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São os próprios professores que dizem aos seus filhos e alunos para não serem professores

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O artigo de Alexandre Homem de Cristo encara de frente a problemática da renovação do corpo docente e a sua qualidade. É factual que são os alunos com piores resultados que vão para professores. O seu artigo é interessante e merece ser lido, mas a minha visão é de quem anda no terreno e de quem constata em primeira mão os motivos pelo qual os alunos não querem ser professores…

Se voltasse atrás no tempo voltaria a ser professor? A resposta é não, o afastamento da família, a instabilidade profissional (durante alguns anos), o congelamento da carreira e consequente desvalorização, a indisciplina, a escassez de material, a excessiva carga laboral e a intensidade/desgaste da profissão, são motivos mais do que suficientes para estar desiludido ao fim de 16 anos de serviço. Cada um destes motivos tem um efeito esmagador, que em separado é suficiente para desmotivar futuros candidatos, agora imaginem quando todos são a realidade de qualquer recém chegado à docência.

Por vezes só sentindo na pele é que se percebe e compreende a vontade de milhares de professores em querer sair do ensino se assim pudessem.

Os alunos assistem a tudo isto, constatam e verificam a dificuldade em ser professor, não são imunes às dificuldades e são os próprios professores que não recomendam a sua profissão, chegando ao ponto de pedirem aos seus filhos para serem tudo menos professores. É triste que assim seja e por muito que a profissão de professor tenha o seu encanto e momentos inesquecíveis, a verdade é que para muitos dos professores as memórias estão preenchidas por mais coisas negativas do que positivas.

O amor à camisola é o principal motor da Educação, a escola só funciona pelo amor e dedicação que os professores colocam no seu dia-a-dia. Esse amor, essa boa vontade, é explorada até ao tutano por diretores e Ministério da Educação. Os professores, o mínimo que pedem, é o reconhecimento por essa dedicação, não apenas em palavras de circunstância, mas na prática. E sobre essa prática, os últimos dias mostram bem que quem quer ser professor deve pensar muito bem, pois a eles tudo lhes é exigido, pouco é conquistado e nada é dado…

Fiquem com o excerto do artigo do Observador

A leitura correcta dos dados solicita uma nota de esclarecimento suplementar: dizer que quem vai para os cursos de ensino são os alunos medianos/ fracos não equivale a afirmar que estes jovens e futuros professores não poderão vir a tornar-se profissionais de excelência. Nem as estatísticas são formas de determinismo, nem existe uma relação directa e provada entre ter boas notas na escola e ser-se bom a exercer uma profissão. O ponto aqui é que, como em todas as análises estatísticas que se guiam por valores médios, este diagnóstico apanha o perfil padrão de quem vai para os cursos de ensino – cujo ofício é ensinar e, por isso, que exigem uma sólida aquisição de conhecimentos. Assim, na prática, tudo isto quer dizer que, embora as notas de entrada nos cursos não sejam tudo o que importa, é parte muito importante da ponderação, porque nos informa tremendamente acerca do perfil dos jovens que querem ser professores. E só isso justifica que o tema seja abordado de forma frontal.

(…)

So what? Quatro ideias a fixar

1. Em Portugal, os jovens que optam por cursos de formação de professores estão entre os alunos mais fracos que frequentam o ensino superior. O caso é ainda mais inquietante se se tiver em conta que, numa perspectiva internacional, os alunos portugueses que desejam ser professores têm desempenhos muito inferiores aos que, noutros países, têm as mesmas aspirações. Ou seja, o perfil médio do desempenho dos jovens que, nas escolas, irão ensinar as gerações futuras são aqueles que, hoje, estão entre os mais fracos da sua geração. E, embora o desafio seja europeu, o caso português é particularmente preocupante.

2. O desempenho de um professor é um dos factores fundamentais para garantir aprendizagens de elevada qualidade. É por isso que, um pouco por todo o mundo, os responsáveis pelas políticas públicas de educação se têm focado na formação dos professores – tanto em termos de conteúdo dos programas, mas também na reestruturação da rede de escolas superiores de educação e, claro, nos critérios de entrada nos cursos. De resto, de acordo com a OCDE, é possível constatar um traço comum nos países com desempenhos muito bons nas avaliações internacionais: uma aposta nas políticas de recrutamento e de melhoria da formação dos seus professores.

