Disciplina


Currículo e comportamentos 2

Se, na semana passada, perspectivei relações entre a gestão flexível do currículo e os comportamentos escolares, por via de dinâmicas e da gestão de interesses, hoje retomo o tema, ainda que com alguma alterações.

Sendo este blogue, no seu espírito inicial, um blogue em torno dos comportamentos e da indisciplina, será normal que possamos perspetivar as diferentes dimensões, fatores e circunstâncias que interferem, condicionam ou relacionam um e outro. Considero como um desses elementos o currículo escolar. Considero que este interfere e condiciona o conjunto de comportamentos escolares, fruto do seu equilíbrio (entre áreas e saberes) como da sua organização e estrutura (disciplinas alvo de avaliação externa e preponderâncias de sucesso). É com base no currículo, no conjunto de saberes e das formas como eles são veiculados, que decorrem relações de maior ou menor tensão, de maior ou menor despique (e, simultaneamente, se perspetivam dimensões tecnocráticas ou humanistas – brinquem, brinquem).

Assumo, como ponto de partida, que os comportamentos escolares se têm alterado. Mais desordeiros, mais instáveis, mais truculentos, mais desafiantes do ponto de vista da relação de sala de aula. Oscilam entre uma aparente conformidade, marcada muito pela indiferença e pelo alheamento ao que se passa em contexto de sala de aula e uma permanente disputa, senão quase que um confronto entre partes que, sendo assumidamente diferentes em si, se confrontam num cara a cara, no frente a frente.

Por outro lado, considero privilegiadamente as situações de disciplina em detrimento da indisciplina em si mesma. Isto é, o trabalho na escola e em sala de aula remete para situações desequilibradas porque hierárquicas e funcionais. Quando em confronto (muitas vezes por questões de recusa dessa hierarquia ou dessa funcionalidade) espoleta-se uma situação que muitos designam como indisciplina, por que assente na recusa de um modelo, no confronto e contestação de uma ordem.

É possível, quanto desejável, criar a relação entre currículo e comportamentos escolares, considerando que a sua relação se posiciona no patamar de fomentar ou dissuadir factores de tensão. Nomeadamente quando o currículo se apresenta, como tem sido o caso nos últimos anos, desde, pelo menos, o decreto lei 139/2012, manifestamente desequilibrado, no meu entendimento (⅓ é para português e matemática e o restante para as demais o que faz com que na área social – história e geografia – cada disciplina não tenha mais de 7% dos tempos letivos e as ciência naturais se fiquem pelos quase 10%.)

Se considerarmos o 3º ciclo do ensino básico, onde as situações de indisciplina são mais frequentes, de acordo com estudos deste mesmo blogue, poder-se-á aceitar que para isso muito contribuirá o desinteresse, a indiferença, o alheamento dado por um conjunto de disciplinas que saturam, destacam dificuldades pessoais e se assumem como elementos de insucesso (consequentemente de desinteresse, indiferença, alheamento).

A proposta que se apresenta, sem ser o ai jesus de coisa nenhuma, nem o comprimido milagroso que muitos ambicionam, poderá criar equilíbrios onde antes não existiam e, desse modo, garantir uma outra (con)vivência em contexto escolar. Assim o espero.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas, 20 de fevereiro, 2017;

Imagem daqui.


Flexibilidade curricular e comportamentos escolares 1

Tudo aponta para que, no próximo ano letivo, se implemente a gestão local e flexível do currículo escolar – considerem-se as palavras do secretário de estado e vejam-se as notícias, por exemplo, 1 e 2.

Antes da escrita dois pontos prévios. Um primeiro para dar conta que estou de acordo com a proposta. Nem coloco o mas, nem meio mas. Os currículos devem ter, em meu entendimento, uma componente nacional e uma componente local/regional. Componente que as escolas (entendam-se os professores, os pais e a comunidade) devem identificar como essenciais para a consolidação de vivências coletivas, da preservação da memória local, dos processo de articulação dessa memória local no contexto nacional (e europeu). E temos bons exemplos (com resultados) oriundos daquela que foi a área escola ou o trabalho de projeto.

Enquanto segunda nota, não vale a pena falarmos das coisas sem saber de que coisas falamos nós. Assim, entendo currículo na esteira de Pacheco (2011, Currículo: entre teoria e métodos. Cadernos de Pesquisa, 39 (137), pp. 383-400) que considera o currículo «como um projeto construído na diversidade e na pluralidade não só na abordagem do conhecimento escolar, mas, de igual modo, no desvendamento de certos processos e práticas de poder e de padronização cultural que existem no interior das escolas». Este o meu entendimento de currículo, na sua plena articulação (plural e diversa) entre conteúdos, estratégias de articulação desses conteúdos e métodos de avaliação.

Deixados os pontos prévios, considero que a flexibilidade curricular é uma das estratégias de definição de novos/outros mecanismos de regulação dos comportamentos dos alunos. Mais que medidas instrumentais, que visam a punição de uma situação, a correção de uma atitude, gerir o currículo implica envolver parceiros, considerar o aluno como um sujeito do trabalho e não mero objeto de intervenção educativa e/ou escolar.

Quero com esta ideia defender e afirmar que se existem alunos assumidamente desrespeitadores de regras e modelos de vivência social, a grande maioria limita-se a expressar o seu desinteresse perante tudo e todos, a dar conta do alheamento em relação às disciplinas, a ser e a mostrar a sua indiferença ao que se passa, essencialmente, em contexto de sala de aula. Ou seja, a maioria dos alunos mais não faz que assumir, à sua maneira e dentro das suas condições, a contestação às regras e aos  modelos, padrões e valores sociais que a escola e a sala de aula veiculam.

