Início Editorial Quanto Devem Valer Os Testes Na Avaliação Final Do Aluno?

Quanto Devem Valer Os Testes Na Avaliação Final Do Aluno?

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Não, não é mais um artigo que defende o fim dos testes, que pretende que os alunos passem a todo o custo, que torna a escola numa coisa fofinha, docinha e cor-de-rosa. Este artigo pretende uma reflexão sobre o que está a ser imposto nas escolas e a contradição que existe com os testes de avaliação, ou o seu peso na avaliação final.

Julgo que digo a verdade quando afirmo que a maioria das escolas atribui um peso bastante elevado aos testes de avaliação. As percentagens variam de escola para escola, mas devem rondar os 70/80 porcento da avaliação final. É verdade que a escola atual inclui uma série de outros fatores, como o comportamento, a assiduidade, a pontualidade, os trabalhos de grupos, as apresentações, etc. Algo que até já questionei neste artigo:

Critérios de avaliação que avaliam o que não é lecionado

A avaliação atual preocupa-se por realizar uma avaliação mais transversal, é por isso natural surgirem desfasamentos com os resultados dos exames nacionais. Todos sabemos que os exames apenas refletem o que está escrito em algumas folhas de papel. Talvez por isso nunca percebi muito bem as comparações da nota interna com a nota externa… “Rankices” do nosso sistema que subjuga todo o Ensino Secundário e quiçá 9º ano de escolaridade, à lei do exame.

A flexibilização surge como uma metodologia de rotura com a avaliação vigente e naturalmente com os exame nacional, fomentando uma avaliação partilhada e diferenciada. Devemos por isso questionar se o sistema tradicional de avaliação faz sentido com este ensino mais flexível.

É um contrassenso que a mesma escola que quer valorizar a avaliação formativa, seja a mesma que a remete para um patamar inferior quando comparada com a avaliação sumativa. Os testes são muitas vezes o resultado da aprendizagem de ouvido e do “marranço”, numa cultura de ensino de pastilha elástica, de mastiga e deita fora.

Mudar uma metodologia de ensino, goste-se ou não, concorde-se ou não, obriga a uma alteração do sistema de avaliação. A avaliação como todos sabemos é continua, mas também todos sabemos que a continuidade remete-se a alguns momentos ao longo do ano letivo. Não, a avaliação contínua para ser contínua deve basear-se numa avaliação sistemática, onde a chamada avaliação formativa deve ter um peso equivalente ou até mesmo superior aos testes de avaliação.

Lembro-me quando era miúdo de ter aprendido o abecedário de Inglês a cantar e a avaliação foi exatamente assim, a cantar. Tal como se pode optar por um projeto que consista na preparação/apresentação de uma peça de teatro sobre os “Descobrimentos”, ou por que não levar os alunos a assistir a um jogo do Desporto Escolar para estes calcularem a percentagem de passes certos, remates à baliza, etc, abordando a estatística ou quiçá o cálculo de áreas do campo?

Não devem existir limites na arte de ensinar, e tornar o ensino mais agradável não deve ser motivo de vergonha, incompetência ou outro adjetivo sem sentido, só porque sim, só porque fica mal. Isto não é uma questão de moda, é uma questão do que é pedagogicamente ajustado, desafiador e exigente. Sim, exigente! Esta mania que avaliar de forma diferente, ensinar de forma diferente, é sinónimo de facilitismo, é um argumento da treta que já cheira a mofo e nunca me convenceu. Se existe facilitismo, é porque o permitem e/ou porque é imposto pelas direções escolares. Os professores são os guardiões do saber e sem exigência não há saber que se aguente.

Não existem atalhos no ensino, mas existe o ensino aproximado às características e dificuldades de cada aluno. O foco deve ser sempre as aprendizagens, se o aluno aprendeu, porreiro, se o aluno não aprendeu, algo está mal e algo tem de mudar.

Se calhar o mais fácil é não fazer nada e deixar tudo como está… Mas, não estão cansados do que é “fácil”?

