Disciplina


Deve a família e a escola ser responsabilizada quando um aluno agride um professor? 2

A questão do reforço da autoridade do professor, tem de passar invariavelmente pela consequência dos atos que ocorram contra estes. A sociedade está moldada para funcionar consoante as penalizações, estas estão por todo o lado e é estranho que a “futura sociedade” -a escola- fique de parte da realidade nua e crua. Não quer com isto dizer que a prevenção deva ser ignorada, a prevenção continua a ser o melhor remédio, mas um equilíbrio entre ambas, temperada com um elevado sentido de justiça e imparcialidade, trará seguramente bons resultados.

No Brasil, após anos e anos de violência contra professores – lembro que o Brasil está no topo da violência contra professores -, está a ser cozinhada uma lei, que responsabiliza os familiares (pais) e a escola sempre que um menor agride um professor. A questão dos pais não é nova, mas a questão da escola é seguramente algo novo e que confesso nunca me ter ocorrido.

O que pensam sobre o assunto? Concordam com a proposta apresentada (ver em baixo)? Consideram excessiva? Desajustada à realidade portuguesa? Ou estamos perante uma boa ideia, que iria inibir a violência contra professores?

Lei prevê punição à família de aluno que agredir professor em MT

(Globo)

Os pais de alunos menores de idade que agredirem professores da rede pública estadual de Mato Grosso deverão responder pelo ato, assim como o menor de idade e a instituição de ensino. A punição está prevista em uma lei sancionada que foi proposta pelo deputado Sebastião Rezende (PSC). A legislação institui uma política de prevenção à violência contra profissionais da educação.

A forma como a lei será aplicada e os detalhes a respeito da punição ainda precisam ser regulamentados.

A legislação foi publicada no Diário Oficial com data de 26 de dezembro de 2016, e sua proteção se estende também a dirigentes, inspetores, supervisores, orientadores educacionais e coordenadores pedagógicos das escolas.

Caso comprovado ato de violência contra o Profissional do Ensino que importe em dano material, físico ou moral, responderão solidariamente a família do ofensor, se menor, o ofensor e a instituição de ensino“, diz o artigo 5º da lei sancionada.

Conforme a proposta, o estudante que cometer agressão contra o professor terá que afastado de forma temporária, conforme a gravidade do ato, e ser transferido para outra escola, como forma de medida de segurança e proteção ao educador.

A vítima agredida deverá procurar a direção escolar para que esta tome providências. Caberá às escolas, por sua vez, adotar medidas preventivas e corretivas para situações em que seus profissionais de ensino sejam vítimas de violência ou estejam em situação de risco.

Em 2015, uma professora de 45 anos foi ferida nas costas com um golpe de canivete por um aluno de 14 anos em sala de aula. O ato de violência foi cometido no município de Nova Bandeirantes, a 980 km de Cuiabá.

Como seria de calcular, este assunto está mesmo a pedir uma sondagem. Votem e partilhem s.f.f. Obrigado.


Em legítima defesa | “Professores fomentam a indisciplina?” 1

Assim não vamos lá… Enquanto surgirem artigos que preferem apontar o dedo, descarregando a sua frustração para com uma parte da solução, a indisciplina irá brotar, crescer e enraizar-se na escola e sociedade. Os professores não têm como sua principal função, disciplinar ou educar alunos. Se os alunos entrarem na sala de aula com o objetivo único de aprender, o processo de ensino-aprendizagem decorre sem problemas.

Sei que muitos pais leem o ComRegras, e sei que muitos pais preferem assumir a sua responsabilidade em vez de apontar o dedo aos professores. Estes têm naturalmente que aplicar estratégias preventivas e dissuasoras na sala de aula, mas engane-se quem pense que o problema termina aqui. Por isso,  permita-me a senhora que escreveu este texto que lhe diga o seguinte:

lembre-se que os professores não foram formados para lidar com selvagens ou energúmeros. Estes são lançados às feras e sobrevivem com a experiência adquirida, isto para quem já a tem…;

lembre-se que os encarregados de educação fazem parte da escola, escrever um artigo duríssimo contra os professores, ignorando por completo o papel dos pais, é não entender que a indisciplina escolar é o reflexo de inúmeras variáveis, sendo uma delas e como é óbvio, a falta de educação parental;

lembre-se também que não é da competência dos professores punir os alunos, as escolas devem ter uma estratégia, preventiva e punitiva, mas cabe aos diretores esse papel, além de apoiarem os seus professores numa tarefa tão difícil e extenuante;

e por fim, lembre-se que atacar um aliado, apenas dará mais força ao “inimigo”, dividir para reinar nunca nos levou a lado nenhum, e não me parece que o seu artigo fomente um processo de cura, mas sim o abrir de uma ferida que sangra há já demasiado tempo.

 

Eis o texto publicado no DNotícias da Madeira.


Professores fomentam a indisciplina?

Venho, na qualidade de mãe e encarregada de educação, expor publicamente a minha indignação em relação ao que se passa nas escolas e em particular na escola básica dos 2º e 3º ciclos do Campanário.

Já há algum tempo que, é do conhecimento público a existência de comportamentos arruaceiros, por parte de alguns alunos da referida escola. Contudo, não há a informação de que os professores tenham adotado medidas punitivas, no sentido de corrigir tais comportamentos, e de prevenir que outros alunos sigam estes exemplos. Ao que me parece e muito me preocupa, como mãe e encarregada de educação, muitos destes comportamentos ainda são encobertos para proteger a imagem da escola e de quem lá trabalha!

É do meu conhecimento que se realizaram algumas reuniões para discutir os castigos a aplicar, aos alunos que infringem as regras. No entanto, não se aplicam corretivos a todos, nem aos que apresentam comportamentos de maior gravidade! Adotaram-se medidas infantis em alunos juvenis, que já há muito sabem distinguir o certo do errado! Ainda se fizeram desaparecer faltas de alunos que, algumas vezes, saíram da sala de aula por ordem dos professores! Pergunto eu: como fica a autoridade e o respeito que se deve a um professor? Será que não estão a contribuir para a formação de pequenos déspotas? Vão ficar à espera de mais agressões e violência?

