Artigo Semanal


Os professores e os kinder surpresa. 4

As melhores turmas são para os professores da casa. Esta é a minha opinião baseada na constatação de 15 anos de docência, confirmada por inúmeras conversas com colegas de profissão e vários comentários que vou lendo pelo mundo digital. E quando digo melhores turmas, refiro-me naturalmente a alunos que estão mais focados/motivados para o ensino tradicional.

Ano após ano chegam novos professores às escolas, rodando entre si como se isto fosse benéfico para alguém… mas isso é outra conversa…

Nesta altura do “campeonato” já todos sabemos – e quando digo todos, incluo mesmo todos: professores, funcionários, alunos, diretores e pais – quais os professores que foram uma boa “aquisição” e quais aqueles que esperamos que se fiquem por outros lados num futuro próximo. Cada professor é um individuo que como qualquer cidadão, tem as suas qualidades e defeitos. Daí a minha associação ao efeito surpresa do tão conhecido ovo kinder.

Qualquer treinador que se preze sabe que um defesa joga na defesa e que um avançado joga no ataque, tal acontece pelas suas características específicas. Na escola, as características dos professores deveriam ser conhecidas previamente para que quem de direito (diretores) colocasse os seus “jogadores” nas devidas posições, otimizando recursos, potenciando resultados. Talvez assim fosse mais fácil julgar rankings e afins…

Mas infelizmente os relatos de professores que ficam com as piores turmas são comuns e provam que existe uma “panelinha” dissimulada em muitas escolas.

Surge assim uma clivagem interna que corrói a escola, bem visível nas ligações laborais e sociais dos seus profissionais. Além da diferença salarial (algo a abordar em futuro artigo), há aquele sentimento que alguns carregam a escola e outros permanecem sentados nas suas poltronas douradas, adquiridas pelo estatuto do tempo de serviço… Mas que estatuto?

Podemos colocar as coisas numa questão de competência, e sim, concordo que há uns que são melhores do que outros, é assim em todo o lado… mas gostaria de colocar a questão nas características de cada um. Existem professores com maior propensão para turmas de ensino secundário, outros para lidar com alunos mais novos, outros para lidar com turmas de ensino profissional, outros para lidarem com situações disciplinares e outros para coordenarem colegas de profissão.

O estabelecimento de hierarquias na sociedade existe pois esta funciona melhor assim. Na escola, tais hierarquias são meras fachadas e a imposição hierárquica assume-se não pelo cargo que se ocupa mas pelo estatuto adquirido. Novamente… mas que estatuto?

O equilíbrio de forças de um regime democrático deve persistir e ser fomentado, mas a disposição das peças cabe sempre a quem o gere. Se este não conseguir ir contra os “estatutos” instalados, então significa que não está à altura do cargo, salvaguardando o interesse de todos, salvaguardando o interesse da escola pública.

A escola deve ser um espaço onde o coletivo deve ser a sua principal força e se este funcionar, todas as suas estrelas brilharão, sejam eles alunos, professores ou funcionários. Num coletivo eficiente não precisamos de nos preocupar com quem fica com as melhores ou piores turmas, pois numa escola cooperativa, quem está à frente dos alunos não é o individuo, é a força do coletivo.

Isto é ser bom colega! Isto é pensar nos alunos! Isto é liderar uma escola! Isto é ser escola!

Alexandre Henriques


“Chega meninos, estou farto! Se não vai a bem vai a mal…” 30

Ando chateado com uma turma que estou a lecionar, não é a primeira vez que acontece nem será a última e apesar da tolerância/paciência que tive ao longo do 1º período, as atitudes e níveis de maturidade continuam aquém do exigível, pelo menos para os meus parâmetros.

Sintomas:

– baixos níveis de concentração;

– atitudes infantis entre pares e para com o professor;

– interrupções sistemáticas de quem está com a palavra, seja aluno ou professor;

– afastam-se/levantam-se/viram-se de costas durante as explicações/orientações do professor;

– conversas paralelas;

– desinteresse pela disciplina;

– ignoram as advertências do professor;

– risinhos e comentários inapropriados;

e, a mais grave de todas…

– total inconsciência da gravidade das suas atitudes.

Ou seja, são alunos que não são maus miúdos, mas encaram a escola como algo que ela não é, um recreio. Este é um exemplo claro da pequena indisciplina, algo tão comum nas nossas escolas. Mas apesar de não haver atitudes graves, como violência física ou psicológica, a pequena indisciplina é tão ou mais perturbadora para o processo de ensino-aprendizagem. As pausas constantes para chamar a atenção, para focar novamente os alunos, para melhorar o seu desempenho, fazem gaguejar o motor da aprendizagem e ficamos com a sensação que passámos metade da aula com coisas estúpidas, supérfluas, sem sentido, como o diz que disse e birrinhas de palmo e meio…

Não pensem que não tentei contornar a situação, já e por vários caminhos:

– diálogos individuais e coletivos sistemáticos (e quando digo sistemáticos é mesmo em todas as aulas);

– advertências/repreensões;

– castigos de cariz pedagógico;

– exercícios com forte componente lúdica e competitiva, de modo a incutir uma maior motivação pela disciplina;

– ordem de saída da aula (por duas vezes);

– comunicações à diretora de turma.

Ou seja, tentei a bem, principalmente a bem, e apesar da “tampa” que me saltou de vez em quando e de ter tido um efeito anestésico para algumas aulas, rapidamente os vícios antigos regressaram. Sei que os “cavalinhos selvagens” quando mudam de ciclo demoram algum tempo a serem “domados”, normalmente a coisa chega ao ponto que pretendo, mas desta vez a anormalidade teima em ser normal.

O que vou fazer? O que posso mais eu fazer? Essa é a questão… o que posso mais eu fazer??? Sei que me estou a expor publicamente e haverá certamente um de vós que vai achar que devia ter feito “assado” ou “cozido”, mas fiz aquilo que achava mais correto, não desisti ou ignorei, continuei a trabalhar apesar da frustração e irritação que esta situação me tem causado.

Vou fazer algo que não gosto de fazer, vou “quebrar” aquela turma e não vou dar-lhes tempo sequer para respirarem. Chega do professor compreensivo, comunicativo, bem disposto que gosta de ensinar a brincar. As aulas não devem ser uma “seca”, as aulas não devem ter um ambiente repressivo, intolerante, ditatorial, em que os alunos se sintam incomodados, afinal, estamos a falar de miúdos que ainda não possuem os “filtros” devidamente calibrados.

As primeiras aulas deste segundo período serão semelhantes a um “regime militar”, com o cumprimento das medidas disciplinares que constam no Estatuto do Aluno/Código de conduta. Estes miúdos precisam de entender que para atingir o sucesso é preciso estar focado, concentrado e levar as coisas a sério. Precisam de entender que também eles têm uma profissão, que devem ter brio e que só assim é possível aprender, mas aprender mesmo, sem utilizar a escola como um passatempo ou algo que se vai fazendo… Os alunos precisam de assimilar um princípio básico da sociedade, que as suas atitudes têm consequências, sejam elas boas ou más…

Os pais, a sociedade em geral, gastam muito dinheiro e depositam muitas esperanças nestes jovens que são o futuro de amanhã. No entanto, parece que alguns destes “futuros” vivem numa bolha de irresponsabilidade, num ambiente demasiado confortável quando tanto está em jogo.

