

7223016820_5093ed0ee3_bQuanto ao vídeo, como já se percebeu, só me convenceu realmente do contrário do que era o seu objetivo.

E perante o problema de ter de por em prática tal coisa, à qual, como se adivinha, por razões ponderosas de consciência cidadã, científica e profissional, me oponho, seguirei o caminho legal que resta a um professor, despojado da sua autonomia profissional: cumprirei as ordens legítimas que sobre isso receber.

E, mesmo não a tendo legal ou realmente, até vou conceder legitimidade a decisões de órgãos pedagógicos que decidiram sem me ouvir (a mim ou aos professores restantes).

Neste caso, adoptarei uma estratégia, zelosa e precisa, inspirada por uma frase das memórias do General Ulysses Grant, vencedor da Guerra Civil Americana e, depois, presidente dos EUA:

“I know no method to secure the repeal of bad or obnoxious laws so effective as their stringent execution.” (Tradução livre minha: Não conheço melhor método para assegurar a mudança de leis más ou odiosas do que garantir a sua execução zelosa).

Serei assim um zeloso aplicador do sistema da Turma mais, até às suas mais drásticas consequências, já que, por estar tão mal concebido e assente em tão maus princípios, contrários à lógica democrática, que devia ser a da escola portuguesa, levado ao rigor máximo da sua aplicação, evidenciará naturalmente os seus óbvios aleijões e defeitos. Perante o indiscutido  triunfo da ideia só essa solução radical garante que seja, como deve, abandonada no futuro.

Quando se sente solidão, e perante esta esplendorosa mediocridade, só resta a resistência passiva. E dizem que funciona.

Veja aqui a 1ª parte e a 2ª parte


Desabafo de alma em 3 episódios: fui à catequese Turma mais….(II) 1

Turma Mais: a excelência, os burocratas articulados e as melgas

Ontem comecei a abordar aqui, em geral, a forma como encaro a catequese no projeto Turma Mais.  Tal doutrinação passou mal no filtro das minhas visões heréticas do que seja excelência.

Hoje vou tentar comentar o instrumento de mais fácil acesso a essa catequese: um vídeo protagonizado por professores da escola que, pelos vistos, inventou a coisa. No fim, fiquei com a sensação que será como quem tenta martelar parafusos ou caçar moscas com metralhadora….(ou melgas, já verão porquê).

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Infelizmente, como funcionário do Ministério da Educação (a quem este não reconhece real autonomia profissional, para lá dos atos que os seus impulsos centrais possam rigorosamente controlar) terei de participar numa coisa dessas este ano.

Imposto o projeto à minha escola (não fui sequer realmente ouvido sobre ele, antes de decidida a sua aplicação), foi-me recomendado que, para entender melhor do que se trata, visse esta lição magistral, pomposamente chamada de webinar.

Não conhecia os colegas que o protagonizam, até ver o vídeo pela primeira vez (aqui pode ser vista a sua biografia). Por solidariedade profissional e em reação ao meu próprio constrangimento ao vê-los, creio ser meu dever dizer que não se deviam ter prestado a este papel.

É penoso ver os mais de 17 minutos de duração.

Não falemos do obtuso cenário geométrico, do genérico musical, supostamente dinâmico (estilo Dallas, anos 80)  e da locução reverberada (que reforça a má dicção da locutora) em eco de poço.

O tom pastoso, pontualmente animado com saltinhos e bamboleios  dos intervenientes, fez-me lembrar alguns anúncios de telecomércio que, há uns anos, Herman José parodiou num dos seus programas (Mike & Melga, para os que não se lembrarem).

Mas, mais que a forma (que é relevante em assuntos pedagógicos porque serve a transmissão do conteúdo), interessa realmente o conteúdo.

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Servirá o dito webinar, na perifrástica forma de falar de quem o fez: “para facilitar a apropriação da metodologia”. E, mesmo com uma estética discutível, ficam claros os seus problemas.

Organização de turmas ou redução de alunos por turma?

Mudar a organização das turmas é um dos pilares da dita metodologia.