Já contactei com diversos professores durante o percurso escolar dos meus filhos e, num contacto mais próximo, não considero que sejam pessoas desprovidas de valores, nem de bom senso. Digam-me senhores professores, porque me parece que não posso confiar-vos os meus filhos para complementarem o que lhes transmito em casa? Por que motivo os meus filhos, quando os castigo me respondem que na escola fazem o mesmo e os professores não dizem nada? Por que é que os meus filhos me dizem que os colegas “respondem torto” aos professores e que eles não os castigam? Senhores professores, faço-vos um apelo: lembrem-se que contribuem para a formação do carácter dos adultos de amanhã e ajudem estes pais que nem sempre têm o tempo desejado, para acompanharem e apoiarem os seus filhos no seu crescimento. Não se esqueçam que são uma referência para estes jovens e que têm uma profissão muito nobre e digna se assim o pretenderem.

Leitora identificada


A convite do Observador | Disciplina: Yes We Can! 4

Recentemente, apresentei no “ComRegras” dados preocupantes sobre a indisciplina escolar. A quantidade de participações disciplinares, superando as 11 mil no ano letivo 2015-2016 em apenas 47 agrupamentos, mostra que esta é apenas a ponta do icebergue. Apesar do impacto mediático, as reações oficiais, quer por parte da Tutela, quer por parte dos principais representantes de pais e professores, ficaram-se por silêncios ensurdecedores, ao contrário da comunicação social que fez dos resultados apresentados o tema do dia. Qual o motivo para tamanho silêncio? Será a indisciplina tema tabu? Ou será que escasseiam soluções?

A disciplina não vem com manual de instruções, mas existem caminhos que podem ser percorridos. No meu entender, o que mais me agrada é seguramente o caminho da prática.

Existem escolas que estão organizadas e não esperaram por soluções externas, assumiram a sua realidade, as suas lacunas e fizeram das fraquezas força. “Profissionalizar” o combate à indisciplina escolar tem obrigatoriamente que passar por três fases. Reconhecer, conhecer e intervir!

Reconhecer

Não temos de ter medo, nem sentir incómodo em assumir que temos um problema nas mãos. A indisciplina dentro e fora da escola está a aumentar. Dados da Escola Segura, da violência do namoro, da indisciplina em sala de aula, entre outros, apontam claramente para um agravamento generalizado. Como digo aos meus alunos, não reconhecer que algo está errado é o primeiro passo para ficar tudo como está. É verdade que começo a sentir algumas vibrações de mudança mas, para já, não passam disso mesmo.

Conhecer

Defendo há muito um estudo aprofundado da indisciplina escolar dentro da sala de aula, algo nunca feito a uma escala nacional. Qual a verdadeira dimensão do problema? Quais as tipologias de indisciplina mais regulares? Onde é que ocorrem? Qual a influência das diferentes metodologias de ensino? Existe uma relação efetiva com estatutos socioeconómicos? Pessoalmente, já estou a trabalhar nesse campo e será útil o envolvimento de quem lidera a Educação em Portugal. Mas não basta ficar pelo estudo, é preciso acompanhar a evolução da indisciplina em Portugal, só assim saberemos que o caminho escolhido é o caminho correto e só assim será possível realizar os devidos ajustamentos.

As tutorias com 10 alunos por professor, que substituíram os incompreendidos e desorganizados cursos vocacionais, bem como a redução do número de alunos por turma, não farão milagres. O problema é mais fundo, transversal e está demasiado enraizado para ser resolvido pelos instáveis partidos políticos.

Intervir

Então o que fazer, na prática, sem nos ficarmos por perfis teóricos que, reconhecidamente, não passam de pontos de partida para algo maior? Ficam algumas ideias:

  • Criar um sistema de monitorização informática, que recolha os dados disciplinares de todas as escolas portuguesas;
  • Atribuir um crédito horário às escolas, especificamente para a abertura de Gabinetes Disciplinares (equipas multidisciplinares), fundamentais para uma política disciplinar de proximidade e consequente prevenção;
  • Incluir na formação de base de futuros docentes uma componente teórico-prática de gestão/mediação de conflitos;
  • Fornecer ao corpo docente e não docente, atualmente no ativo, formação específica sobre como gerir/mediar situações de indisciplina escolar;
  • Dar formação/orientação a Diretores Escolares, a fim de uniformizar critérios disciplinares;
  • Desburocratizar o estatuto do aluno, os procedimentos disciplinares são demasiado formais e tornaram a escola numa espécie de “tribunal dos pequeninos”;
  • Reduzir a carga letiva dos alunos, otimizar o calendário escolar, os intervalos e a dimensão das turmas;
  • Simplificar os percursos alternativos (onde muita da indisciplina se concentra), dando-lhes uma forte componente prática, reduzindo a sua carga letiva e apostando na formação cívica destes alunos;
  • Apostar num regime de codocência em turmas de maior insucesso escolar e/ou com problemas comportamentais;
  • Reforçar os meios de estruturas colaborativas e técnicos nas escolas (ex: Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e psicólogos);
  • Ajudar os encarregados de educação a lidar com os filhos que apresentem elevados níveis de indisciplina escolar;
  • Responsabilizar de forma efetiva, através de cortes nos apoios sociais ou abonos, em detrimento das multas, os encarregados de educação que não cumpram com as suas obrigações, nomeadamente quando não comparecem à escola.

Muito tem de ser feito, muito terá que mudar. Trabalhemos em conjunto, criando pontes de diálogo entre os diferentes intervenientes sempre cientes que, se não o fizermos, esta e as futuras gerações pagarão bem caro a nossa incompetência, cegueira ideológica e falta de sentido cívico para com aqueles que são realmente importantes para todos nós – os nossos filhos, os nossos alunos.

É possível!

Alexandre Henriques

Professor do 3.º ciclo e do ensino secundário. É autor do blogue ComRegras.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que, às quintas-feiras, discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.


Transferências por mau comportamento baixam para metade.

No espaço de três anos letivos, entre 2012/13 e 2015/16, número de alunos transferidos de escola por motivos disciplinares passou de 162 para 75. Tutela recusa metade dos pedidos.

