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Professores lutam contra a destruição da profissão

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Como vivemos em Democracia, achamos que a nossa opinião tem validade científica. Desfilam-se vaidades, puxam-se de galões como se fossem Homens do Renascimento, versados em diferentes áreas do conhecimento, manipula-se e insulta-se um Povo, com a convicção de que o resto dos portugueses são todos uns ignorantes. A manipulação e a desinformação passaram a ser a nova normalidade e, no caso dos professores, têm servido para explorar e vergar uma classe.

Milhares de portugueses tiveram que pagar uma dívida que não provocaram. Os professores contribuíram com cerca de 8 mil milhões, que não se destinaram ao aumento do salário mínimo, ao aumento de pensões, ou à criação de postos de trabalhos para os jovens que emigram, mas serviu antes para pagar a irresponsabilidade, a impunidade, a gestão danosa e as mordomias de um grupo restrito. Desse montante nenhum professor exigiu retroativos. Quando o país “saiu da austeridade”,  o governo devolveu a uma parte dos funcionários públicos, para efeitos de progressão da carreira, o tempo de trabalho que esteve congelado. Comprometeu-se a fazer o mesmo com os professores, meses depois volta com a palavra atrás, faz chantagem e manipula a opinião pública atirando para o ar a conta de merceeiro de 600 milhões, que não corresponde de todo à verdade. A recuperação do tempo de serviço dos professores fica mais cara ao Estado, mas sem querer desvalorizar o sacrifício de nenhum português, o pagamento da dívida também ficou mais cara aos bolsos da classe docente. Aqui o critério já não foi o da proporcionalidade. Nos discursos encomendados que nos têm entrado diariamente por casa adentro, insinua-se que a classe docente tem uma carreira privilegiada e que progride automaticamente. Deixam de fora a avaliação obrigatória e as quotas em diferentes escalões. O sistema de avaliação é questionável porque não existem critérios objetivos. Nas escolas podemos ter professores com 50 alunos e outros tantos com 200; professores a lecionar um nível de escolaridade e uma disciplina e outros tantos com vários níveis de escolaridade e uma diversidade de disciplinas. As escolas e o perfil dos alunos são diferentes. Fala-se da intransigência da classe na negociação da estrutura da carreira, mas os sucessivos governos nunca tiveram uma intenção séria de a fazer, optaram sempre pelo caminho mais fácil e apenas com fins economicistas: reestruturação da carreira relegando os professores para escalões mais baixos, norma transitória eliminando anos de serviço no ingresso da mesma e dois períodos de congelamento em sucessivas Leis do Orçamento. A devolução dos cortes salariais e das taxas vieram acompanhadas de atualizações das taxas de IRS, fazendo com que muitos professores ficassem a ganhar menos do que o salário que ganhavam no período dos cortes salariais. Duplicou-se a percentagem de descontos para a ADSE sem melhorias significativas nos seus benefícios. Não conheço nenhum professor que tenha recebido um lápis que fosse para desempenhar a sua função. Continua-se a recusar a definição das funções dos professores e a exigência de cumprir na íntegra o seu horário de trabalho nas escolas, de forma a garantir a precarização ad eternum de milhares de contratados e a exploração de mão-de-obra gratuita na realização de inúmeras atividades sem necessidade de lhes pagar um cêntimo em horas extraordinárias. Inundam-se os professores com decretos e normas usando a estratégia “dividir para reinar”, virando uns contra os outros. A implementação de um modelo de concursos justo de colocação dos professores não existe porque se aposta no desgaste e na fragilização dos mesmos. Milhares de professores pagam duas casas, fazem centenas de quilómetros para trabalhar, vivem longe da família, do cônjuge e dos filhos durante a semana por puro capricho ministerial. Os professores não são vistos como seres humanos com contas para pagar, filhos para criar e educar e com pais para apoiar e cuidar. Ao fim de 25 e 30 anos de trabalho milhares de professores ainda se encontram dentro de salas de aulas com crianças e jovens que exigem a atenção e energia, que o desgaste não lhes permite dar.