Alexandre Henriques

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33 COMENTÁRIOS

  1. Não sou contra a avaliação formativa… Mas, como é vidente há disciplinas onde os testes são fundamentais para aferir as aprendizagens dos alunos… dos que trabalham no duro! Tudo resto é uma descarada vigarice ! Mas vai avaliar um aluno a Matemática como? Não brinque comigo ! O que alguns pretendem fazer é banalizar o conhecimento académico e relativizá-lo pondo no mesmo prato o suposto ” saber fazer”… Este caminho vai destruir a Escola Pública e dar canudos a ignorantes!
    A questão de existir , ou não facilitismo, com a nova legislação não é uma opinião é um facto! Está a acontecer neste momento um nivelamento absoluto por baixo, com a desculpa esfarrapada de que se está a criar uma nova forma de aprender?!Mas aprendem o quê? O vazio? Constroem conhecimentos a partir do vácuo???
    Tenho alguns amigos que são professores de ” Ginástica” , como eles gostam de dizer, e eles riem-se à fartazana quando ouvem alguns defender um ensino ”fofeco” nas modalidades desportivas ? Sem aumento de massa muscular, repetição de processos, treino duro e mecanizado existe prática desportiva de excelência??? E na música ó Alexandre Henriques? Quantas horas ”treina” um músico?
    Espero que os professores abram a boca para a desgraça que vai lavrando nas escolas… Professores exaustos a redigir documentos atolambados e vazios, reuniões infindáveis onde se discute o nada!!! Agora são todos criativos, holísticos, fofinhos, muito lúdicos… O pós-modernismo bacoco e hedonista a invadir as escolas!!! Mas há alguém que sofre: os desgraçados dos professores! Têm de gramar com académicos especialistas em eduquês, palestras intermináveis de educação esotérica! Pior… colegas com várias décadas de ensino, capazes, devotados ao ensino, são obrigados a levar com miúdos a ensinar o que não sabem: dar aulas! Depois tentam obrigar os professores a trabalhar segundo uma crença que perfilham! É uma cruzada ideológica nunca vista ! Uma vergonha!
    Neste momento , nalguns agrupamentos, a questão principal deixou de ser a formação de alunos, o conhecimento, para se concentrar o esforço em grelhas, grelhas de projectos, em evidências de como são flexíveis e modernaços… É um abandalhamento total da Escola Pública!

    • Sim, Afonso Costa, finalmente percebeu. O meu objetivo é destruir a escola pública, os alunos e a sociedade. Sonho com uma sociedade de ignorantes e uma escola onde os alunos não aprendem nada e mandam nos professores.
      Ao fim de 4 anos de blogue, fui descoberto!!!!!!
      Amanhã volto para a escola para continuar a minha destruição…

    • Afonso Costa, PARABÉNS! Brilhante o seu comentário! Só faltou dizer que este eduquês bacoco que leva ao abandalhamento total da Escola Pública, como muito bem refere, vai também contribuir para penalizar os alunos mais carenciados! São esses que permanecerão na Escola Pública!

  2. Se o aluno não aprendeu algo tem de mudar? Então o problema das aprendizagens dos alunos é sempre da escola! Espectacular! Esse é um argumento imbatível… O aluno não aprende? A culpa é sempre da Escola!
    A questão fundamental não são as metodologias, nem as cadeiras de rodinhas, a questão é que as condições objectivas condicionam tudo resto… Essa é a verdade que alguns académicos que atacam sistematicamente a escola pública não querem engolir:as condições reais condicionam tudo o resto ! E digo mais… muitas dessas escolas maravilhosas que acabam, como que por magia, com o insucesso não fazem nada disso! O que elas fazem é esconder o jogo, baixar as expectativas, construir uma escola para pobrezinhos onde o conhecimento é uma violência, em vez de ser um direito e uma oportunidade! Uma escola justa ensina um currículo comum, universal, e procura ensinar o máximo a todos! Essa é que a escola justa! Não a uma escola que faz de alguns de coitadinhos e varre a realidade social para baixo do tapete da estatística.
    Gostava era de ver esses justiceiros do construtivismo (que num dias amam o Piaget e noutro dia é o Vitovsky… tais são os estranhos tempos que vivemos), esses sumos amantes da Democracia, a clamar por mais direitos sociais e melhores condições económicas para as famílias. E que dizer desses palavrosos democratas quando não abrem nem uma linha para exigirem uma gestão das escolas publicas democrática, em vez da autocracia que hoje temos? Onde estariam muitos dos que beijam a mão do dono , e obrigam os professores a tudo, se as direcções dos agrupamentos fossem eleitos num sufrágio directo e universal???
    Como é fácil deitar responsabilidade políticas para a Escola Pública e os professores…

    • Para si a escola é uma cartilha. Uma fábrica, chapa 5 para todos e siga. Por acaso o professor Afonso Costa pratica a diferenciação pedagógica ou trata os seus alunos todos por igual? Mas desde quando é que os alunos são todos iguais, têm o mesmo grau de apetência, capacidade cognitiva e social?
      Existe um radicalismo ignorante daqueles que se consideram verdades absolutas e se escondem nas limitações das escolas para nada mudar e nunca assumem responsabilidades. Para esses os culpados nunca, mas NUNCA são os professores ou a escola no geral, como se a escola não tivesse responsabilidade no sucesso e insucesso dos seus alunos. O sucesso faz-se pelos somatório de diferentes fatores e a escola, os professores, são determinantes para um e outro lado. Se a escola não assume o seu insucesso então não assuma o ónus do sucesso.
      Haja coerência, haja honestidade intelectual e não se esconda nas tretas do costume e não deturpe o que escrevi. Se é para vir alterar o que escrevo então sinceramente não venha. Nunca falei em facilitismo Nunca! NUNCA! NUNCA!!!