Sou da opinião que a transferência de escola por motivos disciplinares, na maioria dos casos, apenas empurra o problema de um lado para o outro. Não é a mudança de estabelecimento por si só que irá alterar comportamentos. O insucesso escolar, o abandono familiar, a falta de uma política de proximidade para com o aluno a manter-se, irá mostrar a sua desintegração social mas apenas noutra escola. O problema tem de ser resolvido no local e só em casos muito pontuais é que a mudança em si pode ser encarada como algo positivo.

Só é pena que estas notícias saiam cá para fora sem conhecermos as conclusões da redução (positiva claro) e o motivo de tanta recusa por parte da Tutela.

Uma referência ao conteúdo da notícia do DN que fala sobre… a segurança nas comunicações entre governantes. Deve ser uma partida de carnaval, só pode…

Transferências compulsivas de escola baixam para a metade

(Pedro Sousa Tavares – DN)

E Daniel Sampaio afirma

“A indisciplina é grande no 3.º ciclo”

(Pedro Sousa Tavares – DN)

Algo que o ComRegras já indicou nos seus dois estudos sobre indisciplina com dados das escolas. Fica o gráfico do último estudo.

Respostas dadas por 47 diretores de agrupamentos.


Currículo e comportamentos 2

Se, na semana passada, perspectivei relações entre a gestão flexível do currículo e os comportamentos escolares, por via de dinâmicas e da gestão de interesses, hoje retomo o tema, ainda que com alguma alterações.

Sendo este blogue, no seu espírito inicial, um blogue em torno dos comportamentos e da indisciplina, será normal que possamos perspetivar as diferentes dimensões, fatores e circunstâncias que interferem, condicionam ou relacionam um e outro. Considero como um desses elementos o currículo escolar. Considero que este interfere e condiciona o conjunto de comportamentos escolares, fruto do seu equilíbrio (entre áreas e saberes) como da sua organização e estrutura (disciplinas alvo de avaliação externa e preponderâncias de sucesso). É com base no currículo, no conjunto de saberes e das formas como eles são veiculados, que decorrem relações de maior ou menor tensão, de maior ou menor despique (e, simultaneamente, se perspetivam dimensões tecnocráticas ou humanistas – brinquem, brinquem).

Assumo, como ponto de partida, que os comportamentos escolares se têm alterado. Mais desordeiros, mais instáveis, mais truculentos, mais desafiantes do ponto de vista da relação de sala de aula. Oscilam entre uma aparente conformidade, marcada muito pela indiferença e pelo alheamento ao que se passa em contexto de sala de aula e uma permanente disputa, senão quase que um confronto entre partes que, sendo assumidamente diferentes em si, se confrontam num cara a cara, no frente a frente.

Por outro lado, considero privilegiadamente as situações de disciplina em detrimento da indisciplina em si mesma. Isto é, o trabalho na escola e em sala de aula remete para situações desequilibradas porque hierárquicas e funcionais. Quando em confronto (muitas vezes por questões de recusa dessa hierarquia ou dessa funcionalidade) espoleta-se uma situação que muitos designam como indisciplina, por que assente na recusa de um modelo, no confronto e contestação de uma ordem.

É possível, quanto desejável, criar a relação entre currículo e comportamentos escolares, considerando que a sua relação se posiciona no patamar de fomentar ou dissuadir factores de tensão. Nomeadamente quando o currículo se apresenta, como tem sido o caso nos últimos anos, desde, pelo menos, o decreto lei 139/2012, manifestamente desequilibrado, no meu entendimento (⅓ é para português e matemática e o restante para as demais o que faz com que na área social – história e geografia – cada disciplina não tenha mais de 7% dos tempos letivos e as ciência naturais se fiquem pelos quase 10%.)

Se considerarmos o 3º ciclo do ensino básico, onde as situações de indisciplina são mais frequentes, de acordo com estudos deste mesmo blogue, poder-se-á aceitar que para isso muito contribuirá o desinteresse, a indiferença, o alheamento dado por um conjunto de disciplinas que saturam, destacam dificuldades pessoais e se assumem como elementos de insucesso (consequentemente de desinteresse, indiferença, alheamento).

A proposta que se apresenta, sem ser o ai jesus de coisa nenhuma, nem o comprimido milagroso que muitos ambicionam, poderá criar equilíbrios onde antes não existiam e, desse modo, garantir uma outra (con)vivência em contexto escolar. Assim o espero.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas, 20 de fevereiro, 2017;

Imagem daqui.


Flexibilidade curricular e comportamentos escolares 1

Tudo aponta para que, no próximo ano letivo, se implemente a gestão local e flexível do currículo escolar – considerem-se as palavras do secretário de estado e vejam-se as notícias, por exemplo, 1 e 2.

Antes da escrita dois pontos prévios. Um primeiro para dar conta que estou de acordo com a proposta. Nem coloco o mas, nem meio mas. Os currículos devem ter, em meu entendimento, uma componente nacional e uma componente local/regional. Componente que as escolas (entendam-se os professores, os pais e a comunidade) devem identificar como essenciais para a consolidação de vivências coletivas, da preservação da memória local, dos processo de articulação dessa memória local no contexto nacional (e europeu). E temos bons exemplos (com resultados) oriundos daquela que foi a área escola ou o trabalho de projeto.

Enquanto segunda nota, não vale a pena falarmos das coisas sem saber de que coisas falamos nós. Assim, entendo currículo na esteira de Pacheco (2011, Currículo: entre teoria e métodos. Cadernos de Pesquisa, 39 (137), pp. 383-400) que considera o currículo «como um projeto construído na diversidade e na pluralidade não só na abordagem do conhecimento escolar, mas, de igual modo, no desvendamento de certos processos e práticas de poder e de padronização cultural que existem no interior das escolas». Este o meu entendimento de currículo, na sua plena articulação (plural e diversa) entre conteúdos, estratégias de articulação desses conteúdos e métodos de avaliação.

Deixados os pontos prévios, considero que a flexibilidade curricular é uma das estratégias de definição de novos/outros mecanismos de regulação dos comportamentos dos alunos. Mais que medidas instrumentais, que visam a punição de uma situação, a correção de uma atitude, gerir o currículo implica envolver parceiros, considerar o aluno como um sujeito do trabalho e não mero objeto de intervenção educativa e/ou escolar.

