Início Editorial Os professores foram de férias zangados e desiludidos

Os professores foram de férias zangados e desiludidos

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Não sei quantos são, mas tirando a população docente mais “radical” e seguidora dos principais sindicatos de professores, a perceção que fica é que existe uma grande revolta e indignação por parte dos professores. As próximas semanas serão de sopas e descanso, tal como foi “pedido” pelos principais sindicatos… Porém, depois de um ano letivo onde o Ministério da Educação jogou com as palavras, tendo inclusive assinado um compromisso de “faz de conta”, que apenas serviu para calar a luta no momento exato da aprovação do presente Orçamento de Estado, constatamos que a greve que agora terminou (salvo raras e honrosas exceções), não foi apenas mais uma greve, foi A GREVE ou, neste caso, e para nossa infelicidade, foi a maior GREVE… perdida.

O Ministério da Educação/Finanças, que inclui no atual Orçamento de Estado uma norma promotora da recuperação TOTAL do tempo de serviço, deu o dito por não dito e empurrou para a frente o que já devia ter sido resolvido. Tal aconteceu com a paciência e “benção” dos sindicatos, que até se juntaram todos para fazer o que agora conhecemos… Ena!!!

Só que o povo não é parvo e os professores muito menos, e todos nós, inclusive quem está nos ditos Ministérios, sabemos que o tratamento para determinados setores como a banca pública e privada, PPP e outros que tais, não é igual… E isto meus caros, ninguém esquece nem ninguém vos perdoa!!!

Salvou-se o S.TO.P – não, não sou filiado nem porta-voz como alguns já escreveram – que surgiu do nada e sem ninguém estar à espera, tendo alavancado uma greve contra tudo e contra todos… Tal como a ILC, que os donos da luta rapidamente quiseram derrubar, quando podiam ter gerido o incómodo com um simples parágrafo…

“É uma iniciativa dos professores que respeitamos e vai ao encontro do que reivindicamos – a recuperação de todo o tempo de serviço. Caso seja chumbada no Parlamento, cá estaremos para negociar e continuar a defender os seus interesses”

Era assim tão difícil? Custava assim tanto? É assim tão importante serem os donos da luta? Já vos disse que ninguém vos quer tirar o tapete…

Há alguns meses referi que a greve às avaliações era o caminho a seguir para a surdez do Ministério da Educação e das Finanças. Hoje ficamos com a certeza que só conseguiram vergar a luta dos professores quando os seus principais representantes mudaram de lado e passaram a puxar em vez de empurrar. Foram mais de 60 mil as reuniões de avaliação adiadas, mas podiam/deviam ter sido muitas mais. O orgulho que sinto não é suficiente para apagar a vergonha e o sentimento de traição. Eu próprio sinto-me vergado por esta máquina que esmaga qualquer intuito de combater interesses nefastos, que tornaram a Educação refém de partidos políticos camuflados…

Em jeito de balanço de mais um ano letivo, e de 3 anos e 1/2 de blogue, envergonho-me dos bastidores da Educação, onde a pedagogia, os professores, os alunos e até os pais, não passam de peões nas mãos de muitos senhores. Aplicando um termo muito conhecido no meio docente, os interesses divergentes dos escolares estão profundamente enraizados e têm destruído boas ideias e boas pessoas. Não existe transparência nem verdade, existe apenas um jogo sujo onde só sobrevivem os que estão habituados à sujidade.

Há muito que o digo e volto a dizer: a Educação em Portugal está refém e os professores então nem se fala… Se eu pudesse escrever o que partilharam comigo ao longo destes anos, vindo de todo o lado, mesmo de todo o lado, muitos sentiriam a vergonha e a desilusão que hoje sinto.

O próximo ano letivo será muito exigente, com novidades ao nível da Educação Inclusiva, Flexibilização Curricular e quiçá Municipalização Escolar. Teremos também os resultados da ILC no Parlamento, no exato momento em que se negoceia o próximo Orçamento de Estado (não, não foi por acaso), onde já todos perceberam que a situação dos professores estará bem no olho do furação.

