Início Editorial “Professor não me chateie, a Educação Física nem sequer conta para a...

“Professor não me chateie, a Educação Física nem sequer conta para a média…”

2313
18

É mentira! É mentira quando dizem que os alunos não alteraram a sua atitude nas aulas de Educação Física por esta não contar para a média de acesso ao Ensino Superior.

Quem vos escreve está no terreno, dá aulas todos os dias e nestes 5 anos em que a Educação Física foi remetida para uma posição inferior – responsabilidade de Nuno Crato, o Ministro que mais prejudicou as Expressões – vários foram os alunos que proferiram a afirmação que consta no título deste artigo. E se o disseram a mim, certamente que disseram a muitos colegas meus…

Há quem diga que a Educação Física é uma disciplina muito específica… verdade! Há quem diga que os alunos não têm culpa de não terem jeito para a Educação Física… também é verdade!

Mas essas verdades não podem colocar em causa a essência do ensino, um ensino que se quer transversal e responsável pela formação completa do aluno, do homem, do cidadão. A Educação Física faz isso tudo, aliás, se há disciplina que trabalha as componentes sociais, cognitivas e físicas em simultâneo é a Educação Física.

Reparem neste simples exemplo…

Para jogar futebol, o aluno tem de calcular e recalcular continuamente as movimentações dos seus colegas de equipa, dos seus adversários, conhecer uma série de regras, aplicar as suas capacidades físicas e técnicas, cumprindo com relações sociais de respeito e cooperação. Todos estes conceitos são aplicados na prática e em milésimos de segundo. Já viram quantas “luzinhas” são acesas no cérebro do aluno só por dar uns pontapés numa bola como alguns dizem? Não se iludam, essas “luzinhas” são transversais a todas ou quase todas as profissões, a Educação Física é isto, a Escola é isto…

O Ronaldo é um génio, o Miguel Ângelo foi um génio, Mozart foi um génio e a genialidade não se mede apenas em números e letras. Existem diferentes tipos de inteligência, e todas elas são importantes, todas elas são semelhantes e todas elas fazem parte de um desenvolvimento salutar de uma crianças/jovem.

Mas eu sou aluno de 18 e 19 valores e não tenho culpa de não conseguir fazer uma cambalhota e assim já não vou conseguir entrar para a faculdade…

Pergunto-vos, alguma vaga de Medicina ou de Engenharia Aeronáutica ficou por ocupar nos últimos 5 anos? Não, óbvio que não!

O que preferem? Um médico com uma média de 19 valores que tirou um 10 a Educação Física ou um médico que tem média de 19 valores e tirou um 15 a Educação Física?

Eu prefiro um médico que saiba trabalhar em equipa, tenha uma elevada inteligência emocional para lidar com os seus pacientes e apresente elevada destreza na sua coordenação fina para realizar as suas operações.

Há também quem afirme que a Educação Física baixa a média a um número significativo de alunos. A esses só lhes peço uma coisa… Provem! Até lá, aconselho ao leitor que visite uma escola qualquer e analise as pautas afixadas. Depois digam qual é a disciplina que em média tem classificações mais elevadas…

Não é justo! Quem quer afastar a Educação Física, esquece-se sempre dos alunos que têm dificuldade a Português, Matemática, Inglês, História, Física, Química, Filosofia, etc, por que razão esses alunos não podem abdicar do seu calcanhar de Aquiles para não prejudicarem a sua média? Por que é que só falam da Educação Física??? Alguém que me esclareça pois ainda não consegui perceber como uma disciplina que é fundamental para o desenvolvimento salutar dos nossos jovens, num país que tem uma elevada taxa de obesidade, pode simplesmente ser tão desvalorizada, tão desprezada, até pelos próprios professores das outras áreas curriculares.

A Educação Física não é mais do que nenhuma das outras áreas, mas não é inferior a nenhuma delas. A Educação Física merece o mesmo estatuto, o mesmo respeito, a mesma dignidade e essa dignidade passa pela paridade com as suas parceiras.

Um país que, apesar de ter sido mais uma vez Campeão da Europa, é um país sem cultura desportiva, um país amador que exige medalhas profissionais, um país que passa horas a discutir arbitragens, que vive da calúnia, da polémica, que cria sistematicamente suspeitas, que não sabe perder, não sabe ganhar, um país que precisa com urgência de uma política desportiva ao nível do 1º ciclo, um país que encara a atividade física como um extra e não como uma necessidade absoluta. Este é o país que nos últimos 5 anos disse aos seus alunos…

Meninos, a Educação Física é só para passar, pouco interessa se tens 10 valores ou 20 valores, pouco interessa se corres muito ou pouco, pouco interessa se te esforças ou não, é para entreter, é recreio, o que interessa são as outras, essas são as que contam efetivamente para a tua média.

Não! Basta! Queremos um país evoluído? Então a Educação Física que volte ao lugar que merece.

