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Professores: vocação ou profissionalismo? Salário ou palavras bonitas?

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Não sou professor por vocação. Vocação vem de vocare, “chamar” e acho que não fui chamado para coisa nenhuma. Por pouco romantismo que isso traduza.

Não é muito comum alguém falar de vocação para se ser engenheiro, polícia, cavador ou eletricista mas, para exercer a profissão de professor, a visão poética do senso comum exige, quase sempre, que o discurso leve doses cavalares da dita vocação.

Como dizia alguém que me era próximo: a conversa da vocação é só um atalho para a desvalorização.

Os professores começaram na Antiguidade por ser escravos e o seu serviço ainda é vulgarmente chamado de “dar aulas”, como se a gratuitidade da dádiva fosse parte dele.

A ironia dessa ideia de senso comum sobre o peso da vocação na docência é que traduz um sinal real de desvalorização da docência no seu profissionalismo.

Afinal, ser incompetente ou competente é ou não diferente de ser vocacionado?

Por exemplo, eu até sinto larga vocação para a cozinha, tal o apelo que tenho pelo ato de comer, mas sou definitiva e totalmente incompetente, por falta de olfato, paciência e sentido do equilíbrio de sabores para aprender a cozinhar. Sou um cozinheiro frustrado, com muita vocação, e admito ser um professor competente, sem ela.

Não quero que o meu mecânico ou advogado seja especialmente vocacionado, quero que perceba de escapes ou de códigos e trabalhe com competência. E lá terei de lhe pagar o correspondente, esteja ele motivado, desmotivado, vocacionado ou iludido na profissão.

O estudo do Público e o tema da desmotivação. E o dinheirinho?

Vem tudo isto a propósito do estudo sobre a desmotivação docente hoje divulgado no Público (com direito a mais umas colunas de seráficas lágrimas de crocodilo sobre a dignidade docente de Joaquim Azevedo) em que se passa por cima destes assuntos em nome de discussões esotéricas sobre motivação.

Infografia sobre estudo no Público aqui

Porque é que a desmotivação dos professores é uma grande questão noticiosa no início dos anos letivos e quando se chega à fase em que alguém diz: “estamos realmente mal pagos” (e fomos roubados nos últimos anos), se foge logo para o caminho da conversa da vocação, do respeito e do valor social?

E quem fale do “dinheirinho” leva logo com a etiqueta de oportunista explorador e corporativo na defesa de interesses de luxo. (No meu caso o luxo corporativo são menos de 1200 euros mensais líquidos, após 21 anos de alegada “carreira”).

O dinheirinho não ajudará à motivação?Honestamente, viveria muito bem com a desvalorização social da profissão, e até com a gestão, que vou fazendo, da indisciplina, se me pagassem realmente o valor do trabalho que faço, se tivesse realmente uma carreira (e não um retrocesso) e se a reforma não fosse miragem, para mim, no futuro, e para os outros da minha profissão que hoje precisam imperiosamente de se reformar.

E, já agora, se se calassem aqueles que falam com verborreia das condições e requisitos da docência do ensino básico e secundário, sem a praticar há décadas …. ou sem nunca a terem praticado.

Dêem-me estas coisas todas e até me podem chamar nomes…. (aliás, já chamam hoje, e estou mal pago). Estou farto da conversa da vocação e da valorização da dignidade, sem dinheiro, direitos mais efetivos e melhores condições de trabalho.

A um profissional não se paga a motivação ou a vocação mas o trabalho (palavra que muitos exilaram dos dicionários, desde que as empresas passaram diletantemente a ter colaboradores).

Escolher os melhores para o futuro? Os de hoje são maus?

Acho particular graça que se diga, na análise  do estudo, que é preciso dar espaço a que os melhores alunos entrem na profissão.

Primeiro ataque à minha inteligência: mas alguém vai entrar nos próximos tempos?

Segundo ataque, este ofensivo: já repararam que essa afirmação indica que se considera, sem o enunciar, que os professores de hoje serão oriundos dos contingentes de piores alunos das suas gerações? Quem disse?

E, se nos deixássemos de poesias vocacionais e de tretas sobre a “busca dos melhores” e falássemos de coisas realmente importantes:

Quanto pagam? Pagam o justo?

Que carreira nos dão? Que condições de trabalho nos querem dar?

Que respeito concretizado em medidas efetivas nos querem permitir ter?

Em que outra profissão qualificada, no setor público ou privado, um técnico superior com formação especializada, com mais de 20 anos de experiência, e que até foi dirigente, ganha menos de 1200 euros mensais?

Ser professor é uma profissão e, como dizia uma pessoa que muito respeito, ser professor não é ser mercenário mas também não é ser missionário.

Reconhecimento ou salário? Poesias ou realidades?

Os discursos delicodoces sobre a dignidade e valorização dos professores, que andam na moda e que hoje foram chapados no Público, não resolvem os problemas reais se não se for ver o que é desagradavelmente intestinal: carreira, salário e condições de trabalho.