Para explicar bem uma metodologia é preciso explicar bem os seus pressupostos. E, embora se mostre no vídeo um quadro em que as turmas de partida para o projeto têm todas entre 26 a 30 alunos, passa-se por cima da referência a esse “detalhe”, que é um pressuposto relevante.

O projeto gera-se assim num contexto com turmas de 26/30 alunos.

Num resumo publicado no site da Universidade de Évora, diz-se mesmo que “o limite será o de 4 turmas de origem (com um máximo de cerca de 112 alunos), por cada TurmaMais.”

Isto é, 28 alunos por turma de origem. Passo ao lado do rigoroso “cerca” que também dá para 29 ou 30… (afinal 30, são só mais “cerca” de 8).

Turmas de 20, ou menos, ainda justificam o projeto e sua estonteante “dança de alunos” em ciclos de 6 semanas?

Talvez mesmo os que o defendem digam que não (mas esse detalhe escapou à verborreia do vídeo).

5375603380_2f3c0b6aa0_bE tornando visível essa lacuna da “facilitação da apropriação” talvez se clarifique a real origem política e ideológica do projeto: em vez de promover a efetiva redução do número de alunos por turma,  tenta ser um paliativo para a realidade de turmas com 26 ou até 30 alunos.

Talvez as hesitações indesculpáveis do atual ministro, na consagração da redução de alunos, expliquem assim o sucesso que a turma mais está a ter, como estrela da sua política de promoção do sucesso.

Tudo isto, mesmo embrulhado com uma fofinha conversa sedutora sobre articulação, equipas, partilha, etc não esconde o lado de crença mal sustentada ou de reinvenção da roda, que transpira da arenga.

E se, em vez do “vira-corridinho” dos “grupos temporários de homegeneidade relativa” se reduzissem em geral as turmas de partida para “cerca” de 20 ou menos?

Faria falta toda esta cansativa parafernália reorganizativa? E não seriam os alunos melhor servidos?

E se se reforçassem simplesmente os tempos para trabalho de equipa, dentro e fora da sala de aula, no âmbito dos conselhos de turma originais, reduzidos em número de alunos? (Aliás, para os anunciados “resultados extraordinários” – Teolinda Magro dixit no vídeo- onde estão os tempos extraordinários para reuniões, que a “coisa” exige, nos horários de trabalho dos docentes?).

Noutro vídeo explicam como espremer melhor o tempo de trabalho dos professores que, afinal, andam folgados, mas passemos adiante, por agora.

Se a droga é boa porque não reforçar a dose?

Ninguém aflora no vídeo um problema de tipo social que é muito patente em crianças mais pequenas.

Porque é que para “se promover o sucesso de todos os alunos” e se “reforçar a partilha” e sentido de equipaentre os professores, se tem de desarticular, em ciclos de 6 semanas, parte importante das relações sociais dos alunos dentro das suas turmas e isolá-los, em parte do dia, por níveis de sucesso?

Havendo tanto discurso e norma sobre a importância da continuidade pedagógica (dos grupos turma e professores), nas transições de ciclo e ano, como se defende a descontinuidade em ciclos de 6 semanas, no mesmo ano letivo e na mesma turma?

Sem isso, a “coisa” eram turmas de nível e a máscara faz falta.

Aliás, deixem-me ser do século XVIII e afirmar a  minha suspeita de que se, em vez de separados por níveis, os alunos fossem aleatoriamente distribuídos pelos grupos, os efeitos seriam semelhantes. O que provaria que a “tecnologia organizativa turma mais” não serve para grande coisa (mas  provaria que a redução do tamanho dos grupos de alunos, sim). Não sei se alguém fez a experiência de ter um grupo de controle deste género. Mas gostava de ver….

E nem falemos dos efeitos de etiquetagem, para pais e alunos, de estar num grupo de turma mais de “alunos excelentes” (que para os autores do vídeo podem ser de nível 4 -!!!) ou noutro dos grupos. Remeto de novo para a posição, que alguns dirão ideológica (mas atraente, reconheçam) do texto da mãe que citei ontem.

Promover o sucesso para todos os alunos?

