Disciplina


Colégio de Gaia proíbe alunos de correr no seu interior. Estupidez ou prevenção? 2

O autor do panfleto que mostro neste artigo deve estar com as orelhas em fogo tal têm sido as críticas ao seu conteúdo.
Sou professor de educação física, por isso a atividade física é um bem que muito prezo e que precisa de ser valorizado no espaço escolar. Mas uma coisa é valorizar a atividade física, outra coisa é colocar em risco a segurança de terceiros. Façamos um pequeno exercício:

Concordam que as crianças corram nos centros comerciais?

Concordam que as crianças corram nos restaurantes?

Concordam que as vossas crianças corram dentro de casa?

Pessoalmente não concordo, não considero o local apropriado e à minha filha digo-lhe logo para parar, pois a probabilidade de chocar com algo ou alguém é elevada. Por isso sou favorável à rejeição de correr no interior das escolas, mas atenção, quando me refiro a interior, refiro-me a debaixo de telha com paredes e tudo.

A verdade é que os alunos quando estão a correr, entram em modo “bip bip”, fazem curvas por dentro, não olham para a frente, vão contra paredes, portas, colegas e professores. Os alunos não têm “carta de corrida”, não conhecem prioridades, não fazem piscas, sinais de luzes e não têm stops… São anárquicos na sua fuga/perseguição!

Se o Colégio de Gaia quis proibir as “corridas indoor”, nada contra, mas se o objetivo é proibir também as corridas no exterior, então algo de muito errado se passa na cabeça de quem os dirige. Ser criança é brincar, correr, pular, saltar, viver… não é ser soldadinho, caminhando organizadinhos, quiçá encostados às paredes. Ser criança é fazer barulho, é testar os limites. É um processo contínuo de aprendizagem que precisa naturalmente de ser orientado e disciplinado. Proibir a essência de ser criança é não compreender a sua natureza e ao ir contra ela, originará certamente indignação e revolta.

Para quem pensa assim, recomendo uns bibelôs de porcelana, sempre estão mais paradinhos…

Sobre as outras proibições: trocar carinhos, usar minissaia e sair nos intervalos. Bem… estamos a falar de uma escola certo? É que começo a duvidar… Sei que há colegas que não aceitam ver um casal de namorados a beijarem-se. Por mim tudo bem, desde que não passem os limites da decência, que fiquem lá a treinar a coordenação bocal que é melhor do que andarem à estalada. Sobre a roupa, é natural haver excessos numa idade onde a afirmação pela imagem é o prato do dia, mas essa naturalidade não significa ir para a escola com o “natural” à mostra… E quanto às saídas nos intervalos, nas escolas públicas os pais autorizam ou não a saída dos alunos, se ainda não é essa a prática no Colégio de Gaia, fica a proposta.

Acima de tudo haja bom senso…

Estudantes proibidos de correr no Colégio de Gaia

(JN – Tiago Rodrigues)


Relembro o jornal Público e a comunidade educativa em geral, do estudo apresentado pelo ComRegras.

O ComRegras tem alertado para este facto e dentro das suas limitações tem feito um trabalho que deveria ser da responsabilidade do Ministério de Educação. Não são dados oficiais, mas são dados fidedignos e que vieram diretamente das escolas.

DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2014-2015

Total de Participações Disciplinares – 9130

Universo de 38 Agrupamentos/Escolas (4,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Nº de Alunos com Participações Disciplinares – 4229

Universo de 34 Agrupamentos/Escolas (3,9% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas – 4554

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas – 1597

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias – 1333

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias (vulgo suspensão) – 847

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Podem consultar o resto do estudo apresentado no ano passado aqui


Em breve irei apresentar os dados relativos ao ano passado.


5051 Crimes nas Escolas em 2015/2016. Mas afinal, o que é a escola? 1

crimeOs anos vão passando e a criminalidade escolar vai aumentando!

O que é a escola? Para que serve a escola?

Qualquer pessoa racional diria que a escola é um local de aprendizagem, que prepara os alunos para a sociedade. Para muitos alunos, a escola é um espaço onde se cometem crimes, onde se propaga o seu negócio paralelo e onde os professores são o empecilho à anarquia pretendida.

Na escola não devia haver crimes, na escola é suposto frequentarem crianças e jovens e estas não deveriam ser criminosas. A escola é por isso, para muitos jovens, o berço da criminalidade. E se a escola é o berço da criminalidade, até que ponto estamos a lidar com ela da melhor forma? Devíamos ser mais ou menos tolerantes? Devíamos aceitar ou não que estes jovens frequentem o mesmo espaço de outros que encaram a escola como A ESCOLA? Deverá a imputabilidade começar aos 16 anos? Serão estes dados avisos para o que aí vem?

Mas a pré-criminalidade surge no formato de indisciplina escolar e continuo a afirmar que não se conhece a sua dimensão. Os dados hoje publicados são da PSP (faltam os da GNR), são elevados e pior é que estão a aumentar pelo segundo ano consecutivo.

