“Ó pá, porra, mãe, não sejas estúpida!” 2


crianca-reiA chuva começa a cair em bátegas fortes e impiedosas. Na fila, as pessoas entreolham-se indecisas, a vontade de manter o lugar a fraquejar, submersa pelas gotas pesadas e súbitas. Como num acordo tácito e silencioso, a carreirinha ordenada esboroa-se: todos procuram, apressados, o abrigo envidraçado da paragem e ali permanecem, murchos e incomodados com aquela intimidade forçada, as respirações mornas a voltearem no ar e a embaciarem os óculos.

A mulher encosta-se ao fundo envidraçado da paragem, hirta e carrancuda. Fixa os olhos num ponto indefinido à sua frente, a observar a trajectória da chuva. A rapariguita olha-a com ansiedade e impaciência. “Ó mãe, vá lá, pára com isso”, diz-lhe, empoleirada nas pontas dos pés, para melhor lhe chegar aos ouvidos. “’Tás a ouvir?” insiste. “Mas ainda ‘tás chateada comigo?”

“Deixa-me sossegada”, atira-lhe a mulher entre dentes.  “Estou muito desapontada contigo, Cláudia Sofia”. A Cláudia Sofia respira fundo, sai-lhe o ar furioso pelas narinas, a irritação a esganiçar-lhe a voz: “Fosga-se, pá! Já te expliquei, não expliquei?”

“O teu comportamento não tem justificação. Quantas vezes já te disse, Cláudia Sofia, que não podes ser respondona, que não podes ser mal-educada, que tens de respeitar as pessoas, especialmente os professores, quantas? E vale de alguma coisa o que eu te digo, Cláudia Sofia? Nada. É o mesmo que nada!”

“Ó pá, porra, mãe, não sejas estúpida!”, grita a gaiata, mas logo baixa o volume quando se apercebe do interesse da plateia circunstancial. “Já te disse que a culpa foi dela, não disse? Já te contei que ela embirra comigo, não contei? Eu já te tinha dito que a mulher não gostava de mim, logo desde o princípio do ano, foi ou não foi?”

A mãe vira para ela os olhos magoados: “não sei onde é que eu errei, Cláudia Sofia. Eu dou-te toda a liberdade para fazeres as tuas escolhas, faço o que me pedes, sou compreensiva contigo, estou farta de te dizer que quero que me vejas como uma amiga – eu sou tão tua amiga, minha filha! Esforço-me tanto para respeitar as tuas vontades, Cláudia Sofia! E é esta a paga que recebo!

Todos os olhares se viram alternada e tacitamente na direcção das duas protagonistas, como os espectadores atentos de um jogo de ténis. Alguns fitam o rosto sofrido da mulher com solidária benevolência. Outros acompanham as suas palavras de sobrancelha arqueada e um sorriso sarcástico cravado no rosto.

“Mas a culpa foi dela, já te disse! Ela está sempre a implicar comigo e tu sabes bem que eu não me calo quando tenho razão! E ela teve a granda lata de me dizer que quem mandava ali era ela e que eu só tinha era que obedecer! E depois mandou-me calar! E eu respondi-lhe que em minha casa falava quando me apetecia e que nem a minha mãe nem o meu pai me mandavam calar e portanto ela não era ninguém para me mandar calar! Era o que faltava, de onde é que ela me conhece para me mandar calar?”

 “Mas eu já te expliquei, filha: os professores são pessoas de outra geração, têm ideias antiquadas, se calhar não tiveram a sorte de ter pais abertos e compreensivos assim como tu tens; tiveram uma educação mais severa, coitados – e agora acham que tudo se resolve na base da autoridade. Tens de ter paciência com eles, Cláudia Sofia.

“Ó mãe, deixa-te lá dessas conversas parvas de ser compreensiva! Eu sou como sou; quem quiser aceita-me, quem não quiser, temos pena! Anda mas é daí que vem lá o autocarro!”

“Ó filha, espera aí, olha as pessoas que já cá estavam…” Mas a Cláudia Sofia já não a ouve, segue altiva e apressada, com a resoluta intenção de ser a primeira a entrar.

MC

Professora e autora do blogue Estendal


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