Adaptar o currículo (desde a história local, à matemática para a vida, passando pela cultura e diversidade de fauna e flora ou da organização do território) permitirá criar estratégias de envolvimento e implicação do aluno nas suas tarefas, na definição dos seus objetivos, na criação dos seus interesses e sentidos pessoais, participar no planeamento da sua ação e do seu interesse. Se o aluno for envolvido nesta estratégia, se nela participar enquanto elemento ativo estou certo que as situações relativas à indisciplina serão minimizadas e os comportamentos assumidamente mais assertivos.

A pior política de flexibilidade curricular poderá decorrer das situações em que se tenderá a disciplinarizar essa flexibilidade, a fechar e compartimentar, seja em sala de aula seja por questões de mera circunstância, a possibilidade de diversidade e de assumir a pluralidade de interesses e de dimensões envolvidas.

Não escondo que é um desafio. Para os professores, mas, muito particularmente, para os diretores que deverão criar e implementar estratégias de flexibilização e orientar o trabalho dos professores para o envolvimento e participação daqueles que muitas vezes, o mais das vezes, são meros objetos da ação escolar, os alunos. Se assim acontecer, é uma oportunidade de gerir comportamentos, dar conta da indisciplina, criar outros limites aos comportamentos escolares.

Um feliz dia dos namorados. A paixão faz falta.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas.

13 de fevereiro de 2017


Disciplina – Reconhecer! Conhecer! Intervir! 4

Os dados que hoje apresentei, à semelhança dos do ano passado, revelam que desconhecemos grande parte do problema disciplinar das escolas. Já o afirmei e reafirmo, Portugal é amador no que à indisciplina diz respeito! A forma negligente como estamos a lidar com esta problemática é potenciadora do seu agravamento, os sinais são evidentes de um aumento da indisciplina e violência escolar. Está na hora de encarar a realidade.

Para mudar o rumo dos acontecimentos, precisamos de passar obrigatoriamente por 3 fases.

Reconhecer

Sem um reconhecimento da sociedade dificilmente mudaremos alguma coisa. A tutela julga que tutorias com 10 alunos, um estatuto do aluno mais punitivo e equipas multidisciplinares (que não passam na grande maioria dos casos de teoria legislativa), é o suficiente para alterar o que quer que seja. Portugal tem um problema efetivo de indisciplina nas escolas! O fim do observatório destinado para o efeito, é a prova que este assunto não é prioritário e que o “combate” à indisciplina não passa pela sua monitorização. Um erro crasso, que compromete qualquer política a curto, médio e longo prazo.

Como costumo dizer aos meus alunos, o primeiro passo para mudar é reconhecer que algo não está bem, se não fizermos nunca vamos mudar. Quem de direito prefere continuar a “assobiar” para o lado, ignorando, o que na minha opinião, é o principal bloqueador do sucesso escolar. São aos milhares as ocorrências disciplinares, são diárias, estão a esgotar os nossos professores, a perturbar os alunos que querem aprender e a preocupar encarregados de educação.

Uma palavra também para os sindicatos de professores, estes precisam de colocar esta questão na primeira página das suas reivindicações. Se representam efetivamente os professores, deviam saber que esta é uma das suas principais preocupações.

Conhecer

Se queremos “atacar” o problema da indisciplina escolar, temos que conhecer toda a sua dimensão e tipologia. O procedimento é simples, basta os diretores solicitarem os registos disciplinares aos diretores de turma, que por sua vez recebem dos professores, um procedimento banal nas escolas… Depois, basta enviá-los para o Ministério de Educação. Aqui no ComRegras até disponibilizo uma grelha para o efeito e que utilizo na minha escola.

Estamos a falar de algo semelhante ao que os professores fazem com os seus alunos, uma avaliação diagnostica. Após conhecerem o perfil e capacidades dos seus alunos, preparam tudo o resto.

Com os dados recebidos, o Ministério de Educação saberá os distritos onde existem mais problemas, as escolas que mais sofrem com esta problemática, que estratégias implementam, seus resultados, etc. Permitirá também estabelecer paralelos com estatutos sócio-económicos, resultados dos Exames, entre outros… Mas acima de tudo, permitirá acompanhar a evolução da indisciplina em Portugal.

Os dados que são conhecidos em diversos estudos, baseiam-se em sensações/opiniões, não em dados concretos. E os dados apresentados pelas forças de segurança, não expõem o que se passa dentro da sala de aula. Esta é uma falha grave, facilmente resolúvel, pois até um professor qualquer de um blogue qualquer conseguiu apresentar dados efetivos.

Intervir

Com o diagnóstico feito, temos tudo para implementar um plano de ação, cada escola conhecerá as suas especificidades e poderá aplicar esse conhecimento na criação de uma estratégia optimizada. Naturalmente que deverá ser respeitada uma desejável autonomia escolar, a tutela poderá dar orientações gerais e atribuir recursos ajustados ao perfil de cada escola.

Como vêem, não estou a falar de apenas atirar dinheiro para cima das escolas, a realidade como sabemos desaconselha essa política, estou a falar de intervir de forma proporcional e ajustada, mas tal só será possível se reconhecermos que existe um problema e verificarmos qual a sua verdadeira dimensão…

Passou um ano e está tudo igual… quantos mais anos passarão até encararmos o problema de frente?

Alexandre Henriques

Leitura recomendada:

Vale a pena ter um Gabinete Disciplinar?

Constituição do Gabinete Disciplinar

Funcionamento de um Gabinete Disciplinar


2º Estudo Sobre Indisciplina em Portugal com Dados das Escolas (2014-2016) 12

Pelo segundo ano consecutivo o ComRegras apresenta um estudo que visa mostrar um pouco da realidade escolar ao nível da indisciplina. Trata-se de dados reais do interior das escolas, classificados por participações disciplinares (ordens de saída de sala de aula), medidas corretivas (conhecidas por atividades de integração) e medidas sancionatórias (vulgo suspensões da escola).