O ComRegras fez o primeiro estudo sobre indisciplina escolar, a indisciplina dentro da sala de aula, mas foi apenas a ponta do icebergue, daqui a algumas semanas serão publicados os dados referentes ao ano letivo 2015/2016 e a ver vamos como estão as coisas…

O governo diz que vai reativar o grupo coordenador da Escola Segura, faz bem, mas não chega. É imperativo obrigar as escolas a registarem e enviarem para um observatório próprio as situações de indisciplina que ocorrem dentro das salas de aula e (re)conhecer qual a sua tipologia. Estes dados devem ser públicos, salvaguardando a identidade das escolas. A sociedade merece saber o que se passa nas escolas públicas e  merece saber se a indisciplina escolar está a aumentar ou a diminuir.

Continuamos a assobiar para o lado, sem conhecer a dimensão do maior problema escolar da atualidade.

E já que o governo afirmou que vai assegurar a vídeovigilância por mais 3 anos nas escolas, por que não colocar as câmaras também dentro da sala de aula? Podem começar pela minha…

Mais de 5.000 ocorrências criminais nas escolas durante o ano letivo de 2015/2016

(LUSA via RTP)

Governo vai reativar grupo coordenador da Escola Segura

(LUSA via RTP)

Ministério garante videovigilância nas escolas pelos próximos três anos

(Natália Faria e Clara Viana – Público)

 


Dicas para diminuir drasticamente os índices de indisciplina escolar. 2

dicasComo prometido, vamos hoje abordar algumas dicas que reforçam e potenciam a disciplina na escola.

Muito frequentemente ouço que a culpa do estado das (in)disciplinas nas escolas se deve às famílias, à falta de proatividade das famílias e outros tantos argumentos que sustentam “um problema de sociedade sem cura” (será?).

Naturalmente e numa ótica de prevenção, vários estudos indicam que as famílias com menor prevalência de conflitos, revelam determinadas características sociais e contextuais, nomeadamente um envolvimento mais acentuado da figura paterna, uma articulação estreita com a direção da escola e/ou diretor de turma e professores em geral e os pais que se envolvem ativamente nas atividades de lazer e extracurriculares dos alunos. Por isso, sem dúvida que a família e a escola têm responsabilidades compartilhadas na educação e no desenvolvimento dos alunos, sendo essencial a existência de uma comunicação cooperativa entre todos os agentes educativos, pela influência positiva que tal interação tem na melhoria do clima geral da escola.

É fundamental pensar estratégias junto das famílias, mas não nos podemos esquecer do que nós, que estamos nas escolas, podemos fazer também.

A pensar nisso decidi elencar alguns tópicos que permitem pensar e repensar os nossos modelos de ação na escola:

  • Apresentar as aulas com recurso a materiais ou formatos de apresentação apelativos;
  • Cooperar no estabelecimento de regras disciplinares e punições;
  • Proferir com grande frequência elogios e expressar expetativas positivas acerca do desempenho dos alunos;
  • Transformar as aprendizagens em projeto: criar opções e não expectativas.
  • Exigir trabalho regular e planificado (e monitorizar);
  • Não etiquetar alunos como “bons” ou “maus” (evitar comentários tipo “tinhas de ser tu”);
  • Demonstrar aproximação e preocupação pelos problemas dos alunos;
  • Valorizar a sua carreira e opção profissional (investir em competências pedagógicas, interpessoais e sociais);
  • Manter-se calmo, sereno e seguro, no sentido de modelar o comportamento dos alunos;
  • Ser flexível, desde que coerente e estável, na forma de atuação, podendo alguma surpresa no comportamento do professor em relação aos alunos permitir uma maior eficácia na influência sobre estes (por exemplo, o professor pode aproveitar e manifestar humor nalgumas situações inesperadas em vez de se mostrar perturbados com elas);
  • Por vezes é preferível fingir que não percebe algumas situações e deixá-las passar, do que tentar controlar tudo e perder a eficácia de intervenção quando realmente é necessário;
  • Não distanciar-se dos alunos ditos indisciplinados, isto é, só falar com eles quando têm comportamentos inadequados – lembrem-se que nenhum aluno é indisciplinado durante todos os minutos da aula;
  • Atuar no sentido do empowerment dos alunos – mostrar que acredita na capacidade de estes terem resultados positivos;
  • Orientar, valorizar e incentivar à participação dos alunos;
  • Identificar os casos de alunos com problemas familiares e fazer parte da construção de uma solução para o mesmo;
  • Trabalhar em equipa, com partilha de experiências e num clima de autenticidade, empatia e cooperação.

Acima de tudo, o que importa é encontrar uma motivação para nos orientar naquilo que nós acreditamos ser a nossa função enquanto adultos e educadores.

Uma boa semana!


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia

Perdi a cabeça, dei dois estalos aos meus alunos… 6

A situação descrita é uma mera representação da realidade…

vergonhaSexta aula do dia, a voz já derrapava aqui e ali, o barulho do pavilhão era ensurdecedor, a irreverência dos alunos não desarmava, a sua intensidade mantinha-se a níveis estratosféricos. No meio do suor e das bochechas rosadas, dois alunos apresentam uma linguagem corporal semelhante a dois touros enraivecidos…

Ora dá! Vá… Dá lá a ver se és homem!!! 

Vai-te f#der, lá por seres mais alto julgas que és grande coisa!!!

Um empurrão aqui, um encostar de cabeças ali e a coisa estava a segundos de rebentar.

À sua volta, um grupinho de alunos circulava o espetáculo gratuito, incentivando os “galos” como se uma luta de apostas se tratasse…

Hei!!! Parou já!!! Onde é que vocês pensam que estão??? Parou já disse! Querem ir já para a rua???