É preciso “abanar” certas cabeças, cabeças que pensam que o mundo se resume ao snapchat, facebook e mais alguns irmãos digitais…

Vai doer e não me vai trazer qualquer satisfação, mas é para seu bem, mesmo que só se apercebam disso daqui a umas semanas, quando voltar a afrouxar os níveis de intolerância e o sorriso surgir mais algumas vezes.

Alexandre Henriques


Professores terminam interrupção letiva e começam interrupção familiar. 14

Escrito há 1 ano, mas podia ter sido ontem…


Para quem na última semana conheceu o ComRegras, pode ficar a pensar que se trata de um blogue ao estilo “Cristinas Caras Lindas”, “Perdoa-me”, ou “Quinta das Celebridades” na vertente melodramática… nada disso. As suas raízes são as questões disciplinares e a educação em geral, mas a componente emocional do professor é muitas vezes desvalorizada e em período de interrupção letiva justifica entrar um pouco nesse mundo. Quem quiser algo mais másculo, pode sempre sintonizar a Sic Radical e ver a WWE…

interrupçãoAmanhã é dia de regresso, dia de desejar bom ano aos nossos colegas e alunos. Mas também é dia de oficializar partidas, deixando para trás, mãe, pai, irmãos, sobrinhos, amigos, etc, bem como os cheiros das vilas e cidades que se configuram como locais de conforto e carregadores emocionais.

Considero-me um privilegiado, pois apesar dos 400 km de distância do meu local de conforto, vivo com a minha esposa e filha, 365 dias por ano… Ainda por cima frequentamos o mesmo agrupamento, eu sei… é uma sorte!

Porém, sempre que se galgam as primeiras dezenas de kms no regresso à cidade tão bem nos acolheu, o sentimento mantém-se, ano após ano, interrupção a interrupção, férias após férias… No banco de trás emana uma tristeza silenciosa, que me arrepia a espinha e faz questionar muitas das escolhas que eu e a minha mulher fizemos no totoloto dos concursos em anos anteriores. O olhar cabisbaixo, os dedos entrelaçados, os olhos molhados e os suspiros frequentes, brotam uma voz embargada com um arrepiante “vou ter saudades” ou “por que razão não podemos viver no Porto?”.

A explicação por mais verdadeira que seja e por mais carinhosa que seja, não lhe retira a tristeza do olhar e são os kms que lhe vão aliviando a dor e as conversas sobre as “Nancys”, “Frozens” e afins que a fazem regressar à normalidade. Normal dirão vocês, mas família é família e ela sabe que só daqui a 3 meses os voltará a ver…

O que ela não sabe é que eu também o sinto, e apesar de já terem passado 14 anos custa sempre, custa menos, mas custa… e quem foi obrigado (sim obrigado, pois a tutela obrigou-me a vincular no QZP onde lecionava) a emigrar cá dentro, sabe do que falo.

Sim, estou a falar de barriga cheia, mas o projeto de vida estava delineado e foi amputado porque nos gabinetes mudam-se as regras do jogo como quem muda de roupa interior… Não passamos de “0” e “1” num algoritmo de um processador dual ou quad core, enjaulados por uma caixa de “caprichos” de uma secretária qualquer na 5 de outubro.

Veja-se a diferença de tratamento aos professores franceses no concurso que se avizinha.

Mas se o abandono do lar (e para mim lar é onde estão as nossas raízes) é algo natural numa sociedade cada vez mais dinâmica, o abandono da família direta por razões laborais é algo antinatural, que é imposto e tolerado há muito e a muito custo.

A profissão docente é fértil em pais e mães de fim de semana que “abandonam” os seus filhos para ganhar o seu sustento, amealhando tempo de serviço precioso para a tão desejada estabilidade.

back to schoolOntem foi, hoje é e amanhã será, dia do beijo de despedida, dia do abraço apertado e de dizer a frase mais longa da semana, “Xau querida(o), a semana passa rápido, porta-te bem”. Trata-se de uma castração familiar que para muitos já dura há muito tempo e apesar do hábito, não fica mais fácil. Os primeiros kms de regresso ao trabalho são sempre os mais difíceis. Surge uma frustração e revolta genuína, e saltam aquelas dúvidas desgraçadas que queimam o espírito… “por quê?”, “para quê?”, “até quando?”.

Ninguém, NINGUÉM, devia passar por isto, seja professor, enfermeiro, polícia ou carpinteiro… Muitos já sabiam que seria assim, mas muitos alimentavam a expectativa que mais ano menos ano tal terminaria. Só que sem dar por ela, já passaram 10, 15, 20 anos e aqueles que choraram quando nos viram partir, hoje são homens e mulheres, ou em alguns casos a paternidade e maternidade foi um desejo que nunca se concretizou. E o tempo não volta para trás, e o que se perdeu, perdeu-se para sempre…

Viver com colegas de profissão, partilhando casas de banho e frigoríficos, até tem a sua graça quando temos 20 e poucos anos, mas chega uma altura em que queremos terminar os dias com um beijo na(o) nossa(o) filha(o) e o aconchego do(a) marido/esposa. É justo!

E eles? Estas crianças e jovens até que ponto ficam prejudicados? Esta amputação parental traz naturais consequências e quando se fala tanto na importância da família, não é através de um qualquer abono familiar que resolve tudo, principalmente se esta continuar a dizer “até amanhã”… via Skype…

O Alexandre Sardinha, fez um comentário (dia 29/12/2015 às 18:01) ao artigo que fiz sobre as “férias” dos professores que mostra um pouco do que vê e sente um jovem, filho de uma professora primária. Vale a pena ler e aqui fica um excerto:

Aos 14 anos comecei a ver que a minha mãe não se deitava às mesmas horas que quando acabava de estudar comigo, comecei a ver que ela não estava em casa às horas que acabavam as aulas dela, comecei a ver o recorte de figuras e as colagens nos cadernos, o fazer fichas no “word” quando ninguém a ensinou a utilizá-lo, o ir para a escola quando os alunos estavam de férias, as constantes reuniões e formações a acabarem às 22H, o planeamento de visitas de estudo e dinheiros, as preparações para exames e os exames e tudo o que vem com isso. As pessoas dizem 40H de trabalho??? Eu digo não sei que profissão é essa mas não foi a de professor a que eu vi sempre durante todos os anos da minha vida. Mais férias que o normal? Sim passei mais férias com a minha mãe do que com o meu pai, mas ainda assim quantos foram os dias que ia para a escola dela para não ficar sozinho as 10H que ela estava fora de casa, e quando ela estava nas chamadas “férias” que na verdade não estava mas despachando o trabalho mais cedo podia gozar uns dias a mais… mas acabava muitas vezes por ser chamada à escola, ou seja é impossível planear algo.

Por isso faz sentido questionar as escolhas que fazemos. Até que ponto não estamos a colocar o nosso trabalho e os filhos dos outros à frente dos nossos próprios filhos e cara metade?