      • Para vermos se o professor trabalha bem, ou mal, é acabar com os exames… Nada responsabiliza mais um professor que os resultados externos do seus alunos… O que a flexibilização vai permitir é exactamente o contrário. Não deturpo nada. Você apoia a flexibilidade , eu digo-lhe as consequências, as que acho que vão acontecer e as que já existem. Eu não altero o que você escreve. Se não lhe agrada o que digo, julgo que nunca fui ofensivo, nem sequer pessoalizei, não publique o que escrevo: a página é sua.

        • Deturpa quando sistematicamente mistura flexibilização com facilitismo. Eu não defendo a flexibilização, já a critiquei pela burocracia e falta de condições que são dadas aos professores, eu defendo a aprendizagem venha ela de onde vier. Mas aquilo que já apelidou e nele me inclui sobre quem concorda com a flexibilização ou parte dela é feio. Até parece que estamos aqui com o intuito de prejudicar os miúdos. Há limites!

        • Eu podia citá-lo mas não vou alimentar mais este diálogo, já chega os comentários que tive de eliminar sobre a minha pessoa por ter uma opinião e ter a coragem de assumi-la publicamente. Já sabe que pode sempre escrever um artigo sobre as suas ideias para a Educação, eu vejo muita crítica mas não conheço as suas propostas para resolver os problemas da escola pública.

        • Escreve o Afonso Costa:

          “Para vermos se o professor trabalha bem, ou mal, é acabar com os exames… Nada responsabiliza mais um professor que os resultados externos do seus alunos…”
          Isto não “check”.
          1º- falta a variável “explicadores” a granel.
          2º- não sei o que entender por “nada responsabiliza mais um professor do que…”

          Fala-se do “facilitismo”, pois eu quero falar de uma outra realidade que ainda existe: há professores que “não levam alunos a exame”, atribuindo-lhes um ou mais valores a menos para não terem “surpresas” aquando da saída das pautas finais de exames pois isso é ligeiramente aborrecido para o professor e seu estatuto na escola.

  3. A escola alfaiate é impensável neste modelo.O modelo finlandês é impossível de aplicar. Outro contexto completamente diferente do nosso

  4. Boa tarde, colegas.
    Um contributo para a controvérsia, que me parece revelar os equívocos de que as nossas práticas têm, há muito tempo, enfermado. Na verdade:
    1) A avaliação é contínua (e formativa, se dela resultar informação para o aluno e indicações de melhoria) na medida em que, recorrendo a instrumentos variados (grelhas, listas, registos de observação, escalas, fichas e testes – sim testes!), o professor recolhe, sistematicamente, elementos sobre o aluno, que lhe permitam formular juízos sobre a aprendizagem;
    2) Em determinados momentos, o professor faz um balanço e um juízo global em relação a todos os dados recolhidos num determinado intervalo de tempo (um período, p.e.), e, com base em critérios/descritores/perfis previamente definidos, posiciona o aluno num determinado ponto de uma das escalas em vigor (0 a 20; 1 a 5) – é a avaliação sumativa;
    3) Neste sentido, a avaliação formativa, em si ou qualquer um dos instrumentos de recolha utilizados (também os testes) não tem qualquer ponderação quantitativa na avaliação sumativa – o processo de chegar à classificação é outro, é interpretativo;
    4) A dita “flexibilidade curricular” não introduz, a este nível, nada de rigorosamente novo em relação ao que, fundamentalmente, conhecemos sobre a avaliação da aprendizagem dos alunos.

  5. Há 30 anos que ouço e leio este “saber fazer”. É lindo. Dá texto maravilhosos. Os grelhados são de grande utilidade. O ensino profissional é isso mesmo e não vejo os alunos em massa no ensino superior. Ai meu Deus que não sei nada disto.