A todas as escolas que colaboraram e confiaram no ComRegras, o meu muito obrigado.


Ficha Técnica

Universo – Agrupamento de Escolas e Escolas não Agrupadas Públicas de Portugal.

Amostra – Aleatória e estratificada. A amostra contém um total 47 Agrupamentos de Escolas / Escolas não Agrupadas, o que equivale a 53664 alunos.

Técnica – Inquéritos enviados por correio eletrónico para todos os Agrupamentos de Escolas e Escolas não Agrupadas de Portugal, tendo o trabalho de recolha ocorrido entre os dias 18 de outubro de 2016 e 27 de janeiro de 2017.

Responsabilidade do estudo: Professor Alexandre Henriques com o apoio da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP)


Caracterização da Amostragem:


DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2015-2016

Total de Participações Disciplinares – 11127

Universo de 47 Agrupamentos/Escolas (5,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas)

Extrapolando para a totalidade dos Agrupamentos/Escolas – 206 055 Participações Disciplinares

Nº de Alunos com Participações Disciplinares – 4417 (8,23%)

Universo de 45 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas – 6541

Universo de 46 Agrupamentos/Escolas (5,3% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas – 2782 (5,18%)

Universo de 45 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias – 1496

Universo de 46 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias – 1142 (2,13%)

Universo de 46 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)


EVOLUÇÃO DA INDISCIPLINA EM 2014/2015 E 2015/2016

(Universo de alunos: 2014/2015 – 35483 | 2015/2016 – 35141)

* o universo de alunos é inferior, pois das 47 escolas, apenas 32 apresentaram dados referentes aos dois anos letivos.


À semelhança do ano passado, foram colocadas duas questões aos diretores.


Conclusões:

Entre 2014-2015 e 2015-2016, os dados de indisciplina escolar subiram em todos os parâmetros: participações disciplinares, número e percentagem de alunos com participações disciplinares, medidas corretivas, medidas sancionatórias, número e percentagem de alunos com medidas corretivas e sancionatórias.

As escolas raramente utilizam as medidas sancionatórias como estratégia para corrigir/punir comportamentos. Implicitamente podemos concluir que as situações de indisciplina mais gravosas são pouco frequentes.

A indisciplina é transversal à maioria das escolas, mas foram as escolas dos grandes centros as que apresentaram valores mais elevados de indisciplina.

Foi no 3º ciclo e 2º período onde ocorreram mais registos de indisciplina no ano letivo 2015/2016.

As escolas apresentam formas distintas no registo de situações disciplinares.


 

Propostas para reduzir os índices de indisciplina

Criar um sistema de monitorização informática, que recolha os dados disciplinares de todas as escolas portuguesas (ex: utilizar o MISI);

Dar formação/orientação aos Diretores Escolares, a fim de uniformizar critérios disciplinares;

Desburocratizar o estatuto do aluno, os procedimentos disciplinares são  muito formais, tornando a escola uma espécie de “tribunal dos pequeninos”.

Incluir na formação de base de futuros docentes uma componente teórico-prática de gestão/mediação de conflitos;

Fornecer ao corpo docente e não docente, atualmente no ativo, formação específica sobre como gerir/mediar situações de indisciplina escolar;

Atribuir um crédito horário às escolas, especificamente para a abertura de Gabinetes Disciplinares (equipas multidisciplinares), fundamentais para uma política disciplinar de proximidade e consequente prevenção;

Reduzir a carga letiva dos alunos e dimensão das turmas;

Simplificar os percursos alternativos, dando-lhes uma forte componente prática, reduzindo a sua carga letiva e apostando na formação cívica destes alunos.

Apostar num regime de co-docência em turmas de maior insucesso escolar e/ou com problemas comportamentais.

Reforçar os meios de estruturas colaborativas e técnicos nas escolas (ex: Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e psicólogos)

Ajudar os encarregados de educação a lidar com os filhos que apresentem elevados níveis de indisciplina escolar.

Responsabilizar de forma efetiva os encarregados de educação que não cumpram com as suas obrigações, nomeadamente quando não comparecem à escola.

Investir na Escola Pública.


Por vezes os professores perdem a cabeça… 1

Não sou advogado de defesa de ninguém, somos todos grandinhos e devemos responder pelas nossas ações. Se é verdade o que se passou no Agrupamento de Escolas de Pombal é bastante grave e no campo do “suponhamos”, dificilmente o professor evitará uma multa ou suspensão.

Também é verdade que os professores não são máquinas e por vezes é muito difícil, repito, muito difícil, manter o sangue frio para não cometer algo que não desejamos. Quando sabemos que estão a gozar de forma descarada connosco, quando somos insultados, ameaçados, humilhados, provocados e tudo à frente de duas dezenas de alunos, é preciso ir buscar forças não sei bem onde para manter a dignidade e o exemplo. E convém recordar o estado de fragilidade emocional de muitos professores, fruto do burnout e afastamento familiar a que são sujeitos, ano após ano.

Seria curioso ver como reagiriam muitos dos críticos dos professores nestas circunstâncias… Mas apesar das atenuantes que possam existir, no final do dia, um professor não pode perder a cabeça, afinal… ele é que é o adulto…

Nunca direi que desta água não beberei… só espero é nunca ter sede…

Pais acusam professor de agredir criança; escola investiga

(LUSA via Público)

Segundo a mãe:

“O professor foi directo ao meu filho e disse-lhe que ia limpar aquilo com a cabeça e pegou-lhe na cabeça e esfregou-a no quadro. Depois empurrou-o e ele caiu”. O menino foi sentar-se, “pedindo desculpa ao professor”, que, de acordo com Paula Marques, começou a “empurrar a mesa contra a barriga” da criança e “a dar murros em cima da mesa”.

