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Porque é que ensinar CANSA tanto?

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Provavelmente estão à espera que vos fale
do número gigante  de alunos por turma,
das pilhas de papelada e tralha burocrática com que o sistema nos afogou,
da dificuldade de gerir uma sala de aula nos dias de hoje,
da…indisciplina?

No entanto, e apesar de esses serem factores fundamentais na sobrecarga da função docente, sabidos como conducentes a níveis de stress elevadíssimos e outras complicações de saúde como esgotamentos, depressões e demências precoces, não é esse o meu ponto hoje.

Vou cingir-me à própria natureza da função docente.
Àquilo que fazemos. E às consequências fisiológicas que isso implica.
Há três razões para andarmos cansados!

1) A fadiga da decisão e a força de vontade

Ser professor implica tomar decisões a toda a hora.
Algumas correntes da psicologia defendem que os seres humanos têm uma reserva limitada de força de vontade.
Roy Baumeister cunhou o termo de “depleção do ego”. Ele compara a força de vontade a um músculo, que se pode fortalecer, mas também se pode gastar com o uso.
A depleção do ego tem um efeito geral no nosso organismo, quer dizer, usar o auto-controlo em determinada área da vida pode afectar a nossa capacidade de nos regularmos noutras esferas da nossa vida (como nas nossas relações interpessoais, com a família e os amigos).
Baumeister descobriu que exercer auto-controlo leva a descidas significativas do nível de açúcar no sangue. Baixo açúcar no sangue leva a fadiga física, razão pela qual estamos tão exaustos ao fim do dia, mesmo que a coisa mais pesada que tenhamos levantado tenha sido um manual escolar!

Como professores, pensem nas vezes que usamos a força de vontade.

Refreamo-nos e censuramo-nos o dia inteiro.

A gente engole o comentário sarcástico que apetece fazer; tentamos ignorar o baldas da turma, quando o que realmente nos apetece fazer é “passar-lhe um sermão”; a gente guarda a nossa opinião sincera sobre as últimas do Sr. Director; respondemos com profissionalismo a abordagens desrespeituosas de um ou outro encarregado de educação; trabalhamos com aquele aluno com quem apetece fazer tudo menos isso; corrigimos trabalhos e testes e planificamos para o dia seguinte, quando preferiríamos, mil vezes, esticar as pernas no sofá; engolimos os sapos todos, quando nos apetecia mesmo era ter um ataque de raiva e lançar uma bomba na escola!!!

Os professores usam a força de vontade o tempo todo!

A questão É: tomar decisões usa a força de vontade.
Os investigadores chamam a isto “fadiga da decisão”.
Quanto mais decisões tomamos ao longo do dia, mais “força de vontade” gastamos.

Há estudos que sugerem que os testes que são corrigidos primeiro têm uma classificação mais justa do que os que ficam para o fim. (Por sabê-lo, há anos que os corrijo por pergunta ou grupo; o que me leva o dobro do tempo e me cansa a dobrar!!!)

Após um dia inteiro a tomar decisões, já não temos energia para as tomar adequadamente. (em casa, por exemplo)
Estima-se que os professores tomem aproximadamente 1,500 decisões por dia, na escola. Se a isto acrescentarmos todo o processo de auto-regulação (vulgo, contar até mil antes de…) necessário para ensinar… não admira que a “força de vontade” tenha ido à vida ao final da tarde. Estamos EXAUSTOS!

2) Emoções – viver em alta tensão!

A segunda razão pela qual os professores andam sempre cansados prende-se com o efeito das emoções fortes! Tais como: raiva, frustração, alegria, entusiasmo…todas pesam a nível fisiológico.

As emoções positivas despertam a mesma resposta fisiológica que as emoções negativas: o batimento cardíaco aumenta, as glândulas sudoríparas são activadas, ficamos em estado de alerta. Como activam no nosso corpo a resposta ao stress, as emoções fortes – mesmo as positivas – esgotam-nos.

Os professores são formados para serem energéticos, motivadores, entusiastas. Muitos de nós acreditamos que, para sermos verdadeiramente eficientes, temos de ser energéticos (Eu acredito!), temos de “puxar por eles“! Provavelmente é verdade, mas também temos de ter consciência que esse entusiasmo, combinado com todos os outros momentos de raiva e frustração, vão drenar-nos até ao tutano!

3)Preocupação

A gente preocupa-se por todo o tipo de razões:
se os alunos não estão a aprender;
se há problemas de comportamento;
se um encarregado de educação se queixa;
se a fotocopiadora está avariada;
se vamos cumprir o programa;
se o Miguelito tem faltado às aulas e haverá hipótese de abandono;
etc… etc… etc…

Obviamente, a preocupação está relacionada com a fadiga. Quando nos preocupamos, imaginamos e antecipamos situações negativas. O nosso nível de stress cresce e o nosso corpo activa a reacção de “lutar ou fugir” (fight or flight mode)

Resultado? Sentimo-nos cansados!

NO ENTANTO, a comunidade civil em geral,
os nossos amigos que não ensinam,
dificilmente entendem por que raio havemos nós de andar “tão cansados”.

Afinal,(oficialmente)
um gajo tem tardes livres,
um gajo não faz turnos nocturnos,
nem trabalha aos fins de semana,
nem tem indicadores de desempenho, nem taxas de produção a cumprir,
nem um patrão ranhoso a dar-lhe na cabeça a toda a hora…

Afinal
um gajo até tem muitas férias
e tolerâncias de ponto!

Como raio é que um gajo há-de andar cansado?

Marta Pereira

 

Adaptado de: http://teacherhabits.com/why-teachers-are-so-tired-and-what-to-do-about-it/

 

6 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada! Obrigada pela sua “ainda” clareza de espírito para colocar de forma tão clara e objetiva o cansaço da minha alma e do meu corpo de sessenta anos que já não podem mais! Sinto que só poderei ver-me livre deste calvário se “cair redonda” em plena escola! Morta para sempre! Porque morta já eu estou…

  2. Revejo-me inteiramente em cada uma das suas palavras.
    Agora, desempenho as minhas funções com sofrimento físico e psicológico.
    Infelizmente, também creio que, desde as mais altas instâncias aos nossos
    pequenos alunos, poucos nos dão valor.

  3. Precisamos ser solidários e dar a conhecer os nossos problemas. O caminho é fazer a sociedade entender a importância do nosso trabalho e inverter a ideia que foi semeada por ministros da educação hostis.

  4. Aqui em Portugal os professores têm indicadores de desempenho (Avaliações) e não é só uma vez durante o ano lectivo, e têm objectivos a atingir. E as tardes só são livres de alunos, porque quase todos os dias há reuniões e mais reuniões. Um(a) professor(a) começa o dia por volta das 08.30h e acaba por volta (incluindo as ditas reuniões) das 17, 18 e às vezes até às 19,00 horas. Ahhhhhh e ainda uns certos dias por semana é escalado(a) para dar os almoços. Isto é o mais simples porque há mais, muito mais como por exemplo os professores do 1ª ciclo vão fiscalizar as salas onde decorrem exames,do 2ª ciclo.

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