Muitos fizeram essa pergunta e a resposta foi que não vale a pena. Mudaram de rumo, são professores apenas num “canudo” guardado em cima do armário. Fizeram bem? Fizeram mal? Só eles podem responder, mas uma certeza conquistaram, não há mais semanas à distância, noites sozinhas ou beijos e abraços por dar.

Para os que continuam a acreditar, é hora de voltar a colocar a máscara, pois ser professor não se coaduna com fraquezas de espírito perante 20 ou 30 alunos. Talvez se soubessem o que vai por detrás da máscara, não nos gozavam tanto, ameaçavam, insultavam ou agrediam. Hora de encher o peito, entrar naquela sala e ensinar o futuro deste país.

Tenham um bom regresso 😉

P.S – este texto pode ser para uma minoria ou maioria, não sei, só sei que esta realidade existe e não me parece justo fazer-se comentários sobre outras realidades como se essa fosse melhor/pior mais ou menos importante. Já disse e volto a dizer que há sempre alguém pior que nós, mas não é por isso que me vou calar ou ignorar o que se passa ao meu redor. Sou professor e este texto é sobre e para professores. Os restantes opinem o que quiserem, mas respeitem, respeitem como nós respeitamos as virtudes e defeitos das vossas profissões. Obrigado.


Quando para casar com uma professora era preciso autorização do Ministro da Educação… 5

Quando se diz que a sociedade mudou e que a figura professor perdeu o seu estatuto, ficamos a pensar se será um exagero e que afinal no passado as coisas não eram assim tão diferentes. Após ler o documento que vou publicar em baixo, constatei que os mais experientes têm toda a razão e que a figura professor, outrora uma instituição, mais não passa que um mero funcionário que de quando em leva leva uns sopapos e umas ofensas às coitadas das suas mães…

Parece-me que o documento data do ano 907, não sou historiador nem grande fã de história, por isso se alguém souber a proveniência do documento fico agradecido. É que o facebook não  diz estas coisas…

Hoje em dia seria um absurdo que a liberdade sentimental de qualquer profissional, professor ou não, dependesse da aprovação do “pai” Ministro. Mas ultrapassando este “pormenor”, repararam certamente na parte que diz ter o pretendente bom comportamento moral e civil. Não é por isso qualquer um que podia casar com uma professora, o respeito que havia na sociedade por uma professora era muito, chegando ao ponto do absurdo, é verdade.

Passámos do 80 para o 8, não sobre os relacionamentos, isso cada um sabe de si, mas quanto ao respeito aos professores, o respeito às professoras. Choca-me o que se diz e faz a certas professoras, já li cada coisa que se fosse capa de jornal, abanaria governos… desde e desculpem-me os mais sensíveis, “eu dava-lhe era uma trancada”, “sua p#ta” e outros “carinhos” tão na “moda”.

Para ser professor é preciso conquistar o direito a ser respeitado.

Já viram bem esta frase? “Conquistar o direito a ser respeitado”. Mas o que é isto? Então eu vou trabalhar e não sei se vou ser respeitado? Por que motivo me sujeito a isto??? É triste mas é verdade, qualquer um que entra numa sala de aula tem que provar que merece trabalhar num ambiente calmo e respeitador, se não for capaz de se impor, de ganhar o respeito dos seus alunos, será “pulverizado” pelos comentários, “bocas”, papeis, borrachas, saídas e entradas na sala de aula, insultos, agressões, recusas em trabalhar e afins…

Os alunos são o reflexo da educação que (não) lhe demos, e todos nós temos responsabilidades ao ponto que isto chegou, os que fazem, os que deixam e os que acatam… TODOS!

Os tempos mudaram, a sociedade mudou, a escola mudou. Mas mudou para pior? Já nem sei… se entre escolher viver numa época, em que para casar precisava de autorização de um Ministro, ou estar numa aula e ser insultado ou agredido pelo encarregado de educação, venha o diabo e escolha…

E vocês? Gostavam de regressar ao passado?


O Excel não sente, não reage, não conhece o contexto escolar e familiar do aluno… 3

Apesar de estarmos a atravessar a fase mais crítica para os professores, em particular para os diretores de turma, hoje nas escolas, por este país fora, foi dia de festa, festa de natal. Chegou ao fim o período mais longo, demasiado longo, pois teimamos em não reconhecer os benefícios de uma paragem lá para meados de outubro, algo que pela Europa fora acontece e que permite aos professores e alunos refletir e recarregar energias.

 

A questão do calendário escolar devia ser debatida com seriedade e estabelecido um consenso entre os diferentes intervenientes, não faz sentido que o calendário escolar seja o artigo mais visto deste e outros blogues de educação, é sinal que ninguém sabe a quantas anda e a instabilidade é a norma.

Para os pais surge o problema, “e agora o que faço aos miúdos?” Há sempre uma solução, mas quem sabe se este não é o último ano em que a escola não irá ocupar essa função, a chamada escola a tempo inteiro. Existem tantas associações e clubes desportivos que precisam de ser dinamizados, porque não valorizar as instituições da terra e deixar a escola e os alunos respirarem um pouco…

Agora é tempo de “julgar” os alunos e os filhos pelo trabalho realizado, lembrando sempre que as notas que vão ver na pauta não são o fim, são sim um caminho para um fim… Cada nota tem uma mensagem pedagógica e nós professores temos a obrigação de ensinar/orientar os nossos alunos pela classificação que lhe vamos atribuir. É preciso ponderar o efeito que a nossa classificação irá causar no aluno, enquadrar a mesma e abrir a porta da melhoria, incutindo-lhe motivação e esperança que é possível fazer melhor.

Costuma-se dizer que em caso de dúvida deve-se beneficiar o aluno, nem sempre, por vezes o que aluno precisa é de um abanão para voltar aos índices de concentração e trabalho exigidos.

Quem é professor sabe o que é ficar a remoer uma nota… a pensar se é justa, se não está a cometer um erro, se deve “apostar” no aluno, se a classificação atribuída não irá criar injustiças dentro da própria turma… Avaliar é muito difícil, para mim, o mais difícil…

Cada um é como cada qual e o Excel, o tão útil Excel, é apenas um conjunto de logaritmos… não sente, não reage, não conhece o contexto escolar e familiar do aluno, por isso caros colegas e se me permitem, olhem para o Excel como um treinador adjunto, ele sabe muito, dá uns bons palpites, mas são vocês que sabem qual a melhor decisão a tomar, são vocês que passaram horas e horas a trabalhar com o aluno, são vocês que vão voltar a trabalhar com ele daqui a 15 dias…

Bom trabalho a todos e já agora, bom descanso meninos, até para o ano 😉


“João, queres fazer a avaliação a que faltaste?” “Não professor, deixe lá isso…” 2

Começo a ficar um bocadinho cansado de ser “secretário” dos alunos e dizer a cada um deles, quais as avaliações a que faltaram e se estão interessados em fazer a dita. No meu tempo de aluno, se por acaso faltasse a uma avaliação, além dos meus pais justificarem a falta ao diretor de turma, eu na primeira aula tinha o cuidado de justificar a minha ausência e pedir à professora se não se importava de me fazer um novo teste. Fazia-o com algum cuidado, pois tinha consciência que estava a sobrecarregar a professora e apesar de não ter culpa do sucedido, a professora também não o tinha e estava a fazer-me um favor.

