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Questione o óbvio

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Letra_CursivaO modelo educativo que habitualmente se desenvolve nas escolas tem origem no séc. XIX com a Revolução Industrial, quando se tornou necessário ensinar muitas pessoas, ao mesmo tempo, a desempenharem tarefas repetidas.

Fazia sentido, quando era necessário difundir informação num mundo sem as características daquele tempo. Para a informação viajar, tinham de construir uma verdadeira rede social, que precisava de ser alimentada por milhões de pessoas que tivessem em comum códigos de comunicação, para garantir que sabiam do que estavam a falar. Tornou-se essencial criar espaços onde se pudesse ensinar as mesmas coisas, a todos, ao mesmo tempo. A caligrafia, hoje considerada uma arte visual, devia ser treinada à exaustão porque a informação tinha de ser entendida por pessoas distantes e desconhecidas.

A educação anda de mãos dadas com a economia e se era esta a necessidade da economia, tudo fazia sentido! E agora, faz sentido?

Questiono o modelo que insiste na letra cursiva no 1º ciclo. A “letra de escola” que, como o nome indica, só  se usa na escola, não está presente em mais lado nenhum, nem neste artigo, nem nas letras do teclado, nem em jornais, revistas, livros, legendas dos filmes… Se o objetivo da escrita é comunicar, e não bordar letras, questiono porque se insiste neste tipo de letra, muitas vezes em detrimento do prazer de escrever.

Para que serve reproduzir letras soltas e sem sentido? Para que serve aprender a escrever se não for para comunicar? Conto-vos uma história verdadeira: Uma professora pediu aos alunos do 1º ano para treinar o “P”. Uma aluna que já sabia escrever, pediu para escrever uma carta à mãe – que estava a trabalhar fora de Portugal – para lhe dizer que sente a sua falta. Professora: “Pois, mas hoje estamos a aprender a letra P, se quiseres escreve ao pai”. “Mas eu não tenho saudades do meu pai…” diz a aluna, do alto do seu pragmatismo. A lição do dia desta menina: a escola é um sítio onde se aprende coisas que não servem para nada e onde não cabem as minhas necessidades.

Este método de ensino não responde às exigências no mundo atual. “Mas porquê mudar, se sempre trabalhámos assim nas últimas décadas?”, perguntam alguns. Por isso mesmo! O mundo já não é “assim”! Interessa-me muito mais que os alunos aprendam a escrever com o intuito de comunicar – e que gostem de o fazer – do que treinar atividades repetidas sem sentido nem aplicabilidade, sem questionar porque é que se faz.

Um sistema de ensino que insiste em métodos obsoletos, que valoriza mais os produtos do que os processos, que se esquece que, mais do que o conhecimento importa ensinar a capacidade de nos adaptarmos à mudança do conhecimento, está a hipotecar o futuro das gerações e o futuro de um País. O acesso aos dados é a parte mais fácil. Está num telemóvel com ligação à internet. O que é difícil é descodificar, interpretar e contextualizar, perceber as implicações. Difícil é imaginar soluções alternativas para velhos problemas, interpretar tendências sociais que estão a nascer espontaneamente,  aprender uma forma de viver feliz e plena.

Nicholas Negroponto faz uma pergunta inquietante: “estaremos a caminhar para um futuro em que o conhecimento é obsoleto”? É assustador, mas se pensarmos na velocidade a que tudo muda, nas certezas que tínhamos e agora não temos – as respostas que não temos para os problemas da economia atual, uma ciência que transforma folhas de papel em chips, os políticos que caem com os posts no facebook – parece que a chave está na capacidade de adaptação.

Este é um processo longo e complexo, que deve ser iniciado o mais cedo possível na escola, que é um local preferencial para a transformação de mentalidades.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

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