No entanto, não está apenas em causa a carreira dos professores. A integridade física e psicológica de alunos, professores e operacionais de ação educativa não está salvaguardada. A indisciplina e a violência fazem parte do quotidiano de muitas escolas. A escolaridade obrigatória foi alargada sem qualquer reflexão ou alteração aos programas curriculares. As Aprendizagens Essenciais parecem saídas do slogan publicitário da Nutribalance. A flexibilização curricular parece ir mais no sentido do entretenimento dos nossos alunos do que na necessidade de providenciar uma educação de qualidade a cada um. A escola inclusiva passa pela existência de guetos educacionais como formas de contenção de comportamentos de risco. Não existem nas escolas tempos, espaços e recursos para aprendizagens significativas através da tecnologia. Os nossos alunos encontram-se emparedados diariamente como fossem operários de fábricas no século XIX. A Democracia nas escolas não existe. Faz-se de conta que a maioria dos professores e alunos têm uma palavra a dizer, sendo as decisões tomadas muitas vezes por aqueles que menos sabem, com base no que ouvem dizer. Em algumas escolas reina a prepotência e o servilismo de quem tem a cargo a gestão das mesmas. Recorre-se à estratégia do medo e a represálias sobre os que ousam discordar. Neste processo os professores não estão isentos da responsabilidade. Têm-se deixado manipular e muitas vezes foram coniventes com as injustiças quando as mesmas resultaram em benefício próprio. Neste momento ainda falta coesão à classe, alguns ainda não se consciencializaram que o respeito, a valorização e a dignidade de cada um exige a luta de todos.

A classe está de facto fragilizada, exausta e desgastada, mas os professores atingiram o limite e milhares estão dispostos a encontrar uma réstia de força dentro de si e continuar a lutar. Três greves ao longo do ano que foram prejudicais, não só para os alunos e pais como também para os professores. Uma manifestação a um sábado encarada como uma vista de estudo à capital, 13 reuniões sem qualquer resultado. Neste momento os professores ainda lutam pela via constitucional, através da Iniciativa Legislativa de Cidadãos, um projeto-lei redigido por professores, encarado por alguns como uma afronta, desconhecido por muitos e ainda por assinar por milhares, que cuidando dos outros com zelo vão adiando a resolução dos seus problemas, fora os que já se alienaram, desistiram ou ainda se encontram dedicados à autocomiseração. A adesão à greve às reuniões de 9º, 11º e 12º anos de escolaridade, vista com maus olhos por alguns, é o resultado da intransigência de quem nos tutela. Pensar que os professores têm alguma satisfação em adiar a sua vida e a dos seus alunos, após um ano desgastante para todos, é completamente absurdo. Nós cuidamos diariamente destas crianças e jovens, fazemos parte dos seus sucessos e fracassos, das suas alegrias e tristezas. Os professores também são pais, os seus filhos também andam na escola. Os Se neste instante a luta parece prejudicial para milhares de alunos, é porque falta visão a quem pensa desta maneira. Todos os dias ensinamos dentro das nossas escolas a importância do cumprimento dos deveres, o benefício dos direitos, a importância do sacrifício dos pais para que os filhos tenham direito a um lugar condigno no mundo. Ensinamos-lhes o valor da luta e o do sacrifício que foi necessário durante séculos para alcançar proteção e dignidade para quem trabalha.  A luta dos professores serve de modelo contra o novo “esclavagismo” vigente na sociedade contemporânea, desmonta a ideia com que muitos dos nossos alunos hoje chegam à escola: “que mais vale ser explorado por 200 euros do que não ganhar nenhum” e acima de tudo tenta restituir o valor a uma profissão descartada por muitos pais, que dizem com toda a sinceridade “que teriam desgosto se os filhos quisessem ser professores.”

Cassilda Coimbra

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1 COMENTÁRIO

  1. Obrigada pela análise. É pena que muitas pessoas que pensam que sabem tudo (como os representantes de pais) não a possam ler. Realmente precisavam!

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