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Sou Professor E Hoje Um Aluno Partiu-me Os Óculos

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Não se fala disto, eu não falo disto, se me perguntarem está tudo bem e, ao chegar a casa, foi mais um dia normal. Mas isto não é normal, ainda não estou em mim, interiorizo tudo e isto também, estou calado, ando mudo, há-de passar mas não passa e só através da escrita consigo fazer a catarse.

Contexto: trabalho numa escola de alunos excluídos do ensino secundário por problemas de comportamento. Como os miúdos têm a mania de fazer “cavalinhos” no meio da estrada à hora de almoço e no meio do trânsito, temos de lhes prender as bicicletas a cadeado.

Estava de plantão no recreio, só para ter a certeza que não havia problema nenhum, quando um aluno veio ter comigo e exigiu que lhe desprendesse a bicicleta.

Disse-lhe que não, que não podia, só ao fim do dia, por uma questão de segurança. O aluno insistiu e ordenou, acrescentando precisar da bicicleta à hora de almoço e, como mais uma vez lhe disse não poder, o rapaz não hesitou, agarrou-me os óculos e atirou-os violentamente contra o chão.

Quinhentos euros para o chão, talvez mais, assim, num par de segundos.

Voltei para dentro da escola e afastei-me do aluno, aluno esse que entretanto fugiu a correr rua abaixo, ou assim me disseram depois. Não estava em mim.

Voltei para a sala de aula e sentei-me ao computador enquanto, à velocidade da luz, o meu cérebro procurava justificar o que tinha acabado de acontecer.

E se pensam que a escola, e consigo a direcção, se estiveram nas tintas e que este é mais um texto para incendiar opiniões, estão enganados. Cinco minutos depois já tinha o director ao meu lado a querer saber de mim, como estava, o que é que podia fazer, e que não me preocupasse com os óculos que a escola paga tudo.

O resto do dia foi um corrupio de gente a querer inteirar-se do meu estado, que eu tinha feito tudo bem e nada mais havia a fazer numa situação destas. Não entrei em conflito com o aluno, desviei o olhar, repeti a mensagem. Podia ter-me afastado, mas estava com as costas coladas ao portão. Não havia nada a fazer.

O aluno em questão já não volta para esta escola, continuando a sua escolaridade num outro pólo, mais pequeno, com mais professores e profissionais, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, mais ajuda, por conseguinte, para o aluno e para os pais.

Os óculos foram à vida e algumas lágrimas, presas, ficaram por chorar. Meio cego, a ausência dos óculos é a cicatriz que não consigo esconder durante os próximos dias, a violação do corpo, a cobardia do desafio sem resposta.

Não vale a pena falar mais, são os ossos do ofício. Porque se por um lado não podemos tolerar certos comportamentos, por outro não podemos desistir das crianças, por pior que sejam os seus actos. Porque há sempre uma razão, do abandono dos pais à violência doméstica, passando pelos abusos físicos, emocionais, sexuais, a delinquência, o tráfico e o consumo de droga.

Trabalho com estes alunos há 11 anos e nunca tal tinha acontecido. Algum dia havia de ser. Não houve razão, só emoção e fúria da parte do miúdo, fruto de tudo o que lhe aconteceu e não devia ter acontecido em 13 anos de vida.

Amanhã é outro dia, às 6 horas estarei na escola, desta vez às apalpadelas, mas é só por uns dias, os professores apoiam-me e apoiam-se, a equipa é coesa e a direcção uma presença constante. Se não fosse assim, não seria possível continuar, dia após dia, a nadar contra a maré que deu à luz estas crianças.

João André Costa, in Público 8-10-2018

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14 COMENTÁRIOS

  1. Eu senti-me muito, muito triste. Pelo colega. Por mim. Porque quando me aconteceu semelhante, não tive ninguém capaz de perguntar como me sentia, como era possível acontecer tanto insulto por parte de um miúdo. Só tive a conversa de que se estava perto do fim do ano, como se isso justificasse a má educação e desse legitimidade aos maus tratos.
    Pobre e triste mentalidade de pessoas que não sabem ser gente.
    Felizmente há gente ao seu lado que, como diz, torna possível “nadar contra a maré”.

    • Creio que existem muitos “lapsos” no Sistema Educativo e alguns deles muito por culpa do próprio sistema. Ora bem, o aluno, mesmo sem sabermos a sua idade, encontra-se sob um regime disciplinar, o da escola, o qual se deverá reger pelo estatuto do aluno. Assim e à partida, deveria ter sido sujeito a processo disciplinar, podendo ter sido de imediato suspenso de todas as atividades ate à conclusão do processo, visto ter praticado um ato de agressão para com um professor. Mais ainda, sendo o aluno menor (?) a responsabilidade dos seus atos recai de imediato sobre os seis pais/encarregado de educação. Não se percebe porque tal não terá sido acionado, ainda que se trate de uma escola de características especiais… A escola assumiu o pagamento dos óculos do professor? Bom esperemos que, atendendo o que escrevi anteriormente, seja ressarcida de tal valor por parte de quem de direito. Finalmente, este é um caso que não é único, antes pelo contrário, e que, devido ao “encolhimento” dos órgãos escolares, pais e polícias se tem vindo a multiplicar dia após dia, ainda que encobertos, tais casos, pelos órgãos escolares e policiais. Espero que a escola e o professor tenham a coragem suficiente para avançar com este caso. Não o fazendo estarão a contribuir para a criação de mais um energúmeno, apoiado num processo de socialização incapaz de o ajudar a corrigir em tempo certo. Esta é uma faceta, aquela que se esconde à sociedade sobre a escola atual, aquela a quem os sucessivos governos desprestigiam de forma permanente.

