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Os rankings escolares são como as omoletes

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*Artigo publicado no jornal Público

Em primeiro lugar, quero agradecer ao jornal PÚBLICO este exercício de liberdade, em segundo lugar, reconhecer que os seus profissionais passaram horas e horas a analisar resultados para que todos nós conhecêssemos os rankings escolares.

Caros jornalistas e leitores, permitam-me a provocação…

Qual é a diferença entre a escola 320 e a escola 381 (garanto-vos que nem fui ver quais são!)? Será que a escola 320 é melhor, efetivamente, do que a escola 381? Atenção que ao dizer escola não me refiro a um dado momento cristalizado num exame mas sim a toda a comunidade escolar feita de alunos, professores, pais, encarregados de educação, funcionários e diretores. É que os rankings, direta ou indiretamente, passam uma imagem simplista e extremamente redutora – a escola 320 é melhor do que a escola 381.

Os rankings são imagem, os rankings são ego, os rankings são humilhação, os rankings são uma parte ínfima da realidade. Não acreditam?

Pois bem… os rankings mostram o aluno que gastou centenas de euros em explicações?

Os rankings mostram o aluno que esteve exposto ao frio e ao calor, quer na escola, quer em casa?

Os rankings mostram o aluno que sofreu privações de todo o género?

Os rankings mostram o aluno que assistiu ao pai bater na mãe, aos irmãos que teve de cuidar, enquanto abdicava do seu tempo para se preparar devidamente para o exame?

Os rankings mostram o aluno que teve como colegas alunos indisciplinados ou professores que não conseguiram dominar a turma?

Os rankings mostram o aluno que esteve inserido em turmas pequenas/grandes?

Os rankings mostram o aluno que não teve professor durante semanas/meses?

Os rankings mostram o aluno que anulou a matrícula?

Os rankings mostram o aluno retido?

E podia continuar…

Lembro-me, como se fosse hoje, de uma conversa que tive com um diretor que, tendo visto a sua escola subir em flecha nos rankings escolares, disse: “Alexandre, preferia mil vezes não ter uma taxa de reprovação de 30% no secundário, do que estar aqui a ser contactado pela comunicação social sobre o brilharete de ser subido umas centenas de lugares no ranking”.

Este ponto é muito importante e seria muito interessante colocar uma coluna com a percentagem de alunos retidos ou mesmo a percentagem de alunos que concluíram a escolaridade obrigatória sem qualquer reprovação.

E o que dizer da comparação, incomparável, da classificação externa com a interna? Talvez a população em geral desconheça, mas a classificação interna resulta do somatório de uma parcela que avalia o conhecimento – 60, 70, 80 % da nota total – a uma parcela que avalia atitudes e valores – 40, 30, 20% da classificação total. A classificação externa, ou seja, os exames, avaliam somente o conhecimento que, nessa situação, tem um peso de 100%. Então por que raio comparam as duas avaliações? Se nem os critérios de avaliação interna são iguais entre escolas?!

Portanto, comparar o que não é comparável é um absurdo total, uma falácia, ou como se costuma dizer na política, uma não verdade.

A escola é muito mais, mas mesmo muito mais do que uma pauta. Enquanto professor, valorizo tanto aquele aluno que supera as suas dificuldades para atingir uma classificação positiva como aquele que atinge uma classificação elevada. Tudo depende do ponto de partida, mas ambos estarão de parabéns!

Os rankings tornaram a escola escrava dos exames, tudo gira à sua volta. Os rankings e os exames deturpam aquilo que é essencial e a verdadeira obrigação da escola, ensinar/aprender, formando, indo ao encontro das caraterísticas individuais dos alunos, tornando-os melhores e mais preparados para a sociedade em geral. Os rankings e os exames tornaram-se um espetáculo mediático numa sociedade que transformou a Educação num negócio, onde se compara aqueles que têm os melhores ovos com aqueles que nem têm supermercado para os comprar…

Os rankings estão a mais, prejudicam a escola, uma escola que é de todos e devia ser defendida por todos.

Alexandre Henriques

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22 COMENTÁRIOS

  1. Quase de acordo, Alexandre Henriques… Sou a favor de exames… Mas acho que, isto dos rankings, devia precisamente começar-se a olhar para o último da lista e não para o primeiro… Nós sabemos quem são os primeiros, sabemos sempre quem são os primeiros, mesmo na Escola Pública…

  2. E qual é a proposta que está atrás de tanta queixa? Não vejo qualquer posição construtiva neste texto. É claro que é preciso muito cuidado com a leitura dos rankings que são meros indicadores.

  3. Vá vendo, ouvindo… Alexandre Henriques… Uma escola no interior que tem notas superiores ao expectável , outra, rural, que fez uma evolução notável nas notas, a partir do 10º ano! Ponto em comum? Mais aulas e apoio, às disciplinas ditas (não por mim… ) nucleares… Você vai ver quando as experienciazinhas flexibilizantes chegarem aos exames o que acontecerá… Pagam os professores… Vai uma aposta?