Quero com esta ideia defender e afirmar que se existem alunos assumidamente desrespeitadores de regras e modelos de vivência social, a grande maioria limita-se a expressar o seu desinteresse perante tudo e todos, a dar conta do alheamento em relação às disciplinas, a ser e a mostrar a sua indiferença ao que se passa, essencialmente, em contexto de sala de aula. Ou seja, a maioria dos alunos mais não faz que assumir, à sua maneira e dentro das suas condições, a contestação às regras e aos  modelos, padrões e valores sociais que a escola e a sala de aula veiculam.

Adaptar o currículo (desde a história local, à matemática para a vida, passando pela cultura e diversidade de fauna e flora ou da organização do território) permitirá criar estratégias de envolvimento e implicação do aluno nas suas tarefas, na definição dos seus objetivos, na criação dos seus interesses e sentidos pessoais, participar no planeamento da sua ação e do seu interesse. Se o aluno for envolvido nesta estratégia, se nela participar enquanto elemento ativo estou certo que as situações relativas à indisciplina serão minimizadas e os comportamentos assumidamente mais assertivos.

A pior política de flexibilidade curricular poderá decorrer das situações em que se tenderá a disciplinarizar essa flexibilidade, a fechar e compartimentar, seja em sala de aula seja por questões de mera circunstância, a possibilidade de diversidade e de assumir a pluralidade de interesses e de dimensões envolvidas.

Não escondo que é um desafio. Para os professores, mas, muito particularmente, para os diretores que deverão criar e implementar estratégias de flexibilização e orientar o trabalho dos professores para o envolvimento e participação daqueles que muitas vezes, o mais das vezes, são meros objetos da ação escolar, os alunos. Se assim acontecer, é uma oportunidade de gerir comportamentos, dar conta da indisciplina, criar outros limites aos comportamentos escolares.

Um feliz dia dos namorados. A paixão faz falta.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas.

13 de fevereiro de 2017


Disciplina – Reconhecer! Conhecer! Intervir! 4

Os dados que hoje apresentei, à semelhança dos do ano passado, revelam que desconhecemos grande parte do problema disciplinar das escolas. Já o afirmei e reafirmo, Portugal é amador no que à indisciplina diz respeito! A forma negligente como estamos a lidar com esta problemática é potenciadora do seu agravamento, os sinais são evidentes de um aumento da indisciplina e violência escolar. Está na hora de encarar a realidade.

Para mudar o rumo dos acontecimentos, precisamos de passar obrigatoriamente por 3 fases.

Reconhecer

Sem um reconhecimento da sociedade dificilmente mudaremos alguma coisa. A tutela julga que tutorias com 10 alunos, um estatuto do aluno mais punitivo e equipas multidisciplinares (que não passam na grande maioria dos casos de teoria legislativa), é o suficiente para alterar o que quer que seja. Portugal tem um problema efetivo de indisciplina nas escolas! O fim do observatório destinado para o efeito, é a prova que este assunto não é prioritário e que o “combate” à indisciplina não passa pela sua monitorização. Um erro crasso, que compromete qualquer política a curto, médio e longo prazo.

Como costumo dizer aos meus alunos, o primeiro passo para mudar é reconhecer que algo não está bem, se não fizermos nunca vamos mudar. Quem de direito prefere continuar a “assobiar” para o lado, ignorando, o que na minha opinião, é o principal bloqueador do sucesso escolar. São aos milhares as ocorrências disciplinares, são diárias, estão a esgotar os nossos professores, a perturbar os alunos que querem aprender e a preocupar encarregados de educação.

Uma palavra também para os sindicatos de professores, estes precisam de colocar esta questão na primeira página das suas reivindicações. Se representam efetivamente os professores, deviam saber que esta é uma das suas principais preocupações.

Conhecer

Se queremos “atacar” o problema da indisciplina escolar, temos que conhecer toda a sua dimensão e tipologia. O procedimento é simples, basta os diretores solicitarem os registos disciplinares aos diretores de turma, que por sua vez recebem dos professores, um procedimento banal nas escolas… Depois, basta enviá-los para o Ministério de Educação. Aqui no ComRegras até disponibilizo uma grelha para o efeito e que utilizo na minha escola.

Estamos a falar de algo semelhante ao que os professores fazem com os seus alunos, uma avaliação diagnostica. Após conhecerem o perfil e capacidades dos seus alunos, preparam tudo o resto.

Com os dados recebidos, o Ministério de Educação saberá os distritos onde existem mais problemas, as escolas que mais sofrem com esta problemática, que estratégias implementam, seus resultados, etc. Permitirá também estabelecer paralelos com estatutos sócio-económicos, resultados dos Exames, entre outros… Mas acima de tudo, permitirá acompanhar a evolução da indisciplina em Portugal.

Os dados que são conhecidos em diversos estudos, baseiam-se em sensações/opiniões, não em dados concretos. E os dados apresentados pelas forças de segurança, não expõem o que se passa dentro da sala de aula. Esta é uma falha grave, facilmente resolúvel, pois até um professor qualquer de um blogue qualquer conseguiu apresentar dados efetivos.

Intervir

Com o diagnóstico feito, temos tudo para implementar um plano de ação, cada escola conhecerá as suas especificidades e poderá aplicar esse conhecimento na criação de uma estratégia optimizada. Naturalmente que deverá ser respeitada uma desejável autonomia escolar, a tutela poderá dar orientações gerais e atribuir recursos ajustados ao perfil de cada escola.

Como vêem, não estou a falar de apenas atirar dinheiro para cima das escolas, a realidade como sabemos desaconselha essa política, estou a falar de intervir de forma proporcional e ajustada, mas tal só será possível se reconhecermos que existe um problema e verificarmos qual a sua verdadeira dimensão…

Passou um ano e está tudo igual… quantos mais anos passarão até encararmos o problema de frente?

Alexandre Henriques

Leitura recomendada:

Vale a pena ter um Gabinete Disciplinar?

