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Ser filho de professor pode ser tramado!

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O entusiasmo inicial de quem aventa nomes, face à boa nova, é brindado, sucessivamente, com comentários do género “Rafael, nem pensar! Já tive vários alunos com esse nome e eram todos terríveis… Pedro, também não me parece uma grande ideia…”. O entusiasmo inicial em busca do nome ideal para o novo elemento da família, dá lugar a um certo desalento, face à lista extensa de nomes proibidos, eliminados, sem apelo nem agravo. Escolher o nome pa12ra o rebento nem sempre é pacífico nem consensual, se lhe juntarmos uma lista extensa de nomes proibidos, pode tornar a tarefa extremamente complicada. Se em tempos, alguns professores davam aos seus filhos nomes de alunos que os marcaram por uma ou outra boa razão, hoje em dia, acontece o contrário, muitos são os nomes inconcebíveis dado o avolumar de recordações menos boas. Sinais dos tempos … do que era e representava a escola outrora para professores e alunos!

Enquanto aluno, filho de professor não tem a vida facilitada aos olhos de terceiros, sejam eles familiares, amigos ou colegas: se tem boas notas é porque o pai/mãe professor o ajuda a estudar e/ou conhece os seus professores; se tem más notas, que vergonha porque não aproveita ter alguém por perto que o pode ajudar; se é um aluno mediano, devia ser muito melhor pois afinal tem um professor em casa. A cereja no topo do bolo é acumular a “função” de ser filho de professor com o frequentar a escola onde o seu progenitor leciona. Nesse caso, sabe que quase tudo o que fez ou pensar vir a fazer, chega, em 1ª mão, aos ouvidos do progenitor por várias vias: os funcionários, os alunos do seu progenitor ou os colegas professores. Não tem grande margem para manobras: adoraria poder omitir alguns factos, opção vantajosa, na sua ótica, e a eleita por muitos dos seus colegas mas, muitas vezes, nem tem a oportunidade de contar a notícia, por sua iniciativa, e em 1ª mão.

Numa conversa típica entre pais e filhos sempre que dá aquela resposta, típica da idade e que todos os seus colegas na escola usam, enfrenta um pai/mãe professor com cara de poucos amigos que não hesita em repreendê-lo, não lhe perdoando o deslize, a forma, nem o tom de voz, acrescentando “Não ouves o que costumo dizer dos meus alunos, agora, tu também me brindas com o mesmo?!”. No final do dia, o cansaço é palpável e as reservas de paciência praticamente esgotadas, dados os disparates perpetuados pelos seus alunos, este é um balde de água frio, a gota de água que pode fazer transbordar o copo. Respira fundo e pensa “ Ele não tem culpa, se tenho paciência para os filhos dos outros mais tenho que ter com o meu!”. O peso na consciência e a voz do subconsciente, sussurram-lhe ao ouvido que uma resposta daquele género proferidas pelos seus alunos, era automaticamente atribuídas, à tão famosa, falta de educação. No fundo, assola-o uma dúvida existencial muito temida “Falhei redondamente… e eu a pensar que o estava a educar tão bem.” Mais tarde, racionalizando e refletindo sobre o assunto, relembra que as crianças, em termos sociais e em determinadas situações, têm comportamentos semelhantes e padronizados, independentemente de serem filhos de professor e da educação que lhes é dada em casa. Finalmente, aliviado, respira fundo mas sempre presente continua a apreensão usual e, muitas vezes, exacerbada de quem lida com miúdos e as suas manhas, diariamente, a nível profissional!

Sabendo a importância e o papel da escolaridade, o pai/mãe professor tem expectativas altas, exigindo muitas vezes do seu filho desempenhos excelentes, a todos os níveis, curiosamente, algo que os próprios, regra geral, nunca tiveram e que até consideram pouco saudável em alguns dos seus alunos, responsabilizando, frequentemente os seus Encarregados de Educação por esta atitude.

