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Provas de aferição do 1º ciclo

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Na passada semana, realizaram-se as provas de aferição de português, matemática e estudo do meio, para todos os alunos do 2º ano de escolaridade, que têm como referencial de avaliação os documentos curriculares em vigor, relativos aos ciclos em que se inscrevem. Os seus resultados não são considerados na classificação final da disciplina permitindo potenciar uma intervenção pedagógica atempada, de modo a contribuir para uma efetiva melhoria das aprendizagens e para a criação de oportunidades de sucesso escolar para todos.

Contudo, esta ideia não é novidade pois desde o ano letivo 2010/2011, que a necessidade de “aferir” as aprendizagens dos alunos a meio do 1º ciclo, era uma preocupação manifestada por parte dos docentes, aderindo à realização dos Testes Intermédios, que eram de caráter universal, mas não obrigatório. Consideravam ainda que “aferir” devia ser a meio de um nível de ensino e não no final, de forma a dar tempo para atuar, reformular procedimentos e resolver problemas de aprendizagem. Este modelo proporcionava aos professores a necessidade de refletirem sobre os resultados enunciados nos relatórios enviados pelo IAVE, a cada um dos agrupamentos, de se (re)organizarem, encontrar as “respostas” adequadas às dificuldades, as quais poderiam passar por melhorias progressivas das práticas a desenvolver. O facto de os testes, não serem de caráter obrigatório permitia também que fosse dado tempo para a implementação de um plano e, aferir o grau da sua eficácia, quando o agrupamento considerasse o momento oportuno. O princípio orientador dos testes intermédios permitia melhorar as aprendizagens dos alunos e consequentemente promover o seu sucesso escolar.

Durante estes anos letivos e até ao momento presente os Ministérios têm vindo a fazer alterações sucessivas, nomeadamente ao nível dos programas curriculares as quais desencadearam instabilidade, nos processos de aprendizagem. Para além do exposto, a tutela definiu metas curriculares e reestruturou os normativos das referidas provas. Após estes anos de “alvoroço”, em 2015/2016, os testes intermédios passam a ter a designação de provas de aferição, as quais passaram a ser de caráter obrigatório, a partir do ano letivo seguinte. Analisados os resultados finais foi consensual que as metas curriculares são desajustadas, extensas e deveriam ser revistas e reajustadas. Ao divulgar esses mesmos resultados no portal Infoescolas, incorremos o risco de as provas de aferição passarem a causar os mesmos efeitos de ranking, criando uma preocupação nos implicados no processo de ensino aprendizagem, da obtenção de melhores resultados. Neste âmbito, passam a ter como preocupação prioritária “treinar” os alunos, descurando-se assim a ideia subjacente à avaliação externa e consequentemente desenvolver as competências previstas no perfil do aluno, à saída da escolaridade obrigatória.

Mas não, a tutela continua a persistir na ideia de aferir e no presente ano letivo, os alunos são submetidos a provas de aferição. Na prova de português e estudo do meio estruturada em duas partes, em que o aluno tinha 45 minutos para resolver cada uma das mesmas, eu considero estes timings desajustados (tempo a mais na parte A e tempo a menos na B). Na parte A, era avaliado o domínio compreensão do oral, em que eram lidas as questões e respostas assinalar, para o qual estavam concedidos 15 minutos e nos 30 minutos restantes o aluno tinha de ler um cartaz e responder a cinco questões. Na parte B o aluno tinha que revelar um desempenho de leitura e escrita muito boa, tendo em conta que incluía três textos de tipologias diferentes, questões sobre os mesmos, gramática e ainda era solicitado ao aluno a planificação e escrita de um texto informativo! Acredito que um número significativo de alunos não conseguiu terminar ou mesmo iniciar a escrita do mesmo, pela minha experiência enquanto coordenadora de departamento do 1º ciclo e docente convocada para a estrutura de apoio às provas.

Relativamente à prova de matemática e estudo do meio, não poderei deixar de explanar o meu descontentamento face à redação e estrutura da prova “apresentada” a alunos do 2º ano de escolaridade. Na elaboração das questões, não houve a preocupação de as contextualizar com o dia-a-dia, de modo a dar sentido e significado às aprendizagens na disciplina de matemática e deste modo promover o gosto pela mesma. As questões relativas aos conteúdos do domínio geometria e medida, estão em maior número sabendo que é onde os alunos evidenciam mais dificuldades, consequência de um desajustamento das metas à fase etária. Como exemplo, a questão número 2, fatias da tarte, deveria estar elaborada de modo diferente. O aluno ao responder “sim”, pode eventualmente não estar a observar atentamente a imagem, atendendo à sua idade e não mobilizar o conhecimento: a unidade deve estar dividia em 5 partes equivalentes e os resultados poderão não espelhar a realidade. A redação da pergunta número 14 para alunos do 2º ano não se coaduna pois requer a capacidade de interpretar o pedido, “ver para além de”, medir por enquadramento e cálculo! Poderiam avaliar a competência medir o quadrado cinzento por enquadramento, tendo como unidade de área a referida na questão e deste modo os resultados seriam evidência do desempenho avaliar. Em conclusão, as provas de aferição estão de acordo com os programas e metas curriculares, mas não deveriam ser um instrumento de aferição promotor do sucesso escolar atendendo ao exposto anteriormente.

A título de uma reflexão final considero que a promoção do sucesso escolar não passa só pela reestruturação de modelos de aferição do processo de ensino aprendizagem, mas também, pela reestruturação curricular: “O Ministério da Educação não quer assumir, mas será inevitável uma revisão curricular mais profunda e equilibrada. É o passo que está a faltar”.

Aurora Correia Dias

Professora/Coordenadora de Departamento do 1.º ciclo

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