E para aqueles que não deixam fluir a discussão, realmente profissional, sobre o preço da competência e da nossa utilidade como trabalhadores, vivendo agarrados ao devaneio da vocação e da procura da dignidade metafísica, só digo que é possível ser excelente profissional sem ter vocação nenhuma para professor, mas tendo condições profissionais.

Recentemente, vi uma prova disso: a minha tia de 100 anos faleceu em Maio. Foi professora do 1º ciclo durante 40 anos. No fim da vida, dizia-me que tinha sido professora sem ter vocação nenhuma para isso, por circunstâncias da sua vida. A sua vocação (e, numa arte, isso talvez exista) era a música, mas não pode concretizá-la.

Foi professora porque, para uma menina estudar fora da sua terra, nos anos 20, era preciso parentes para a vigiar e só os tinha em Braga. Por isso, só pode estudar na Escola Normal. Era boa aluna e boa profissional, diziam os alunos. Orgulhava-se do que fez para os seus alunos terem sucesso e vi a alegria tocante de muitos, ao reencontrá-la.

Vocação não tinha nenhuma, palavras suas, e gostar da profissão não gostava. Acabou por aprender a ser boa profissional com o tempo e a formação (excelente) que teve. Mas era competente. Muito competente. O indício final disso foi o número de alunos, já idosos de 60 ou 70 anos, que fizeram questão de estar e de o dizer no seu funeral, em homenagem à qualidade do que por eles fez.Foi bonito e comovente para os parentes, em especial os professores.

Será que, com a perspetiva politiqueira e treteira vigente sobre a profissão docente, o pouco reconhecimento profissional efetivo que estamos condenados a ter vai ser assim: no caixão, por conta da memória dos nossos alunos?

5 COMENTÁRIOS

  1. A Associação de Professores e Educadores Portugueses afirmou esta quinta-feira (08/09) que estão a decorrer “graves irregularidades” na contratação de docentes, tendo enviado uma reclamação ao Ministério da Educação.
    “O ilícito prende-se com a atitude de algumas direções escolares que verdadeiramente fintam o concurso nacional de professores contratados”, afirma a associação em comunicado.
    Contactado pela agência Lusa, o presidente da associação, Luís Ferreira, especificou que há escolas que não colocaram a concurso todos os horários necessários para “guardarem lugares” para professores que já conhecem “ou amigos”, no âmbito da contratação de escola.
    “É a única explicação que encontro”, disse, referindo-se aos últimos procedimentos para colocar professores em horários destinados a colmatar faltas de docentes, as chamadas necessidades temporárias. As escolas, referiu, têm de colocar os horários completos no concurso nacional e só podem contratar diretamente técnicos que não pertençam a grupos de recrutamento abrangidos pelo concurso.
    “É o caso de um cozinheiro, por exemplo, porque não existe licenciatura em cozinha, mas depois pedem um professor de eletrotecnia, que já tem grupo de recrutamento”, exemplificou.
    Numa exposição ao ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, a associação apresenta um quadro com vários casos, horários, cursos e áreas em que alegadamente se verificam estas situações. “Basicamente acontece em cursos vocacionais e profissionais, mas também na via regular”, indicou.
    A associação foi criada há quase um ano, devido à grande diversidade de concursos para professores, com o objetivo de defender um Concurso Único para Todos (CUT), sigla que adotou.
    No documento que dirige ao ministro, a associação afirma que recebeu dezenas de queixas relativas a “um franco e despudorado incumprimento da lei por parte de algumas direções” no que respeita à contratação de “técnicos especializados”.
    Em declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) afirmou que a prática é colocar os lugares necessários a concurso, mas que se forem aprovadas novas turmas podem ser necessários mais professores em áreas contempladas pelos grupos de recrutamento. “Se as pessoas acham que alguma coisa não está bem devem começar por questionar o diretor da escola e se não ficarem satisfeitas dirigirem-se à tutela”, acrescentou Filinto Lima, frisando que os diretores “não têm autonomia” para fazer contratações “nem hipótese para contornar a lei”.
    A associação solicita a “atenção urgente” dos serviços do Ministério da Educação e uma “intervenção rápida” no sentido da “anulação imediata” destas ofertas no âmbito da contratação de escola.
    A estrutura pretende que os horários em causa sejam encaminhados para a reserva de recrutamento, cujas listas se encontram em fase final de preparação.

    Artigo de Nuno Noronha

  2. Claro e direto como sempre. Parabéns Luís Braga por colocares o dedo na ferida (e teres a disponibilidade para o fazer a este nível e não apenas em conversas de café).
    Continua com a frontalidade de sempre.

  3. …por acaso faz-me lembrar do antigamente, em que só se conseguia alguma coisinha com cunha e suborno. agora a coisa poderá estar mais democrática, mas é ilusão, até que se parta de novo o equilíbrio entre o que é sensato e a estupidez!

  4. Muito gosto em ler este texto.

    “só digo que é possível ser excelente profissional sem ter vocação nenhuma para professor, mas tendo condições profissionais.”

    De acordo.

    E esta ideia pode aplicar-se a quase todas as profissões.

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