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Prendas de editoras e pelos nas palmas das mãos…..

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“Honestos, honestos são os que tem pelos nas palmas das mãos….”

palma da mãoCresci a ouvir esta frase, dita como piada pela minha mãe, professora de biologia. Usava-a, muitas vezes, para chamar a atenção de que a virtude da honestidade não é um estado que se adquire e não se perde mais, mas um processo que se aprende.

Não se adquire tal condição por meios naturais. É-se honesto em cada dia da nossa vida, fazendo as escolhas face às circunstâncias concretas. Assim, ninguém está acima de qualquer suspeita e a honestidade não está fisicamente marcada: é um ato voluntário de aperfeiçoamento. Ter pelos nas palmas das mãos será, pelos vistos, biologicamente impossível e, por isso, no limite, a frase tenta uma piada. No seu modelo de biologia humanista, o que a minha mãe queria dizer com a frase, é que não há puros ou impuros. Todos podemos cair na desonestidade, se nos desleixarmos de a construir no dia-a-dia. Porque nunca teremos os tais pelos

Lembrei-me disto a propósito da reportagem da semana passada do jornal Correio da Manhã (que calculo também tenha passado na televisão, a que não tenho acesso) com direito a editorial, sobre prendas aos professores por causa da escolha dos manuais. Quem conhece a realidade (e creio que posso alegar esse conhecimento, tendo sido livreiro 2 anos, diretor de escola, 6, e professor há 21), terá de dizer que o Correio da Manhã só arranhou a casca do problema.

O mercado dos livros escolares é um oligopólio (tem 2 ou 3 agentes que dominam mais de 2/3 ou mais das vendas) e isso inquina tudo. A presença de mecanismos de escolha por entidades públicas inquina mais. E o processo concreto de escolha dos manuais agrava o problema. Sem maçar ninguém, diria que é um daqueles casos de maus efeitos atomizadores de decisões, fruto da falsa autonomia, em que a vida das escolas é tão fértil.

Manual escolarProclamar a autonomia das escolas é bonito para os políticos e, por isso, cada agrupamento pode escolher os seus manuais. Mas, depois, o processo não é, nem pode, ser preparado para que haja consistência e tempo para a análise racional exaustiva. Uma reportagem certeira iria verificar como é feita a escolha (que foi há uns 2 meses e não agora, como a reportagem do CM parece não ter percebido).

Não tenho preconceitos, assumo que leio muitas vezes o CM e que, descontados excessos que me chocam (e de que até já me queixei noutro assunto formalmente), não desvalorizo o papel, para a liberdade, de um jornal popular, que levante questões de forma direta e sem grandes pruridos. Não é a minha fonte única de notícias (abençoado café, onde generosamente leio tudo o que quero….) e confio que o meu sentido crítico, não me abandona quando se entusiasmam, por lá, como justiceiros e perdem o pé com os olhos raiados do vermelho do grafismo.

Prendinhas, prendas, impedimentos e prisões morais

Curiosamente, desta vez, até foi um tiro ao lado. Iria facilmente mais longe visto que só arranharam a superfície do problema. O folclore sobre o tema dá um texto giro mas, pouco substancial, como o que no final produziram. A minha reação perante a notícia passou por estas fases:

Fase 1, primeiro contacto, “Ora aí está um assunto que vale a pena focar”; Fase 2, “Lá estão eles a embirrar com os professores” (as “prendas”, afinal, são aos professores pessoalmente ou às escolas como instituições?); Fase 3, “Para falar de processos que se passam em escolas é preciso perceber como funcionam realmente as escolas. Afinal, para falar de corrupção na bolsa de valores é preciso saber como funciona a bolsa…. e, claramente, a peça mostra que quem escreveu sabe pouco como a coisa realmente funciona.”

A fase 4 foi: “As perguntas que realmente interessariam, para lá das pinderiquices irrelevantes dos “hotéis de luxo” ou das prendinhas”.

Por exemplo, deixo só duas:

  • se um número elevado dos autores de manuais e delegados das editoras são ou foram simultaneamente professores em escolas públicas, todos eles chegaram a pedir a acumulação de funções, nos termos legais, para fazer as duas coisas e servir, de forma que aparenta ser incompatível, a 2 “senhores” (um que fabrica os livros e outro que decide a sua compra pelas famílias dos alunos das escolas, em cujos órgãos alguns se sentam para decidir)?