Hoje em dia tudo é diferente, muitos alunos estão-se a borrifar para a escola… além de não darem qualquer tipo de satisfação quando faltam, de não entregarem justificações dentro do prazo, ou apresentarem justificações do mais ridículo que há, é muito raro ver um aluno pedir ao professor para fazer-lhe uma nova avaliação. Infelizmente tem de ser o professor a dizer aos meninos, “olha, faltaste à avaliação tal… vamos fazer para a semana, pode ser?”.

Até parece que temos de pedir a agenda do aluno, pois é uma pessoa com muitos compromissos e como bons funcionários públicos que somos, temos de lhes prestar um serviço e agradecer humildemente a paciência para nos aturar…

Está tudo ao contrário, é o professor o que mais se preocupa com o sucesso dos seus alunos, quando deviam ser estes os principais interessados.

E depois temos as pérolas como me aconteceu hoje… O João é nome fictício.

Eu – “João, falta-te fazer a avaliação de salto em comprimento…”

João – “Deixe lá isso professor”.

Eu – “João, olha que sem essa avaliação vais ter negativa”

João – “Ó professor, está frio e não me apetece ir saltar…”

Por isso bem pode o secretário de estado falar em emagrecimento dos currículos, redução da carga letiva, ou em definir o que é essencial nos programas, que infelizmente haverá sempre alguém que está na escola apenas para cumprir calendário. As pedagogias são muito bonitas, mas a vontade própria, neste caso a preguiça própria, é tramada e nem os melhores pais ou professores do mundo conseguem demovê-la.

Já dizia o outro… E o burro sou eu? Pelos vistos sou… Mas não por muito mais tempo…


Reduzir o número de alunos por turma não é a melhor opção.

Permitam-me ir contra a corrente, pois parece-me que estamos todos um pouco embriagados pela possibilidade de reduzirmos o número de alunos por turma. A opinião é tão consensual que até parece que é a solução para todo o insucesso e indisciplina escolar. Ajuda, seguramente que sim, mas podíamos ir mais além.

O cenário atual é visível no quadro em baixo e se estamos à espera de melhorar os números de 2004-2013 é porque já “bebemos” euforia a mais e perdemos o discernimento.

Evolução Dimensão das turmasA proposta dos partidos políticos, que podem consultar aqui com maior detalhe, entram na categoria de quem acredita no Pai Natal… Vejam o exemplo em baixo.

Proposta redução de alunos por turma

E convém lembrar o que disse António Costa em Abril deste ano…

A redução do número de alunos por turma é para o Governo uma medida que terá de ser “concretizada com prioridades” e pondo o “carácter pedagógico” acima da “mera medida administrativa”. Por isso, o primeiro-ministro entende que as escolas sinalizadas como Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), onde há mais insucesso escolar, e nas escolas onde se registem as taxas mais altas de abandono escolar precoce, serão “prioritárias” para que se melhorem os resultados pedagógicos dos alunos.

Recuar para os valores existentes entre 2004-2013, parece-me muito simplista, para isso não era preciso fazer qualquer estudo, nem andarmos com grandes rodeios, pois os custos já são conhecidos. Acredito que a opção do governo irá passar por um tratamento diferenciado e não por uma decisão transversal. Se optar pela via “tradicional”, revelará pouca criatividade e qualquer leigo conseguiria fazer o mesmo.

As turmas não são iguais, as escolas também não… e aqui surge a principal falha nos estudos existentes ou que vão aparecer. Por acaso eles têm em consideração os níveis de indisciplina de cada escola? Por acaso as escolas têm esses dados de indisciplina?

Não e não…

A decisão de reduzir o número de alunos por turma é naturalmente benéfica, mas esta decisão nunca devia vir de cima… deviam ser os diretores (quem mais???), pois são os que conhecem a sua realidade, a sua escola, como ninguém. Uma escola pode ter uma turma de 7º ano com 30 alunos a funcionar bem e outra apenas com 15 devido à sua especificidade… O que adianta ter 4 turmas entre os 24-28/26-30 se as turmas são todas diferentes?

É preciso dar mais autonomia às escolas, é preciso acreditar no seu trabalho, mas acima de tudo, é preciso confiar mais nas suas capacidades de se auto gerirem e auto otimizarem…


Perdi a cabeça, dei dois estalos aos meus alunos… 6

A situação descrita é uma mera representação da realidade…

vergonhaSexta aula do dia, a voz já derrapava aqui e ali, o barulho do pavilhão era ensurdecedor, a irreverência dos alunos não desarmava, a sua intensidade mantinha-se a níveis estratosféricos. No meio do suor e das bochechas rosadas, dois alunos apresentam uma linguagem corporal semelhante a dois touros enraivecidos…

Ora dá! Vá… Dá lá a ver se és homem!!! 

Vai-te f#der, lá por seres mais alto julgas que és grande coisa!!!

Um empurrão aqui, um encostar de cabeças ali e a coisa estava a segundos de rebentar.

À sua volta, um grupinho de alunos circulava o espetáculo gratuito, incentivando os “galos” como se uma luta de apostas se tratasse…

Hei!!! Parou já!!! Onde é que vocês pensam que estão??? Parou já disse! Querem ir já para a rua???

Começa o processo de culpabilização alheia…

Stôr, foi ele, está farto de me dar cacetada!

Eu??? Tu é que andas a chamar-me nomes e agora sou eu…

Os “touros” começam a baixar a cabeça, vão levantando poeira com os seus cascos e pronto, o caldo vai mesmo entornar.

Quando dou por mim, trás… trás…. Tinha a mão no meio da cara dos alunos, repetia sistematicamente para se calarem e nada, parecia que não estava ali, era completamente invisível… Naquele momento estava cansado, farto do barulho, das infantilidades constantes, da má criação, da total irresponsabilidade, estava acima de tudo farto de ser professor, carregava em mim 6 meses de aulas, todas as manhãs e todas as tardes… 6 meses a resolver quezílias de alunos com alunos, alunos com professores, professores com alunos… A intensidade do toque foi reduzida, a mão distava 3, 4 cm das suas caras, demorou um ápice, um impulso primário que não deveria ter ocorrido, não podia ter acontecido…

O gesto chocou, chocou-os a eles e aos alunos que assistiram, mas acima de tudo chocou-me a mim, como foi possível perder assim a cabeça? Não dou aulas há 1 ou 2 anos, ando nisto há 25… 25 anos a lidar com conflitos… O que se passa comigo?

Sei que tenho sobre mim a ameaça de um processo disciplinar, violei claramente os meus deveres enquanto professor, estou nas mãos dos meus alunos… basta um email, um telefonema, uma carta para a Inspeção e estou lixado. De um lado 25 anos de serviço imaculado, do outro 2 segundos de trás…trás… Curioso como 2 segundos são agora mais importantes que 25 anos…

Se os alunos chegam a casa e contam aos pais já sei que vou ter problemas. Por muito menos os meus colegas já tiveram problemas…

E agora, o que faço?…

Sou professor, só existe um caminho nesta situação, o correto…

Acabou… não admito estas faltas de educação na minha aula, respeitem-se, são colegas, são da mesma turma, são da mesma “família”. Estão a faltar-se ao respeito e estão a faltar-me ao respeito. Façam um favor a vocês próprios, cresçam, tomem atitudes de homens que querem ser e cumprimentem-se num ato de desculpa mutua.

