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Professores não utilizam os telemóveis como instrumento de trabalho

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Daqui a 20 anos o telemóvel será algo obsoleto. Daqui a 20 anos haverá sistemas de comunicação integrados no próprio corpo. Daqui a 20 anos vamos ter dispositivos eletrónicos que conseguirão antecipar todas as nossas necessidades.

O futuro não espera e se a escola não consegue antecipar o futuro, é um facto que não consegue lidar com o presente. A escola é conservadora porque as pessoas que a praticam são conservadoras. Não é certo, nem é errado, estão apenas desfasadas da realidade.

A luta constante para afastar o telemóvel das salas de aula, tornou-se isso mesmo, uma luta. Alguns resolveram o assunto através do único mecanismo possível que conhecem, a punição. Punição resguardada por um Estatuto do Aluno também ele obsoleto.

O ano passado disse a uma turma minha, “meus amigos, telemóveis em cima da mesa e utilizem-nos como quiserem, seja para tirar apontamentos, seja para tirar fotografias aos conteúdos, seja para pesquisarem ou tirarem dúvidas, é um instrumento de trabalho.

Apenas um dos alunos foi apanhado por estar a enviar sms a um amigo e nem fui eu que o apanhei, foi a turma que o denunciou pois entenderam o privilégio e a responsabilidade de utilizarem algo de que eles tanto gostam, bem como o receio de voltar ao tradicional papel e caneta. As regras eram claras e as regras foram cumpridas.

Desde o ano passado que também utilizo o Kahoot para os meus testes de escolha múltipla, onde o telemóvel é essencial para os alunos responderem às questões e eles adoram esse sistema.

Cada realidade é uma realidade, compreendo isso, e a minha realidade não é melhor do que a de ninguém, nem sou melhor professor do que ninguém. Aceito perfeitamente que em alguns casos é impossível utilizar o telemóvel na aula, pois a falta de maturidade dos alunos não permite dar esse passo.

Mas a realidade, ou pelo menos é a minha perceção da realidade, é que a maioria dos professores não quer o telemóvel na aula, pois consideram-no gerador de indisciplina. Sou da opinião que o desfasamento etário entre alunos e professores não se mede apenas pelos anos de distância, mede-se também pelo conhecimento tecnológico e este facto dificulta a aceitação de algo que não se consegue controlar em sala de aula e que obriga um salto de fé por parte do professor.

A escola está confrontada com um presente em que muitos dos seus professores ainda vivem no passado. Lembro-me de colegas que não queriam utilizar grelhas de Excel pelo simples motivo de não saberem trabalhar com elas.

Não é crime, nem é vergonha nenhuma, eu daqui a 20 anos posso sofrer do mesmo desfasamento. A escola enquanto instituição deve compreender a sociedade que a rodeia e muitas vezes a forma como se quer afastar do inevitável, torna-a vítima da sua própria inflexibilidade, vítima da sua própria inaptidão em aceitar o que hoje é banal e o que hoje tem potencialidades fantásticas para o processo de ensino.

Se não fui ensinado a dar aulas com tecnologia, não é fácil aceitar o conceito, nem vejo vantagens em algo que nunca experimentei.

É compreensível que um professor pense assim, mas se pensarem bem, enviar uma sms durante uma aula, é exatamente igual a uma conversa entre dois alunos, mas a forma como se reage em ambos os casos é seguramente muito diferente…

Ficam os resultados da primeira de três sondagens sobre o uso dos telemóveis nas escolas e que provam que a minha opinião é claramente minoritária.

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12 COMENTÁRIOS

  1. Eu sou professora há 20 anos, estou no 2º escalão , tenho 3 pessoas a meu cargo,o meu telemóvel “só” faz chamadas e manda mensagem quando o posso carregar.