Alexandre Henriques


Artigo publicado em simultâneo no Jornal Público

COMPARTILHE

18 COMENTÁRIOS

  1. …a Educação Física, a Educação Tecnológica, a Educação Musical, a Educação Visual «foram remetidas para uma posição inferior – responsabilidade de Nuno Crato, o Ministro que mais prejudicou as Expressões»!

    • Talvez, por isso, recentemente, pedi a uma enfermeira que refizesse um penso num dedo…aquilo não se parecia com nada, mas acima de tudo provocava mais desconforto que o ferimento. A Srª, não sabia sequer cortar o adesivo com a tesoura!…

  2. Quase concordo na totalidade.
    Também prefiro um Professor de EdFisica que tenha tido 10 (até 5) a MAT A, do que o que tirou 20 a MATB… 😉

  3. Parabéns pela clareza e pertinência do texto.Concordo plenamente com ele e acredito que a área das expressões deverá ter um peso maior ao nível do primeiro e segundo ciclo. Nesta fase,as crianças necessitam de cimentar aprendizagens fundamentais para um bom prosseguimento de estudos, tais como lateralidade,motricidade fina e muitas outras que a educação física,a educação musical e a educação visual desenvolvem.É NECESSÁRIA UMA REVOLUÇÃO DE MENTALIDADES que leve a respeitar todas as áreas do saber de igual forma,sabendo dar igual valor a todos os que são bons ,seja em que atividade for.

  4. Podem dizer o que quiserem sobre o assunto, porque isso são opiniões, e opiniões há muitas. Só não posso é ouvir aquele argumento de que “EF não estraga médias”. Porque estraga. Ponto. Não será para todos, claro. E, sinceramente, prefiro um matemático com 20 a Mat e 10 a EF do que com 20 a EF e 10 a Mat.
    Agora, também é verdade que prefiro um prof de EF com 20 a EF e 10 a mat em vez de 20 a Mat e 10 a EF. E isso é o que acontecia até à bem pouco tempo. Quando EF só contava para quem seguia a área.
    Prevendo já qualquer tipo de reacções, espera-se mais conhecimento matemático de um prof de EF do que conhecimento sobre EF de um matemático. E apresento estas duas profissões somente como exemplo.
    Só uma nota: nunca vi ninguém em EF a fazer cálculos. Claro que muitos até podem fazer esses mesmos cálculos. Contudo, muitos dos professores nem sabem o pq de certas posições em determinados lançamentos.
    Por último, concordo que os alunos devem respeitar EF. Eu sempre respeitei e dei o meu máximo. Nunca tive grande técnica e por isso sempre observei alguns sentimentos de irritação por parte dos prof. de EF, para comigo. Algo que nunca me afectou. Eu estava lá por mim, não por eles. Mas também sei que para muitos colegas meus estas atitudes for muito prejudiciais.
    Esta é a opinião de um aluno, que teve a sorte de terminar o secundário quando EF não contava para a média.

    • “EF não estraga médias”. Porque estraga. Ponto.
      A sua certeza é proporcional à minha que beneficia as médias. A diferença entre nós, é que eu acompanho pautas há 16 anos e sei que estudos não oficiais apontam para apenas 3% de alunos prejudicados.

      • Claro que sim, a minha opinião vale o que vale, e é na proporção da minha experiência.
        A diferença entre nós não sei se será essa. De qualquer maneira, boa sorte com as mudanças que estão a acontecer, e a acontecer que sejam para o bem de todos.
        Uma pequena nota: Alguns professores de EF têm de mudar a sua postura, pois o maior problema da disciplina são eles próprios e a sua frustração profissional.
        Boa sorte.

        • Alguns professores de EF têm de mudar a sua postura, pois o maior problema da disciplina são eles próprios e a sua frustração profissional.

          Juro que não entendi. Se quiser concretize.

          Cumprimentos

    • Oh António, sinceramente não entendo estes seus argumentos, principalmente no contexto do artigo em questão. Para mim o António é mais um daqueles que acha que a EF é uma disciplina menor e que serve essencialmente para entreter os meninos. E quando alguém aparece e explica que a disciplina é muito importante e rica para o desenvolvimento integral dos alunos, surgem sempre uns quantos colegas a quererem espezinhar e diminuir a sua importância. Soa assim a uma certa inveja a um ressentimento recalcado que sinceramente não entendo… talvez se tivesse ido para matemática, não sei.

      “….espera-se mais conhecimento matemático de um prof de EF do que conhecimento sobre EF de um matemático…”
      Quem é que espera? Está a falar exactamente de que conhecimentos, de trigonometria é isso? Enfim! podia desmontar este seu argumento de várias formas.

      … nunca vi ninguém em EF a fazer cálculos. Claro que muitos até podem fazer esses mesmos cálculos… Que argumento é este?

