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O Que É Esmagado, Que Se Levante!

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O ano lectivo inicia-se com um sinal distintivo: o Ministério da Educação aprovou cerca de 50 projectos de inovação apresentados por agrupamentos de escolas ao abrigo da Portaria 181/2019, que lhes confere a possibilidade de ampliarem a celebrada flexibilidade curricular para além dos 25% já previstos para todas as escolas. Segundo o jornal I, em Santo Tirso os alunos vão escolher as matérias e quando querem ser avaliados, em Cascais adoptaram a “Pedagogia do Amor”, algures em Braga vão desenvolver as “oito inteligências da criança” e em Torres Vedras andar de bicicleta passou a integrar o currículo. Digam-me se não é motivo para vermos António Costa aos saltinhos, num qualquer palco de comício eleitoral próximo!

Aquando da publicação da portaria supra referida, mobilizaram-se escolas, directores e professores para a cruzada da elaboração de Projetos-Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), que promovessem a reorganização curricular e redefinissem o calendário lectivo e os momentos de avaliação. Apesar disso, temos apenas 50 (6%) de um total de 813 agrupamentos, com iniciativas aprovadas, o que torna legítimo admitir a existência de um fosso entre o que entendem as escolas e o que queria o ministério. Com efeito, João Costa teve desde sempre um problema existencial de conflito ente a ideologia impositiva que o norteia e as recomendações do marketing político que o assessora. Ou seja, pôr as escolas e os seus directores a fazerem o que ele quer, mantendo nas homilias públicas a abertura caridosa e conciliar do prior do “eduquês” novo. A quadratura deste círculo terá sido conseguida pelo destino dado aos projectos que lhe chegaram: aprovados os que lhe adivinharam os desejos, recusados todos os outros; recompensados os prosélitos, penalizados os que se protegeram da babilónia do esvaziamento curricular. Viva a autonomia domesticadora de quem recita o credo!

No desenvolvimento da matéria que chamou à primeira página sob as epígrafes a que me referi, o jornal I aludia a “escolas que estão a revolucionar o ensino”. Sabendo que a promoção do sucesso a qualquer título foi o factor dominante da aprovação ou rejeição dos projectos experimentais de inovação, que irá acontecer no fim do ano? Teremos 94% de escolas “fracassadas” e 6% cintilando êxitos? Não, não teremos. Outrossim, repetir-se-ão resultados ditados pelas variáveis de sempre, as mais marcantes de natureza socioeconómica e exteriores à escola. Quanto ao que a escola pode fazer, não são “revoluções” miraculosas mas políticas adequadas que importam: que limpem o sistema de burocracias impensáveis, pela estupidez e inutilidade que significam; que removam o lixo normativo e substituam formulações prolixas por linguagem simples; que tornem coerentes e praticáveis os planos de estudo e os programas disciplinares, para termos currículos adequados; que dignifiquem e humanizem a profissão docente; que estabilizem a vida pessoal e familiar dos professores; que removam os obstáculos às aprendizagens dos alunos, com meios e materiais suficientes; que resolvam a indisciplina nas escolas.

Em Pedagogia está tudo descoberto, dito e escrito. Seria de bom senso substituirmos o vocábulo inovar por alterar. Não inovamos coisa nenhuma. Alteramos. A denominada flexibilidade curricular, construída a partir de uma absurda ideologia igualitarista, promissora de uma escola sem paredes, sem portas, sem turmas, sem aulas, sem horários, sem relógios, sem campainhas, sem testes, sem reprovações, onde os alunos aprendem brincando e a felicidade jorra dos bebedouros públicos, vem transformando o sistema de ensino numa coisa desconexa onde, a breve trecho, ninguém se entenderá. Responda-se com honestidade: pode o professor da nossa escola de massas praticar o ensino individualizado para que tendem as pedagogias construtivistas? Não, não pode!

O sistema de ensino tem demasiados actores vítimas de “normose”. A “normose” oblitera a vontade própria na medida em que se caracteriza pela imposição aos indivíduos de um conjunto de normas, conceitos, estereótipos e modos de pensar que os leva a adaptarem-se a um contexto, sem o questionar. Um “normótico” age esmagado por aquilo que lhe impõem, dispensando a análise racional e desistindo do contraditório. Que desejar-lhes? O que recomendou Bertolt Brecht: que se levantem!