Começa o processo de culpabilização alheia…

Stôr, foi ele, está farto de me dar cacetada!

Eu??? Tu é que andas a chamar-me nomes e agora sou eu…

Os “touros” começam a baixar a cabeça, vão levantando poeira com os seus cascos e pronto, o caldo vai mesmo entornar.

Quando dou por mim, trás… trás…. Tinha a mão no meio da cara dos alunos, repetia sistematicamente para se calarem e nada, parecia que não estava ali, era completamente invisível… Naquele momento estava cansado, farto do barulho, das infantilidades constantes, da má criação, da total irresponsabilidade, estava acima de tudo farto de ser professor, carregava em mim 6 meses de aulas, todas as manhãs e todas as tardes… 6 meses a resolver quezílias de alunos com alunos, alunos com professores, professores com alunos… A intensidade do toque foi reduzida, a mão distava 3, 4 cm das suas caras, demorou um ápice, um impulso primário que não deveria ter ocorrido, não podia ter acontecido…

O gesto chocou, chocou-os a eles e aos alunos que assistiram, mas acima de tudo chocou-me a mim, como foi possível perder assim a cabeça? Não dou aulas há 1 ou 2 anos, ando nisto há 25… 25 anos a lidar com conflitos… O que se passa comigo?

Sei que tenho sobre mim a ameaça de um processo disciplinar, violei claramente os meus deveres enquanto professor, estou nas mãos dos meus alunos… basta um email, um telefonema, uma carta para a Inspeção e estou lixado. De um lado 25 anos de serviço imaculado, do outro 2 segundos de trás…trás… Curioso como 2 segundos são agora mais importantes que 25 anos…

Se os alunos chegam a casa e contam aos pais já sei que vou ter problemas. Por muito menos os meus colegas já tiveram problemas…

E agora, o que faço?…

Sou professor, só existe um caminho nesta situação, o correto…

Acabou… não admito estas faltas de educação na minha aula, respeitem-se, são colegas, são da mesma turma, são da mesma “família”. Estão a faltar-se ao respeito e estão a faltar-me ao respeito. Façam um favor a vocês próprios, cresçam, tomem atitudes de homens que querem ser e cumprimentem-se num ato de desculpa mutua.

(cumprimentos dados e a aula prossegue)

No final da dita ficam ambos os alunos a falar comigo. Faço o que a consciência me obriga, não por receio mas por sentir que o correto tem de prevalecer.

Olhem, isto hoje correu mal, quer da vossa parte quer da minha… também eu errei, peço-vos desculpa… excedi-me, não queria fazer o que fiz, mas a mão estava no vosso meio e vocês não se calavam. Não posso ter alunos de cabeça perdida na aula… a violência nunca é a solução, quer da parte dos alunos quer da parte dos professores…

Stôr, deixe lá isso, foi merecido…

Sim, nós merecíamos stôr… a coisa descontrolou-se um pouco…

Podia ter ignorado a situação, mas preferi a genuinidade da minha consciência e assumir que também errei. Como posso exigir confiança na minha liderança, respeito na minha autoridade, se depois não assumo o que faço de errado? Liderar por exemplo, assumir as falhas da natureza humana, as minhas falhas, dá-me a possibilidade de conquistar o respeito de quem está a ser preparado para o futuro e precisa de ser ensinado/liderado por mim. A formação cognitiva é importante, mas o que fica para a vida é a formação pessoal, os valores e os princípios…

A humildade é um pilar fundamental na relação humana, a empatia, uma forma de criar pontes e derrubar muros, o reconhecimento do erro, uma manifestação genuína de respeito pelo próximo, seja ele menor, maior, colega, superior hierárquico ou aluno…

Por vezes no erro surge a oportunidade, importa reconhecer essa oportunidade e aproveitá-la sem receios, pudores ou tabus.

Ninguém é perfeito… e não devemos fingir aquilo que não somos, que nunca fomos…


Passar nos corredores e ouvir “vai pró caralho”, assim… tão natural como a sua sede… 26

beber-agua-em-jejumÉ mesmo assim… sem filtros nem letras esquisitas a codificar as vogais para não ferir os olhos. Os corredores das escolas não têm Piiiis, nem reticências nos palavrões, os corredores das escolas não querem saber se gostas ou não do que ouves, se te sentes bem ou mal, os corredores das escolas mostram bem o calibre do vernáculo estudantil.

A falta de pudor em mandar 2 ou 3 “bojardas” atómicas que nos atordoam os sentidos é a norma dos nossos jovens que começa a florescer lá para o 1º ou 2º ano. Na selva dos corredores quem dita as leis não são os professores ou os pais, são os meninos e meninas no seu estado mais puro, no seu estado mais selvagem. Atravessar um corredor cheio de alunos é uma autêntica prova de destreza física, o ziguezaguear entre aqueles que se amontoam, os que se empurram e se movimentam de forma anárquica e aleatória é uma prova de capacidade física que nem sempre é fácil, onde o impacto está bem presente e o “deixar passar” é algo que está ausente, demasiado ausente…

Quantos professores já não fingiram não ouvir os palavrões? Quantos professores não se sentiram pequeninos perante tamanha avalanche de má educação? Falar para quê? De que adianta? Ainda vão gozar comigo depois de passar, pois eu é que sou o “cota”, o “chato”, o “antiquado”…

Hoje foi a minha vez… estava cansado de tanto chamar a atenção… hoje fui egoísta e só quis entrar na sala sem me chatear, sem dizer as frases do costume que de tão repetidas já nem causam impacto…

No espaço de 20 metros ouvi um “vai para o caralho”, um “foda-se”, um “vais violá-la” e um “puta”, assim, tão natural como a sua sede, entre risos de aceitação e de total normalidade…

Os autores desta tempestade literária nem se aperceberam que lá estava, mas o problema é que a minha presença ou a presença de qualquer professor não é garante de uma língua asseada, livre de micróbios linguísticos… A má educação não é apenas uma moda, é uma questão de integração e afirmação social e veio para ficar.

