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Pronto, lá está o professor outra vez zangado!

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professor-zangadoOs minutos escorrem lentamente, como gotas de soro a deslizar na transparência do tubo. Na sala impera um silêncio profundo mas artificial, apenas recortado pela voz calma do professor, que espraia o conhecimento com gestos amplos dos braços. As mesas de trás fervilham de actividades, camufladas pelo volume protector das mochilas estrategicamente colocadas. Aqui e ali traçam-se gatafunhos na contracapa do caderno, mais além joga-se ao galo ou à batalha naval, trocam-se recados em bilhetinhos voadores, manda-se mensagens no telemóvel, meticulosamente entrincheirado no bolso largo da camisola.

“Rafael, estou a falar contigo!” – a voz subitamente levantada do professor sobressalta mais de meia dúzia. O Rafael endireita-se alvoroçado e regressa à força do mundo dos sonhos: “desculpe, ‘setor’, pode repetir?”

“Lá estás tu outra vez desatento, Rafael! Nunca estás com atenção! Não ouviste nada do que eu disse, não é verdade?” – reclama o professor, antes de repetir a pergunta para a qual o Rafael, obviamente, não sabe a resposta. Encolhe-se mais ainda no seu lugar, acabrunhado e genuinamente desgostoso. Gostaria tanto de conseguir concentrar-se e ouvir o professor, a aula todinha! Mas é que gostaria MESMO! Ah, se fosse capaz, havia de responder acertado, palavrinha por palavrinha… e o professor havia de dizer “muito bem, Rafael” e olhar para ele agradavelmente surpreendido.

O professor sabe muitas coisas e tem o cabelo grisalho, como o avô Rui. A lembrança do avô Rui crava-lhe com força nas entranhas a ferroada da fome. Quem lhe dera estar agora a almoçar na cozinha acolhedora dos avós: a sopinha cremosa a saber a coentros, o frango no forno, os pires de aletria alinhados na bancada. Suspira, desalentado e afunda a mão discretamente na mochila, à procura do telemóvel. Meio-dia e quarenta. Ainda. Mais quarenta e cinco minutos, para acabar o terceiro bloco de noventa minutos daquela manhã.

“Rafael, estás a mexer no telemóvel? Outra vez, Rafael? Não te disseram já tantas vezes que não se pode usar o telemóvel nas aulas?” Pronto, lá está o professor outra vez zangado! Pede desculpa de olhar baixo, confessa que estava a ver as horas. O professor respira fundo para controlar a impaciência e avisa: “ não volto a avisar, Rafael. A próxima vez tiro-te o telemóvel e vou deixá-lo na direcção! Presta mas é atenção à aula!”

Acena que sim vigorosamente. Agora vai prestar atenção. “Vá lá, concentra-te”, sussurra para si próprio. Há muito tempo que está naquela sala, sentado naquela cadeira. Matemática, Português, História. Noventa, mais noventa, mais noventa. Ora deixa cá ver, tenta calcular de cabeça, mas acaba por recorrer ao amparo dos dedos – três vezes nove, vinte e sete – ah, mas depois acrescenta-se mais um zero, faz duzentos e setenta minutos. Ali sentadinho, a escutar a matéria. Tenta esticar as pernas para aliviar a dor nos ossos, que teimam em crescer mais depressa que o resto do corpo.

O traseiro está gelado e dormente e o estômago vazio revolta-se em espasmos endiabrados. Ainda tentou ir ao bufete no intervalo de vinte minutos a meio da manhã; mas já se sabe, o bufete é um ecossistema hostil onde as leis de sobrevivência não são favoráveis aos mais novos; ainda ia a meio da imensa fila quando ouviu o toque para a entrada. Ora toda a gente sabe que a professora de Português não é grande apreciadora de atrasos e não aceita como válidas desculpas mais leves do que diarreia, vómitos, coma ou morte súbita. Acabou por abandonar a fila, murchito, o olhar tristonho cravado nos croissants com chocolate. Lá estavam eles, na prateleira do meio, lustrosos, o chocolate a escorrer-lhes do ventre e a alastrar no vidro da vitrine – “E então, Rafael? Vais demorar muito a responder à pergunta?”

MC

Professora e Autora do Blogue Estendal

1 COMENTÁRIO

  1. Interessante. Particularmente por mostrar bem que o professor é mais uma vítima num sistema erradamente pensado pelas elites intelectuais políticas e académicas e que sozinho nada pode fazer para mudar o todo. Todos dizem para trabalhar com o que temos que as alternativas ou ninguém as define claramente ou são muito caras e é no que dá.

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