E segunda, que daria algum trabalho aos jornalistas verificar:

  • dos autores de manuais que são professores (e outros professores com conexões às editoras) e seus familiares ou amigos próximos, quantos sinalizaram o seu impedimento a decidir, nos órgãos em que participam como professores, que decidem a escolha de manuais (por 6 anos)?

É mau se há professores (poucos que sejam) a decidir sobre a futura compra dos manuais que escrevem, nas escolas em que são professores (ou onde são amigos seus ou familiares), com efeitos em valores de milhares de euros de vendas de livros, resultantes da adoção por 6 anos, para centenas de alunos, dos manuais que escrevem.

Muitos diriam é preciso fazer uma lei contra isso. Ou, como agora é fino: um código de conduta…… Mas não é preciso lei nova: já existe e há muito tempo. A figura jurídica chama-se impedimento e consta do Código de Procedimento Administrativo. É capaz de dar muito trabalho mas, um jornalista que quisesse realmente falar de problemas neste processo, talvez devesse começar por estudar aí.

“Hotéis”, bolachas e cafézinho ou coisas mais escuras?

coffee-break-1454539196eJwO que vale mais na força potencialmente desviante? Organizar a apresentação do manual num “hotel de luxo”, mesmo com café e bolachinhas, e reunir 50 ou 60 professores 2 horas para mostrar o dito manual, ou ter autores (ou delegados) estrategicamente colocados nas escolas que, por si ou seus amigos e familiares, participam na decisão de escolha (não sinalizando o impedimento claro, ou não o vendo ser sinalizado pelos dirigentes, que devem tratar disso oficiosamente, ou até, nem sequer, indicando que acumulam funções)?

Um jornalista que queira realmente falar deste assunto, sem simplesmente arranhar a superfície, sempre poderia fazer um exercício simples: listar os nomes de todos os autores de manuais portugueses que dão aulas em escolas, ver quantos alegaram impedimento (por si ou por familiares) no processo de escolha, de há meses, nela realizado, e comparar a lista dos nomes com a lista dos manuais adotados nas suas escolas. As coincidências seriam um ponto de partida de análise interessante.

Em todos os casos, em que um autor ou familiar tenha participado numa decisão foi, pelo menos, cometida uma infração disciplinar (omissão da existência de um impedimento) que o legislador acha grave o bastante para lhe atribuir taxativamente pena de suspensão (seja qual for o resultado da presença do impedido no ato de escolha, isto é, mesmo que se escolha outro manual).

Afinal, quem escreve um manual, iria na sua escola escolher outro? E passar a escrito, que o seu é pior que os outros? E um irmão ou primo, fará isso?

E, por agora, não falo da precariedade dos chamados delegados editoriais e seu efeitos neste domínio, tema que abriria um longo capítulo de análise.

Agora, fazer parangonas com prendas pindéricas e lanchinhos em “hotéis de luxo” num país em que 14 milhões já foi só uma liberalidade!? Ou em que membros do Governo viajam para futebóis com ajudas de custo de empresas com milhões de dívida ao Estado?!

Tal faz crer que, no Correio da Manhã, alguém acha que tem pelos nas palmas das mãos e não percebe que o problema é mais fundo, mais processual que moral, e precisa, para ser abordado a sério, de mais estudo do que a moralização de parangona.

note-75835_960_720Declaração de interesses ao cuidado do autor da reportagem:

Na minha escola, em cuja decisão sobre manuais não participei (por impedimento, por mim próprio suscitado….como era meu dever funcional), uma delegada de uma editora ofereceu-me uma caixinha brinde de post-its de cor, de tamanho mínimo, que aceitei por delicadeza, quando me apanhou de tocaia na porta da sala dos professores (os papelinhos devem valer uns 30 cêntimos). Não participei na decisão de escolha do manual mas estou disponível para devolver ou pagar a amostrinha de volta…. Parece que devolvendo as ofertas, fazendo um ar sofrido, não faz mal.

O problema vai ser dar com os papelinhos que devo ter deitado ao lixo no final do ano letivo.

Eram amarelos e ando a embirrar com a cor…..

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