Esse é um dos dogmas mais cantados nesta endoutrinação. Vendo bem os papéis e outros documentos essa é então a máscara.

Os autores do vídeo defendem-se, logo no início, com alguma candura ineficaz, da acusação potencial de estarem a fazer turmas de nível encapotadas.

Na sua ingenuidade sociológica, fazem algumas afirmações curiosas. Por exemplo, que o seu projeto visa promover o sucesso para todos os alunos. O corolário desta ideia é muito evidente.

O projeto gera necessariamente desperdício de recursos (iludindo quem julga que melhor os aproveita) porque, em vez de apostar claramente no apoio ao sucesso de quem precise de ser apoiado, embarca na ilusão (não demonstrada) de que em grupos de nível (sejam temporários ou não) se podem atender melhor as necessidades até dos que já tem sucesso.

Simplifico a ideia cândida (que se adivinha) por trás de toda a complicação da “tecnologia organizativa turma mais” : se os “bons” estiverem com os “bons” (ainda que um pouco de tempo) vão ser melhores e mais felizes.

Se lhes dermos umas semanas num ambiente só de colegas “bons ou melhores” vão melhorar ainda mais….

Quem disse? Há até provas do contrário.

A contrario os “maus” com os “maus” , não irão piorar? Ou a magia não funciona ao contrário?

Quem tal propõe para o sucesso dos bem sucedidos devia tentar rir-se com o cartoon do Calvin (abaixo) sobre utilidade marginal decrescente.

Talvez aí comecem a perceber porque tantos jovens consomem comprimidos contra o stress e ansiedade e percebam a pergunta provocatória do início desta parte do texto.

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Mas alguém gasta dinheiro em bombeiros para fazer uma viçosa floresta crescer mais?

Ou põe-nos nos sítios onde ela já está a arder? (continua)


“A vida não foi criada somente para vocês e suas famílias. Nós também queremos a vida e merecemos vivê-la.” 1

Nadia Murad, foi uma escrava sexual do estado islâmico e confrontou os líderes mundiais.

Ignorar não é a solução!

Estaremos a querer chamar a III Guerra Mundial?

Estamos a viver tempos desmedidamente tempestuosos, com demasiados individualismos e egocentrismos, que criam permanentes estados de “elevada” tensão.

Isto, vai-se notando a cada dia que passa, quer a nível dos indivíduos quer dos países, num tempo supostamente global e aberto a tudo e a todos, mas que nos fechamos e mais em reditos intransponíveis.

Toda uma época de solidariedade – palavra de difícil pronunciação e que até deixou de ter espaço – que foi sendo vivida desde os anos 50 últimos até início deste século se vem a esboroar, descontinuar.

Os nacionalismos no pior do que representam estão num crescendo assustador em muitos países, e a Europa é um vespeiro desta “praga”! A desconfigurarão de tudo o que se construiu no pós II Guerra Mundial, está-nos a empurrar e com excessiva força, para tempos demasiado turbulentos.

O aparecimento de “supostos salvadores” em várias latitudes, que mais de que Nacionalismo podem fundear Fascismos, está por todo o lado.

E, deveríamos todos e cada um, em vez de esconder/esquecer o passado para evitar repetir erros graves que foram cometidos e que nos aproximamos a reviver, antes, parar para ”pensar” – algo, hoje também totalmente em desuso – antes que seja demasiado tardio para o vir a fazer.

O presente é de facto para ser vivido, hoje, mas como somos os animais mais dotados que existem à face da Terra, devemos saber de facto fazer a diferença para todos os outros e conseguir discorrer, analisar, fazer pontes entre o passado e o futuro, e não só animalescamente “viver o dia de hoje”! Se não, o futuro, já amanhã, será muito pouco promissor!

E se estamos todos com “imperiosa “ vontade de repetir erros do passado que estão, aqui, latentes por todos os lados, e, caminharemos com demasiada ligeireza para uma III Guerra Mundial.

E tendo sido perguntado a Einstein o que acharia “se isto” viesse a acontecer, só sabia que a IV Guerra Mundial seria entre meia dúzia de humanos, com paus e pedras, dado tudo ter ficado “totalmente “ destruído.

