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Professores Mais Velhos Do Que Os Avós

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Se um professor sábio e experiente é uma enorme mais-valia, um corpo docente de gente mais velha do que os avós que têm em casa não é.

Fica aqui o desafio para os melhores gestores do país, que seguramente leem este jornal e que talvez se disponham a encontrar o segredo de como otimizar o sistema de ensino, desta vez em função dos alunos.

Vamos então por partes. Portugal aceitou a visita de uma equipa independente de especialistas, destinada a analisar o uso dos recursos escolares na eficácia do sistema de educação, e de sugerir formas de os potenciar. A visita ocorreu em Janeiro de 2018. Esta semana divulgaram os resultados.

O relatório aponta as fragilidades de um sistema centralizado e nas mãos de burocratas, o que dificulta o debate público destas questões, porque basicamente ninguém as entende. Refere, ainda, que “as intervenções não são sistematicamente avaliadas para determinar a sua eficácia, e mais do que isso onde raramente há correção das políticas em curso quando os objetivos não são atingidos.” Para já não falar dos projetos que se sobrepõem, e dos que são alargados a nível nacional, na ausência do conhecimento claro do seu impacto ou eficácia.

Soma-se-lhe a insatisfação dos professores, que se queixam dos baixos salários, de excesso de trabalho, da pressão dos pais e da indisciplina dos alunos, e de lhes serem atribuídas a culpa da ineficácia do sistema. É visível a perplexidade dos especialistas perante os dados que revelam que apenas um em cada dez professores se sente socialmente valorizado, “apesar do compromisso nacional à educação e o investimento significativo em salários e condições de trabalho”, o que os leva a acreditar que este desafio só se resolverá “por mudanças culturais”.

Com uma agravante: o envelhecimento da classe dos professores em exercício. Fenómeno com consequências para os próprios, para as escolas, confrontadas com a entropia e os custos de um absentismo crescente, mas acima de tudo para os alunos. Se um professor sábio e experiente é uma enorme mais-valia, um corpo docente de gente mais velha do que os avós que têm em casa não é.

Veja os números: a idade média dos professores ao longo de todos os ciclos é de 50 anos, sendo que só 15% têm menos de 40 anos, e apenas 1% menos de 30 anos. Como noticiava o DN esta semana, no 1.º ciclo do ensino público do país inteiro só existem dezasseis, sim, leu bem, dezasseis professores sub-30.

A situação coloca um enorme desafio, alerta a OCDE: a nova vaga de professores mais jovens e inexperientes só entrará no sistema quando os atuais se reformarem. Por outras palavras, ficará a faltar a geração de professores com 10 a 15 anos de experiência que podem preservar e passar aos recém-chegados a herança de gerações de professores altamente competentes. Ou seja, os alunos do futuro também estão em maus lençóis.

Soluções? Os analistas não são otimistas. Mesmo que houvesse forma de libertar vagas, a progressão na carreira está pensada quase exclusivamente com base em anos de serviço, com o topo salarial no final, e não a meio, em que um bom salário comprovadamente permite melhorar as possibilidades de recrutamento e retenção de novos professores, com evidente melhoria dos resultados escolares. Mas constatam que “Infelizmente existe muito pouco apetite entre o corpo docente atual para mudar o modelo de carreira, porque o professor beneficia da natureza fechada da profissão”. 

Do ponto de vista de muitos professores estes problemas resolviam-se com reformas antecipadas sem penalização. Uma solução que os contribuintes já exauridos não têm disponibilidade para acolher. Face a isto o que fazer?

Esqueça a possibilidade de remeter o assunto para o Ministério da Educação, porque daí só virá a resposta que ainda há dias se escutou perante os resultados deste relatório: é tudo culpa do ministro/governo anterior.

Isabel Stilwell, in jornal de negócios 12-12-2018

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3 COMENTÁRIOS

  1. Setembro. Primeira aula de inglês, numa turma do 1º ano.
    – Quem és tu? pergunta uma menina.
    – Sou a professora de inglês, respondo eu.
    Silêncio na sala…
    – Mas tu tens cara de avó!!!
    Não consegui parar de sorrir. Apeteceu-me pegar na garota ao colo e cobri-la de beijos. Foi a coisa mais deliciosa que ouvi de um aluno em toda a minha vida de professora.

    É verdade. Tenho 62 anos, sou do agrupamento 330 e este ano, pela primeira vez, estou a lecionar turmas do 1º e do 2º ano, além do 2º e do 3º ciclo.

  2. “Do ponto de vista de muitos professores estes problemas resolviam-se com reformas antecipadas sem penalização. Uma solução que os contribuintes já exauridos não têm disponibilidade para acolher. Face a isto o que fazer?”

    Começar a fazer contas e, por outro lado, ponderar a situação.
    Mas dá trabalho e é sempre mais fácil argumentar-se com os “contribuintes exauridos”, como se os professores não fossem eles próprios contribuintes……

    Há sempre um “rabo de palha” nestes discursos aparentemente consensuais.

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