O docente terá voltado ao seu lugar, mas, pouco depois, ter-se-á dirigido novamente à criança e, exaltado, voltou a ter o mesmo comportamento. “Assustado, o meu filho acabou por fazer chichi nas calças. Isto terminou quando uma funcionária ouviu o barulho e chamou a direcção. Foi aí que nos telefonaram”.

Segundo a PSP:

Fonte do Comando da PSP de Leiria confirma que a PSP foi chamada à Escola Marquês de Pombal, “por ter havido desentendimentos entre um professor e um aluno” e, “posteriormente, entre o progenitor desse aluno e o mesmo professor”. No entanto, “ao que foi possível apurar, não terá havido agressões físicas propriamente ditas em nenhuma das ocasiões”, refere a PSP.

O que diz a associação de pais:

manifestou, em comunicado, a sua “preocupação e repúdio pelos actos de violência alegadamente perpetrados por um professor para com um aluno”. “A APP espera que as instâncias competentes averigúem com a maior brevidade os factos e tomem as medidas preventivas adequadas ao caso.

O que vai fazer a direção:

A direcção do Agrupamento de Escolas de Pombal já fez saber ao conselho executivo da associação a intenção de instaurar um processo disciplinar ao professor em causa”.


Professora agredida e direção da escola diz que situação não passa de um boato. 7

Algo de muito estranho se passa na Madeira… há pouco tempo publiquei um artigo onde fiz referência ao trabalho positivo que está na ser feito na ilha ao nível da disciplina. Após a sua publicação, recebi alguns relatos que as coisas não são assim tão cor-de-rosa como se quer pintar.

Hoje enviaram-me esta notícia…

Violência contra professora na Escola do Campanário

(Andreia Ferro – DNotícias)

De acordo com as informações prestadas, a professora lecciona o 7º ano de escolaridade, sendo que durante as suas aulas é alvo de constantes agressões verbais. Aliás, essa violência já terá tomado maiores proporções, com relatos de agressões físicas e de atos de vandalismo contra a viatura da docente. As agressões, diz, partem de uma turma denominada de PCA (Percurso Curricular Alternativo). O colega denunciante afirma que a professora já apresentou queixa na PSP e que o assunto já foi discutido em reuniões na escola, sem que o órgão de gestão tenha tomado qualquer medida. Aliás, afirma mesmo que o Conselho Executivo desvaloriza a situação, sendo que os episódios de insubordinação estarão a alastrar-se a outras turmas dessa escola, com os professores preocupados com esta situação.

 

o presidente do Conselho Executivo da EB23 do Campanário, Inácio dos Santos, que afirmou que esta situação não passa de um boato e disse não ter conhecimento de qualquer queixa relativa a episódios de violência nesse estabelecimento de ensino. Também a Secretaria da Educação foi questionada pelo DIÁRIO sendo que referiu que “as escolas dispõem de competências para lidar com episódios desta natureza. Até ao momento, não chegou qualquer relato sobre o assunto à SRE”.

Alegar desconhecimento é um risco muito grande se houver algum documento que prove o sucedido, uma simples participação disciplinar serve perfeitamente. Espero que a docente o tenha feito, não uma, mas todas as necessárias…

Se é verdade que a direção está a ser negligente, então que se faça queixa à Inspeção e se houver receio de represálias, as denúncias anónimas é para isso que servem…

E reparem bem no comentário à notícia:

Se assim for, estamos perante mais um exemplo da urgência em alterar o modelo de gestão escolar…


Colégio de Gaia proíbe alunos de correr no seu interior. Estupidez ou prevenção? 2

O autor do panfleto que mostro neste artigo deve estar com as orelhas em fogo tal têm sido as críticas ao seu conteúdo.
Sou professor de educação física, por isso a atividade física é um bem que muito prezo e que precisa de ser valorizado no espaço escolar. Mas uma coisa é valorizar a atividade física, outra coisa é colocar em risco a segurança de terceiros. Façamos um pequeno exercício:

Concordam que as crianças corram nos centros comerciais?

Concordam que as crianças corram nos restaurantes?

Concordam que as vossas crianças corram dentro de casa?

Pessoalmente não concordo, não considero o local apropriado e à minha filha digo-lhe logo para parar, pois a probabilidade de chocar com algo ou alguém é elevada. Por isso sou favorável à rejeição de correr no interior das escolas, mas atenção, quando me refiro a interior, refiro-me a debaixo de telha com paredes e tudo.

A verdade é que os alunos quando estão a correr, entram em modo “bip bip”, fazem curvas por dentro, não olham para a frente, vão contra paredes, portas, colegas e professores. Os alunos não têm “carta de corrida”, não conhecem prioridades, não fazem piscas, sinais de luzes e não têm stops… São anárquicos na sua fuga/perseguição!

Se o Colégio de Gaia quis proibir as “corridas indoor”, nada contra, mas se o objetivo é proibir também as corridas no exterior, então algo de muito errado se passa na cabeça de quem os dirige. Ser criança é brincar, correr, pular, saltar, viver… não é ser soldadinho, caminhando organizadinhos, quiçá encostados às paredes. Ser criança é fazer barulho, é testar os limites. É um processo contínuo de aprendizagem que precisa naturalmente de ser orientado e disciplinado. Proibir a essência de ser criança é não compreender a sua natureza e ao ir contra ela, originará certamente indignação e revolta.