Edergon na Turquia, está a tentar unificar um espaço turco difícil, pelo que se torna uma espécie de ditador em democracia, algo não exclusivo nestes tempos que estamos a viver, até entre países da apelidada União europeia. Hitler fez o mesmo.

Putin, tem como único fito – tique? – da sua actual existência, ser um Czar russo.

Trump que muito possivelmente será o próximo Presidente dos EUA – além de já ter cativado, hoje, uma boa metade da população da sua terra –  será a personificação de um doido à frente do maior país da Terra.

A União Europeia tornou-se um “bando” de países que já nem disfarçam, que têm políticas próprias e que colidem em tudo que possa ser uma União/unida, e cada um olha para seu interesse exclusivo, até tudo implodir, e por dentro. Algo que já aconteceu, por diversas ocasiões, antes dos anos 50 do século passado, mas como foi há décadas – parece milénios –  já ninguém se quer lembrar.

O Brasil, perdeu uma vez mais a noção de Democracia e vale tudo para fazer proporcionar o dinheiro vindo por formas menos legais, menos limpas, mais “sujas” e o poder está sem rei nem roque.

A China – dita comunista, mas na práctica capitalista –  está a tentar catalisar todas estas confusões em seu favor, tentando ser a sucedânea do que hoje “ainda” são os EUA.

Pessoas, que tiveram responsabilidades elevadas em supostos centros de decisão na União Europeia, prestam-se sem qualquer pejo a trabalhar para bancos, para “única e exclusivamente vender” o que sabem sobre os postos, que antes ocuparam.

A ONU está na fase mais decrescente, de ser um espaço que não se adaptou a esta realidade nada simples, e que se não houver jogos menos claros, virá no próximo ano a ser liderada por um português capaz, mas que não terá força, nem meios, para fazer o que deve ser feito.

E, neste estado de “coisas” se não “iniciarmos”  nos tempos muito próximos a tal III Guerra Mundial será um acaso ininteligível, mas, se continuarmos como estamos implodimos seja como possa ter ser , e, assim não estamos a fazer futuro, antes,  estamos a destruí-lo.

 E, a nem viver condignamente o presente, até por descartamos tudo o que nos “faz” humanos, como os relacionamentos genuínos entre pessoas – que muito substituem por outros animais, nossos inferiores, ditos de estimação – o respeito, a família, tudo!

Augusto Küttner de Magalhaes

 


Do Que Se Fala | O investimento e a produtividade não crescem e é gravíssimo.

Como sempre, aos sábados, publico um artigo sobre o que se fala para além da Educação pelos olhos do Augusto Küttner Magalhães.

O investimento e a produtividade não crescem e é gravíssimo

estagnaçãoContinuamos a não saber ter investimento, nem a aumentar a produtividade no nosso País.

O anterior Governo seguiu o percurso de tudo desfazer, cortando a direito e pela direita e nada reestruturando/reformando. E o seu chefe achando-se, ainda assim se assume como tal, o “salvador da pátria” não se cala um único dia, a fazer-se o melhor e a dizer mal de tudo que não de si mesmo, e,  a maioria da comunicação social “sem agenda própria ” não o larga, dando-lhe permanente tempo de “antena”, para sua satisfação.

O actual Governo que tem conseguido, e bem, gerir um equilíbrio instável, muito graças ao apoio – necessário e muito profícuo – do actual Presidente da República, tentando olhar pela População como Pessoas, o que o anterior esqueceu, mas não está de forma alguma o nosso País a fazer crescer o investimento, a criar valor a aumentar a produtividade.

Claro que o Estado não vai criar riqueza, não lhe compete, antes, deve distribui e o mais “justamente” possível, o que consegue obter por várias vias, nomeadamente os pelos impostos directos e indirectos.

Mas, tem que criar condições para que o investimento cresça, para que a produtividade seja produtiva e convenhamos, tal como todos os anteriores, não o estão a conseguir fazer, pelo contrário a nossa dívida, improdutiva, “lá fora” aumente a cada dia que passa. Aqui, igual aos anteriores, também!

