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O Pai Natal existe mesmo!

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Prenda envenenada…

— Sandro, tu acreditas no Pai Natal? – perguntei-lhe depois de inquirir mais de metade da turma.

— Acredito. — respondeu o Sandro com confiança.

Fiquei admirando com tanta convicção e quis saber mais: — Então porque é que acreditas no Pai Natal? E ele responde-me: — Porque eu no outro dia vi-o a conduzir um carro.

Boa! Desta resposta não estava à espera. Desafiador como sou, interpelei-o logo com um ligeiro sorriso: — Mas então, o Pai Natal não anda só de trenó?! Não devia ser ele!

O Sandro fica sem resposta e a sua expressão revela desalento e alguma aflição…

Eu começo a ver o Sandro confuso e digo-lhe: — Se calhar o Pai Natal tinha o trenó avariado e naquele dia estava a utilizar o carro? A cara do Sandro altera-se para um sorriso de alívio e acena um sim com a cabeça… nesse momento, percebi que lhe salvei a “ilusão” do Pai Natal. “Ufa”!

Era o final de novembro e estava a dinamizar um debate, com os alunos do 1.º ano, sobre a existência do Pai Natal. Mas, antes de começar, disse-lhes o quão importante é respeitar a opinião de todos e aceitar que o outro tem o direito de pensar de forma diferente.

A turma estava dividida em duas partes: os que acreditavam no Pai Natal e os que não acreditavam. Estivemos uma hora entre perguntas e argumentos e no fim percebi que até os que alegavam não acreditar, acreditavam… Foi interessante constatar como a inocência de uma criança nesta idade se sobrepõe aos factos…

Uns dias depois, comecei a preparar as avaliações dos meus alunos e questionei-me sobre a perceção que eles iriam ter da minha avaliação. Será que eles compreendem porque é que o colega do lado tem uma avaliação diferente? E como é que eles se sentem quando a avaliação é insuficiente ou suficiente? Na verdade, acho que isto são dúvidas que todos os professores têm. Mas quando falamos de crianças com idades entre os 5 e os 7 anos, será que tem o mesmo impacto? E como é que essa avaliação as afeta? 

Um professor do 1ª ciclo atribui a um aluno “insuficiente” na pauta. Será que o educando compreende o que é que aconteceu para ter essa nota? Não, claro que não. Ele entende a reação dos pais e provavelmente interioriza que esse é o seu valor académico.

Não podemos deixar de avaliar o desempenho do aluno na escola, mas será assim tão importante fazer uma avaliação na época de Natal para dizer aos alunos o que é que eles “valem”? Claro que não. A escola tem de evoluir no modo de comunicar com os educandos e encarregados de educação, assim como na forma de monitorizar o desenvolvimento dos alunos.

No 1.º ano de escolaridade, a aprendizagem das letras e dos números é um processo que requer empenho. Eu costumo compara-lo ao esforço que implica subir uma escada. Cada letra e cada número que se assimila é um degrau que se sobe. Não se pode saltar nenhum. Por vezes, é necessário parar para não ficar sem fôlego, ou até descer alguns degraus para depois retomar a caminhada, com os conceitos consolidados, rumo ao topo.

E no fim, lá no cimo da escada, pode apreciar-se o que se conquistou: a leitura, a escrita e tantas outras coisas…

É fundamental ajudar os alunos a terem confiança nas suas aprendizagens. Se considerarmos o peso de disciplinas como o português e a matemática, que ocupam mais de metade do currículo, percebemos que os alunos que não têm sucesso nesses conteúdos, a escola vê-os como medianos ou fracos, ignorando, muitas vezes, a sua aptidão para outras áreas tão importantes como essas.

A avaliação dos conteúdos/unidades, que é realizada ao longo dos períodos, é mais importante para ajudar o aluno a evoluir do que a avaliação formal que se concretiza em insuficiente, suficiente, bom e muito bom, visto que todos os alunos do 1.º ano transitam para o 2.º ano.

A nossa escola estigmatiza os alunos: recebe-os, analisa-os, reestrutura-os, avalia-os e enquadra-os em uma escala de quatro valores.

A avaliação do 1º período é uma prenda envenenada para algumas crianças que começaram agora a ler e a escrever. Com isto tudo, nós – os adultos – roubamos-lhes a alegria, a ilusões e a esperança e nem sempre conseguimos explicar porque o fazemos…

Gonçalo Gonçalves

Professor do 1º Ciclo

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2 COMENTÁRIOS

  1. Por que motivo avaliar tem de significar classificar?

    Por que motivo avaliar não é antes dar conhecimento do que fez bem, sem estar a recalcar o que o aluno fez mal ou menos bem?

    Avaliar deveria ser uma prestação de contas positiva; todos os alunos evoluem, por isso, em meu entender, nenhum terá insuficiente, antes estará positivo de acordo com o seu ponto de entrada nas aprendizagens.

    Avaliar deveria ser fazer o aluno evoluir no que sabe, em partilha e colaboração com os companheiros, em trabalho de pares e tutoria de pares, construindo aprendizagens pelo espaço partilhado, discutido, descoberto através da oralidade.

    Mas não, tudo se resume a grelhas e medidas, mesmo do que não é possível medir objetivamente, pois tem sempre o olhar subjetivo do professor.

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