(cumprimentos dados e a aula prossegue)

No final da dita ficam ambos os alunos a falar comigo. Faço o que a consciência me obriga, não por receio mas por sentir que o correto tem de prevalecer.

Olhem, isto hoje correu mal, quer da vossa parte quer da minha… também eu errei, peço-vos desculpa… excedi-me, não queria fazer o que fiz, mas a mão estava no vosso meio e vocês não se calavam. Não posso ter alunos de cabeça perdida na aula… a violência nunca é a solução, quer da parte dos alunos quer da parte dos professores…

Stôr, deixe lá isso, foi merecido…

Sim, nós merecíamos stôr… a coisa descontrolou-se um pouco…

Podia ter ignorado a situação, mas preferi a genuinidade da minha consciência e assumir que também errei. Como posso exigir confiança na minha liderança, respeito na minha autoridade, se depois não assumo o que faço de errado? Liderar por exemplo, assumir as falhas da natureza humana, as minhas falhas, dá-me a possibilidade de conquistar o respeito de quem está a ser preparado para o futuro e precisa de ser ensinado/liderado por mim. A formação cognitiva é importante, mas o que fica para a vida é a formação pessoal, os valores e os princípios…

A humildade é um pilar fundamental na relação humana, a empatia, uma forma de criar pontes e derrubar muros, o reconhecimento do erro, uma manifestação genuína de respeito pelo próximo, seja ele menor, maior, colega, superior hierárquico ou aluno…

Por vezes no erro surge a oportunidade, importa reconhecer essa oportunidade e aproveitá-la sem receios, pudores ou tabus.

Ninguém é perfeito… e não devemos fingir aquilo que não somos, que nunca fomos…


Apresento-vos os melhores amigos dos alunos: “Não Sei”, “Não Gosto”, “Não Quero”, “Não Faço”. 1

nao-sei-nao-gosto-nao-quero-nao-facoA aula decorria normalmente, já tinha feito dois exercícios, ao terceiro vejo uma aluna sentada quando não era suposto, deixei passar talvez fosse um “aguaceiro”, não era, era mesmo trovoada…

Eu: Manuela (nome fictício) é a tua vez…

Manuela: Não faço…

Eu: Como???

Manuela: Não faço professor!

Eu: Porquê?

Manuela: Porque não sei…

Eu: Mas não sabes correr? Só tens de correr…

Desde quando é que desaprendeste de correr? (estávamos a fazer corridas de velocidade)

Manuela: (encolhe os ombros…)

Eu: Mas passa-se alguma coisa ou passou-se alguma coisa? Estás magoada? O que é…?

Manuela: Não gosto professor, como não gosto não vou fazer…

(após mais umas tentativas para tentar demover a aluna, farto-me do “drama” pois até tinha 20 e tal alunos à espera e o tom muda…)

Eu: Mas isto não é para ser ao gosto do “freguês”, é para fazer e ponto final, se tiveres algum problema vens falar comigo, sou todo ouvidos, mas se não tens nada e é uma questão de “apetece” então a conversa muda já, portanto decide, ou fazes ou sais?

Manuela: Então vou-me embora…

E foi…

Este é um exemplo do que já me aconteceu por diversas vezes ao longo dos meus 15 anos de docência, este ano já vai na 5ª… Muitos alunos vivem num mundo de puro conforto, a vida é bela e cor de rosa, todos os seus desejos são vontades concretizadas e o “não” é uma palavra estranha quiçá de uma outra dimensão. No outro extremo temos os alunos que não acatam uma orientação, uma ordem, são os desafiadores compulsivos, se dizes para irem para a esquerda querem ir para a direita, se dizes para ir para a direita querem ir para a esquerda.

Ambos sofrem da doença “eu sou o sol e todos giram à minha volta”. São incapazes de sentir qualquer tipo de desconforto, quer físico ou emocional, a sua vontade é A VONTADE, e os seus amigos “Não Faço”, “Não Gosto”, “Não Quero” e “Não Sei”, são presença assídua das salas de aula.

Não sei, como não sei não gosto, como não gosto não quero e como não quero não faço…

E voilá, este é o raciocínio de vários alunos da nossa praça, para eles faz todo o sentido e nas suas cabeças estão cheios de razão. Só que como eu lhes digo frequentemente, se a vida se baseasse nessa premissa, para que serviria a escola? Alguns, quais mentes brilhantes respondem… “Para nada…”, ou não fosse motivo de honra ter a última palavra…

Do outro lado estão os professores, estes têm de criar mil e uma estratégias para tornar o ensino lúdico, interessante, motivador, apelativo… Mas se o ensino não tem de ser chato e eu sou o primeiro a dizer que o nosso ensino na globalidade é chato, mesmo aqueles que tentam fazer algo “fora da caixa” são frequentemente confrontados com estes “amigos” imaginários.

A novidade, a mudança, o fazer algo diferente, o sair da sua zona de conforto, está muitas vezes associada a uma avalanche de rebeldia, teimosia, direi mesmo de mimo exacerbado. A competição com os estímulos exteriores torna a escola pouco apelativa e desinteressante, é uma competição injusta onde a escola demora demasiado tempo para se adaptar e quando se adapta já tudo mudou, ficando sistematicamente atrasada.

A vontade própria é excelente, não há dúvidas quanto a isso, mas é também uma sacana que pode dar cabo de uma aula. Esta vontade que no passado era reprimida, brota agora com enorme facilidade, demasiada facilidade, a dedicação, o esforço, a responsabilidade, são palavras desconhecidas de muitos alunos. A escola de todos e para todos tem destas coisas, é um desafio diário de elevada complexidade onde cada aula só é previsível na sua própria imprevisibilidade. Não adianta fazer grandes planos ou imaginar grandes cenários, nem criar grandes expectativas, cada aluno, cada aula é uma caixinha de surpresas.

Venha a próxima que amanhã é outro dia…


Passar nos corredores e ouvir “vai pró caralho”, assim… tão natural como a sua sede… 26

beber-agua-em-jejumÉ mesmo assim… sem filtros nem letras esquisitas a codificar as vogais para não ferir os olhos. Os corredores das escolas não têm Piiiis, nem reticências nos palavrões, os corredores das escolas não querem saber se gostas ou não do que ouves, se te sentes bem ou mal, os corredores das escolas mostram bem o calibre do vernáculo estudantil.