Para quem pensa assim, recomendo uns bibelôs de porcelana, sempre estão mais paradinhos…

Sobre as outras proibições: trocar carinhos, usar minissaia e sair nos intervalos. Bem… estamos a falar de uma escola certo? É que começo a duvidar… Sei que há colegas que não aceitam ver um casal de namorados a beijarem-se. Por mim tudo bem, desde que não passem os limites da decência, que fiquem lá a treinar a coordenação bocal que é melhor do que andarem à estalada. Sobre a roupa, é natural haver excessos numa idade onde a afirmação pela imagem é o prato do dia, mas essa naturalidade não significa ir para a escola com o “natural” à mostra… E quanto às saídas nos intervalos, nas escolas públicas os pais autorizam ou não a saída dos alunos, se ainda não é essa a prática no Colégio de Gaia, fica a proposta.

Acima de tudo haja bom senso…

Estudantes proibidos de correr no Colégio de Gaia

(JN – Tiago Rodrigues)


Relembro o jornal Público e a comunidade educativa em geral, do estudo apresentado pelo ComRegras.

O ComRegras tem alertado para este facto e dentro das suas limitações tem feito um trabalho que deveria ser da responsabilidade do Ministério de Educação. Não são dados oficiais, mas são dados fidedignos e que vieram diretamente das escolas.

DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2014-2015

Total de Participações Disciplinares – 9130

Universo de 38 Agrupamentos/Escolas (4,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Nº de Alunos com Participações Disciplinares – 4229

Universo de 34 Agrupamentos/Escolas (3,9% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas – 4554

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas – 1597

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias – 1333

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias (vulgo suspensão) – 847

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Podem consultar o resto do estudo apresentado no ano passado aqui


Em breve irei apresentar os dados relativos ao ano passado.


5051 Crimes nas Escolas em 2015/2016. Mas afinal, o que é a escola? 1

crimeOs anos vão passando e a criminalidade escolar vai aumentando!

O que é a escola? Para que serve a escola?

Qualquer pessoa racional diria que a escola é um local de aprendizagem, que prepara os alunos para a sociedade. Para muitos alunos, a escola é um espaço onde se cometem crimes, onde se propaga o seu negócio paralelo e onde os professores são o empecilho à anarquia pretendida.

Na escola não devia haver crimes, na escola é suposto frequentarem crianças e jovens e estas não deveriam ser criminosas. A escola é por isso, para muitos jovens, o berço da criminalidade. E se a escola é o berço da criminalidade, até que ponto estamos a lidar com ela da melhor forma? Devíamos ser mais ou menos tolerantes? Devíamos aceitar ou não que estes jovens frequentem o mesmo espaço de outros que encaram a escola como A ESCOLA? Deverá a imputabilidade começar aos 16 anos? Serão estes dados avisos para o que aí vem?

Mas a pré-criminalidade surge no formato de indisciplina escolar e continuo a afirmar que não se conhece a sua dimensão. Os dados hoje publicados são da PSP (faltam os da GNR), são elevados e pior é que estão a aumentar pelo segundo ano consecutivo.

O ComRegras fez o primeiro estudo sobre indisciplina escolar, a indisciplina dentro da sala de aula, mas foi apenas a ponta do icebergue, daqui a algumas semanas serão publicados os dados referentes ao ano letivo 2015/2016 e a ver vamos como estão as coisas…

O governo diz que vai reativar o grupo coordenador da Escola Segura, faz bem, mas não chega. É imperativo obrigar as escolas a registarem e enviarem para um observatório próprio as situações de indisciplina que ocorrem dentro das salas de aula e (re)conhecer qual a sua tipologia. Estes dados devem ser públicos, salvaguardando a identidade das escolas. A sociedade merece saber o que se passa nas escolas públicas e  merece saber se a indisciplina escolar está a aumentar ou a diminuir.

Continuamos a assobiar para o lado, sem conhecer a dimensão do maior problema escolar da atualidade.

E já que o governo afirmou que vai assegurar a vídeovigilância por mais 3 anos nas escolas, por que não colocar as câmaras também dentro da sala de aula? Podem começar pela minha…

Mais de 5.000 ocorrências criminais nas escolas durante o ano letivo de 2015/2016

(LUSA via RTP)

Governo vai reativar grupo coordenador da Escola Segura

(LUSA via RTP)

Ministério garante videovigilância nas escolas pelos próximos três anos

(Natália Faria e Clara Viana – Público)

 


Dicas para diminuir drasticamente os índices de indisciplina escolar. 2

dicasComo prometido, vamos hoje abordar algumas dicas que reforçam e potenciam a disciplina na escola.

Muito frequentemente ouço que a culpa do estado das (in)disciplinas nas escolas se deve às famílias, à falta de proatividade das famílias e outros tantos argumentos que sustentam “um problema de sociedade sem cura” (será?).

Naturalmente e numa ótica de prevenção, vários estudos indicam que as famílias com menor prevalência de conflitos, revelam determinadas características sociais e contextuais, nomeadamente um envolvimento mais acentuado da figura paterna, uma articulação estreita com a direção da escola e/ou diretor de turma e professores em geral e os pais que se envolvem ativamente nas atividades de lazer e extracurriculares dos alunos. Por isso, sem dúvida que a família e a escola têm responsabilidades compartilhadas na educação e no desenvolvimento dos alunos, sendo essencial a existência de uma comunicação cooperativa entre todos os agentes educativos, pela influência positiva que tal interação tem na melhoria do clima geral da escola.

É fundamental pensar estratégias junto das famílias, mas não nos podemos esquecer do que nós, que estamos nas escolas, podemos fazer também.