Constituição do Gabinete Disciplinar

Funcionamento de um Gabinete Disciplinar


2º Estudo Sobre Indisciplina em Portugal com Dados das Escolas (2014-2016) 12

Pelo segundo ano consecutivo o ComRegras apresenta um estudo que visa mostrar um pouco da realidade escolar ao nível da indisciplina. Trata-se de dados reais do interior das escolas, classificados por participações disciplinares (ordens de saída de sala de aula), medidas corretivas (conhecidas por atividades de integração) e medidas sancionatórias (vulgo suspensões da escola).

A todas as escolas que colaboraram e confiaram no ComRegras, o meu muito obrigado.


Ficha Técnica

Universo – Agrupamento de Escolas e Escolas não Agrupadas Públicas de Portugal.

Amostra – Aleatória e estratificada. A amostra contém um total 47 Agrupamentos de Escolas / Escolas não Agrupadas, o que equivale a 53664 alunos.

Técnica – Inquéritos enviados por correio eletrónico para todos os Agrupamentos de Escolas e Escolas não Agrupadas de Portugal, tendo o trabalho de recolha ocorrido entre os dias 18 de outubro de 2016 e 27 de janeiro de 2017.

Responsabilidade do estudo: Professor Alexandre Henriques com o apoio da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP)


Caracterização da Amostragem:


DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2015-2016

Total de Participações Disciplinares – 11127

Universo de 47 Agrupamentos/Escolas (5,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas)

Extrapolando para a totalidade dos Agrupamentos/Escolas – 206 055 Participações Disciplinares

Nº de Alunos com Participações Disciplinares – 4417 (8,23%)

Universo de 45 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas – 6541

Universo de 46 Agrupamentos/Escolas (5,3% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas – 2782 (5,18%)

Universo de 45 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias – 1496

Universo de 46 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias – 1142 (2,13%)

Universo de 46 Agrupamentos/Escolas (5,1% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)


EVOLUÇÃO DA INDISCIPLINA EM 2014/2015 E 2015/2016

(Universo de alunos: 2014/2015 – 35483 | 2015/2016 – 35141)

* o universo de alunos é inferior, pois das 47 escolas, apenas 32 apresentaram dados referentes aos dois anos letivos.


À semelhança do ano passado, foram colocadas duas questões aos diretores.


Conclusões:

Entre 2014-2015 e 2015-2016, os dados de indisciplina escolar subiram em todos os parâmetros: participações disciplinares, número e percentagem de alunos com participações disciplinares, medidas corretivas, medidas sancionatórias, número e percentagem de alunos com medidas corretivas e sancionatórias.

As escolas raramente utilizam as medidas sancionatórias como estratégia para corrigir/punir comportamentos. Implicitamente podemos concluir que as situações de indisciplina mais gravosas são pouco frequentes.

A indisciplina é transversal à maioria das escolas, mas foram as escolas dos grandes centros as que apresentaram valores mais elevados de indisciplina.

Foi no 3º ciclo e 2º período onde ocorreram mais registos de indisciplina no ano letivo 2015/2016.

As escolas apresentam formas distintas no registo de situações disciplinares.


 

Propostas para reduzir os índices de indisciplina

Criar um sistema de monitorização informática, que recolha os dados disciplinares de todas as escolas portuguesas (ex: utilizar o MISI);

Dar formação/orientação aos Diretores Escolares, a fim de uniformizar critérios disciplinares;

Desburocratizar o estatuto do aluno, os procedimentos disciplinares são  muito formais, tornando a escola uma espécie de “tribunal dos pequeninos”.

Incluir na formação de base de futuros docentes uma componente teórico-prática de gestão/mediação de conflitos;

Fornecer ao corpo docente e não docente, atualmente no ativo, formação específica sobre como gerir/mediar situações de indisciplina escolar;

Atribuir um crédito horário às escolas, especificamente para a abertura de Gabinetes Disciplinares (equipas multidisciplinares), fundamentais para uma política disciplinar de proximidade e consequente prevenção;

Reduzir a carga letiva dos alunos e dimensão das turmas;

Simplificar os percursos alternativos, dando-lhes uma forte componente prática, reduzindo a sua carga letiva e apostando na formação cívica destes alunos.

Apostar num regime de co-docência em turmas de maior insucesso escolar e/ou com problemas comportamentais.

Reforçar os meios de estruturas colaborativas e técnicos nas escolas (ex: Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e psicólogos)

Ajudar os encarregados de educação a lidar com os filhos que apresentem elevados níveis de indisciplina escolar.

Responsabilizar de forma efetiva os encarregados de educação que não cumpram com as suas obrigações, nomeadamente quando não comparecem à escola.

Investir na Escola Pública.


Por vezes os professores perdem a cabeça… 1

Não sou advogado de defesa de ninguém, somos todos grandinhos e devemos responder pelas nossas ações. Se é verdade o que se passou no Agrupamento de Escolas de Pombal é bastante grave e no campo do “suponhamos”, dificilmente o professor evitará uma multa ou suspensão.

Também é verdade que os professores não são máquinas e por vezes é muito difícil, repito, muito difícil, manter o sangue frio para não cometer algo que não desejamos. Quando sabemos que estão a gozar de forma descarada connosco, quando somos insultados, ameaçados, humilhados, provocados e tudo à frente de duas dezenas de alunos, é preciso ir buscar forças não sei bem onde para manter a dignidade e o exemplo. E convém recordar o estado de fragilidade emocional de muitos professores, fruto do burnout e afastamento familiar a que são sujeitos, ano após ano.

Seria curioso ver como reagiriam muitos dos críticos dos professores nestas circunstâncias… Mas apesar das atenuantes que possam existir, no final do dia, um professor não pode perder a cabeça, afinal… ele é que é o adulto…

Nunca direi que desta água não beberei… só espero é nunca ter sede…

Pais acusam professor de agredir criança; escola investiga

(LUSA via Público)

Segundo a mãe:

“O professor foi directo ao meu filho e disse-lhe que ia limpar aquilo com a cabeça e pegou-lhe na cabeça e esfregou-a no quadro. Depois empurrou-o e ele caiu”. O menino foi sentar-se, “pedindo desculpa ao professor”, que, de acordo com Paula Marques, começou a “empurrar a mesa contra a barriga” da criança e “a dar murros em cima da mesa”.