  2. Ainda bem que conseguiu partilhar, caro colega! Ainda bem que de alguma forma se sente apoiado! E o que fazemos quando não é essa a “nossa” realidade? E a culpa recai sempre “em nós”? Que podemos fazer? Desculpe o desabafo… (de uma colega muito cansada…)

  3. Um texto a transbordar de sensibilidade e emoção. É deste material que são feitos muitos dos meus colegas. Profissionais e seres humanos de exceção de quem muito orgulho. É uma pena e lamentável que, neste pobre país, não se tenha orgulho e dê valor à
    maioria dos professores. Eu sou sua colega e sei que a ferida que ficou no coração vai demorar mais tempo a sarar do que a outra. Tenho um profundo respeito e orgulho da sua atitude e generosidade para com esse jovem. Gostava de ver alguns comentadores de bancada que por aqui proliferam a cascar em nós. .. ter uma atitude como a sua. Forcinha, colega. E um homem também pode chorar e não precisa de ser para dentro. Afinal não lidamos só com os afetos dos outros… nós também somos humanos.. se é que ainda não repararam.

  4. “A nadar contra a maré” e roto por dentro… Gostaria de ver este magnífico testemunho do lado obscuro e trágico dos nossos quotidianos escolares na primeira página de um jornal. Gostaria de ver, agora, todos quantos vilipendiam os professores comentarem sobre quão confortável e bem remunerada é esta profissão. Colega João André, não está sozinho!

    • Sou PROFESSOR, VÍTIMA DE BULLYING, um entre muitos.
      Com o apoio de alguns colegas arranjei, finalmente, forças para falar e criar este perfil, pois entendo que JUNTOS PODEMOS SER MAIS FORTES e FAZER A DIFERENÇA.
      Sofremos, ou física ou/e psicologicamente, em silêncio pelas mais diversas razões.
      Esta é uma situação que não é falada nem protegida.
      ESTE PRETENDE SER UM ESPAÇO de PARTILHA e REFLEXÃO e, quiçá, de ORGANIZAÇÃO que VENHA A CONTRIBUIR PARA A DEFESA dos PROFESSORES vítimas.

      SE RESPEITAMOS EXIGIMOS SER RESPEITADOS

  5. É triste, é muito triste tudo isto! Não sou mãe, não tenho filhos complicados nem meio complicados, mas sou tia, tenho sobrinhos por quem já me preocupei se seriam vítimas de outros alunos, os destes comportamentos. E sou irmã dum professor (que já não está vivo, por outros motivos) que um dia foi atacado em plena sala de aulas por um aluno completamente fora de si, drogado ou descompensado, sei lá. E meu irmão foi bater ao hospital, ficou com a cara negra e a alma toda dorida. Estes comportamentos são absolutamente repreensíveis, têm de ser punidos, mas como evitar isto numa sociedade toda ela violenta, sem princípios em casa? porque é em casa que isto se evita, se trata, se educa. Para mim, isto é aterrador. Para si, é demolidor certamente. Não sei onde ainda há coragem para se ser professor. Mas também, nem todos os jovens são assim! mas estes episódios são tão recorrentes que metem medo. Sinto muito o que lhe aconteceu, senhor professor. Há dores que marcam a alma, mais que o corpo. Espero que consiga lidar com esta dor e que a entrada na escola, diariamente, não vire uma dor de estômago recorrente.

  6. Incríveis as suas palavras quando refere: “sou irmã dum professor (que já não está vivo, por outros motivos) que um dia foi atacado em plena sala de aulas por um aluno completamente fora de si, drogado ou descompensado, sei lá. E meu irmão foi bater ao hospital, ficou com a cara negra e a alma toda dorida.” e depois “Para mim, isto é aterrador. Para si, é demolidor certamente. Não sei onde ainda há coragem para se ser professor”.
    Bem verdade, acredite. Segui a profissão por vocação. Também fui agredida verbalmente, humilhada … e sem apoio. Senti-me só, perdida, sem forças sequer … ainda mais sem apoio da Direção para esconder a falta de formação de muitos dos alunos do profissional … sabe, havia que calar para manter a Escola de Sucesso que queriam transmitir … com vários colegas isto se passou e passa.
    TODOS SABEMOS E POUCO FAZEMOS para mudar as situações.
    Um GRUPO DE PROFESSORES pretende criar esse espaço de partilha e reflexão.

    NÃO PODEMOS DEIXAR QUE ESTE ELO SE PERCA … o professor publicou o artigo em que lhe partiram os óculos, mas depois temos uma série de outras situações que aqui são partilhadas … NÃO PODEMOS DEIXAR QUE ISTO FIQUE POR AQUI …

    Aqui ficam os meus contactos:

    https://www.facebook.com/profile.php?id=100027883220692
    e
    [email protected]

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