A pensar nisso decidi elencar alguns tópicos que permitem pensar e repensar os nossos modelos de ação na escola:

  • Apresentar as aulas com recurso a materiais ou formatos de apresentação apelativos;
  • Cooperar no estabelecimento de regras disciplinares e punições;
  • Proferir com grande frequência elogios e expressar expetativas positivas acerca do desempenho dos alunos;
  • Transformar as aprendizagens em projeto: criar opções e não expectativas.
  • Exigir trabalho regular e planificado (e monitorizar);
  • Não etiquetar alunos como “bons” ou “maus” (evitar comentários tipo “tinhas de ser tu”);
  • Demonstrar aproximação e preocupação pelos problemas dos alunos;
  • Valorizar a sua carreira e opção profissional (investir em competências pedagógicas, interpessoais e sociais);
  • Manter-se calmo, sereno e seguro, no sentido de modelar o comportamento dos alunos;
  • Ser flexível, desde que coerente e estável, na forma de atuação, podendo alguma surpresa no comportamento do professor em relação aos alunos permitir uma maior eficácia na influência sobre estes (por exemplo, o professor pode aproveitar e manifestar humor nalgumas situações inesperadas em vez de se mostrar perturbados com elas);
  • Por vezes é preferível fingir que não percebe algumas situações e deixá-las passar, do que tentar controlar tudo e perder a eficácia de intervenção quando realmente é necessário;
  • Não distanciar-se dos alunos ditos indisciplinados, isto é, só falar com eles quando têm comportamentos inadequados – lembrem-se que nenhum aluno é indisciplinado durante todos os minutos da aula;
  • Atuar no sentido do empowerment dos alunos – mostrar que acredita na capacidade de estes terem resultados positivos;
  • Orientar, valorizar e incentivar à participação dos alunos;
  • Identificar os casos de alunos com problemas familiares e fazer parte da construção de uma solução para o mesmo;
  • Trabalhar em equipa, com partilha de experiências e num clima de autenticidade, empatia e cooperação.

Acima de tudo, o que importa é encontrar uma motivação para nos orientar naquilo que nós acreditamos ser a nossa função enquanto adultos e educadores.

Uma boa semana!


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia

Perdi a cabeça, dei dois estalos aos meus alunos… 6

A situação descrita é uma mera representação da realidade…

vergonhaSexta aula do dia, a voz já derrapava aqui e ali, o barulho do pavilhão era ensurdecedor, a irreverência dos alunos não desarmava, a sua intensidade mantinha-se a níveis estratosféricos. No meio do suor e das bochechas rosadas, dois alunos apresentam uma linguagem corporal semelhante a dois touros enraivecidos…

Ora dá! Vá… Dá lá a ver se és homem!!! 

Vai-te f#der, lá por seres mais alto julgas que és grande coisa!!!

Um empurrão aqui, um encostar de cabeças ali e a coisa estava a segundos de rebentar.

À sua volta, um grupinho de alunos circulava o espetáculo gratuito, incentivando os “galos” como se uma luta de apostas se tratasse…

Hei!!! Parou já!!! Onde é que vocês pensam que estão??? Parou já disse! Querem ir já para a rua???

Começa o processo de culpabilização alheia…

Stôr, foi ele, está farto de me dar cacetada!

Eu??? Tu é que andas a chamar-me nomes e agora sou eu…

Os “touros” começam a baixar a cabeça, vão levantando poeira com os seus cascos e pronto, o caldo vai mesmo entornar.

Quando dou por mim, trás… trás…. Tinha a mão no meio da cara dos alunos, repetia sistematicamente para se calarem e nada, parecia que não estava ali, era completamente invisível… Naquele momento estava cansado, farto do barulho, das infantilidades constantes, da má criação, da total irresponsabilidade, estava acima de tudo farto de ser professor, carregava em mim 6 meses de aulas, todas as manhãs e todas as tardes… 6 meses a resolver quezílias de alunos com alunos, alunos com professores, professores com alunos… A intensidade do toque foi reduzida, a mão distava 3, 4 cm das suas caras, demorou um ápice, um impulso primário que não deveria ter ocorrido, não podia ter acontecido…

O gesto chocou, chocou-os a eles e aos alunos que assistiram, mas acima de tudo chocou-me a mim, como foi possível perder assim a cabeça? Não dou aulas há 1 ou 2 anos, ando nisto há 25… 25 anos a lidar com conflitos… O que se passa comigo?

Sei que tenho sobre mim a ameaça de um processo disciplinar, violei claramente os meus deveres enquanto professor, estou nas mãos dos meus alunos… basta um email, um telefonema, uma carta para a Inspeção e estou lixado. De um lado 25 anos de serviço imaculado, do outro 2 segundos de trás…trás… Curioso como 2 segundos são agora mais importantes que 25 anos…

Se os alunos chegam a casa e contam aos pais já sei que vou ter problemas. Por muito menos os meus colegas já tiveram problemas…

E agora, o que faço?…

Sou professor, só existe um caminho nesta situação, o correto…

Acabou… não admito estas faltas de educação na minha aula, respeitem-se, são colegas, são da mesma turma, são da mesma “família”. Estão a faltar-se ao respeito e estão a faltar-me ao respeito. Façam um favor a vocês próprios, cresçam, tomem atitudes de homens que querem ser e cumprimentem-se num ato de desculpa mutua.

(cumprimentos dados e a aula prossegue)

No final da dita ficam ambos os alunos a falar comigo. Faço o que a consciência me obriga, não por receio mas por sentir que o correto tem de prevalecer.