O docente terá voltado ao seu lugar, mas, pouco depois, ter-se-á dirigido novamente à criança e, exaltado, voltou a ter o mesmo comportamento. “Assustado, o meu filho acabou por fazer chichi nas calças. Isto terminou quando uma funcionária ouviu o barulho e chamou a direcção. Foi aí que nos telefonaram”.

Segundo a PSP:

Fonte do Comando da PSP de Leiria confirma que a PSP foi chamada à Escola Marquês de Pombal, “por ter havido desentendimentos entre um professor e um aluno” e, “posteriormente, entre o progenitor desse aluno e o mesmo professor”. No entanto, “ao que foi possível apurar, não terá havido agressões físicas propriamente ditas em nenhuma das ocasiões”, refere a PSP.

O que diz a associação de pais:

manifestou, em comunicado, a sua “preocupação e repúdio pelos actos de violência alegadamente perpetrados por um professor para com um aluno”. “A APP espera que as instâncias competentes averigúem com a maior brevidade os factos e tomem as medidas preventivas adequadas ao caso.

O que vai fazer a direção:

A direcção do Agrupamento de Escolas de Pombal já fez saber ao conselho executivo da associação a intenção de instaurar um processo disciplinar ao professor em causa”.


Professora agredida e direção da escola diz que situação não passa de um boato. 7

Algo de muito estranho se passa na Madeira… há pouco tempo publiquei um artigo onde fiz referência ao trabalho positivo que está na ser feito na ilha ao nível da disciplina. Após a sua publicação, recebi alguns relatos que as coisas não são assim tão cor-de-rosa como se quer pintar.

Hoje enviaram-me esta notícia…

Violência contra professora na Escola do Campanário

(Andreia Ferro – DNotícias)

De acordo com as informações prestadas, a professora lecciona o 7º ano de escolaridade, sendo que durante as suas aulas é alvo de constantes agressões verbais. Aliás, essa violência já terá tomado maiores proporções, com relatos de agressões físicas e de atos de vandalismo contra a viatura da docente. As agressões, diz, partem de uma turma denominada de PCA (Percurso Curricular Alternativo). O colega denunciante afirma que a professora já apresentou queixa na PSP e que o assunto já foi discutido em reuniões na escola, sem que o órgão de gestão tenha tomado qualquer medida. Aliás, afirma mesmo que o Conselho Executivo desvaloriza a situação, sendo que os episódios de insubordinação estarão a alastrar-se a outras turmas dessa escola, com os professores preocupados com esta situação.

 

o presidente do Conselho Executivo da EB23 do Campanário, Inácio dos Santos, que afirmou que esta situação não passa de um boato e disse não ter conhecimento de qualquer queixa relativa a episódios de violência nesse estabelecimento de ensino. Também a Secretaria da Educação foi questionada pelo DIÁRIO sendo que referiu que “as escolas dispõem de competências para lidar com episódios desta natureza. Até ao momento, não chegou qualquer relato sobre o assunto à SRE”.

Alegar desconhecimento é um risco muito grande se houver algum documento que prove o sucedido, uma simples participação disciplinar serve perfeitamente. Espero que a docente o tenha feito, não uma, mas todas as necessárias…

Se é verdade que a direção está a ser negligente, então que se faça queixa à Inspeção e se houver receio de represálias, as denúncias anónimas é para isso que servem…

E reparem bem no comentário à notícia:

Se assim for, estamos perante mais um exemplo da urgência em alterar o modelo de gestão escolar…


Colégio de Gaia proíbe alunos de correr no seu interior. Estupidez ou prevenção? 2

O autor do panfleto que mostro neste artigo deve estar com as orelhas em fogo tal têm sido as críticas ao seu conteúdo.
Sou professor de educação física, por isso a atividade física é um bem que muito prezo e que precisa de ser valorizado no espaço escolar. Mas uma coisa é valorizar a atividade física, outra coisa é colocar em risco a segurança de terceiros. Façamos um pequeno exercício:

Concordam que as crianças corram nos centros comerciais?

Concordam que as crianças corram nos restaurantes?

Concordam que as vossas crianças corram dentro de casa?

Pessoalmente não concordo, não considero o local apropriado e à minha filha digo-lhe logo para parar, pois a probabilidade de chocar com algo ou alguém é elevada. Por isso sou favorável à rejeição de correr no interior das escolas, mas atenção, quando me refiro a interior, refiro-me a debaixo de telha com paredes e tudo.

A verdade é que os alunos quando estão a correr, entram em modo “bip bip”, fazem curvas por dentro, não olham para a frente, vão contra paredes, portas, colegas e professores. Os alunos não têm “carta de corrida”, não conhecem prioridades, não fazem piscas, sinais de luzes e não têm stops… São anárquicos na sua fuga/perseguição!

Se o Colégio de Gaia quis proibir as “corridas indoor”, nada contra, mas se o objetivo é proibir também as corridas no exterior, então algo de muito errado se passa na cabeça de quem os dirige. Ser criança é brincar, correr, pular, saltar, viver… não é ser soldadinho, caminhando organizadinhos, quiçá encostados às paredes. Ser criança é fazer barulho, é testar os limites. É um processo contínuo de aprendizagem que precisa naturalmente de ser orientado e disciplinado. Proibir a essência de ser criança é não compreender a sua natureza e ao ir contra ela, originará certamente indignação e revolta.

Para quem pensa assim, recomendo uns bibelôs de porcelana, sempre estão mais paradinhos…

Sobre as outras proibições: trocar carinhos, usar minissaia e sair nos intervalos. Bem… estamos a falar de uma escola certo? É que começo a duvidar… Sei que há colegas que não aceitam ver um casal de namorados a beijarem-se. Por mim tudo bem, desde que não passem os limites da decência, que fiquem lá a treinar a coordenação bocal que é melhor do que andarem à estalada. Sobre a roupa, é natural haver excessos numa idade onde a afirmação pela imagem é o prato do dia, mas essa naturalidade não significa ir para a escola com o “natural” à mostra… E quanto às saídas nos intervalos, nas escolas públicas os pais autorizam ou não a saída dos alunos, se ainda não é essa a prática no Colégio de Gaia, fica a proposta.

