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Os Filhos do Coração

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Quem diz que trabalhar com crianças é um emprego e não um estado civil, não gosta do que faz.

Tantas vezes oiço outras tantas como eu, que quando me chega a parte do desapego me dói a alma. São tão frias e indiferentes. A resposta à minha incapacidade de desapego é sempre a mesma: ” É um emprego.”

Sim, é de facto a nossa profissão. Eu sei que chega o dia que eles crescem, que chega o dia que eles já não precisam mais de nós. Mas isso não arrefece meu coração e apaga minha memória.

Afinal são os meus filhos emprestados. Aquilo que se dá e recebe, é muito mais do que um ordenado. É o calor de um abraço, a satisfação de um sorriso, o orgulho de uma letra ou palavra nova que eles aprendem, é o assistir ao evoluir daquele ser humano.

As coisas que lhes ensinamos, as coisas que aprendemos também, tem um saldo muito superior ao que cai na conta bancária.

A cada vez que o joelho é esfolado, a cada vez que a correria para o bacio não termina bem, a cada vez que o nariz franzido e os olhos cabisbaixos divorciam-se do prato de vegetais, eu me enamoro. Eu me enamoro pelos meus filhos do coração. O entrar as 8h da manhã não me incomoda, mesmo sabendo que o que me espera, é um beijo lambuzado de papas, é uma fralda pesada, é a rabugice de quem acordou as 5h da manhã.

As perguntas mais criativas do universo, que esperam de mim as respostas à altura. É de uma inteligência e inocência tão doce. As conclusões desses seres tão pequeninos, são de uma grandeza infinita. Gosto principalmente quando se saem com perguntas, que acabam por ser a resposta ao título deste meu desabafo:

A: ”Qual é a tua profissão?”

À qual respondo: ” Cuidar de vocês. ”

A: ” Não. A tua profissão. Como a mãe e o pai…a mãe trabalha na escola e o pai conserta as coisas.”

Eu: ” Sim. A minha profissão é cuidar de vocês, enquanto o pai e a mãe trabalha. ”

Ele já começa a franzir a sobrancelha e a suspirar, pensando que não estou a perceber:

– ” Não. Isso não é um trabalho. És a minha amiga. O teu trabalho…qual é? ” – muito inteligente este meu ser de apenas 3 anos.

Sem que me desse tempo a responder, ele disse: ” Já sei! Trabalhas no ginásio, por isso não me podes levar contigo, como a mãe e o pai!”

Deduziu que trabalho no ginásio porque muitas são as vezes, que ao dar a minha hora de ir para casa, me pergunta o que vou fazer. Muitas vezes respondo que vou ao ginásio, que vou fazer ginástica (para pequeno entendedor).

​Tudo lhes é tão fácil, tão verdadeiro que me fazem querer ser criança de novo. Brincamos de mil e uma profissões, colorimos uma casa inteira com as cores mais brilhantes que tivermos à mão.

Os meus filhos do coração sentem-se felizes quando os deixo ajudarem com o almoço. Quando a tarefa deles é pôr os pratos na mesa, os talheres. Quando as suas tarefas passam pelo mexer a salada ou deitar os ingredientes na panela. Os meus filhos do coração ficam felizes quando lhes relembro que se portaram bem. Ficam felizes de saber que o lanche é um copo de chocolate quente e uma maçã. São tão muito, que ficam felizes com tão pouco.

Orgulho-me da cumplicidade que atingimos, da eternidade dos momentos, onde o sentimento não pode ser capturado numa fotografia. Do amor dos filhos emprestados que vão deixar saudades, a cada vez que a vida os fizer crescer. Adoro saber que com eles, posso ser simplesmente eu, sem somar ou subtrair. Mas sim, dividindo meu carinho por eles, que faz com que eles me retribuam em forma de multiplicação.

Basta-me a certeza que saberão o meu nome, mesmo quando outras ‘’Sandras’’ lhes aparecerem na corrida da vida.

E para quem pensa que cuidar dos filhos dos outros, é a minha profissão…se enganam! Eu apenas, vivo na vida dos outros por um tempo determinado.

Sandra Da Silva

 

Texto: Os filhos do coração

Compilação: Os filhos do coração

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