Ano após ano, o alunos vão passando mas o padrão mantém-se: a má criação, os papéis para o chão, a indiferença perante o professor que passa, tudo é normal, tudo é natural e tudo cansa, desgasta e dá vontade de ir embora e não olhar para trás.

A indisciplina é o cancro do ensino, destrói o sucesso, destrói o ambiente escolar, consome professores e mostra a crise de valores que infelizmente não se fica pelos alunos…

Se os pais ouvissem o que os professores ouvem naqueles corredores, corariam de vergonha, ou então talvez não… alguns até se sentiriam confortáveis, adaptados, integrados naquele ambiente, pois seria apenas uma extensão do seu habitat natural, uma extensão do que dizem lá por casa e que é tão bem, demasiado bem repetido, aceite, assimilado, assim… tão natural como a sua sede…

 


Aluna filmada a ser agredida em Palmela

contra_a_violencia2

Este ano ainda não tínhamos assistido a este triste espetáculo. Assim de cabeça lembro-me de alguns vídeos onde os protagonistas são curiosamente raparigas, algo que não acontecia no passado e que prova que a sociedade mudou.

A “autorização” do grupo leva a atitudes cobardes como esta e bofetada atrás de bofetada, torna cada vez mais “aceitável” o gesto em si, num frenesim coletivo ao estilo mais primário.

Mas o que é verdadeiramente lamentável é o(a) cretino(a) que filma toda a cena, deliciando-se com o pior que a natureza humana tem… O que se passa na cabeça destes miúdos???

Que se faça justiça!

Aluna alvo de agressões junto a escola

(Correio da Manhã)

Um vídeo com agressões a uma aluna junto à Escola Secundária de Palmela circulou nos últimos dias nas redes sociais e já é do conhecimento das autoridades. Nas imagens aparecem alunos desta escola e também da Escola Hermenegildo Capelo. Uma aluna é agredida por outra rapariga com uma bofetada e palmadas na cabeça, enquanto outras a insultam e colegas assistem e filmam sem evitar as agressões. “Identificámos algumas alunas como nossas e já falámos com a GNR, que nos disse que os encarregados de educação é que podem fazer queixa por ser fora da escola”, disse ao CM Ana Serra, diretora do Agrupamento de Palmela, onde se insere a escola Hermenegildo Capelo. As agressões terão ocorrido neste ano letivo.

* O ComRegras não publicará vídeos onde se assista a actos de violência.

soluções que são problemas

professor helpRetomo questões relativas aos comportamentos escolares, à dita cuja indisciplina.

As situações que vejo, o que oiço por colegas de outros lados e o que leio por aí levam-me a equacionar algumas questões relativas à forma de gerir comportamentos desajustados. Aquilo que inicialmente foi considerado localmente como solução (a constituição de grupos compostos maioritariamente por alunos em risco) revela-se uma fonte de novos e maiores problemas.

Quando um aluno, por razões diversas (ou mesmo sem razão) se porta mal e o professor não consegue gerir esse comportamento, fazer com que se retome a regularidade da situação e não incomode, o problema, em algumas das situações, é do professor. A autoridade e o poder não se delega, nem se decreta, exerce-se, assume-se. Os professores têm de gerir o conjunto de relações e de dinâmicas que têm pela frente, nomeadamente quando a escola está organizada por grupos/turma. Daí os comportamentos e as situações classificadas como que de indisciplina variarem entre professores. Como variam as suas considerações. Este tipo de situações, que designarei de individuais, porque são fruto comportamentos pontuais e particulares, a sua gestão compete a quem coordena o grupo/turma, na generalidade das situações ao professor.

Outra coisa completamente diferente consiste em assumir, por via de opções de escola, a criação de grupos constituídos por alunos desinteressados, alheados, indiferentes, revoltados, zangados (com tudo e mais alguma coisa), desamparados, desestruturados ou simplesmente mal educados. Juntam-se a esses outros, por simples consideração, de raça ou cultura diferente ou enquadrados institucionalmente como se uns ou outros mostrassem risco de futuro, para além dos simples pré conceitos presentes. Surgem assim e por via de enquadramento legal, os cursos vocacionais, os percursos alternativos, os cursos de educação formação ou os profissionais, entre outras modalidades.

Perante esta composição, reunidos a partir das sobras de diferentes turmas quando não de diferentes escolas, o que era mau num grupo regular torna-se explosivo, pelo efeito de grupo, nas ofertas dita não regulares. O que era de difícil controlo num grupo/turma “normal” torna-se totalmente inviável de gerir em dinâmica de grupo, menos ainda quando um quer falar e outros não querem ouvir. São situações capazes de esgotar a paciência a qualquer santo ou estratega. Nestas situações (fonte e foco do aumento da indisciplina), a culpa não pode ser assacada ao professor. Nestas situações não se pode dizer ao professor, “olhe, desenrasque-se”.

