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O sistema de ensino pelos olhos de um aluno

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Um bom sistema educativo, cujo objetivo último seja a formação transversal do indivíduo com ferramentas que lhe permitam, na idade adulta, exercer com plena capacidade e consciência o papel ativo de parte integrante da sociedade na qual se insere, é o grande desafio dos dias que correm. Apesar desta afirmação parecer um facto óbvio, a verdade é que neste momento o sistema educativo em Portugal não está direcionado desta forma.

E quando digo que o sistema de ensino em Portugal não está direcionado para a formação transversal do individuo enquanto cidadão, quero eu dizer que ele está neste momento focado na avaliação e na transmissão massiva de conhecimentos.

Em primeiro lugar, refiro-me aos extensos conteúdos programáticos característicos de algumas disciplinas. Estes aniquilam a possibilidade de refletir e opinar sobre os mesmos, de testemunhar a sua aplicação prática e, acima de tudo, de os reter após os momentos de avaliação. Com isto, a aquisição de ferramentas essenciais para a compreensão do que nos rodeia dá lugar à memorização massiva de conteúdos. Cada professor é único e a falta de tempo de sobra não permite que cada um desenvolva essas competências com a sua turma, tornando o sistema educativo mecânico e formatado. E assim se perde a humanidade e a personalidade, tão bela que caracteriza a transmissão bilateral de aprendizagens, entre alguém que tem uma experiência de vida e um saber de conhecimentos e alguém que inicia o seu caminho de descoberta. Sempre que falo sobre isto, lembro-me da minha professora de português do ensino básico, que tanto se primou por nos transmitir valores de cidadania, de nos permitirmos desfrutar de um livro ou transbordar tudo o que sentimos num papel, de trazermos o que nós somos e a reflexão sobre os problemas concretos do mundo para a escola. E, na verdade, hoje não lhe posso dar mais razão, pois esta é a grande memória que levo comigo do ensino básico para a vida.

Por outro lado, temos a constante presença do fator avaliação. E não me refiro apenas à influência numérica e matemática da avaliação, mas principalmente à sua influência emocional e normativa. Tanto os pais como os alunos formataram de tal forma o Ensino para a avaliação que a forma de se abordar o tema tem sempre como base o resultado das avaliações. A pergunta “O que aprendeste hoje?”, dá lugar a “Que nota tiveste hoje?”, por exemplo. E os próprios alunos fomentam esta tendência, perguntando ao professor, caso o que foi dito seja para avaliar há que memorizar para debitar no teste, caso contrário é um dado a eliminar. Muitas vezes vi estas atitudes ao longo do meu percurso escolar. Felizmente, há sempre exceções e excelentes bons casos que provam o contrário. Ainda assim, se nada fizermos, estas atitudes tenderão a aumentar. É neste contexto que somos, assim, desafiados a devolver o gosto de aprender pelo simples gosto de aceder ao conhecimento e usá-lo como ferramenta prática do nosso quotidiano aos alunos.

Apesar destas convicções, defendo que estas ideias devam ser discutidas. Pois, é certo que para culminarem numa melhoria do nosso sistema de ensino, deverão traduzir-se em medidas práticas e concretas. E para isso é necessário envolver várias pessoas, principalmente os professores e os alunos, pois são eles os principais agentes de todo o sistema. Eles, melhor do que ninguém, saberão refletir sobre estas questões e contribuir com ideias para a implementação de medidas que visem devolver ao ensino a sua genuinidade.

Cláudio Ferreira

In Jornal de Matosinhos “Sistema de Ensino”

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom texto. Existe uma página no Facebook chamada Questionar A Escola que é muito boa e tem o mesmo tipo de visão.

  2. Resposta de um penetra, há 26 anos atrás já era assim! Não é novidade para ninguém que é cada vez maior o fosso entre os vão para «medicina» e os que vão para «calceteiros mecânicos»: àqueles só lhes interessa as médias para entrar a todo o custo, aos últimos, apenas lhes importa tirar o 9.º ano, comer umas ai se puderem, viajar de autocarro até casinha, fumar uma ganzas no intervalo entre as aulas e até gozar com os professores ao máximo que puderem sem os matar!

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