Olhem, isto hoje correu mal, quer da vossa parte quer da minha… também eu errei, peço-vos desculpa… excedi-me, não queria fazer o que fiz, mas a mão estava no vosso meio e vocês não se calavam. Não posso ter alunos de cabeça perdida na aula… a violência nunca é a solução, quer da parte dos alunos quer da parte dos professores…

Stôr, deixe lá isso, foi merecido…

Sim, nós merecíamos stôr… a coisa descontrolou-se um pouco…

Podia ter ignorado a situação, mas preferi a genuinidade da minha consciência e assumir que também errei. Como posso exigir confiança na minha liderança, respeito na minha autoridade, se depois não assumo o que faço de errado? Liderar por exemplo, assumir as falhas da natureza humana, as minhas falhas, dá-me a possibilidade de conquistar o respeito de quem está a ser preparado para o futuro e precisa de ser ensinado/liderado por mim. A formação cognitiva é importante, mas o que fica para a vida é a formação pessoal, os valores e os princípios…

A humildade é um pilar fundamental na relação humana, a empatia, uma forma de criar pontes e derrubar muros, o reconhecimento do erro, uma manifestação genuína de respeito pelo próximo, seja ele menor, maior, colega, superior hierárquico ou aluno…

Por vezes no erro surge a oportunidade, importa reconhecer essa oportunidade e aproveitá-la sem receios, pudores ou tabus.

Ninguém é perfeito… e não devemos fingir aquilo que não somos, que nunca fomos…


Passar nos corredores e ouvir “vai pró caralho”, assim… tão natural como a sua sede… 26

beber-agua-em-jejumÉ mesmo assim… sem filtros nem letras esquisitas a codificar as vogais para não ferir os olhos. Os corredores das escolas não têm Piiiis, nem reticências nos palavrões, os corredores das escolas não querem saber se gostas ou não do que ouves, se te sentes bem ou mal, os corredores das escolas mostram bem o calibre do vernáculo estudantil.

A falta de pudor em mandar 2 ou 3 “bojardas” atómicas que nos atordoam os sentidos é a norma dos nossos jovens que começa a florescer lá para o 1º ou 2º ano. Na selva dos corredores quem dita as leis não são os professores ou os pais, são os meninos e meninas no seu estado mais puro, no seu estado mais selvagem. Atravessar um corredor cheio de alunos é uma autêntica prova de destreza física, o ziguezaguear entre aqueles que se amontoam, os que se empurram e se movimentam de forma anárquica e aleatória é uma prova de capacidade física que nem sempre é fácil, onde o impacto está bem presente e o “deixar passar” é algo que está ausente, demasiado ausente…

Quantos professores já não fingiram não ouvir os palavrões? Quantos professores não se sentiram pequeninos perante tamanha avalanche de má educação? Falar para quê? De que adianta? Ainda vão gozar comigo depois de passar, pois eu é que sou o “cota”, o “chato”, o “antiquado”…

Hoje foi a minha vez… estava cansado de tanto chamar a atenção… hoje fui egoísta e só quis entrar na sala sem me chatear, sem dizer as frases do costume que de tão repetidas já nem causam impacto…

No espaço de 20 metros ouvi um “vai para o caralho”, um “foda-se”, um “vais violá-la” e um “puta”, assim, tão natural como a sua sede, entre risos de aceitação e de total normalidade…

Os autores desta tempestade literária nem se aperceberam que lá estava, mas o problema é que a minha presença ou a presença de qualquer professor não é garante de uma língua asseada, livre de micróbios linguísticos… A má educação não é apenas uma moda, é uma questão de integração e afirmação social e veio para ficar.

Ano após ano, o alunos vão passando mas o padrão mantém-se: a má criação, os papéis para o chão, a indiferença perante o professor que passa, tudo é normal, tudo é natural e tudo cansa, desgasta e dá vontade de ir embora e não olhar para trás.

A indisciplina é o cancro do ensino, destrói o sucesso, destrói o ambiente escolar, consome professores e mostra a crise de valores que infelizmente não se fica pelos alunos…

Se os pais ouvissem o que os professores ouvem naqueles corredores, corariam de vergonha, ou então talvez não… alguns até se sentiriam confortáveis, adaptados, integrados naquele ambiente, pois seria apenas uma extensão do seu habitat natural, uma extensão do que dizem lá por casa e que é tão bem, demasiado bem repetido, aceite, assimilado, assim… tão natural como a sua sede…

 


Aluna filmada a ser agredida em Palmela

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Este ano ainda não tínhamos assistido a este triste espetáculo. Assim de cabeça lembro-me de alguns vídeos onde os protagonistas são curiosamente raparigas, algo que não acontecia no passado e que prova que a sociedade mudou.

A “autorização” do grupo leva a atitudes cobardes como esta e bofetada atrás de bofetada, torna cada vez mais “aceitável” o gesto em si, num frenesim coletivo ao estilo mais primário.

Mas o que é verdadeiramente lamentável é o(a) cretino(a) que filma toda a cena, deliciando-se com o pior que a natureza humana tem… O que se passa na cabeça destes miúdos???

Que se faça justiça!

Aluna alvo de agressões junto a escola

(Correio da Manhã)

Um vídeo com agressões a uma aluna junto à Escola Secundária de Palmela circulou nos últimos dias nas redes sociais e já é do conhecimento das autoridades. Nas imagens aparecem alunos desta escola e também da Escola Hermenegildo Capelo. Uma aluna é agredida por outra rapariga com uma bofetada e palmadas na cabeça, enquanto outras a insultam e colegas assistem e filmam sem evitar as agressões. “Identificámos algumas alunas como nossas e já falámos com a GNR, que nos disse que os encarregados de educação é que podem fazer queixa por ser fora da escola”, disse ao CM Ana Serra, diretora do Agrupamento de Palmela, onde se insere a escola Hermenegildo Capelo. As agressões terão ocorrido neste ano letivo.

* O ComRegras não publicará vídeos onde se assista a actos de violência.

soluções que são problemas

professor helpRetomo questões relativas aos comportamentos escolares, à dita cuja indisciplina.

As situações que vejo, o que oiço por colegas de outros lados e o que leio por aí levam-me a equacionar algumas questões relativas à forma de gerir comportamentos desajustados. Aquilo que inicialmente foi considerado localmente como solução (a constituição de grupos compostos maioritariamente por alunos em risco) revela-se uma fonte de novos e maiores problemas.