Estas opções não são solução porque, simplesmente, levantam mais e, por vezes, maiores problemas do que aqueles que, pretensamente, visam resolver. A opção da escola e dos seus órgãos de gestão pela constituição destes grupos/turma faz com que as soluções tenham de passar, necessária e obrigatoriamente pela escola. Deixar estas situações à gestão individual do professor é entregar, muitas vezes, a alma (o professor) ao diabo.

É certo que se poderá invocar, “ah e tal a legislação é o que nos permite”. Mas as soluções não poderão (ou não deverão) ser promotoras de mais problemas e, nesse sentido, há que equacionar outros modos, outras respostas ou simplesmente outras formas de apoio e organização do trabalho docente.

Mas não deixem o professor à lei do desenrasca.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas

10 de outubro, 2016


Castigar para mim não é tabu! Nunca foi… 1

Normalmente não faço artigos baseados em comentários do ComRegras, mas vou abrir uma exceção para esclarecer algumas pessoas que possam pensar que sofro de algum tipo de fundamentalismo bacoco e que sou contra os castigos dos alunos.

Não sou, sou até favorável, mas tudo depende do contexto… A imagem em baixo ilustra o minha organização mental sobre o que penso de indisciplina e sua gestão.

prevencao_situacao_repressao_

Não pertenço ao grupo de pessoas que julga que a repressão (castigos) é o expurgatório de todos os males e com esta a indisciplina será uma mera lembrança dos tempos permissivos. Mas também não pertenço ao grupo de pessoas que aposta todas as suas fichas na prevenção, ignorando a repressão como mecanismo corretivo de comportamentos.

As situações de indisciplina ocorrem quando a prevenção falha. Porém, a sua repetição e escalada na gravidade das ações surgem por falhas principalmente ao nível da repressão. O “não”, o castigo, a repreensão, são muito importantes, e a sua ausência cria os tais meninos mimados que se julgam o centro do universo.

Na escola a prevenção continua a não ser devidamente explorada, ao contrário da repressão que até por orientações do estatuto do aluno é mais fácil de implementar, tornando-se visível para toda a comunidade escolar.

Um comportamento desviante quando ocorre tem um motivo, não surge por geração espontânea e é importante diagnosticar a causa, seja: a educação dos e dada pelos pais; o modelo de ensino; o discurso do professor; a falta de empatia; o excesso de horas letivas; o insucesso escolar; a conjuntura sócio-económica; etc.

É por isso essencial que cada um faça a parte que lhe compete, não podemos passar a vida a queixar-nos que existem muitos fogos e que a nossa casa pegou fogo quando o nosso e os terrenos adjacentes estão cheios de combustível.

É aqui que falha a ideologia dos castigos, estes chegam sempre depois mas é no antes que devíamos apostar.

Mesmo assim, haverá sempre alguém que saltará o muro da prevenção, ser criança e adolescente é passar os limites do razoável, mergulhar no lago da insensatez e dar-nos cabo da cabeça… Cabe aos adultos orientá-los até que sejam capazes de alinhar-se com o resto da sociedade, sozinhos e sem barreiras protetoras.

Não sou um romântico ideológico quando à disciplina diz respeito. Os castigos são fundamentais para prevenir situações futuras. Vou mesmo mais longe e afirmo que não faz mal os alunos/filhos sentirem medo, o medo é uma condicionante poderosíssima que em quantidades q.b. pode evitar males maiores.

E mesmo que tenhamos a melhor prevenção/repressão do mundo, haverá sempre aquele que ultrapassará todas as barreiras. (In)felizmente ainda não existe antídoto para a vontade própria e esta pode tornar qualquer um imune a todas as barreiras e orientações.

Não é possível salvar todos, mas é seguramente possível tentar salvá-los a todos…


David Justino diz que a indisciplina é um “problema circunscrito”. Ai é? 2

varrer para debaixo do tapete

Ontem foi apresentado o Estado da Educação pelo CNE referente a 2015. Em vez de vos maçar com 310 páginas de um relatório que basicamente faz uma compilação de dados já conhecidos, mas certamente deu muito trabalho, aponto as vossas energias para a introdução de David Justino.

Como o projeto aQeduto tem vindo a divulgar, os alunos portugueses estão entre os que têm maior percentagem dos que se sentem “felizes” na escola, que têm um bom relacionamento com os professores e onde é mínima a percentagem dos que se sentem “postos de parte”.

Por isso, este perfil é algo contraditório com as representações expressas pelos diretores escolares – reveladas pelo inquérito PISA 2012 – quanto à dimensão dos fenómenos de “indisciplina” e de “falta de respeito”. O problema não é exclusivo das escolas e dos alunos portugueses, encontra-se um pouco das suas expressões nos diferentes países europeus, só que se torna fácil ampliá-lo a partir de casos isolados, de experiências pessoais ou testemunhos dramatizados que transformam um problema circunscrito numa marca generalizada a todo o sistema de ensino.

Sobre a felicidade, o mesmo estudo indica que as crianças finlandesas são “infelizes” na escola…  confesso que estes dados deixam-me simplesmente perplexo levando o meu lado mais mauzinho a questionar a veracidade destes dados. Mas isto é problema meu.