  2. Alexandre Henriques bem sei quem para si, os telemóveis, a tecnologia em geral é um bem, ou uma inevitabilidade dentro da sala de aula, friso, dentro da sala de aula… Os que não os usam estão obsoletos… Até admite a ideia, que muitos gurus da tecnologia consideram fascista e perigosa, de implantar diversos dispositivos eletrónicos no corpo humano…
    Quantos artigos quer, estão todos obsoletos, bem sei, de especialistas em tecnologia que são absolutamente desfavoráveis ao uso permanente de tecnologia em contexto educacional? Para não falar em filósofos, esses ainda mais ultrapassados…
    Encontrará facilmente na rede muita gente que tem uma ideia exatamente contrária à que defende….
    Há muita, muita coisa… Lá vai uma das mais famosas porque é onde estudam os rebentos dos filhos dos que criam a tecnologia… Lá está…. eles próprios obsoletos! Os tipos que criam a tecnologia não a querem para os filhos…. já para a populaça…. a história é outra… Ela cria uma necessidade permanente , de ordem emotiva, que é excelente para o negócio…
    Retirado de http://www.businessinsider.com.
    ”There’s a school in Silicon Valley that doesn’t allow the use of any tech. It’s called the Waldorf School and it’s fascinating because the school has no computers, no iPads, no iPhones. They try to minimize tech altogether and so people enjoy a lot of time face-to-face, they go outside a lot. What’s interesting about this school is 75% of the students there are the children of Silicon Valley tech execs, which is striking. These are people who, publicly, will expound on the wonders of the products they’re producing and at the same time they decided in all their wisdom that their kids didn’t belong in a school that used that same tech.”

      • Caro Afonso, se não pretende usar tecnologia na sala de aula, está no seu direito. De facto, ninguém o obriga (e ainda bem que não!). Mas pergunto-lhe: usa a psicologia Waldorf nas suas aulas? Vai com os seus alunos para o campo? Passa horas com eles fora do ambiente escolar?
        De facto, o mais importante são as metodologias! A tecnologia é uma parte importante da mudança que urge na nossa educação. Mas leia bem: é uma parte! A tecnologia por si só não mudará nada. Posso ter uma sala carregada de tecnologia, mas se continuar a dar aulas como dava há 20 anos, com os alunos todos sentadinhos em salas de aula “autocarro”, caladinhos, enquanto têm de ver um carregamento de powerpoints para depois de um dia cheio de aulas ainda irem fazer trabalhos de casa e estudar para testes, então, nada mudou.
        Se, no seu entender, tudo está bem assim e não vale a pena mexer em nada, respeitarei a sua decisão, apesar de ter o meu absoluto desacordo e reprovação. Mas acho que para si isso não importa nada.
        Cumprimentos.

        • Nós estamos de acordo o que importa é a metodologia não o artefacto. Não sou contra as novas tecnologias e uso-as . É importante estudar para testes e não haver anarquia nas salas de aula.
          Sem mudanças sociais , sócio-económicas, tudo o resto é um embuste e não há método que faça mudar a condição com que se nasce, não procuro as excepções…
          Mas isto é matéria da política…

  3. Muitos dos meus alunos, habituados que estão aos ambientes digitais, detestam ter que usar a escrita manuscrita. Mas não é por isso que eu irei deixar de insistir, todos os dias, para a praticarmos um pouco… A ciência diz-nos que a aprendizagem da escrita envolve a memória visual, auditiva, articulatória e psicomotora. Como já sou professora há muitos anos, aos olhos dos meus colegas mais “modernaças”, devo ser conservadora, devo estar obsoleta.
    A propósito, lembro que, recentemente, alguns estados americanos tiveram que produzir legislação no sentido de as escolas / os professores reintroduzirem a escrita manuscrita como prática habitual. O ponto a que se tinha chegado era o do descalabro de não se saber escrever à mão…
    Até para a nossa sobrevivência a escrita manuscrita é fundamental: e se houver uma catástrofe que abale os fundamentos da nossa civilização toda ela baseada na electricidade?

  4. ”Telemóveis banidos das escolas francesas no próximo ano letivo.”
    ”Além de promover um melhor ambiente escolar, esta medida, que fez parte das promessas da campanha do presidente Emmanuel Macron, pretende melhorar as condições de saúde das crianças. “Não é saudável para os mais novos passarem tanto tempo em frente aos ecrãs. Crianças com menos de sete anos não deviam estar em frente a ecrãs”, sublinhou.”
    Fonte: Jornal de Notícias

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