Início Editorial “Sou Diretor E Não Devia Ter Ficado Tanto Tempo Sem Dar Aulas”

“Sou Diretor E Não Devia Ter Ficado Tanto Tempo Sem Dar Aulas”

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No meu circulo restrito de amigos tenho alguns diretores. Em conversa de café sobre Educação e não só, um deles confidenciou-me que por força da sua avaliação teve de voltar a dar aulas. Foi muito curioso ouvi-lo dizer que não devia ter ficado tanto tempo sem dar aulas. O motivo do seu desabafo não esteve relacionado com qualquer tipo de esquecimento de conteúdos, incapacidade cognitiva ou de formação, ser professor é como andar de bicicleta, nunca se esquece. O motivo do seu desabafo esteve relacionado com um certo desfasamento da realidade, a realidade que é estar numa sala de aula à frente de 30 alunos com diferentes personalidades e sentir na pele as dificuldades das reformas vigentes e passadas. Os alunos de há 5,10,15 e 20 anos, não são os mesmos de hoje e estar em frente de alunos sem a armadura de diretor, é muito, mas muito diferente

Sou um profundo defensor da limitação de mandatos, com o passar dos anos o ser humano tem tendência a ficar mais desleixado, ganha vícios e julga-se acima da lei. São muitos os casos de professores que se queixam de abusos por parte de diretores, algo que só acontece pois não existe um equilíbrio efetivo de poderes. A escola está demasiado centralizada na figura do diretor com uma democracia q.b. Os diretores são gestores e estrategas das políticas educativas ao nível escolar, mas fará sentido ter alguém com o pelouro pedagógico que não leciona há 5,10, 15 ou 20 anos? Um pouco como os sindicalistas de carreira, estes já não são professores mas falam como se fossem…

Os conselhos pedagógicos são hoje um apêndice do diretor, pouco ou nada são necessários, servindo muitas vezes para dar uma certa sensação de decisão conjunta, quando na esmagadora maioria, a escola é efetivamente a imagem do seu diretor.

Por exemplo, quando um professor/conselho de turma diz que os alunos são isto, assado ou cozido, alguns diretores torcem o nariz, desvalorizam, ou culpam os professores… Mas quem crítica não deixa de ser treinador de bancada e quem é treinador de bancada nunca erra, nunca falha e as suas aulas são sempre perfeitas…

Não quero com isto dizer que não há professores que não deviam ser professores, se existisse uma avaliação real, alguns “colegas” já tinham sido recambiados para outra profissão. O mesmo se aplica ao julgamento célere que alguns professores fazem dos diretores, mais uma vez, não passam de treinadores de bancada, pois se tivessem sentados naquela cadeira provavelmente fariam o mesmo…

Porém, quando os diretores regressam à sala de aula encaram a dura realidade, como se um banho de humildade lhes caísse em cima. De repente na sala dos professores, passamos a ouvir aqueles que no passado criticavam os professores, a criticar os seus alunos, os pais, as burocracias e vá-se lá perceber porquê… o novo diretor.

Já dizia o outro, what comes around goes around.

Nota: há uma diferença muito grande entre um professor diretor e um diretor professor. Felizmente que continuam a existir muitos professores diretores que merecem todo o meu respeito pela competência demonstrada, num cargo extremamente difícil e complexo.

Seja feita justiça a quem a merece!

Alexandre Henriques

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14 COMENTÁRIOS

  1. Totalmente de acordo com esta análise. Mas o diretor professor tem sempre a possibilidade, se quiser, de estar a par das realidades. Mais que não seja pelos “feedback” dos restantes membros da direção e assessores, pois estes pelo menos têm uma turma – embora muitos sejam “yes men/women” -.Talvez o problema não passe propriamente por aí. Pessoalmente, entendo que é mesmo a autocracia que grassa nas nossas escolas. E não será apenas nas decisões e análises pedagógicas, mas também nas administrativas.

  2. Concordo plenamente com a limitação de mandatos de um Diretor. Afinal se em todos os altos cargos há limitações, não compreendo o “privilégio ” dos Diretores. Acho que lhes faria muito bem voltar ao “campo de Batalha” (sala de aula) sem a armadura de Diretores para poderem sentir na pele aquilo que todos nós sentimos e passamos. Acrescento mais, o processo de escolha do Diretor deveria ser feito através de uma eleição democrática e não de uma escolha de um colégio a que chamam de “Conselho Geral” ao qual muitos apenas pertencem para ver os seus interesses assegurados. Isto é CLIENTELISMO puro e duro.

  3. Acredito que haja escolas em que o diretor possa dar aulas.
    Todavia, numa escola com 2200 alunos, 230 professores em que o diretor é responsável por uma despesa de 12 milhões de euros, os alunos seriam muito prejudicados.

  4. A limitação de mandatos de um Diretor é de três ( 3×4 anos=12 anos ). Penso ser um período
    muito longo que pode levar ao diretor profissâo pelo menos em espirito.
    Desempenhei cargos de direção por mais de trinta anos.
    O mesmo acontece com os cargos nos órgãos autárquicos.

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