A falta de pudor em mandar 2 ou 3 “bojardas” atómicas que nos atordoam os sentidos é a norma dos nossos jovens que começa a florescer lá para o 1º ou 2º ano. Na selva dos corredores quem dita as leis não são os professores ou os pais, são os meninos e meninas no seu estado mais puro, no seu estado mais selvagem. Atravessar um corredor cheio de alunos é uma autêntica prova de destreza física, o ziguezaguear entre aqueles que se amontoam, os que se empurram e se movimentam de forma anárquica e aleatória é uma prova de capacidade física que nem sempre é fácil, onde o impacto está bem presente e o “deixar passar” é algo que está ausente, demasiado ausente…

Quantos professores já não fingiram não ouvir os palavrões? Quantos professores não se sentiram pequeninos perante tamanha avalanche de má educação? Falar para quê? De que adianta? Ainda vão gozar comigo depois de passar, pois eu é que sou o “cota”, o “chato”, o “antiquado”…

Hoje foi a minha vez… estava cansado de tanto chamar a atenção… hoje fui egoísta e só quis entrar na sala sem me chatear, sem dizer as frases do costume que de tão repetidas já nem causam impacto…

No espaço de 20 metros ouvi um “vai para o caralho”, um “foda-se”, um “vais violá-la” e um “puta”, assim, tão natural como a sua sede, entre risos de aceitação e de total normalidade…

Os autores desta tempestade literária nem se aperceberam que lá estava, mas o problema é que a minha presença ou a presença de qualquer professor não é garante de uma língua asseada, livre de micróbios linguísticos… A má educação não é apenas uma moda, é uma questão de integração e afirmação social e veio para ficar.

Ano após ano, o alunos vão passando mas o padrão mantém-se: a má criação, os papéis para o chão, a indiferença perante o professor que passa, tudo é normal, tudo é natural e tudo cansa, desgasta e dá vontade de ir embora e não olhar para trás.

A indisciplina é o cancro do ensino, destrói o sucesso, destrói o ambiente escolar, consome professores e mostra a crise de valores que infelizmente não se fica pelos alunos…

Se os pais ouvissem o que os professores ouvem naqueles corredores, corariam de vergonha, ou então talvez não… alguns até se sentiriam confortáveis, adaptados, integrados naquele ambiente, pois seria apenas uma extensão do seu habitat natural, uma extensão do que dizem lá por casa e que é tão bem, demasiado bem repetido, aceite, assimilado, assim… tão natural como a sua sede…

 


“Tanto me faz se tiram apontamentos num guardanapo, no caderno, no tablet, no portátil ou no telemóvel” – “A sério professor?”

apontamentos-telemoveisAcho que foi a primeira vez que os alunos ouviram tal coisa. A reação generalizada e genuína levam-me a essa conclusão.

Este ano dou aulas teóricas, pois leciono um curso profissional de Técnico de Desporto. São alunos de diferentes proveniências: ensino regular; ensino vocacional; PIEF; repetentes; e não repetentes. Vinte e oito jovens, cada um com a sua personalidade, ambições, objetivos e dificuldades.

A conversa sobre a transcrição dos conteúdos surgiu quando uma aluna disse a um colega com disgrafia, “para que é que estás a escrever se depois não percebes nada do que escreveste…”. A frase meio provocatória não deixou de fazer algum sentido e levou-nos a uma conversa sobre a liberdade/autonomia dos alunos e seus deveres.

Nos meus tempos de faculdade, a minha professora de natação disse-me um dia que nunca devia ir para uma aula sem planeá-la, nem que fosse num guardanapo. Ora nem mais cara professora!

Tal com os professores, os alunos devem ser responsáveis e titulares da forma como “preparam” as suas aulas, como tiram os seus apontamentos. Esta ideia dos professores controlarem cadernos, chegando ao ponto de avaliar os ditos, como se fizesse sentido avaliar o estilo/organização de cada um, para mim é algo que não faz qualquer sentido. Devemos sim aconselhar e orientar, mas se um aluno entender a sua “confusão”, quem sou eu para dizer que os seus apontamentos estão incorretos ou que estão confusos?

Esta falta de autonomia, esta falta de liberdade que é retirada aos alunos, mostra a falta de confiança que neles depositamos, criando barreiras propícias à saturação, ao tédio e consequente indisciplina.

A reação dos meus alunos foi muito interessante, ficaram fascinados com a ideia de poderem tirar apontamentos com o portátil ou telemóvel, claro que como qualquer criança que tem um brinquedo novo, houve logo quem se excedesse, ditando as minhas palavras para o telemóvel… Deu para darmos umas belas risadas, tal não era o “papagaio” que tinha ao fundo da sala. E esta foi a dica perfeita para a 2ª parte da conversa.

“A vossa liberdade traz-vos responsabilidades acrescidas”

“É uma questão de confiança, não se pode aceitar um presente e depois desrespeitar quem vos deu. Temos de confiar uns nos outros!” E assim foi e assim tem sido…

Numa outra aula, ao projetar um quadro, um aluno chamou-me ao lugar e fez questão de me mostrar o que tinha feito, tinha tirado uma fotografia ao dito, colocando-a junto aos seus apontamentos, tudo com o seu telemóvel. Vi que precisava de aprovação, tinha receio de ter ido longe de mais. Mas que mal tem??? Está organizado, está agradável à vista e é extremamente prático para estudar. “Muito bem meu caro, muito bem!”

Quando se fala que a escola está estagnada é porque existem dogmas que teimam em persistir. É imperativo incluir no ensino o que atrai os alunos, a escola tradicional não consegue competir com o que se passa fora das salas de aula. Ou aceitamos a evolução como um processo natural ou estamos a condenar a escola a algo enfadonho, triste, cinzento, desligado da realidade.

Permitam-me o conselho. Pensem fora da caixa, saiam da vossa zona de conforto, testem os vossos limites, expandam os vossos horizontes e quem sabe se não ficarão surpreendidos com o retorno dos vossos alunos.

40 Usos de Telemóveis nas Salas de Aula

Professora lusodescendente no Canadá reconhecida por métodos inovadores no ensino a crianças com dificuldades


Mediação Radioativa 2

radioatividadeO que é mediar? É estabelecer uma ligação entre dois indivíduos/entidades que estão em planos diferentes e que permite ultrapassar um determinado problema/dificuldade. Até parece simples…

Desde que criei o ComRegras que comecei a aperceber-me que as escolas estão a apostar cada vez mais na mediação de conflitos como forma de combate à indisciplina. É sem dúvida um caminho muito interessante e a sua crescente utilização comprova a sua eficácia. Neste espaço temos a colaboração das excelentes Mafalda Branco e Mónica Soares que nos “medeiam” com os seus textos.

Não é que esta temática seja desconhecida para o comum dos mortais, é algo que até fazemos com alguma regularidade, seja no nosso local de trabalho, seja em casa, ou mesmo na nossa vida social.

Porém, nem todos têm essa capacidade, nem todos têm esse perfil, um perfil de quem está disposto a ouvir para depois reconstruir. Não é um defeito, é uma característica representativa das nossas diferentes personalidades. Há até quem considere a mediação uma treta, uma lamechice, um percurso ziguezagueante que não leva a nada preferindo uma abordagem mais direta e crua. Como eu disse, personalidades…

Quem opta pela mediação tem que estar consciente dos riscos que irá correr, mediar é como tocar em algo radioativo e é imperativo vestir uma capa protetora que impeça a sua contaminação. Para os mais inexperientes, lidar constantemente com os sentimentos mais negros da natureza humana, pode, a médio prazo, poluir a própria alma e não há nada pior que ter um mediador poluído, parcial, sem a lucidez necessária para estabelecer pontes e definir um caminho. A experiência é sem dúvida uma mais valia nesta área.

