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Os Professores São Uns Parvos

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Tenho um colega que diz frequentemente que é parvo, parvo por fazer inúmeras horas extraordinárias, parvo por dizer sempre que sim, parvo por privilegiar a sua vida profissional em detrimento da sua vida pessoal.

Há efetivamente muito professor parvo em Portugal e que ainda por cima não é reconhecidos por isso. O último reconhecimento que nos lembramos veio do próprio 1º Ministro com um singelo “temos pena”…

O problema não é o trabalho que se vê, é o que não se vê e vários são os estudos que apontam para uma sobrecarga do horário dos professores. No entanto, há que assumir que os próprios professores também são um pouco responsáveis pelas “pieguices” que populam nas escolas, umas mais do que outras…

Há uma sobrecarga de trabalho que está a afetar a atividade docente. O tempo não letivo legalmente previsto é considerado insuficiente por 97% dos professores. E é um tempo importante que se destina a preparar aulas e exercícios, elaborar e corrigir testes. Um estudo sobre o tempo despendido e os recursos utilizados pelos professores na preparação das atividades de ensino, realizado pelo Observatório dos Recursos Educativos (ORE), coordenado pelo professor catedrático Adalberto Dias de Carvalho da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, revela que 63% dos professores precisam de mais de cinco horas semanais para os trabalhos que saltam fora da componente letiva e não são considerados preparação de atividades escolares.

“Considerar, implícita ou explicitamente, que o trabalho dos professores se circunscreve ao tempo na sala de aula constitui um erro grave de avaliação. Na verdade, conforme se constata, há várias outras tarefas fundamentais, antes e depois das aulas, que consomem tempo, inclusive para lá dos muros da escola”, lê-se no estudo que demonstra que a correção de testes e a preparação das aulas são as tarefas que requerem mais tempo extra letivo aos professores, depois da elaboração de testes, coordenação e participação em projetos da escola e formação contínua.

“Se não se souber o número de horas e a qualidade do tempo de que um docente precisa para preparar as lições, podemos criar uma carga horária esmagadora e deprimente. E nunca obter uma docência de excelência. Para preparar as aulas os professores têm de ter uma vida própria – e já não têm”, escreveu um dia o ensaísta e professor universitário José Gil. Estas suas frases são lembradas nesta pesquisa.

Fonte: Educare

Os professores são efetivamente uns parvos, uns bons parvos, se assim não fossem coitado do nosso ensino, há muito que tinha rebentado pelas costuras com tantas e tantas carências. O professor: pai, psicólogo, funcionário, tutor, migrante e que ainda por cima gasta dinheiro do seu bolso para trabalhar, é efetivamente um professor parvo…

Porém, são cada vez mais os que dizem que deixaram de ser parvos ou que vão deixar de o ser, sentem uma frustração e revolta tal, que passaram a optar pela indiferença, numa manifestação clara de derrota pelo desrespeito de muitos anos de trabalho. Não julguem que os alunos não são afetados por esta indiferença, não julguem que a escola não se ressente com este afastamento. O distanciamento de vários professores está a tornar a escola num espaço em que é cada vez mais difícil atingir a excelência, pois a excelência só se atinge com muita dedicação e inevitável amor à camisola.

A título pessoal vou continuar a ser parvo, mas confesso que já não sou o parvo que fui, tal como muitos se calhar estão a deixar de o ser…

Se aquilo que estão a ver em cima for efetivamente cumprido pelos professores, vai haver muita escola a sentir a falta da parvoíce dos professores. Talvez esteja na hora dos professores ficarem imunes à parvoíce, pois com o passar dos anos as pessoas simplesmente estão fartas de serem parvas, gozadas e de se aproveitarem da nossa boa vontade.

É que parvo ainda vá, agora estúpido? Estúpido é que não…

Alexandre Henriques

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5 COMENTÁRIOS

  1. Alexandre,

    Ainda esta semana 1 colega me dizia ter comprado 1 portátil e mais colunas de som e mais um cabo qualquer. Há quem tenha já o seu próprio video projector e um leitor de CD.

    Ainda não se desfez o que M Lurdes R fez. Um verdadeiro calvário para todos os professores, especialmente para os que atendendo à redução da componente lectiva por idade viram os horários ser sobrecarregados com uma panóplia de componente não lectiva que é, de facto, lectiva.

  2. Sim, “agradecemos” a MLR e ao seu ministério o escassíssimo tempo atribuído à componente individual de trabalho.
    Desta “pedagógica” medida resulta que ou não se preparam aulas, fichas, testes, actividades, projectos e demais tarefas burocráticas ou que a nossa vida pessoal se transforma num inferno.

  3. Pois eu continuo e continuarei a lutar, a reclamar, a barafustar. Não só contra o Ministério e o Governo, mas também contra a incompetência ou sacanice com que nos deparamos dentro das próprias escolas, onde o complicómetro está sempre ligado para tornar a vida de quem trabalha um inferno… porque para quem não trabalha tanto se lhe dá!

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