Para todos vós que nos têm seguido desejo-vos, apesar de tudo, umas boas férias. Que recuperem as energias e algum do ânimo perdido, pessoalmente tentarei fazer o mesmo…

Obrigado por nos visitarem e contribuírem para um debate livre e independente.

Alexandre Henriques

Mais de 60 mil reuniões terão sido adiadas nas escolas

(Educare)

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18 COMENTÁRIOS

  1. Boas férias! e…OBRIGADA!
    Espero que consigamos TODAS/TODOS mantermo-nos UNIDOS/AS!!

    “O Mal prevalece porque os Homens Bons nada fazem!” E.Burke 🙂

  2. Boa noite Alexandre,

    “Há alguns meses referi que a greve às avaliações era o caminho a seguir para a surdez do Ministério da Educação e das Finanças.” (Agosto, 2018)

    “Sou Professor! Não faço GREVE a exames!” (Junho, 2017)

    Tenho um especial apreço pelo que o Alexandre escreve, na grande maioria das vezes, e sei tratar-se de uma pessoa honesta. Por isso não quero lançar qq polémica, apenas referir que não tem mal nenhum mudarmos de opinião.

    Um bom descanso que bem merecemos.

  3. Boa noite Alexandre,

    Aprecio a sua clareza e postura perante as questões da educação em geral, mas em particular esta última. Concordo que perdemos uma excelente oportunidade de marcarmos a nossa posição e, em particular, de elevarmos a denegrida imagem que tem de nós. Nunca é demais referir que precisamos de estar unidos e falar a uma só voz!

    Boas férias Alexandre ( e a todos os seus leitores)

  4. A desilusão na maior parte dos casos acontece a quem andou iludido o que não é muito recomendável a quem quer lutar consequentemente e inteligentemente. Ainda por cima, num momento em que é preciso saber recomeçar a luta após o regresso em setembro, decididamente não é com manifestações de estados de espírito que vamos lá. Mas saber lutar requer em grande medida um saber coletivo e uma memória que só está ao alcance de quem raciocina no presente estudando o passado. Boas férias.

  5. Depois desta imensa luta travada por todos nós, penso que chegou a altura certa de irmos demonstrando aos partidos politicos envolvidos na negociação dos orçamentos de estado, que não somos apenas 120 000 votos. Somos 120 000 votos vezes dois ou três ou quatro, e que podemos mudar o rumo de muita coisa. Basta para isso votarmos em quem não faça parte do arco da governação.
    Bom descanso.

  6. O meu rasgado elogio ao Alex e ao site não faz esquecer que não o acompanho quando diz que foi uma greve perdida. Não me parece termos perdido a batalha (é apenas uma de muitas batalhas). É verdade que ainda não conseguimos o nosso objectivo. Mas o simples facto de termos feito uma greve de 2 meses, é em si, um facto histórico e único. Isso já é uma grande vitória, como foi vitória termos obrigado o ME a uma sequência de acções desesperadas, ilegais e atrabiliárias, ao mesmo tempo que obrigámos as estruturas sindicais a posicionarem-se mais claramente no terreno e a mostrarem ao que vêm ( e ao que não querem). A alargada união e organização que a classe manifestou, com as escalas e fundos de greve, sem apoio dos grandes sindicatos, mostra bem que as pessoas não precisam de andar a reboque de interesses alheios. Essa tb foi uma grande vitória. Claro que nada é definitivo. Logo temos de nos preparar para o que aí vem.
    Boas férias a quem as puder disfrutar.

  7. A Luta não terminou.
    Mas face a estes Fascistas que se dizem Democratas, só vejo uma saída: Greves, Desobediência Civil e depois que o Ministério dê as aulas em todas as escolas !!!
    Só um professor louco votará PS. só FALTA ACABAR COM O direito À greve…
    Portanto, ainda não acabou a luta.
    Eles não fazem Férias, nós tb. não.
    Em setembro, isto já nem vai lá com Greves. Só mesmo Desobediência Civil.

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