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Os ciganos, o temporal e o racismo escolar

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Este texto teve uma primeira versão. Felizmente que Marcelo Rebelo de Sousa mostra regularmente porque temos motivos para gostar dele e corrige as asneiras que faz. Coisa que, em Portugal, muitos acham que não tem a ver com “liderança”, mas que, às tantas, é a essência dela, como ele vai mostrando.

A correção de rumo de ação face aos ciganos afetados pelos temporais do Algarve foi noticiada no Público aqui. Vai visitá-los no Sábado depois de no Domingo ter dito que não se justificava.

A visita de Sábado ao local das barracas destruídas vai ser um momento fundamental e de vitória para uma ideia de Portugal não racista, que ainda tem de fazer muito do seu caminho. Um grupo de ciganos conseguiu ganhar, por si e pelos seus problemas, e com recurso à própria voz, a atenção de um líder político.

E é muito bom ter escrito há 24 horas um texto crítico e ter de o corrigir, porque se deu um passo em frente para uma oportunidade excelente de mostrar afeto pelos mais discriminados e pobres cidadãos portugueses. A história é rápida de contar….

O tornado

Houve um temporal em Faro. O temporal levou uma data de coisas pelo ar, entre elas um acampamento cigano com dezenas de habitantes. Marcelo foi questionado horas depois. Respondeu e cito o Público (o sublinhado é meu):

“O Presidente da República disse nesta segunda-feira estar a acompanhar os efeitos do tornado registado no domingo em Faro, tendo já recebido indicações do município de que os problemas, sobretudo os sociais, estão a ser resolvidos.

Mas Rogério Bacalhau (Presidente da Câmara de Faro) “disse que não se justificava (visitar o local), porque estava a ser resolvido tudo e o principal problema que havia era com uma comunidade cigana, que tinha ficado muito afetada nos seus acampamentos“.

A barraca foi pelos ares: façam outras….

A questão dos ciganos vítimas do tornado apareceu outra vez no mesmo Público, em notícia de 5 de março, que explica:

“No acampamento de ciganos da Cerro do Bruxo e Escuro, cerca de uma centena de famílias ficaram desalojadas, tendo sido obrigadas a pernoitar no pavilhão municipal. A seguir, a comunidade reivindicou novos alojamentos, ameaçando com uma manifestação à porta da câmara. Rogério Bacalhau descarta a hipótese de vir a atribuir habitações sociais no curto prazo. “Logo que as condições o permitam, vão ter que regressar aos locais onde permanecem há muitos anos – estamos a estudar soluções para o futuro, mas não temos nenhuma solução para todas as comunidades ciganas que temos no concelho”, disse o autarca, numa conferência destinada a fazer o balanço dos prejuízos causados pelos ventos fortes e chuva deste domingo. “Espero um dia ter soluções que não serão para todas as comunidades [uma dúzia, no concelho], mas pelo menos para algumas”, adiantou.

Um Jornal local mostra mesmo fotografias dos estragos e das pessoas afetadas.

Aquilo na verdade não são acampamentos, mas sim o que se pode chamar abarracamentos. A solução do município pelos vistos é dar madeira para novas barracas.

Quem tiver interesse pode ainda ver as várias reportagens sobre este tema nas várias estações de TV  que esse jornal local colocou no seu site.

A notícia e o desalojamento dos ciganos teve largo destaque. Podem, por exemplo, ver outros links no Observador, na TSF, no Expresso ou na SIC.

“São só 100 ciganos que hão-de voltar para as barracas ……”

Nessas notícias vale a pena ler alguns comentários “populares”, nos vários meios de comunicação (que muito ensinam sobre o racismo contra os ciganos que existe no país). Tais comentários ilustram bem o pensamento tosco do troll médio que comenta notícias sobre ciganos. Muitos textos não desmereceriam do que os nazis diziam, quando escreviam ou peroravam sobre os ciganos que mandaram para campos de concentração.

Por exemplo, a quem diz que os ciganos não trabalham porque “andam pelas feiras”, só gostava que experimentassem esse “não-trabalho”, que começa de madrugada, a carregar e montar, e acaba tarde com pouco dinheiro ganho. Ex-alunos são hoje feirantes e falam-me disso e da falta de rendimento.