Quando um aluno, por razões diversas (ou mesmo sem razão) se porta mal e o professor não consegue gerir esse comportamento, fazer com que se retome a regularidade da situação e não incomode, o problema, em algumas das situações, é do professor. A autoridade e o poder não se delega, nem se decreta, exerce-se, assume-se. Os professores têm de gerir o conjunto de relações e de dinâmicas que têm pela frente, nomeadamente quando a escola está organizada por grupos/turma. Daí os comportamentos e as situações classificadas como que de indisciplina variarem entre professores. Como variam as suas considerações. Este tipo de situações, que designarei de individuais, porque são fruto comportamentos pontuais e particulares, a sua gestão compete a quem coordena o grupo/turma, na generalidade das situações ao professor.

Outra coisa completamente diferente consiste em assumir, por via de opções de escola, a criação de grupos constituídos por alunos desinteressados, alheados, indiferentes, revoltados, zangados (com tudo e mais alguma coisa), desamparados, desestruturados ou simplesmente mal educados. Juntam-se a esses outros, por simples consideração, de raça ou cultura diferente ou enquadrados institucionalmente como se uns ou outros mostrassem risco de futuro, para além dos simples pré conceitos presentes. Surgem assim e por via de enquadramento legal, os cursos vocacionais, os percursos alternativos, os cursos de educação formação ou os profissionais, entre outras modalidades.

Perante esta composição, reunidos a partir das sobras de diferentes turmas quando não de diferentes escolas, o que era mau num grupo regular torna-se explosivo, pelo efeito de grupo, nas ofertas dita não regulares. O que era de difícil controlo num grupo/turma “normal” torna-se totalmente inviável de gerir em dinâmica de grupo, menos ainda quando um quer falar e outros não querem ouvir. São situações capazes de esgotar a paciência a qualquer santo ou estratega. Nestas situações (fonte e foco do aumento da indisciplina), a culpa não pode ser assacada ao professor. Nestas situações não se pode dizer ao professor, “olhe, desenrasque-se”.

Estas opções não são solução porque, simplesmente, levantam mais e, por vezes, maiores problemas do que aqueles que, pretensamente, visam resolver. A opção da escola e dos seus órgãos de gestão pela constituição destes grupos/turma faz com que as soluções tenham de passar, necessária e obrigatoriamente pela escola. Deixar estas situações à gestão individual do professor é entregar, muitas vezes, a alma (o professor) ao diabo.

É certo que se poderá invocar, “ah e tal a legislação é o que nos permite”. Mas as soluções não poderão (ou não deverão) ser promotoras de mais problemas e, nesse sentido, há que equacionar outros modos, outras respostas ou simplesmente outras formas de apoio e organização do trabalho docente.

Mas não deixem o professor à lei do desenrasca.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas

10 de outubro, 2016


Castigar para mim não é tabu! Nunca foi… 1

Normalmente não faço artigos baseados em comentários do ComRegras, mas vou abrir uma exceção para esclarecer algumas pessoas que possam pensar que sofro de algum tipo de fundamentalismo bacoco e que sou contra os castigos dos alunos.

Não sou, sou até favorável, mas tudo depende do contexto… A imagem em baixo ilustra o minha organização mental sobre o que penso de indisciplina e sua gestão.

prevencao_situacao_repressao_

Não pertenço ao grupo de pessoas que julga que a repressão (castigos) é o expurgatório de todos os males e com esta a indisciplina será uma mera lembrança dos tempos permissivos. Mas também não pertenço ao grupo de pessoas que aposta todas as suas fichas na prevenção, ignorando a repressão como mecanismo corretivo de comportamentos.

As situações de indisciplina ocorrem quando a prevenção falha. Porém, a sua repetição e escalada na gravidade das ações surgem por falhas principalmente ao nível da repressão. O “não”, o castigo, a repreensão, são muito importantes, e a sua ausência cria os tais meninos mimados que se julgam o centro do universo.

Na escola a prevenção continua a não ser devidamente explorada, ao contrário da repressão que até por orientações do estatuto do aluno é mais fácil de implementar, tornando-se visível para toda a comunidade escolar.

Um comportamento desviante quando ocorre tem um motivo, não surge por geração espontânea e é importante diagnosticar a causa, seja: a educação dos e dada pelos pais; o modelo de ensino; o discurso do professor; a falta de empatia; o excesso de horas letivas; o insucesso escolar; a conjuntura sócio-económica; etc.

É por isso essencial que cada um faça a parte que lhe compete, não podemos passar a vida a queixar-nos que existem muitos fogos e que a nossa casa pegou fogo quando o nosso e os terrenos adjacentes estão cheios de combustível.

É aqui que falha a ideologia dos castigos, estes chegam sempre depois mas é no antes que devíamos apostar.

Mesmo assim, haverá sempre alguém que saltará o muro da prevenção, ser criança e adolescente é passar os limites do razoável, mergulhar no lago da insensatez e dar-nos cabo da cabeça… Cabe aos adultos orientá-los até que sejam capazes de alinhar-se com o resto da sociedade, sozinhos e sem barreiras protetoras.

Não sou um romântico ideológico quando à disciplina diz respeito. Os castigos são fundamentais para prevenir situações futuras. Vou mesmo mais longe e afirmo que não faz mal os alunos/filhos sentirem medo, o medo é uma condicionante poderosíssima que em quantidades q.b. pode evitar males maiores.

E mesmo que tenhamos a melhor prevenção/repressão do mundo, haverá sempre aquele que ultrapassará todas as barreiras. (In)felizmente ainda não existe antídoto para a vontade própria e esta pode tornar qualquer um imune a todas as barreiras e orientações.

Não é possível salvar todos, mas é seguramente possível tentar salvá-los a todos…