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Sebastião come tudo, tudo ,tudo!

(Mas os adultos é que têm de saber escolher)

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Já lá vai o tempo em que o Sebastião comer tudo, tudo, tudo era o principal objectivo nutricional dos pais. No início de mais um período lectivo, vale a pena parar para pensar um pouco nos lanches que mandamos aos miúdos.

Eu tenho quase duas centenas de alunos. Eu estou lá, diariamente, na hora em que dá o toque e eles pegam em lancheiras da Frozen ou da Star Wars. O que eu vejo é preocupante. De uma pincelada só: demasiado açúcar, demasiado embalamento. 

Por um lado, a saúde. Alimentos processados, carregados de calorias vazias e pouco nutritivos. Bolos; queques; croissants; bolachas; snacks salgados; sumos e cereais ultra açucarados; chocolates; pão que não é pão guarnecido com opções duvidosas…

Por outro lado, a pegada ecológica. São toneladas de lixo: pacotes de sumos com palhinhas, embalagens de bolachas em doses individuais; pacotes de batatas fritas; copos de iogurtes – sólidos e líquidos (aqueles com colheres descartáveis a acompanhar); sandes embrulhadas em película aderente ou papel de alumínio; garrafas de água de plástico! É plástico… plástico… plástico!

Há excepções, claro. Eu tenho UM aluno de ascendência nórdica. Chamemos-lhe Hans. As merendas dele são tão extraordinariamente diferentes das dos colegas, que o momento de ele abrir a caixinha colorida se tornou um evento diário para (quase toda) a turma!

“Deixa ver o que é que a tua mãe mandou hoje?”

“Dás-me um panado dos teus?”

Ovos cozidos, rodelas de pepino, cenouras baby -cruas ou cozidas, mini-hambúrgueres caseiros, tiras de pimento vermelho cru, salsichas de soja, grão de bico, coco natural, mozarella com tomate, bife, mirtilos e lichias descascadas, panquecas com canela, pataniscas, salada de couve roxa e milho, strudel de maçã…

Quando o Hans abre a caixinha, um cheirinho a comida de verdade inunda a sala de aula. O jogo do deixa-ver-o-que-trazes-hoje-para-o-lanche pegou nesta turma e, cada vez mais vejo recipientes com bagos de uva, morangos frescos ou frutos secos. É um progresso, mas o Hans bate-os aos pontos – está a anos luz das Oreo e dos Bollycaos.

Já nem falo da adolescência ou da fase em que os pais decidem passar a responsabilidade dos lanches para os miúdos, dando-lhes dinheiro ou carregando-lhes o cartão. Aí, se os hábitos alimentares não estão bem consolidados, são as peregrinações aos cafés, snack-bares, lojas diversas de fast food e pastelarias. Com ou sem consentimento dos pais, os miúdos entulham-se de fatias de piza, sandes, refrigerantes e gomas que adquirem nas imediações da escola. Aqui é outro campeonato.

Reporto-me às crianças, quando ainda comem o que nós lhes metemos nas mochilas. Quando a escolha é nossa. Dos adultos conscientes. 

Está na altura de equacionar o comodismo daquilo que enviamos com os malefícios que comportam esses alimentos da modernidade. Esta é uma questão que a todos os pais diz respeito. Ah e tal o meu não leva.  Falso argumento. Os miúdos partilham. Imitam. Pensem no açúcar como uma droga. Que circula livremente nos intervalos.

É um problema que a Escola também devia abordar. Nenhum estabelecimento de ensino onde há alunos menores deveria ter máquinas de vending carregadas de subprodutos alimentares e nos bares só deveria haver à disposição opções saudáveis e nutritivas.

No entretanto, vale a pena reflectir e agir conscientemente. Quando a escolha é nossa. Dos adultos conscientes. Durante a infância,  temos de ser mais responsáveis relativamente aos hábitos alimentares que estamos a criar. Sob pena de não travarmos problemas como a obesidade infantil ou a diabetes num planeta que pode não aguentar muito mais o peso de tanto plástico.

Marta Pereira

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