Mas nem mesmo para os mais experientes e que já fazem da mediação a sua rotina ficam imunes à sua radioatividade. Existem situações que são como que “cryptonite” para o mediador…

Uma ligação meramente profissional, permite o distanciamento emocional necessário para mediar de forma assertiva e eficaz. O mediador toma as rédeas da situação, define a estratégia e o caminho que ele e os envolvidos precisam de percorrer. Porém, quando maior é a sua ligação, maior é a dificuldade em ser imparcial, assertivo e eficaz.

Uma estratégia que é relativamente comum na mediação, é levar os visados a reconhecer as suas falhas, para que depois se inicie um processo reconstrutivo. Só que quando a ligação é demasiado próxima, quando do outro lado estão pessoas que conhecemos desde que nascemos e que são uma extensão de nós próprios, torna tudo muito mais difícil…

É a derradeira mediação, quando sentimos os conflitos alheios como se fossem nossos, quando tentamos estabelecer pontes e não conseguimos sequer mediar o nosso próprio espírito, tornando todo o processo tão doloroso como inútil. Só nos resta um caminho, tornarmo-nos sacos de pancada, aguentando cada frase como se fosse um soco, batemos o pé, mordemos o lábio, apertamos os dedos e aguentamos até ao fim.

E depois? Quando toda a raiva e frustração foi descarregada o que fazemos? Nada, simplesmente nada… O ciclo tem de terminar ali… Só resta tratar das feridas e para quem tem essa possibilidade usufruir da ajuda de quem é inocente, puro e só tem luz dentro dele(a)…


Livro da Semana – Carta à Mulher do Meu Futuro

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Título: Carta à Mulher do Meu Futuro

Autor: Péter Gárdos

Edição/reimpressão: 2016

Páginas: 244

Editor: Alfaguara Portugal

ISBN: 9789896650339

 

Sinopse

Em Julho de 1945, depois de sobreviver ao campo de concentração de Bergen-Belsen, Miklós, um jovem húngaro de vinte e cinco anos, é enviado para um campo de refugiados na Suécia. Pele e osso, desdentado, doente, o médico dá-lhe poucos meses de vida. Mas morrer depois de sobreviver a uma guerra não está nos planos de Miklós.

Ele não se sente sozinho. Sabe que há 117 mulheres da sua terra a viver em campos de refugiados na Suécia. Ignorando a sentença de morte da febre que o atormenta todas as manhãs, envia uma carta a cada uma delas. Alguma haverá de sucumbir à sua veia poética e sedutora caligrafia.

A centena de quilómetros, Lili responde. Assim começa uma história de amor redentora e inesquecível entre dois sobreviventes que eram também sonhadores.

Baseada na história real dos pais do autor e narrada a partir das cartas trocadas entre os dois, o romance de Péter Gárdos relembra-nos que o amor é uma força de vida, capaz de vencer a própria morte.

Opinião

(por Roberta Frontini)

Opinião completa aqui – http://flamesmr.blogspot.pt/2016/04/livro-carta-mulher-do-meu-futuro.html

A Alfaguara não pára de me surpreender. Os autores que publica são sempre fabulosos, e as capas que faz ajudam sempre a enaltecer as suas obras. Por isso mesmo, sempre que sai uma obra nova, fico logo interessada. A primeira coisa que me chamou à atenção foi, sem dúvida, a capa. Ainda antes de ler o título, ainda antes de ler o nome do autor ou de saber o que trata, sabia que o tinha de ter! Colecciono selos, mas independentemente disso acho que qualquer pessoa fica facilmente encantada com a qualidade desta capa. E hoje posso dizer que esta é das capas mais lindas da minha estante. Passada a surpresa inicial pela capa, li o nome do autor, vi o título, li a sinopse e pensei “Sim! Este livro terá de fazer parte da minha estante”. Tal como os pais do autor do livro, também o meu avô sobreviveu aos campos de concentração nazi. Depois de ter ido combater por Itália, foi preso precisamente na altura em que Itália e Alemanha deixaram de ser aliados. E assim, sempre cresci a ouvir algumas das histórias que ele contava (apesar de tudo muito poucas, que não era um assunto que lhe interessasse recordar)… Talvez isso tenha aumentado o meu gosto por este género de história. Gosto bastante de ler sobre a Segunda Guerra Mundial.

(…)

Neste livro, seguimos a história do pai de Péter Gárdos, Miklós, a quem um médico lhe comunica que tem apenas 6 meses de vida. Sobreviveu, mas o seu estado de saúde não é dos melhores. Então, ele decide escrever cartas a mulheres que sejam da localidade de onde ele era antes da guerra.. e assim escreve 117 cartas a mulheres húngaras sobreviventes.

(…)

E já agora, precisamente a propósito disso, aproveito este post para me referir a um “outro” assunto. Esta é a história de duas pessoas… dois refugiados da guerra. Uma história de amor belíssima, e real! O romance de dois judeus maltratados por causa de uma nação com lamentáveis ideologias. Que teria acontecido se a Suécia não tivesse acolhido milhares de refugiados como fez? Bom… muito provavelmente Péter Gárdos não existiria, e assim esta obra e todos os filmes de que é realizador, não existiriam! Talvez este livro venha recordar, a algumas pessoas, a importância de se acolher quem mais precisa e que um dia, também nós, poderemos precisar de apoio. De facto, as personagens deste livro são refugiados húngaros. É “interessante” saber isto, tendo em conta a posição que a Húngria está a tomar neste momento, relativamente a outros refugiados de guerra. Este facto apenas aumenta o meu respeito pelo autor, que escreveu esta obra também por este motivo.

Agora, o meu próximo passo é ver o filme! A curiosidade é enorme!


Eis a alternativa rejeitada pelo Secretário de Estado sobre a polémica inclusão de Ed.Física na média de acesso ao superior.

Se há assunto que coloca as redes sociais, blogosfera, pais, professores e alunos a ferver, é a inclusão da disciplina de Educação Física na média de acesso ao superior. Ferveu tanto que até me causou um problema técnico no ComRegras.

Tirando de parte a imbecilidade de alguns comentários que até avançaram com o argumento dos invisuais e cadeiras de rodas, argumentando com a exceção para justificar a norma, como se a deficiência e limitações intelectuais de outro tipo não fossem também limitadoras da aprendizagem nas disciplinas dos sentados, no geral, o principal motivo invocado para a recusa da Educação Física na média de acesso ao superior, é o baixar a média a alunos brilhantes nas restantes disciplinas.

É tudo verdade, não há como negá-lo. Como também é verdade e provam-nos os inúmeros comentários a título pessoal, que este fervilhar todo justifica-se em grande parte pelo umbiguismo de quem está apenas preocupado com o seu filho, que infelizmente não tem jeito para cambalhotas e afins, esquecendo-se, num egoísmo tipicamente parental, que o vizinho do lado até tem jeito para os saltos e pinotes mas por “azar” tem dificuldade às disciplinas bem vistas socialmente…

E é aqui que morre a argumentação de muitos, pois ignoram o facto que o prejuízo de uns, apesar de existir, é francamente menor ao benefícios de muitosQue se diga a verdade de uma vez por todas que em comparação, as classificações de Educação Física são mais altas que as restantes disciplinas. Por isso, esta negação da realidade só se pode justificar por um preconceito e/ou desconhecimento para não lhe chamar ignorância, de quem não conhece as múltiplas inteligências que existem. Não há melhores nem piores, há apetências e capacidades, o acesso ao superior baseia-se numa média de muitas delas, uma média de multiplas inteligências.