E não será unicamente com consumo interno que vamos “aguentar” o País e muito menos, se esse consumo em 75% se direcionar para automóveis novos! como aconteceu nos primeiros meses deste ano!

Não, assim não chega, e claro que é muito mau o que se paga de “reformas aos que menos recebem”, mas se não houver onde ir buscar dinheiro não se pode aumentar “em mais”, com o risco de tudo se deixar de pagar, ao fim de meia dúzia de meses. Ou, só se “lá de fora” nos deixarem endividarmo-nos até ao infinito!

Claro que, não anda nenhum diabo à solta, como o chefe do anterior Governo – ansioso de poleiro e não só, mais à direita, estão na mesma – rodeado de atenta comunicação social diz, ou achou que andaria, ou algo no “género”. Não, não anda. Não.

O que há, e é grave, é falta de transparência, não só nas viagens para ver o Futebol – sempre o Futebol a tantos distrair, entretém e faz esquecer “outras coisas”, se calhar bem mais indispensáveis à nossa existência na Terra – à custa de empresas privadas de membros deste Governo e deputados das Oposições, e muito mais, muito mais!

Em tudo, sem necessidade de códigos de conduta, basta e sobeja bom senso, caldos de galinha e algum chá em pequeninos, tudo resolve!

Temos que ouvir falar pública, publicada e insistentemente na “criação de valor”, em “aumento de produtividade”, em investimentos produtivos, em dinheiro que tem que existir, mas não de “geração espontânea.

Temos que ter a consciência, de que todos e cada um fazemos parte da solução, e temos como tal que actuar. Temos deveres e não só direitos, temos que falar menos e fazer mais.

E, temos que ajudar o País e os nossos concidadãos, e não só esperar que o Governo, o Estado, o outro o faça por nós. Claro que os políticos tem como “sua” essa função, mas não conseguindo, temos que ajudar, e claro que podemos e muito bem contar com o actual Presidente da República.

Se não fizermos virá de facto um diabo que parece ser uma ambição “dos” do anterior Governo!

Augusto Küttner de Magalhães


Código para nos bem comportarmos, que estranho a “isto” chegar-se. 2

corrupcao1De facto estamos a viver tempos menos fáceis, em que demasiados “fazem o que não deve ser feito”, seja por outros já terem feito, seja por se querer títulos a que não se tem direito, seja por não se pagar o que outros pagam por ter que ser, sejam por aceitar o que pelo cargo- implicitamente – não deve ser aceite.

E, como as agendas próprias de demasiados políticos não existem, movem-se ao som “do que está a dar”, e como geneticamente são assaz maus, e esquecem o que “antes terão de errado feito” movem-se na onda do que todos falam, especialmente se conseguirem distrair atenções de si mesmos, do que possam ter feito e aparecerem como “virgens impolutas” a criticar outros quando por vezes melhor seria, calados ficarem.

“Isto de telhados de vidro e paredes transparentes” faz com que todos saibamos de tudo uns dos outros. E este País ainda é uma aldeia muito grande, em que todos se conhecem, ou alguém conhece outros que outros conhecem, e o disse que disse circula ao momento, esquecendo o que ontem foi notícia!

E a ajudar temos uma comunicação social, genericamente menos “brilhante” que se faz arrastar pelo que acontece e pode ser mediatizado ao limite, e como o “outro faz disso notícia” todos “disso” têm que fazer notícias. E a diferença positiva deixou de existir, e de repente tudo e todos “alegremente” se enfocam no mesmo, pelos mesmos, com o mesmo” sem um mínimo de diferenças distintivas. Zero, tudo igual ao mesmo tempo, no mesmo local.

E o Verão quente faz com que ainda menos se queira ou consiga pensar, as invejas latejam, e os comentadores sobejam, e entramos ou “entalamo-nos “ nesta arena mediatizada, mediática, mas talvez com muito pouco conteúdo.

E de repente, para corrigir “erros de palmatória”, para emendar o que nunca devia ter acontecido, para criar alguma réstia de vergonha em quem nunca soube o que é dever tê-la, tenta-se criar “códigos de bom consertamento / comportamento ”, para pôr na ordem que deixou propositadamente ou por não se imaginar o que possa ser-se educado, correcto, cumpridor, respeitador.