O que me preocupa é a desvalorização que David Justino deu à problemática da (in)disciplina. Tirando o estudo que fiz o ano passado, não existem dados concretos sobre a indisciplina em Portugal dentro das escolas. Talvez o CNE esteja a realizar um estudo sobre o assunto e sabe coisas que nós ainda não sabemos. Se assim for estará de parabéns, mas caso assim não seja, David Justino tira uma conclusão perigosa dando a entender que existe muito fumo e pouco fogo.

O problema é que este fogo arde e arde bem… Lembro que em apenas 4,4% das escolas públicas portuguesas (50 mil alunos) ocorreram mais de 9000 participações disciplinares em 2014/2015 abrangendo quase 5 mil alunos, o que extrapolando para a totalidade das escolas ultrapassa as 200 mil participações disciplinares num só ano… Além disso, os encarregados de educação e diretores escolares apontaram no estudo ComRegras, a indisciplina como um dos principais problemas/áreas a melhorar na educação em Portugal. E se somarmos os últimos dados da Escola Segura (2014) chegamos à conclusão que temos um efetivo problema na escola pública.

( …)participações por violência em ambiente escolar que subiram de 4932 para 5361 (mais 429) – e que foram recebidas no âmbito do programa Escola Segura.(…)

Mas em Portugal é assim que se faz, a indisciplina é sistematicamente desvalorizada, criando nos professores uma sensação de orfandade pois não sentem o apoio das altas individualidades do sistema educativo, nem interesse em resolver o assunto. A indisciplina está associada a inúmeros fatores e causas, sem dúvida, sendo  uma das principais o varrer sistemático para debaixo do tapete.

De facto assim não vamos lá…

1º Estudo Sobre Indisciplina em Portugal com Dados das Escolas

A (in)Disciplina na Família

Palavra aos Diretores e Presidentes de Conselhos Gerais – Inquérito

Queixas por violência no namoro em meio escolar aumentam em 50% num só ano


FNE e FENPROF – Colocam a Indisciplina no Congelador

congeladorEu bem digo que a palavra disciplina deve queimar, já não basta a tutela evitar o assunto, que até os próprios sindicatos não a mencionam quando questionados sobre os problemas das escolas. Estamos a falar apenas de uma das principais preocupações da comunidade educativa, referida por pais aqui, diretores e presidentes de conselhos gerais ali e professores acolá.

Talvez a tutela e os sindicatos saibam alguma coisa que eu não sei e os problemas disciplinares vão desaparecer assim como que por artes mágicas. Ou será o seu afastamento das salas de aula a falar por si?

De estranhar também o “esquecimento”, sim, só pode ser esquecimento, do congelamento das carreiras, é que já lá vai tanto tempo que até parece uma penalização adquirida.

Não fará sentido colocar este assunto na linha da frente, numa altura em que se começa a falar do orçamento de estado para 2017?

Para a próxima vez, recomendo uma listinha daquelas que levamos para as compras, assim não se esquecem de nada… Ok?

O Mário Nogueira Está Feliz e Radiante

(DeAr Lindo)

O Arranque do Ano Lectivo Visto pela FNE

(DeAr Lindo)

Descongelaram e não nos Informaram

(O Meu Quintal)

ME quer reduzir o número de alunos por turma, mas precisa de conhecer o seu impacto… pedagógico??? 2

Foi o estudo desta casa que despoletou esta conversa da redução de alunos por turma. Lembrando alguns números…

DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2014-2015

Total de Participações Disciplinares – 9130

Universo de 38 Agrupamentos/Escolas (4,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Nº de Alunos com Participações Disciplinares – 4229

Universo de 34 Agrupamentos/Escolas (3,9% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas – 4554

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas – 1597

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias – 1333

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias (vulgo suspensão) – 847

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Segundo o Ministro…

O Ministério da Educação está a estudar a possibilidade de reduzir o número de alunos por turma, revelou esta sexta-feira o ministro Tiago Brandão Rodrigues. Falta “perceber a latitude de uma medida desta natureza não só financeira como pedagógica“, explicou.

Invocar questões financeiras é algo que até consigo compreender, agora incluir questões pedagógicas, é algo que não faz qualquer sentido. É de senso comum, que ter menos alunos por turma, permite um trabalho muito mais eficiente por parte do professor, pela simples razão que este terá de dividir a sua atenção por menos alunos. A nível disciplinar é de elementar compreensão que menos alunos criam menos problemas, pelo menos teoricamente. Logo, maior acompanhamento, menos problemas disciplinares, aumentam seguramente as probabilidades de sucesso.

Só que as questões disciplinares continuam a ser tema tabu lá para os lados da 5 de outubro. Apesar de já existirem estudos – e recentes – que mostram que os professores, os pais, os diretores e até os presidentes de conselhos gerais, têm na disciplina o, ou um dos maiores problemas escolares, este continua a não ser assumido publicamente. Reparem que a palavra disciplina nunca, mas nunca é referida… E o que não é assumido, dificilmente será resolvido.

Houve dinheiro para aumentar a carga letiva das disciplinas de matemática e português porque se reconheceu problemas nessas áreas, os problemas disciplinares são muito reais, e principalmente reais para quem quer ensinar/aprender e não consegue em virtude do barulho que persiste, dos papeis que voam, ou dos alunos que não permanecem sentados, entre muitas outras coisas… Mais do que uma questão financeira é uma questão de prioridades, de estabelecer prioridades, e a disciplina é uma questão prioritária, assumam-na de vez!