 Observadores natos, melhor do que ninguém conhecem o funcionamento da mente das crianças, o que lhes permite prever reações e comportamentos do seu filho, em determinadas situações. As desculpas e artimanhas características de determinadas fases, e que tão bem funcionam com os seus colegas, com os seus pais parecem nunca resultar, estão, logo à partida, condenadas ao fracasso, já as ouviram ou viram todas, e jogam sempre na antecipação. Os avisos e os alertas são uma constante, tentando evitar que cometam os mesmos erros que tantas vezes observaram nos seus alunos. Tentam a todo o custo evitar o que sabem, por experiência profissional, que, às vezes, é preciso cair, para depois poder/escolher seguir em frente, ou retroceder antes de avançar, dando valor, não a quem nos levanta, mas a quem nos dá a mão e ajuda a levantar, e escolhe caminhar lado a lado e não à frente.

Conhecedores do sistema como ninguém, não perdoam ao(s) professor(es) do seu filho, o que perdoam a um colega seu de profissão e a si próprios, exigindo aquilo que, por experiência própria, sabem, melhor que ninguém, ser inexequível, questionando tudo e todos. Sem dó nem piedade, atacam o sistema, confrontam um colega, que abraçou a mesma profissão, que por acaso é professor do seu filho, à procura de respostas e justificações para as falhas. Esquecendo-se que, no dia seguinte, se sentirão incomodados e não acharão justo ou correto, quando as mesma questões lhes forem colocadas por um Encarregado de Educação de um aluno seu mas sabendo, inconscientemente, que nunca olhará para o filho de quem o confronta da mesma maneira … cautela e desconfiança até então inexistentes passarão a estar sempre presentes; o professor do seu filho terá para com este exatamente a mesma atitude. Consciente da realidade, há sempre os que elegem as reuniões de Encarregados de Educação para atear o rastilho, procurando inflamar a plateia para a sua causa, fazendo-o melhor que ninguém, mostrando, com grande esplendor, a solidariedade profissional que tanto carateriza esta nobre profissão! São professores mas também são apelidados, quando se encontram do outro lado do quadro, como os “mais difíceis, os piores” Encarregados de Educação. Entre os “melhores” Encarregados de Educação também temos muitos PROFESSORES: discretos, mas presentes, atentos, observadores, interferindo quando necessário, mas em sede própria, munidos de duas grandes armas: respeito pelo seu semelhante e EDUCAÇÃO…!

Definitivamente, ser filho de professor pode ser tramado …!

Pi

Fonte: imagem

6 COMENTÁRIOS

    • Antigamente não. Quando eu era pequena, os filhos dos professores ficavam soltos na escola dos pais e podíamos brincar, conversar, jogar enfim a escola pertencia-nos depois de todos os outros terem ido para casa :).

  1. Sou professora. Não tenho filhos.
    Custa-me ver que muitas vezes pais e professores se esqueceram de que foram crianças e que também gostavam de contornar os sistema, de falhar com alguns TPC, de conversar nas aulas… Custa-me a intransigência que, por vezes, se tem com alunos/filhos quando em criança a “nossa” atitude era semelhante.
    É verdade que, muitas vezes, se é filho de professor, rotula-se a criança. São exigidas atitudes, resultados, comportamentos acima dos restantes, esquecendo-nos que não passam de crianças a crescer e que têm de cair algumas vezes para que esse crescimento seja pleno.
    Filho de professor ou não, não deixam de ser crianças em formação. A educação é a base para crescer, mas também precisam de pisar o risco para crescer, como pessoas numa sociedade em que, cada vez mais, é cada um por si.
    Em suma, tolerância q.b não fará mal a ninguém.

  2. Tantas horas que eu e o meu filho esperamos um pelo outro… Tantos dias na escola enquanto a mãe está na reunião. Tantas vezes ,”Filho espera que a mãe tem que falar com o teu colega! Não houve trabalho de casa falhado, srssão de comportamento endiabrado e disparate que eu não soubesse com antecedência!

  3. Concordo que ser filho de professor já viu dias melhores.
    No ano lectivo anterior na situação de mobilidade em Castro Verde foi me dito pela direcção da escola que o meu filho de dez anos não poderia comer nas mesas do bufete reservadas aos professores fiquei em estado de choque passamos a tomar o pequeno almoço num café simpático em frente à Escola

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