E o que pais e mães não sabem, ou têm medo de alumiar a seus filhos, filhas, tem que ser “passado a escrito” para haver comportamentos convenientes de quem decentemente se deveria sempre comportar. E se em cargos de relevância, saberem estar sem dar nas vistas ou abusar do poder que momentaneamente têm, e até permite a alguns circular com automóveis, nossos, pagos pelos nossos impostos por cima de locais proibidos e não é neste Executivo, se calar foi no anterior. Já está esquecido, atraque-se o de hoje!

E ninguém dos antes, dos agora, dos durantes estará limpo do que acontece, mas todos, demasiados, fazendo de conta que nada fizeram sempre e só os outros o fazem.

Ao menos não criem comissões de comissões para criar algum código de código, para não sermos sempre nós a pagar a conta,  e comecem todos e todas  por respeitar o que hoje já existe para ser respeitado, necessariamente  outro , e havendo vergonha na cara.

Ou tudo fica na mesma, logo tendencialmente piorando.

Augusto Küttner de Magalhães

Governantes só podem receber prendas até 150 euros

O código de conduta que o Governo aprovou na sequência das polémicas viagens pagas pela Galp só permite que os governantes possam receber convites ou ofertas até 150 euros. Mas há várias excepções. Caso não cumpram esta regra, as sanções são apenas políticas.

P.S- E se um professor recebesse uma oferta no valor de 150 €?


Professores: vocação ou profissionalismo? Salário ou palavras bonitas? 4

Não sou professor por vocação. Vocação vem de vocare, “chamar” e acho que não fui chamado para coisa nenhuma. Por pouco romantismo que isso traduza.

Não é muito comum alguém falar de vocação para se ser engenheiro, polícia, cavador ou eletricista mas, para exercer a profissão de professor, a visão poética do senso comum exige, quase sempre, que o discurso leve doses cavalares da dita vocação.

Como dizia alguém que me era próximo: a conversa da vocação é só um atalho para a desvalorização.

Os professores começaram na Antiguidade por ser escravos e o seu serviço ainda é vulgarmente chamado de “dar aulas”, como se a gratuitidade da dádiva fosse parte dele.

A ironia dessa ideia de senso comum sobre o peso da vocação na docência é que traduz um sinal real de desvalorização da docência no seu profissionalismo.

Afinal, ser incompetente ou competente é ou não diferente de ser vocacionado?

Por exemplo, eu até sinto larga vocação para a cozinha, tal o apelo que tenho pelo ato de comer, mas sou definitiva e totalmente incompetente, por falta de olfato, paciência e sentido do equilíbrio de sabores para aprender a cozinhar. Sou um cozinheiro frustrado, com muita vocação, e admito ser um professor competente, sem ela.

Não quero que o meu mecânico ou advogado seja especialmente vocacionado, quero que perceba de escapes ou de códigos e trabalhe com competência. E lá terei de lhe pagar o correspondente, esteja ele motivado, desmotivado, vocacionado ou iludido na profissão.

O estudo do Público e o tema da desmotivação. E o dinheirinho?

Vem tudo isto a propósito do estudo sobre a desmotivação docente hoje divulgado no Público (com direito a mais umas colunas de seráficas lágrimas de crocodilo sobre a dignidade docente de Joaquim Azevedo) em que se passa por cima destes assuntos em nome de discussões esotéricas sobre motivação.

Infografia sobre estudo no Público aqui

Porque é que a desmotivação dos professores é uma grande questão noticiosa no início dos anos letivos e quando se chega à fase em que alguém diz: “estamos realmente mal pagos” (e fomos roubados nos últimos anos), se foge logo para o caminho da conversa da vocação, do respeito e do valor social?

E quem fale do “dinheirinho” leva logo com a etiqueta de oportunista explorador e corporativo na defesa de interesses de luxo. (No meu caso o luxo corporativo são menos de 1200 euros mensais líquidos, após 21 anos de alegada “carreira”).