Os números não mentem e o gráfico que se segue é mais um exemplo do que está a acontecer. E lembro que basta um aluno para dar cabo de uma aula…

Perc Alunos P.D

Universo de 23 Agrupamentos/Escolas. Cerca de 30 mil alunos.


Sobrevivi à colher de pau. E tu?

Também pertencem ao clube? Então conhecem a sensação “maravilhosa” da pancada seca e do ardor que perdurava durante alguns minutos…

colher de pauAté já sabia como me defender, utilizava o cotovelo para o embate e tcharam, de uma colher surgiam duas, foi provavelmente a minha primeira aula de matemática… 😉

Acredito que numa casa com 3 rapazes, não fosse fácil para a minha mãe lidar com a energia em formato red bull, mas segundo as suas palavras, a sua versão era bem mais soft que a dos seus pais.

Traumas?

Nenhum, também era um momento raro diga-se a verdade. Naturalmente que não sou apologista da medida, até porque ainda me lembro do sabor da madeira no braço. Na minha casa a colher de pau só tem, e só terá, um único objetivo, mexer a comidinha…

O estudo que realizei prova que ocorreu uma evolução na forma como lidamos com a rebeldia infantojuvenil. De 62% de encarregados de educação que responderam que seus pais lhes batiam, “apenas” 26% assumiu que ainda utiliza o “bater” como forma de corrigir comportamentos. E coloco a palavra apenas dentro de aspas, pois estamos a falar de quase 30% dos pais que assume bater nos seus filhos.

Existe uma tendência, no meu ponto de vista uma feliz tendência. A agressão é cada vez mais vista como algo inaceitável e intolerável, quer em casa, quer na escola. Aliás, na escola esta foi simplesmente banida, e apesar de alguns colegas deixarem fugir a mão, principalmente em idades mais jovens, trata-se claramente da exceção (assim espero). Sim, sei que uma palmada no momento certo dá muito jeito e já por diversas vezes assisti a comportamentos que eram rapidamente erradicados com uma “bela” palmada e se calhar o respeito que seria imposto – a palavra imposto não é por acaso – tornaria o rebelde num bom amigo.

A autoridade deve ser conquistada pela competência, pela hierarquia familiar e pela relação que se estabelece com terceiros. A violência não é solução, não pode ser a solução. Não sou fundamentalista quanto à questão, mas a exceção não se pode tornar a regra. A educação é um imperativo social, mas educar como se educa também o devia ser.

Mas a indisciplina não está a aumentar? Não seria melhor voltarmos ao antigamente?

Gostariam de voltar?

A colher de pau que fique no tacho e não no meu braço. O que se passou comigo e certamente com alguns de vós podia ter sido diferente e acredito que hoje teria os mesmos princípios e valores.

O autoritarismo do punho precisa de ser erradicado e se a indisciplina permanece em determinados contextos familiares, é por manifesta incompetência parental de quem não sabe educar sem ser pela “porrada”. O que falta nessas famílias é estrutura social e emocional, em resumo o que lhes falta é educação.

As crianças são imitadores perfeitos de seus pais. Todos estalos, pontapés, murros e palmadas que dão aos vossos filhos, saibam que estarão também a dar aos vossos netos. Nessa altura se calhar não vão achar muita graça e a culpa não será apenas de quem bate, a culpa é principalmente de quem lhe ensinou…

 

bater gráfico


Boas Práticas | III Jornadas Pedagógicas do Agrupamento de Escolas Monte da Lua – Sintra

O Agrupamento de Escolas Monte da Lua teve a amabilidade de fazer um resumo das suas jornadas parlamentares com o tema Indisciplina, o antes e o depois… perspetivas de sucesso. Uma boa prática de uma escola que está atenta e que procura soluções para um problema transversal. Parabéns!

III Jornadas Pedagógicas AGML

Indisciplina, o antes e o depois… perspetivas de sucesso

Foto1Pensar a educação, nos dias que correm, passa, quase necessariamente, por analisar a indisciplina como uma das condicionantes que mais afeta a ação dos educadores, daí a pertinência do tema das III Jornadas Pedagógicas AGML – “Indisciplina, o antes e o depois… perspetivas de sucesso”, realizadas no auditório da Escola Secundária de Santa Maria, no dia 8 de julho.

O tema ganha maior relevância no caso português, já que, como o comprovam dados da OCDE, relativos a 2013, o tempo efetivo de ensino/aprendizagem é afetado, de modo muito significativo, pelo tempo gasto pelos docentes a manter a ordem na sala de aula.

As duas representações iniciais, feitas por alunos do 1º ciclo (“Crescer em harmonia”) e do ensino secundário (“Nós somos a escola”), deram o mote ao tema das jornadas, mostrando, de forma lúdica e muito expressiva, como o clima propício à aprendizagem, que se espera poder encontrar na escola, pode ser afetado pela indisciplina.

As intervenções que se seguiram, com abordagens plurais da indisciplina enquanto fator indissociável do sucesso educativo, permitiram o tratamento holístico da questão que a Diretora do AGML apresentou como objetivo deste encontro de partilha de experiências de quem lida diariamente, no concelho de Sintra, com crianças e jovens alunos, no dizer do vice-presidente da Câmara Municipal de Sintra, “a mais alta tecnologia que existe no mundo”.