In “Público” de 18.9.19


 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Texto cirúrgico como sempre. Mas é preciso compreender a cultura escolar do momento. Os professores já enfrentaram sucessivas vagas de violência vindas de todos os lados. Já acreditaram demasiadas vezes, já viram desvanecer a sua crença demasiadas vezes. Hoje já só se levantam para obedecer. Os novos são espalha-sorrisos multidirecionais mal colocam os pés na escola, ninguém os ouve dizer esta boca é minha, superdisponíveis, prontos a antecipar qualquer ordem ou sugestão. Dependentes de vagas e de horários. Avaliados todos os anos, toda a gente compreende. Os mais velhos, atentos a qualquer notícia-esperança de reforma antecipada, conscientes que a solução está apenas em fugir do pesadelo. Os do meio praticam o Mito de Sísifo à espera de Godot. Existem ainda os que medram por conta do Mito de Sísifo, especular sobre as suas razões levaria muito longe. Em qualquer dos casos, quem não está bem põe-se. Porta da rua é serventia da casa. Como o país é pródigo em oportunidades, isso explica tudo. Já houve em tempos, em diferentes momentos históricos, quem nos mandou emigrar, como solução governativa.
    Convém salientar também que o grupo dos docentes é muito diversificado na sua formação, daí não ter o mesmo espírito de corpo que os enfermeiros, os médicos ou outros grupos profissionais. Portanto: que fazer quando a casa arde?

  2. Sou diretora de um Agrupamento com projeto de inovação.
    Acho impressionante todos dizerem que a nossa escola está desatualizada, desajustada da realidade, demasiado dependente da tutela, mas quando é dada autonomia para mudar, as críticas são essencialmente negativas!

    • Que “autonomia para mudar”é que é dada quando uma escola elabora um projecto de inovação construído de acordo com as necessidades de mudança sentidas pela comunidade educativa, aprovado pela Direcção, Conselho Pedagógico e Conselho Geral, apresenta-o ao ministério, recebe parecer negativo dos burocratas ministeriais e o SE Costa despacha secamente o “não autorizo”?

      Autonomia para mudar ou apenas uma nova e mais requintada forma de centralismo, em que já não se dão ordens às escolas, mas se tenta forçar os seus dirigentes a adivinhar e a fazer cumprir os desejos dos governantes?

  3. Srª Directora quem diz que a nossa escola está desactualizada? Os sábios, não é? Os senhores da OCDE como o senhor secretário de Estado da Educação? Projectos de Inovação? Com autonomia? Só há autonomia se falarmos a linguagem do Eduquês em triunfo no actual Ministério da Educação, todos as outras propostas são chumbadas!!! Mas inovação é o quê?? Umas ideias requentadas de construtivismo? Uma pinceladas do Dewey?Ideias com mais de um século são inovadoras? Por amor da santa… Ainda há pouco tempo andavam todos loucos com os rankings e, num estalar de eddos viraram todos Josés Pachecos???Umas homilias de alguns académicos de trazer por casa? A inovação é um jargão para baixar a qualidade das aprendizagens… essa ideia varre todos os países da OCDE: dar ênfase à formação de trabalhadores pouco qualificados que aceitem, com flexibilidade, a incerteza no emprego e na vida! Depois uma elite , ligada à tecnologia e que controla os meios de produção! Tudo o resto é uma treta para enganar papalvos! E volto a frisar : não há autonomia coisa nenhuma , senão as escolas que não querem aplicar o 54 não o aplicavam, porque há muita boa gente , gente bem letrada, que considera essa legislação uma afronta a um ensino exigente e de qualidade…
    Por fim, o mais importante, para haver autonomia, verdadeira autonomia, os senhores directores teriam de ser eleitos num escrutínio directo , e não num simulacro manipulado de democracia… Mas esta última parte é que não interessa mesmo nada à autonomia, ao MEC, aos senhores directores…

  4. Não há autonomia para mudar fora do enquadramento imposto pelo ME, ou seja, só há autonomia se as alterações forem no sentido da flexibilidade curricular (mais eduquês, mais avaliação subjetiva, igualitarismo forçado, mais burocracia) desenhada pelos governantes, o mesmo é dizer que “têm autonomia para fazer o que queremos que façam”, por isso a crítica daqueles que gostariam de ter autonomia, mas da verdadeira, daquela que os professores já tiveram, até mesmo no Estado Novo, e que foi desaparecendo das escolas à medida que se foi avançando na consolidação democrática. Hoje o professor é um funcionário proletarizado, cuja ação é absolutamente controlada por um processo burocrático kafkiano imposto de cima para baixo. E esta, ein?

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