O dinheirinho não ajudará à motivação?Honestamente, viveria muito bem com a desvalorização social da profissão, e até com a gestão, que vou fazendo, da indisciplina, se me pagassem realmente o valor do trabalho que faço, se tivesse realmente uma carreira (e não um retrocesso) e se a reforma não fosse miragem, para mim, no futuro, e para os outros da minha profissão que hoje precisam imperiosamente de se reformar.

E, já agora, se se calassem aqueles que falam com verborreia das condições e requisitos da docência do ensino básico e secundário, sem a praticar há décadas …. ou sem nunca a terem praticado.

Dêem-me estas coisas todas e até me podem chamar nomes…. (aliás, já chamam hoje, e estou mal pago). Estou farto da conversa da vocação e da valorização da dignidade, sem dinheiro, direitos mais efetivos e melhores condições de trabalho.

A um profissional não se paga a motivação ou a vocação mas o trabalho (palavra que muitos exilaram dos dicionários, desde que as empresas passaram diletantemente a ter colaboradores).

Escolher os melhores para o futuro? Os de hoje são maus?

Acho particular graça que se diga, na análise  do estudo, que é preciso dar espaço a que os melhores alunos entrem na profissão.

Primeiro ataque à minha inteligência: mas alguém vai entrar nos próximos tempos?

Segundo ataque, este ofensivo: já repararam que essa afirmação indica que se considera, sem o enunciar, que os professores de hoje serão oriundos dos contingentes de piores alunos das suas gerações? Quem disse?

E, se nos deixássemos de poesias vocacionais e de tretas sobre a “busca dos melhores” e falássemos de coisas realmente importantes:

Quanto pagam? Pagam o justo?

Que carreira nos dão? Que condições de trabalho nos querem dar?

Que respeito concretizado em medidas efetivas nos querem permitir ter?

Em que outra profissão qualificada, no setor público ou privado, um técnico superior com formação especializada, com mais de 20 anos de experiência, e que até foi dirigente, ganha menos de 1200 euros mensais?

Ser professor é uma profissão e, como dizia uma pessoa que muito respeito, ser professor não é ser mercenário mas também não é ser missionário.

Reconhecimento ou salário? Poesias ou realidades?

Os discursos delicodoces sobre a dignidade e valorização dos professores, que andam na moda e que hoje foram chapados no Público, não resolvem os problemas reais se não se for ver o que é desagradavelmente intestinal: carreira, salário e condições de trabalho.

E para aqueles que não deixam fluir a discussão, realmente profissional, sobre o preço da competência e da nossa utilidade como trabalhadores, vivendo agarrados ao devaneio da vocação e da procura da dignidade metafísica, só digo que é possível ser excelente profissional sem ter vocação nenhuma para professor, mas tendo condições profissionais.

Recentemente, vi uma prova disso: a minha tia de 100 anos faleceu em Maio. Foi professora do 1º ciclo durante 40 anos. No fim da vida, dizia-me que tinha sido professora sem ter vocação nenhuma para isso, por circunstâncias da sua vida. A sua vocação (e, numa arte, isso talvez exista) era a música, mas não pode concretizá-la.

Foi professora porque, para uma menina estudar fora da sua terra, nos anos 20, era preciso parentes para a vigiar e só os tinha em Braga. Por isso, só pode estudar na Escola Normal. Era boa aluna e boa profissional, diziam os alunos. Orgulhava-se do que fez para os seus alunos terem sucesso e vi a alegria tocante de muitos, ao reencontrá-la.

Vocação não tinha nenhuma, palavras suas, e gostar da profissão não gostava. Acabou por aprender a ser boa profissional com o tempo e a formação (excelente) que teve. Mas era competente. Muito competente. O indício final disso foi o número de alunos, já idosos de 60 ou 70 anos, que fizeram questão de estar e de o dizer no seu funeral, em homenagem à qualidade do que por eles fez.Foi bonito e comovente para os parentes, em especial os professores.

Será que, com a perspetiva politiqueira e treteira vigente sobre a profissão docente, o pouco reconhecimento profissional efetivo que estamos condenados a ter vai ser assim: no caixão, por conta da memória dos nossos alunos?