Após a apresentação da experiência inovadora sobre “o antes e o depois” da indisciplina no AE de Carcavelos pelo seu diretor, Adelino Calado, para quem, muitas vezes, “o ensino aos alunos do século XXI é feito em escolas do século XX com métodos do séc. XIX”, a doutora Raquel Santiago enfatizou a importância da intervenção precoce e do envolvimento das famílias na prevenção da indisciplina, bem como o desafio que é para o educador a descoberta das causas da agressividade, quer ativa, quer passiva, dos alunos, de modo a que, invertendo o ciclo do conflito, aquele consiga reagir “como um termóstato”, que controla e regula os comportamentos, e não “como um termómetro”, que apenas mede a temperatura.

foto2No debate que se seguiu, ficou clara a diversidade de perspetivas acerca da indisciplina e das suas possíveis causas e formas de remediação ou superação: o professor doutor Santana Castilho, depois de afirmar que a indisciplina é essencialmente “uma questão política”, referiu que ela se pode associar a uma certa ideia, errada mas muito em voga, de que o estudo realizado na escola se faz sem esforço, trabalho e disciplina, sublinhando a necessidade de promoção de uma cultura de responsabilidade, sem contemporização dos comportamentos que contrariem a missão primordial da escola, que é “ensinar e mediar aprendizagens”; por outro lado, a professora doutora Celeste Simões, que reforçou a importância da resiliência, e a doutora Susana Amaral, ao sublinhar a psicologia positiva, apresentaram uma outra vertente de abordagem do tema.

À tarde, a professora doutora Carolina Carvalho, apoiada em dados de investigação, recordou as diversas significações da indisciplina, nomeadamente no ponto de vista do docente, sublinhando que aquela resulta essencialmente de um “problema de relação e de mensagem”, cuja resolução passa pela corresponsabilização de todos os intervenientes no processo. Por fim, seguiram-se as salas de partilha, onde, em pequeno grupo, se trocaram experiências quanto à forma de lidar com situações de indisciplina.

Destas jornadas, cuja continuação foi anunciada para setembro pela diretora do AGML, ficou, na numerosa assistência, a consciência reforçada da pluralidade de aspetos associados à indisciplina, bem como a necessidade de uma atitude informada e sem tibieza por parte dos educadores, que, de modo a cumprir a sua tarefa, deverão combater a insensatez que é, tal como lembrou Einstein, “insistir em agir sempre da mesma maneira e esperar resultados diferentes”.

O8 de julho, Escola Secundária de Santa Maria – Sintra

Rui Ferreira

foto3


O Estudo ComRegras “A (in)Disciplina na Família” na comunicação social.

jornais

A força da LUSA (jornalista Cecília Malheiro) tem este efeito, mesmo que ocorra em modo “copy paste”. Realço o jornal Público que fez uma notícia própria sobre o estudo no qual destaco o seguinte:

De regresso à percepção da indisciplina nas escolas, o também autor do blogue ComRegras, onde este estudo pode ser consultado, considera que às diferenças registadas quando se olha para a escola dos filhos ou para as outras no geral “não será alheia a influência da mediatização deste assunto em detrimento das práticas positivas realizadas” nos estabelecimentos escolares.

Mas esta poderá ser uma percepção enganosa, como mostra um estudo de Março promovido por Alexandre Henriques sobre a indisciplina na escola, realizado em 4,4% dos agrupamentos escolares, num universo de 50 mil alunos. “O número de participações disciplinares (ordem de saída de sala de aula) é claramente elevada, são mais de 9 mil participações em apenas 4,4% dos agrupamentos/escolas em Portugal, o que extrapolando para uma amostragem a 100%, levaria a um número superior a 200 mil participações disciplinares num só ano”, comentou então o autor do blogue ComRegras, para quem a indisciplina na escola é mesmo o principal problema do sistema educativo português.

Parece um contradição mas não é. Existe uma elevada taxa de indisciplina nas escolas portuguesas, verdade, e a mediatização de várias ocorrências fomenta essa mesma opinião. Mas o facto do perfil dos alunos deste estudo não evidenciar problemas disciplinares e revelar até bastante sucesso, inclina a opinião do encarregado de educação para que na escola do seu educando a indisciplina seja menor. É que a opinião dos encarregados de educação baseia-se principalmente no que lhes é dito em casa e se há algo que eu já aprendi ao longo dos anos, é que nós adultos, somos muito mais exigentes nos padrões de desempenho e comportamento.

Para os pais a indisciplina mora sempre na escola ao lado

(Público Clara Viana)

Maioria dos pais com curso superior ajudam filhos nos trabalhos de casa

(Diário Digital | Sapo – Susana Krauss)

Quarto desarrumado e telemóveis no centro das discussões entre pais e filhos

(TVI 24)

“Larga o telemóvel e faz a cama!”

(TSF)

Porque discutem pais e filhos?

(DN)

Quarto desarrumado e uso de telemóveis são principais causas de discussão entre pais e filhos

(Observador | Público)

Veja se estas são algumas das razões pelas quais discute com os seus filhos

(JN)

Discussões entre pais e filhos

(Economia PT)

E no blogue Atenta Inquietude

A Ajuda dos Pais nas Tarefas Escolares

(José Morgado)

Podem consultar o estudo completo aqui

*Artigo atualizado se se justificar.