E para os que fazem corresponder direito à habitação ao pagar de impostos (que implicam ter rendimento), só pergunto se a dignidade precisa de atestado fiscal. E como é que as crianças desalojadas os pagariam, já agora. E como faremos delas bons cidadãos adultos, a viverem no meio da miséria.

E ainda há comentários que recriminam àqueles pais e mães terem aproveitado a ocasião de as barracas terem ficado em fanicos para gritarem que precisam de abrigo digno. Não faríamos todos o mesmo nessa situação?

Depois da 1ª reação, e após uma carta de associações da comunidade cigana (ver aqui) em que perguntam, entre outras coisas importantes, que sentido faz o Município achar que ajudar é dar madeira para fazer barracas “novas”, Marcelo mudou de diapasão, corrigiu a decisão e vai visitar sábado o local e conversar com os desalojados.

Se um qualquer outro bairro de lata fosse pelos ares num tornado, deixando 100 pessoas sem abrigo, que esperávamos do nosso Presidente?

Creio que todos arriscam dizer: fazer o que vai fazer no sábado.E espero que tenha dado a competente reprimenda a quem o aconselhou de outra forma. Ou a si próprio, pela distração inicial.

E o presidente da Câmara, que lhe deu o conselho (que, com surpresa, aceitou inicialmente) de não dar à costa algarvia, porque o problema, visto ao detalhe, “eram só uns ciganos”, espero que esteja com medo de que, abraçados ao presidente, digam coisas inconvenientes.

Porque, sem tornado, ou com tornado, viver em barracas é viver sem abrigo decente.

Poderemos dizer que todo o episódio foi coisa pontual. Que não foi racismo, nem do geral, nem do institucional, fórmula que, aplicada às escolas, anda a causar polémica. E que, balanço positivo, no sábado, pode dar-se um passo útil, que é ter o presidente a falar e a mediatizar as questões do racismo e discriminação contra os ciganos.

Às tantas, alguns dirão que isto não tem a ver com racismo. Que o autarca sofre só de  “subtil discriminação” ….ou “distração”.

Ou como dizia a música, passou por ali “um problema de expressão”….

O problema real é que, para quem vai dormir ao ar livre, ou quase, (quando deixar de haver tempestade) a subtileza é difícil de descortinar.

E que tem isto a ver com Escolas?

Nas escolas, e seu quotidiano, estas subtilezas também existem e se praticam. E, escondidas nelas, está o racismo e as suas permanências em formas diversas, como muito bem lembrava esta semana em entrevista ao Público Maria José Casanova (investigadora da U. Minho).

Quando se fala de racismo contra os ciganos, muitos se amofinam nas escolas, porque a comparação pesada vai logo ter ao máximo da escala (os campos de extermínio ou concentração na Polónia – onde, não por acaso, também havia muitos ciganos, além de judeus).

Muitos chegam a culpar a vítima “por não se querer integrar” e não percebem que os graus iniciais e rotineiros (muitas vezes, nem percebidos) de aplicação das visões racistas são singelamente como isto:  ir “não se justificava, porque estava a ser resolvido tudo e o principal problema que havia era com uma comunidade cigana, que tinha ficado muito afetada nos seus acampamentos. (isto é, ficaram sem “casa” e a solução vai ser fazerem outra…. barraca).

Marcelo percebeu a tempo o simbolismo do que podia estar a acontecer, ouviu os cidadãos, e, no sábado, calculo que o efeito, com o peso mediático que traz consigo, vai acabar por ser ainda maior:

uma oportunidade excelente de mostrar afeto pela mais discriminada e pobre comunidade de cidadãos portugueses e de ajudar a mudar isso.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Procurem por Bairro Social da Avenida Cidade de Hayward e depois logo me dizem se os ciganos merecem uma casa. Isto não é racismo, eles não conseguem viver em sociedade como gente normal.

    • eu acho que você que deveria se informar mais pois isso é claramente racismo pois você não tem amor ao próximo e eles não são animais, são pessoas como eu e não como você que é ignorante

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