      …Contudo, muitos dos professores nem sabem o pq de certas posições em determinados lançamentos…
      Bom, isso é tão provável como existirem muitos professores de matemática que não sabem o que fazer para reduzirem o seu peso ou o seu colesterol ou que tipo de alimentação devem fazer para melhorarem de uma forma fgeral a sua saúde ou que postura devem ter num recinto desportivo ou que não têm o mínimo de literacia desportiva etc, etc, etc

      • Caro Mário;

        “….Para mim o António é mais um daqueles que acha que a EF é uma disciplina menor e que serve essencialmente para entreter os meninos.”

        Se isso fosse verdade, nem me dava ao trabalho de comentar este artigo.

        “…. Bom, isso é tão provável como existirem muitos professores de matemática que não sabem o que fazer para reduzirem o seu peso ou o seu colesterol ou que tipo de alimentação devem fazer para melhorarem de uma forma fgeral a sua saúde ou que postura devem ter num recinto desportivo ou que não têm o mínimo de literacia desportiva etc, etc, etc…”

        Já agora este argumento também podia ser desmontado de várias maneiras

        Boa sorte com a sua causa! Mas parem de apontar o problema só aos outros. Olhe para si e para os seus colegas (se for professor) e faça uma reflexão sobre os problemas que muitas vezes podem ser resolvidos por si, e esses são mais fáceis e importantes de resolver.

  5. Muitos professores de EF sentem um complexo de inferioridade, porque muitas vezes a disciplina é descredibilizada pelos próprios pares, ou até mesmo pelos próprios alunos. E no dia em que o foco for o ensino e não estas questões secundários, esse dia sim, será uma vitória para a disciplina. Porque para mim esta discussão das médias não serve para incentivar a prática de desporto mas sim para credibilizar a disciplina, enquanto unidade curricular, e os professores da mesma.
    Cumprimentos

  6. Existe um medo injustificado por parte dos profs. de EF, que é pensarem que a disciplina tem menos relevância na escola. O quotidiano mostra o contrário: nas AEC privilegiam-se as atividades psico-motoras, é uma disciplina praticada por TODAS as turmas da escola e ainda tem o desporto escolar como atividade extracurricular (que inclusivé dá horas letivas). Portanto, estão a empolar algo que nunca existiu.
    Que a classificação de EF no secundário pode afetar a média, isso é matematicamente óbvio; mas isso faz parte do sistema avaliativo, tal como qualquer outra disciplina afeta.
    O único medo de EF seria a desvalorização da disciplina mas tal jamais acontecerá porque o binómio desporto/saúde está enraizado na sociedade. Portanto, se fosse prof. de EF desejaria que não contasse para a média, pois livrava-me de muitas dores de cabeça, dando aulas com plena liberdade, sem condicionalismos de avaliação e sem as chatices da pressão do CT de EF estragar a média (e já agora, das chatices do recurso…).
    “Eu prefiro um médico que saiba trabalhar em equipa, tenha uma elevada inteligência emocional para lidar com os seus pacientes e apresente elevada destreza na sua coordenação fina para realizar as suas operações”: um principio fácil de concordar mas ingénuo no sistema atual, pois é médico quem tiver média acima de 18. Ou mudam o sistema ou então a média é que conta…
    Estão a chamar a atenção para algo que não merece ser empolado porque EF não será, no curriculo, uma das disciplinas que sairá de um lugar de importância, tendo SEMPRE um lugar na escola, contrariamente ao que aconteceu a outras disciplinas, como por exemplo ET. Os profs devem é concentrar-se através da sua prática pedagógica demonstrar a importância de EF em todos os aspetos da vida em vez de focarem-se no receio infundado de EF poder ser desvalorizada ou extinta.

    • Só este ano e por 4 vezes tive alunos que faltaram às minhas aulas para fazerem testes nas outras disciplinas… Sem sequer me terem pedido, tendo um deles inclusive faltado a uma avaliação minha… Mas isto é tudo da nossa cabeça…

      • Mas existe avaliação sumativa em EF. A assiduidade deve ser um dos parâmetros de avaliação, juntamente com outros. Se o aluno faltou, devia ter a devida correspondência na classificação da disciplina no final do período.
        Chega de paternalismo na escola: cabe ao prof. divulgar a importância da disciplina mas cabe ao aluno compreender que o beneficio/prejuízo será principalmente dele se não aproveitar o que a disciplina tem para oferecer no seu desenvolvimento pessoal.

  7. Eu gostava de ver o Stephen Hawking a não conseguir entrar na Universidade porque era mau a Educação Física! Quem não tem aptidão para esta disciplina não merece ter o seu futuro estragado porque não conseguiu “aquela décima”.

    • Caro Alexandre, o Stephen Hawking, tal como todos os alunos com limitações físicas são avaliados de maneira diferente. Não somos estúpidos!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here