Acima de tudo haja bom senso…

Estudantes proibidos de correr no Colégio de Gaia

(JN – Tiago Rodrigues)


Relembro o jornal Público e a comunidade educativa em geral, do estudo apresentado pelo ComRegras.

O ComRegras tem alertado para este facto e dentro das suas limitações tem feito um trabalho que deveria ser da responsabilidade do Ministério de Educação. Não são dados oficiais, mas são dados fidedignos e que vieram diretamente das escolas.

DADOS GERAIS DO ANO LETIVO 2014-2015

Total de Participações Disciplinares – 9130

Universo de 38 Agrupamentos/Escolas (4,4% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Nº de Alunos com Participações Disciplinares – 4229

Universo de 34 Agrupamentos/Escolas (3,9% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Corretivas – 4554

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Corretivas – 1597

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Total de Medidas Sancionatórias – 1333

Universo de 37 Agrupamentos/Escolas (4,25% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Número de Alunos que Cumpriram Medidas Sancionatórias (vulgo suspensão) – 847

Universo de 31 Agrupamentos/Escolas (3,5% da totalidade dos Agrupamentos/Escolas nacionais)

Podem consultar o resto do estudo apresentado no ano passado aqui


Em breve irei apresentar os dados relativos ao ano passado.


5051 Crimes nas Escolas em 2015/2016. Mas afinal, o que é a escola? 1

crimeOs anos vão passando e a criminalidade escolar vai aumentando!

O que é a escola? Para que serve a escola?

Qualquer pessoa racional diria que a escola é um local de aprendizagem, que prepara os alunos para a sociedade. Para muitos alunos, a escola é um espaço onde se cometem crimes, onde se propaga o seu negócio paralelo e onde os professores são o empecilho à anarquia pretendida.

Na escola não devia haver crimes, na escola é suposto frequentarem crianças e jovens e estas não deveriam ser criminosas. A escola é por isso, para muitos jovens, o berço da criminalidade. E se a escola é o berço da criminalidade, até que ponto estamos a lidar com ela da melhor forma? Devíamos ser mais ou menos tolerantes? Devíamos aceitar ou não que estes jovens frequentem o mesmo espaço de outros que encaram a escola como A ESCOLA? Deverá a imputabilidade começar aos 16 anos? Serão estes dados avisos para o que aí vem?

Mas a pré-criminalidade surge no formato de indisciplina escolar e continuo a afirmar que não se conhece a sua dimensão. Os dados hoje publicados são da PSP (faltam os da GNR), são elevados e pior é que estão a aumentar pelo segundo ano consecutivo.

O ComRegras fez o primeiro estudo sobre indisciplina escolar, a indisciplina dentro da sala de aula, mas foi apenas a ponta do icebergue, daqui a algumas semanas serão publicados os dados referentes ao ano letivo 2015/2016 e a ver vamos como estão as coisas…

O governo diz que vai reativar o grupo coordenador da Escola Segura, faz bem, mas não chega. É imperativo obrigar as escolas a registarem e enviarem para um observatório próprio as situações de indisciplina que ocorrem dentro das salas de aula e (re)conhecer qual a sua tipologia. Estes dados devem ser públicos, salvaguardando a identidade das escolas. A sociedade merece saber o que se passa nas escolas públicas e  merece saber se a indisciplina escolar está a aumentar ou a diminuir.

Continuamos a assobiar para o lado, sem conhecer a dimensão do maior problema escolar da atualidade.

E já que o governo afirmou que vai assegurar a vídeovigilância por mais 3 anos nas escolas, por que não colocar as câmaras também dentro da sala de aula? Podem começar pela minha…

Mais de 5.000 ocorrências criminais nas escolas durante o ano letivo de 2015/2016

(LUSA via RTP)

Governo vai reativar grupo coordenador da Escola Segura

(LUSA via RTP)

Ministério garante videovigilância nas escolas pelos próximos três anos

(Natália Faria e Clara Viana – Público)

 


Dicas para diminuir drasticamente os índices de indisciplina escolar. 2

dicasComo prometido, vamos hoje abordar algumas dicas que reforçam e potenciam a disciplina na escola.

Muito frequentemente ouço que a culpa do estado das (in)disciplinas nas escolas se deve às famílias, à falta de proatividade das famílias e outros tantos argumentos que sustentam “um problema de sociedade sem cura” (será?).

Naturalmente e numa ótica de prevenção, vários estudos indicam que as famílias com menor prevalência de conflitos, revelam determinadas características sociais e contextuais, nomeadamente um envolvimento mais acentuado da figura paterna, uma articulação estreita com a direção da escola e/ou diretor de turma e professores em geral e os pais que se envolvem ativamente nas atividades de lazer e extracurriculares dos alunos. Por isso, sem dúvida que a família e a escola têm responsabilidades compartilhadas na educação e no desenvolvimento dos alunos, sendo essencial a existência de uma comunicação cooperativa entre todos os agentes educativos, pela influência positiva que tal interação tem na melhoria do clima geral da escola.

É fundamental pensar estratégias junto das famílias, mas não nos podemos esquecer do que nós, que estamos nas escolas, podemos fazer também.