  4. Dos ricos e dos que têm os currículos mínimos, como a sua posição social, como o seu salário, como o seu flexível futuro…
    O Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto ( ”Jornal i” , jornalista Beatriz Coelho)
    …Não tem toque de campainha, os testes não são marcados, não há quadro de honra e há maior carga horária. O b,i. foi conhecer o colégio que foge ao modelo mais comum e cujos alunos tiveram os melhores resultados nos exames do secundário no país…
    …«Os alunos aqui têm uma mancha horária forte», superior à recomendada pelo Ministério da Educação, diz-nos a nossa anfitriã, a irmã Teresa Nogueira, diretora do Colégio fundado em 1871 pelas Religiosas do Sagrado Coração de Maria. Assim se faz cumprir um projeto educativo – «aqui chamamos-lhe ‘compromisso educativo’ …
    …E há algum tipo de seleção? «Não», garante ao b,i. a diretora, para quem os resultados se devem «a uma cultura de fasquia alta, de trabalho, de rigor, de investimento nos processos de aprendizagem». Não é fácil entrar neste colégio, mas isso não é devido a critérios rígidos, até porque isso não é coisa que exista aqui…”
    ”Já Isabel Pinho, professora de Biologia e Geologia, centra-se no compromisso educativo. «O facto de, por exemplo, os testes a partir do décimo ano serem sempre simulações de exame prepara os alunos da melhor forma», acredita. Quando chega o dia dos verdadeiros exames, os nervos não são os mesmos do que os dos outros examinandos e a ansiedade é facilmente controlável.”

  5. …pois o que interessa, para estes são os exames… para os outros : muito currículo flexível e baixar de exigência… até que e que os números cuspam os resultados que interessam à política! Há muitas formas de discriminar , alguns dizem que é dando aos pobrezinhos o que lhes pede a sua condição…
    … já agora… Quem vai mandar, e viver vida regalada, dão os dos que lustram nos exames! Pois, é a vida…

  6. Parabéns Alexandre, pelo excelente texto, claro e incisivo.
    Mais importante se torna por chegar a uma opinião pública embalada pela converseta do sobe e desce dos rankings e alheada do que realmente interessa em educação.

  7. Texto muito bem escrito e onde consta muito mais do que mera crítica. Felizmente que muitos são os alunos que sabem que rankings não são sinónimo de desenvolvimento humano… Topo de rankings é semelhante a perfil ideal do aluno! O foco no aluno mas que não o implica! Pelo contrário! Expõe-o! O perfil ideal (leia-se adequado) que se deve procurar é o do ensino! Muito temos de caminhar num perfil de aluno onde o importante é o equilíbrio entre forças e fraquezas!

    • Muito bem visto!
      Mas porque é q não convidam professores profissionais no ativo para explicarem este tema tão fulcral na sociedade portuguesa?
      Eu sei a resposta mas insisto.
      Parabéns pelo texto original e pelo excelente comentário.

  8. Um excelente texto Alexandre! Parabéns!

    Quando se fala tanto em competências transversais e perfil humanista valorizar sobretudo exames é bastante contraprodutivo! Obrigado por tornares isto tão claro!

  9. Os rankings são apenas uma ordenação de dados, consequência natural da análise dos dados disponiveis. Servem perfeitamente para as privadas se promoverem mas não têm grande utilidade para a maioria das escolas. No entanto, os dados que lhe servem de base são importantes para perceber em que situação está a educação dos nossos filhos e em especial da sua escola. É certo que podemos e devíamos ter mais dados e mais indicadores que nos dêem um panorama mais adequado do que a escola faz (do tipo, comparar o esperado, com o obtido) mas enquanto o sistema estiver baseado nos valores dos exames, no final é só isso que conta. Na hora de entrar na universidade, não há descontos para escolas desfavorecidas, TEIPS, baixa literacia dos pais ou turmas grandes. O que conta mesmo são as notas cruas. Por isso, o que deveria acontecer era uma análise do que os rankings revelam, no seu conjunto e não apenas em particular. Se a maioria dos alunos tem notas negativas nos exames, então o sistema está errado e alguma coisa deveria mudar. Mas não é a esconder a informação ou a proibir os rankings que vamos lá.

  10. Mudanças a implementar: Muito trabalho; uma formação Humanista e abrangente; rigor no ensino; introdução de disciplinas práticas,por exemplo: plantar uma horta ; cuidar de animais; arrumar e limpar uma casa; iniciação a um desporto, coletivo ou não; disciplina; redução de número de alunos por turma para valores muito baixos , em zonas mais complexas, sobre o ponto de vista social; intervenção, séria, às primeiras dificuldades do aluno e feita por profissionais altamente qualificados
    ;valorização da Escola Pública e do conhecimento.
    A mais importante, sem a qual nada muda, diminuição das desigualdades sociais e aumento do rendimento das famílias.

  11. ”Em declarações ao Fórum TSF de hoje, José Vítor Pedroso, diretor-geral da Educação, disse que os resultados dos exames e provas de aferição nacionais, que definem os rankings das escolas, vão continuar a estar disponíveis.

    O responsável defendeu os rankings afirmando que são um instrumento de trabalho para ajudar as escolas e que, portanto, continuarão a ser realizados e disponibilizados.

    “Há uma necessidade de transparência de todo o sistema”, disse. ”’
    Fonte: Jornal ”i”, online.

    Somos muito pela flexibilidade e tal… mas não se mexem nas metas curriculares! Somos muito pela redução do número de alunos por turma… mas deixa lá até ver…
    Somos contra os exames, avaliação traumatizante em geral… mas ´´espetámos” provas de aferição, demoradas e complexas, a alunos com 7 anos de idade… Sim, a Educação Física e Expressões ainda é melhor a ”examinação” para ver como os professores do 1º Ciclo se marimbam para estas áreas e nós ”las amámos…”
    Somos muito contra os rankings… mas continuámos com eles… porque? Ah é o Diretor Geral da Educação que disse que até era bom…
    Ah leões! É só coêrencia contra os malévolos reacionários…
    Já sei a culpa disto tudo é do Dr. José Vítor Pedroso…

    • O Dr. José Vitor Pedroso por momentos deve ter pensado que era ministro… É a mesma coisa quando um treinador vem dizer o contrário do que disso o presidente… Há coisas que não se percebem.

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