  6. Acho que todos aqui têm alguma razão. O problema é que está-se a querer misturar coisas que são incompatíveis.
    Não se pode querer flexibilidade e ao mesmo tempo ter exames e critérios de avaliação que impõem percentagens até às décimas!
    Não se pode ter flexibilidade quando a escola exige de antemão uma calendarização de testes escritos, qual período de frequências ou exames!
    Não se pode ter flexibilidade quando se exige que todos os instrumentos de avaliação sejam mensuráveis até ao milímetro e se exige da valiação uma média aritmética!
    Não se pode ter flexibilização quando são os próprios pais, com total desconfiança e má- fé relativamente ao trabalho do professor exigirem testes escritos, calendarizados, com avaliações quantitativas até à milésima, como única forma de controlar e condicionar o trabalho do professor.
    Não se pode ter flexibilidade quando no momento de um recurso de nota os únicos elementos que são tidos em conta pelos pais, conselhos pedagógicos, e ME são as notas dos testes.
    Não se pode ter flexibilização quando todos estão sempre a pôr em causa o trabalho e a competência do professor para ensinar e avaliar.

  7. Colega Manuel.

    Partilho cada uma das suas manifestações contidas em “Não se pode…”, embora considere que estas impossibilidades são válidas em tempo de flexibilidade curricular ou noutro tempo. Na verdade, penso que nos (nem todos) deixámos manietar com milésimas, ponderações de testes, calendarização anual de testes em setembro, grelhas universais e entregues previamente e outras parafernálias do género. Alguns pensaram que a aquiescência em relação a estes procedimentos transmitia objetividade ao processo, os defendia em relação aos pais e conferia transparência à avaliação. Pura ilusão, a autonomia profissional é que foi severamente punida. Não é fácil, mas é preciso reagir, é imperativo resistir, restituindo à avaliação dos alunos o essencial do saber profissional sobre o tema.

  8. Não sei o que é melhor:
    – “recorrendo a instrumentos variados (grelhas, listas, registos de observação, escalas, fichas e testes – sim testes!), o professor recolhe, sistematicamente, elementos sobre o aluno, que lhe permitam formular juízos sobre a aprendizagem;”

    – “Na verdade, penso que nos (nem todos) deixámos manietar com milésimas, ponderações de testes, calendarização anual de testes em setembro, grelhas universais e entregues previamente e outras parafernálias do género.”
    Não sei o que é isso das grelhas universais, porque de uma forma ou de outra não faltarão registos. Até se multiplicarão com tanta lista de verificação e registos de observação , escalas e escalinhas , etc.
    Descobriram só agora a pólvora. Onde andaram nestes últimos anos? Esses grelhados já estão previstos desde a última reforma 2005/2006. Ficaram-se pelos registos quantitativos de testes e alguns instrumentos muito específicos. Enquanto o acesso ao ensino superior for como está, podem tirar o “cavalinho da chuva” em relação às disciplinas sujeitas a exame. Só grelhados para testes e pouco mais. Não há pachorra para tanta verborreia.

  9. Maria,
    as práticas de avaliação são, também, uma amostra da relação tensa entre o ator e o sistema. E olhe que já ando nisto há um bom par de anos.

  10. Já não me diz nada estas exposições entre “facilitismo”, “eduquês”, exames, rigor, a escola para os pobres, a falta de trabalho e de esforço e mais os analfabetos que vão sair das escolas.

    Concordo com o que o Alexandre Henriques escreveu.

    Também eu não tenho certezas absolutas sobre estas questões nem quero tê-las. O “facilitismo” já era utilizado para descrever as aprendizagens nos meu tempos de aluna.
    A realidade está e estará sempre em mudança e não caio nestas posições extremadas, como não cairá qualquer professor que sabe o que faz, que é honesto no seu trabalho e que sabe distinguir o que, em dado momento, será o melhor para os seus alunos e para as suas aprendizagens.
    Tudo o resto é conservadorismo, reaccionarismo e pseudo progressismo radical que vai dar ao mesmo.

  11. Considero que os testes de avaliação devem manter um peso significativo na avaliação dos alunos. Caso contrário, vamos cair no referido facilitismo e acabar por tornar a escola num centro de aprendizagens de bom comportamento e… mais nada. Considero que o comportamento e a avaliação contínua (testes, participação oral e fichas formativas) deverão ser os principais elementos a ponderar no processo de avaliação. Caso contrário, no futuro, iremos ter apenas cidadãos selvagens e analfabetos.

  12. Excelentes trocas de opiniões sobre o ensino no passado, o ensino de hoje e o ensino que queremos para amanhã.
    Certamente com o contributo de todos os participantes conseguir-de-à obter uma melhor escola e uma melhor avaliação dos nossos estudantes.

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