A pensar nisso decidi elencar alguns tópicos que permitem pensar e repensar os nossos modelos de ação na escola:

  • Apresentar as aulas com recurso a materiais ou formatos de apresentação apelativos;
  • Cooperar no estabelecimento de regras disciplinares e punições;
  • Proferir com grande frequência elogios e expressar expetativas positivas acerca do desempenho dos alunos;
  • Transformar as aprendizagens em projeto: criar opções e não expectativas.
  • Exigir trabalho regular e planificado (e monitorizar);
  • Não etiquetar alunos como “bons” ou “maus” (evitar comentários tipo “tinhas de ser tu”);
  • Demonstrar aproximação e preocupação pelos problemas dos alunos;
  • Valorizar a sua carreira e opção profissional (investir em competências pedagógicas, interpessoais e sociais);
  • Manter-se calmo, sereno e seguro, no sentido de modelar o comportamento dos alunos;
  • Ser flexível, desde que coerente e estável, na forma de atuação, podendo alguma surpresa no comportamento do professor em relação aos alunos permitir uma maior eficácia na influência sobre estes (por exemplo, o professor pode aproveitar e manifestar humor nalgumas situações inesperadas em vez de se mostrar perturbados com elas);
  • Por vezes é preferível fingir que não percebe algumas situações e deixá-las passar, do que tentar controlar tudo e perder a eficácia de intervenção quando realmente é necessário;
  • Não distanciar-se dos alunos ditos indisciplinados, isto é, só falar com eles quando têm comportamentos inadequados – lembrem-se que nenhum aluno é indisciplinado durante todos os minutos da aula;
  • Atuar no sentido do empowerment dos alunos – mostrar que acredita na capacidade de estes terem resultados positivos;
  • Orientar, valorizar e incentivar à participação dos alunos;
  • Identificar os casos de alunos com problemas familiares e fazer parte da construção de uma solução para o mesmo;
  • Trabalhar em equipa, com partilha de experiências e num clima de autenticidade, empatia e cooperação.

Acima de tudo, o que importa é encontrar uma motivação para nos orientar naquilo que nós acreditamos ser a nossa função enquanto adultos e educadores.

Uma boa semana!


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia

Perdi a cabeça, dei dois estalos aos meus alunos… 6

A situação descrita é uma mera representação da realidade…

vergonhaSexta aula do dia, a voz já derrapava aqui e ali, o barulho do pavilhão era ensurdecedor, a irreverência dos alunos não desarmava, a sua intensidade mantinha-se a níveis estratosféricos. No meio do suor e das bochechas rosadas, dois alunos apresentam uma linguagem corporal semelhante a dois touros enraivecidos…

Ora dá! Vá… Dá lá a ver se és homem!!! 

Vai-te f#der, lá por seres mais alto julgas que és grande coisa!!!

Um empurrão aqui, um encostar de cabeças ali e a coisa estava a segundos de rebentar.

À sua volta, um grupinho de alunos circulava o espetáculo gratuito, incentivando os “galos” como se uma luta de apostas se tratasse…

Hei!!! Parou já!!! Onde é que vocês pensam que estão??? Parou já disse! Querem ir já para a rua???

Começa o processo de culpabilização alheia…

Stôr, foi ele, está farto de me dar cacetada!

Eu??? Tu é que andas a chamar-me nomes e agora sou eu…

Os “touros” começam a baixar a cabeça, vão levantando poeira com os seus cascos e pronto, o caldo vai mesmo entornar.

Quando dou por mim, trás… trás…. Tinha a mão no meio da cara dos alunos, repetia sistematicamente para se calarem e nada, parecia que não estava ali, era completamente invisível… Naquele momento estava cansado, farto do barulho, das infantilidades constantes, da má criação, da total irresponsabilidade, estava acima de tudo farto de ser professor, carregava em mim 6 meses de aulas, todas as manhãs e todas as tardes… 6 meses a resolver quezílias de alunos com alunos, alunos com professores, professores com alunos… A intensidade do toque foi reduzida, a mão distava 3, 4 cm das suas caras, demorou um ápice, um impulso primário que não deveria ter ocorrido, não podia ter acontecido…

O gesto chocou, chocou-os a eles e aos alunos que assistiram, mas acima de tudo chocou-me a mim, como foi possível perder assim a cabeça? Não dou aulas há 1 ou 2 anos, ando nisto há 25… 25 anos a lidar com conflitos… O que se passa comigo?

Sei que tenho sobre mim a ameaça de um processo disciplinar, violei claramente os meus deveres enquanto professor, estou nas mãos dos meus alunos… basta um email, um telefonema, uma carta para a Inspeção e estou lixado. De um lado 25 anos de serviço imaculado, do outro 2 segundos de trás…trás… Curioso como 2 segundos são agora mais importantes que 25 anos…

Se os alunos chegam a casa e contam aos pais já sei que vou ter problemas. Por muito menos os meus colegas já tiveram problemas…

E agora, o que faço?…

Sou professor, só existe um caminho nesta situação, o correto…

Acabou… não admito estas faltas de educação na minha aula, respeitem-se, são colegas, são da mesma turma, são da mesma “família”. Estão a faltar-se ao respeito e estão a faltar-me ao respeito. Façam um favor a vocês próprios, cresçam, tomem atitudes de homens que querem ser e cumprimentem-se num ato de desculpa mutua.

(cumprimentos dados e a aula prossegue)

No final da dita ficam ambos os alunos a falar comigo. Faço o que a consciência me obriga, não por receio mas por sentir que o correto tem de prevalecer.

Olhem, isto hoje correu mal, quer da vossa parte quer da minha… também eu errei, peço-vos desculpa… excedi-me, não queria fazer o que fiz, mas a mão estava no vosso meio e vocês não se calavam. Não posso ter alunos de cabeça perdida na aula… a violência nunca é a solução, quer da parte dos alunos quer da parte dos professores…

Stôr, deixe lá isso, foi merecido…

Sim, nós merecíamos stôr… a coisa descontrolou-se um pouco…

Podia ter ignorado a situação, mas preferi a genuinidade da minha consciência e assumir que também errei. Como posso exigir confiança na minha liderança, respeito na minha autoridade, se depois não assumo o que faço de errado? Liderar por exemplo, assumir as falhas da natureza humana, as minhas falhas, dá-me a possibilidade de conquistar o respeito de quem está a ser preparado para o futuro e precisa de ser ensinado/liderado por mim. A formação cognitiva é importante, mas o que fica para a vida é a formação pessoal, os valores e os princípios…

A humildade é um pilar fundamental na relação humana, a empatia, uma forma de criar pontes e derrubar muros, o reconhecimento do erro, uma manifestação genuína de respeito pelo próximo, seja ele menor, maior, colega, superior hierárquico ou aluno…

Por vezes no erro surge a oportunidade, importa reconhecer essa oportunidade e aproveitá-la sem receios, pudores ou tabus.

Ninguém é perfeito… e não devemos fingir aquilo que não somos, que nunca fomos…