Fica a imagem para instruir…

inteligencias

E para quem também desconhece, pois a sabedoria por vezes também escasseia e não é só aos alunos… ficam as competências gerais que constam no programa de Educação Física e se estiverem dispostos, façam um simples exercício de ligar as ditas a várias profissões que vos ocorram…

competencias-gerais-ed-fisica

Quanto à alternativa, sei de fonte segura que esta foi apresentada ao Secretário de Estado, mas que foi liminarmente rejeitada e que consiste numa média seletiva. Ou seja, as disciplinas que contam para a média de acesso ao superior iriam variar consoante a sua tipologia. Pessoalmente não me oponho, pelo simples motivo que a paridade estaria salvaguardada e não teríamos a disciplina “A” ou “B” excluída por motivos que já referi em cima.

Até acharia alguma graça ver as inúmeras “comichões” que iriam surgir, quando algumas áreas curriculares ficassem de fora da média de acesso ao superior e seus professores sentissem na pele o que é um aluno dizer-vos na cara que não faz mais pois “a disciplina não conta para média…”

Mas percebo perfeitamente a recusa do Secretário de Estado, estaria a comprar uma guerra com várias faculdades, associações, pais, professores e alunos ao dizer que esta entra e esta sai… Se o filme com Educação Física é o que é, se juntasse outras ao barulho, havia de ser bonito…

Termino com o reafirmar de uma convicção profunda, falta cultura desportiva em Portugal, não só nos pais, mas infelizmente também nos professores, e este é o meu maior lamento…

parabola-pos-moderna

Retirado da página de Facebook – Faceprof

Talvez por isso é que vamos continuar a ter Um País Amador que quer Medalhas Profissionais.


A verdade sobre o dia “livre” dos professores. 9

(aviso: a minha verdade não é a verdade, é a minha verdade, a minha realidade ou perceção da realidade, não é a única realidade, é a minha realidade…)

Comecemos pelo termo livre, livre significa liberdade para fazermos aquilo que nos vai na real gana, seja dar um passeio com a família, ir ao cinema, ou simplesmente ficar em casa a vegetar em frente à televisão. Livre seguramente não significa ficar a trabalhar em casa ou na escola a preparar aulas, corrigir testes, tirar faltas ou organizar dossiers…

Apesar da prática do dia livre ter sido abolida em várias escolas, esta mantém-se em tantas outras. Os professores deviam evitar dizer ao dia que não têm aulas, dia livre, não o fazem por maldade, mas dá a perceção de algo que na prática não o é…

Mas também é verdade que a flexibilidade que um horário docente permite dá muito jeito e por muito que nos queixemos da profissão docente, o facto de termos a possibilidade de ter uma manhã, tarde, ou dia sem componente letiva, é algo que nem todos podem ter. Uma simples ida ao banco, aos correios, ou ao médico, fica assim facilitada com esta ausência de componente letiva.

A questão do dia livre, ou de forma mais abrangente, dos horários, é matéria muito sensível para os professores, geradora até de algumas invejas e mal estar na sala dos professores. No início de cada ano, é “normal” os professores solicitarem às direções um horário com determinadas características. Também é verdade que alguns (poucos) o fazem apenas para ir ao encontro de certas “mordomias” supérfluas, seja acordar mais tarde ou concentrarem todas as suas aulas da parte da manhã, só porque sim… outros porém, fazem certos pedidos não por capricho mas por necessidade, como levar os filhos pequenos à escola, prestarem assistência a familiares, ou para permitir mais algumas horinhas com os seus entre queridos. Sobre estes últimos, é comum que o pedido do dia livre seja direccionado para as 2ª ou 6ª feiras. Um mero capricho? Seguramente que não…

Convém lembrar que a profissão docente, uma das mais nobres, ou que deveria ser uma das mais nobres da sociedade, é constituída por milhares de profissionais ao estilo nómada, saltitando ano após ano de escola, obrigando-os a galgar milhares de km todos os anos com todos os custos associados a serem pagos do seu bolso. Muitos e muitas, são pais, mães, filhos, filhas, maridos e esposas de fim de semana, obrigados a viver aos 40/50 anos de idade em quartos com outros colegas como se ainda estivessem nos anos loucos da faculdade…

Essas horas preciosas ao início ou final da semana são o suficiente para poderem dormir 3 noites por semana em casa, (já viram o luxo!?) sentindo o conforto do seu lar e proporcionando aos seus entes queridos alguma normalidade familiar…

Outros que solicitam o dia livre, fazem-no para pouparem alguns euros, pois é menos um dia que têm de galgar kms, consequência natural de quem preferiu sacrificar-se a si e ao seu carro, com viagens diárias e dispendiosas para continuarem a ser parte do agregado familiar, permitindo-lhes algo tão simples e banal como dar um beijo de boa noite ao(s) seu(s) filho(s) ou dormir abraçado ao seu cônjuge… aos outros só lhes resta a frieza do skype e o desejo ardente de que a semana passe depressa…

Esta “benesse” como alguns vêem paga-se caro, todo o tempo da componente individual do professor que é utilizado em viagens, apoio familiar ou na resolução de problemas do dia a dia, serão pagos com direito a juros, juros cobrados nas noites silenciosas, já depois da família ter apagado a luz para o seu merecido descanso, ou nas soalheiras tardes de fim de semana…

Por isso encaro o dia livre como um empréstimo bancário, variando o seu spread consoante as contingências familiares. A sua ausência em casa gera normalmente taxas de esforço muito elevadas e que se não tivermos cuidado podem levar ao fim do crédito, leia-se, paciência familiar…

Afirmo-o com todas as letras, os professores não devem nada a ninguém na sua carga laboral, os vizinhos quando nos vêem em casa em horário que era suposto estarmos na escola ficam naturalmente a pensar que “felizardos” que estes são… Mas o felizardo provavelmente deve estar mergulhado numa pilha de papeis no seu cantinho desarrumado e que deixam muitas vezes a cara metade irritada por tanto e tanto papel espalhado.

Exigir o melhor desempenho ao professor é legítimo, como também é legítimo o professor exigir melhores condições laborais para que o seu desempenho esteja ao nível das expectativas.

O dia livre, não é um luxo como muitos pensam, nem um feriado semanal, na grande maioria dos casos é até uma necessidade de que muitos preferiam abdicar. Tal como um boomerang, convém não esquecer que no final da semana as horas estão lá todas e concentrar em 4 dias toda a componente lectiva, chegando ao ponto de lecionar 8 tempos de aula no mesmo dia, pode ter um efeito contraproducente, recebendo o dito boomerang com uma força que se não tivermos cuidado pode deixar marcas a médio, longo prazo…