Início Editorial Palavra de aluno |”Nós esquecemo-nos de que os professores também são gente”

Palavra de aluno |”Nós esquecemo-nos de que os professores também são gente”

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Todos nós já fomos alunos e todos nós encarámos os professores como um dado adquirido. Aquele ser que todos os dias estava à nossa frente, debitando matéria mais ou menos aborrecida, mais ou menos interessante, chateando-nos ou deliciando-nos com o seu conhecimento.

O lado emocional do professor é algo que é escondido de milhares e milhares de alunos todos os dias, todas as semanas. Se é verdade que os alunos têm sombras nos seus armários, os professores também as têm. A diferença entre professores e alunos, além da idade e consequente maturidade, são os apoios que uns têm e os outros não. “Estranho seria se assim não fosse”, pensarão vocês. Discordo!

Cada professor é responsável pela aprendizagem de dezenas de alunos. Algo determinante para o seu futuro profissional e até social. Se assim é, não deveria ser uma prioridade nacional o bem-estar de quem ensina?

Preocupa-me muito esta ideia de que os professores são máquinas de ensino, em que alunos pouco ou nada se interessam pelas dificuldades porque passam muitos docentes. Sinto que o professor tornou-se um dado adquirido, que com maior ou menor dificuldade está sempre pronto e apto a ensinar. Mas será que é mesmo assim? Quantos professores estão atualmente de baixa médica? Quantos professores não deveriam estar de baixa médica?

Todos nós que frequentamos as salas de professores, conhecemos casos de professores que estão numa embrulhada emocional que condiciona o seu desempenho. Os alunos não são ingénuos e sabem perfeitamente quais são os professores em que podem abusar, levando-o ao limite, pelo simples prazer de ver o professor passar-se da cabeça, como se um espetáculo gratuito se tratasse.

Não é a primeira vez nem será a última que abordo esta questão com alunos mais problemáticos, lembrando-os que os professores também são gente, também sofrem e também se magoam com aquilo que lhes é dito e feito.

É curioso assistir a uma mudança de atitude por parte da maioria dos alunos, como se uma luzinha se acendesse naqueles cérebros tão imaturos. Os alunos percebem e identificam-se com a humanidade dos professores quando esta lhes é explicada, passam a sentir uma empatia natural por aquele jovem ou menos jovem que está a não sei quantos quilómetros de casa, que abdicou do seu espaço, da sua família, etc, etc, etc…

Nunca é demais repetir, o professor também sente! O professor também sofre! O professor faz coisas normais como ir ao supermercado, ver televisão, comer um chocolate ou jogar no telemóvel… O professor não é o inimigo, é apenas uma pessoa normal que por acaso tem uma profissão que permite mudar o mundo. Pouca coisa 😉

O lado emocional dos professores é algo extremamente desvalorizado pela sociedade e principalmente pelo Ministério da Educação. Apesar dos inúmeros estudos que apontam que os professores estão presos por pinças, no limite das suas forças e resistências. Nunca foi abordada de forma séria o burnout docente. Quem de direito simplesmente ignora e não há maior falta de respeito do que ser ignorado por alguém que DEVIA no mínimo mostrar publicamente alguma compreensão e apoio.

Quanto aos alunos, por vezes pensamos que eles não nos entendem, mas também é verdade que muitas vezes não permitimos que eles nos entendam, seja por feitio, privacidade ou outra coisa qualquer. Quando a indisciplina nos entra sala adentro, talvez se mostrássemos alguma ligação e empatia para com os alunos, tudo fosse mais fácil, em vez de levantarmos muros e apontarmos canhões…

A empatia é a arma mais poderosa que conheço para se ensinar, pois ninguém aprende de quem não se gosta.

Até parece simples, não é? Claro que não é simples, mas também não é assim tão complicado…

Amanhã há mais 😉

Alexandre Henriques

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7 COMENTÁRIOS

  1. Boa noite…
    Concordo plenamente: A empatia é a arma mais poderosa que conheço para se ensinar, pois ninguém aprende de quem não se gosta.
    E ensinar a alunos de que se é vitima de bullying? Como se faz? Estou há algum tempo a sofrer horrores por causa de meia dúzia de alunos de uma turma minha que me estão continuamente a “molestar”. A D.T. acha normal… a Direção diz que vai decidir em conformidade… Tenho mais 3 turmas onde adoro trabalhar…
    Como não aguentei a pressão e a ansiedade, resolvi falar com A IGE e expor o caso e também o fiz no livro de reclamações… estas coisas não podem passar por cima de nós…

    • A disciplina e as punições fazem parte da educação. Nunca disse que a empatia resolve tudo, mas que ajuda disso não tenho dúvidas.

  2. Boa tarde
    Concordo plenamente com a colega Luísa Bilé.
    Com certeza todos nós concordamos com a frase: “A empatia é a arma mais poderosa que conheço para se ensinar, pois ninguém aprende de quem não se gosta.” Como não concordar??!!! Frases dignas de qualquer PENSADOR onde podemos procurar estas e mais como estas. No entanto, triste realidade, são mais comuns situações como as expostas pela colega Luísa. Por vezes, sem qualquer motivo de grande monta, só porque sim, todos sabemos também que os alunos são “maus”, que aproveitam qualquer vislumbre de fragilidade para atacarem em bando, ferindo até não poderem mais.
    Onde fica aqui a empatia, para que quem ensina também o possa fazer com o carinho e empenho que todos queremos transmitir?!!
    Sr. Alexandre Henriques as frases universais muitas das vezes não nos servem para nada. Demagogia fácil toda a gente (que assim o queira) consegue fazer.
    Mas com certeza que sim, concordamos consigo, a empatia ajuda, se nos forem dadas condições para que ela possa existir. Caso contrário (como acontece muitas vezes) a frase fica LINDA no papel e faz-nos parecer INSTRUÍDOS
    Tenha um bom dia

    • Cara Maria Mesquita. Eu não falo de cor, tenho 17 anos de salas de aulas, portanto não me venha dizer que a empatia não é uma arma poderosa. Se ainda não a descobriu, acredite que ainda vai tempo. O meu objetivo não é parecer instruído, lhe garanto, para isso basta o “canudo” que tenho guardado no armário…

  3. Pois caro senhor ainda bem que tem o canudo guardado no armário. Mal seria se não tivesse. Fico muito feliz que nos seus 17 anos de salas de aulas tivesse chegado a essa conclusão
    com a qual, aliás, eu nunca disse que não concordava. Contudo, e uma vez que parece não ter entendido, volto a frisar que essa empatia, por vezes, é uma utopia NALGUMAS salas de aula-
    E, caro Alexandre Henriques com certeza que também não iria falar de cor, pois efetivamente não tenho 17 anos de salas de aula. Tenho salas de aula desde o ano letivo de 1988/1989 até hoje. É só fazer contas. Por isso, caro amigo, posso dizer-lhe que já descobri a referida empatia há muito tempo. Mas só quando me é PERMITIDO .
    Tudo de bom para si

    • Maria Mesquita: estou totalmente de acordo… e ja tenho quase 39 anos de trabalho com alunos, mas graças a Deus e a mim também……

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