3. Em Portugal, o tema não entra no debate público sem gerar polémicas e controvérsias – e assim assustando os responsáveis políticos, que preferem não tocar no assunto para não despertar protestos. Isto é problemático, porque coloca o país numa situação de atraso em relação aos seus parceiros europeus. Do ponto de vista estratégico, Portugal não está a acompanhar o actual rumo das políticas internacionais na Educação, que passa por uma aposta no desenvolvimento profissional dos professores. Ou seja, está a cavar um fosso qualitativo em relação aos outros países que, um dia, terá repercussões sistémicas.

4. Há uma questão de contexto muito própria ao caso português: nos próximos 10-15 anos, 45% dos professores do ensino público irão sair do sistema para a reforma, tendo de ser substituídos por novos. Ora, se assim é, a selecção, recrutamento e formação destes novos professores deveriam estar na primeira fila das prioridades das políticas públicas de educação. Isto porque o Estado deveria, pensando a médio prazo, fazer tudo ao seu alcance para garantir o máximo de qualidade nas aprendizagens dos alunos. Infelizmente, não consta que tal opção política esteja a ser levada a cabo.

Fonte: Observador

 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Acho muito bem todas estas notícias, estatísticas, relatórios, opiniões, comentário e outras tantas tretas que se possa dizer e escrever sobre os Professores. E quanto mais negativas, destrutivas, maléficas, nefastas, maliciosas, prejudiciais e outros tantos adjetivos (que possam “arrumar” com essas “gentalha”, melhor), forem as opiniões e os comentários e “as diarreias verbais” melhor ainda. E, se, as referidas “diarreias verbais” forem ditas e assinadas por qualquer pseudo doutor, mestre, pedagogo, investigador, jornalista, encarregado de educação, de qualquer área do conhecimento… enfim, sábio na matéria em causa, Professores e Ensino, ainda melhor.
    Sou Professora, com Maiúscula, tenho muito orgulho no que faço e faço-o com prazer e muito gosto, concretizo o meu sonho de vida. Não foi fácil o meu percurso, foi com muito sacrifício, esforço e perseverança, muito estudo e mais estudo e continuamente a estudar com todo o empenho, motivação e vontade de alcançar os melhores resultados possíveis, que consegui alcançar e estar a viver o meu sonho.
    Por isso, podem dizer, escrever, “vomitar” ou “cagar” o que quiserem sobre os Professores – vão lá procurar relatórios europeus, americanos e chineses, vão lá fazer comparações com quem quiserem, vão lá ver as médias de quem entra na faculdade e se forma professor, vão lá onde “o diabo os leve” – a mim, Professora, não me atingem.
    O Professor é alguém muito superior a essas conversas, criticas e vozes de pseudo sábios, o Professor não se intimida, envergonha ou receia o que dizem ou possam dizer quem quer que seja.
    O Professor é o mestre e só tem que se preocupar em não deixar sair da escola gente como a que foi referida, gente pobre de espírito, gente portadora de grande pobreza mental, gente sem vida própria, gente invejosa, desonesta, injusta e mal educada.
    Existe a necessidade, urgente e premente, de criar uma nova área disciplinar ou disciplina no currículo dos estudantes, desde o pré-escolar até ao pós-doutoramento, de carácter obrigatório e condicionante do “sucesso” ou “insucesso” do aluno, uma disciplina que enriqueça o espírito, que fortaleça a personalidade, que construa verdadeiro e significativo saber, que prepare para viver em sociedade com valores humanos, que ensine a essência do valor da vida de todos os que nos rodeiam, que ensine a olhar para os outros com atitude construtiva e que eduque, não é ensine, é mesmo eduque, para viver em comunidade com respeito, tolerância e solidariedade. A disciplina das emoções e dos corações.
    MP

    • Sem querer juntar mais lenha a esta fogueira, o artigo não ataca os Professores, apenas constata realidades actuais. Reflectir sobre nós mesmos é sempre útil.

  2. Tanto eu como o meu marido somos professores e realmente e sinceramente, para se ser professor há que ter uma coisa muito importante, e esse é mesmo o NOSSO calcanhar de aquilies, SENSIBILIDADE. É o nosso mal, nunca queremos ver um aluno sofrer, não queremos ver nenhum aluno ser LIXADO por nós, porque fizemos greve nas avaliações, nos exames, … vamos fazer greve? NÃO, pois vamos prejudicar os nossos alunos no seu futuro. Vamos deixar de preparar aulas no fim de semana, enquanto muitos dos nossos alunos se estão a divertir com a sua família e os nossos filhos estão fechados em casa em frente à televisão ou colados ao tablet? NÃO, pois vamos prejudicar os nossos alunos.
    É só o desabafo de uma educadora de infância, cujo marido é professor, e que estão na educação há 10 anos sempre contratados…

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