Início Editorial O problema da avaliação de professores é que não é honesta

O problema da avaliação de professores é que não é honesta

1706
8
COMPARTILHE

Depois do compromisso não cumprido por parte do Ministério da Educação (ME), em que prometeu recuperar todo o tempo de serviço congelado, podia o Governo ter aproveitado esse momento para propor alterações à carreira e à avaliação docente. Do ponto de vista do Governo seria o momento ideal, mas o crivo de Mário Centeno obrigou a uma inversão de discurso por parte do ME, pois só isso justifica o negar de algo que ficou escrito.

Tenta-se agora colar o argumento da carreira/avaliação para tentar desviar atenções da avalanche que caiu em cima do PS, fruto de uma péssima política de comunicação do ME que, só por si, justifica os meses de silêncio que impõe a si próprio.

Mas vamos falar sobre o assunto sem tabus e sem rodeios.

A avaliação dos professores é justa? A avaliação dos professores valoriza os melhores? A avaliação dos professores permite melhorar o desempenho docente? A avaliação dos professores permite afastar os maus professores? A carreira dos professores está bem estruturada? Não, não, não e não.

Convém recordar que, os sindicatos e Nuno Crato alteraram a avaliação dos professores, substituindo-a, na maioria dos casos, por um documento de três páginas, ridículo, que não passa de um momento de auto bajulação, muitas vezes em formato copy/paste, onde se muda a distribuição de serviço e pouco mais. Muitos gritaram “vitória”, era o fim dos professores titulares que avaliavam professores, colegas, sem serem reconhecidos como tal. Se a falta de preparação/isenção era um motivo relevante, o principal motivo e que até hoje persiste é a utilização da avaliação dos professores montada para ser um obstáculo à progressão na carreira. A avaliação dos professores, aos olhos de quem nos governa, é isso mesmo, um funil. E avaliar é muito mais do que isso… palavra de professor.

Além disso, tem sido utilizado o argumento que os professores progridem de quatro em quatro anos, ao contrário dos restantes funcionários públicos que progridem de dez em dez. Se querem equiparar e tendo em conta que os professores têm na sua carreira dez escalões, estes demorariam 100 anos a atingir o topo da carreira, já não contando com o congelamento de dez anos e as quotas do costume.

Querem mexer na carreira, força! Mas lembrem-se que estudos internacionais indicam que os professores portugueses são dos mais mal pagos em início de carreira e só no topo estão ao nível dos restantes países ou um pouco acima. A ideia de reformular a carreira docente é para nivelar por baixo, por cima, é para quê? Eu e o leitor sabemos naturalmente a resposta…

A recuperação de todo o tempo de serviço docente está a criar um problema efetivo ao Governo mas, brevemente, podemos estar perante um terramoto político. Porquê? Está a decorrer uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) que vai obrigar os partidos a demonstrar a sua coerência já que, há alguns meses apenas, recomendaram ao Governo, deputados do PS incluídos, a recuperação de todo o tempo de serviço dos docentes portugueses. Ao mesmo tempo, decorre uma greve rebelde, que fugiu ao controlo das principais estruturas sindicais e que, com tudo somado, vai seguramente perturbar o “aquecimento” para o próximo Orçamento do Estado, o último antes das eleições legislativas…

É verdade que existem alguns professores que não o deviam ser, mas também é verdade que existem muitos extremamente competentes e dedicados. Não se motiva ninguém, dizendo a 20 que só um pode progredir, e lembro, ao contrário das outras profissões, os professores desempenham as mesmas funções, logo a lógica do funil, pirâmide, chamem-lhe o que quiserem, não funciona com os professores.

Reconhecer a competência de quem avalia os professores é também um problema. Não pode ser o colega da sala dos professores, não pode ser o colega que vai lá a casa e que os filhos partilham brincadeiras. Uma avaliação justa implica uma independência emocional. Por isso proponho que seja criada uma carreira específica e que já devia estar a ser preparada. Caso não seja essa a opção, o caminho só pode ser a utilização dos professores mais experientes (a partir dos 60 anos), que até podem deixar de lecionar se assim entenderem e dedicarem-se ao acompanhamento de professores mais novos, utilizando a sua longa experiência como um farol para quem ainda tem muitos anos pela frente.

Não existem decisões fáceis, mas a carreira e avaliação dos professores deve ser encarada de frente, com honestidade e com o objetivo de valorizar o profissional professor e melhorar o seu desempenho. Claro que tudo isto é muito bonito, e também eu tenho momentos em que salto de nuvem em nuvem tocando uma harpa celestial, levando depois uma chapada da realidade, onde a dívida, e outros condicionalismos, empurram o que deve ser para o que tem de ser. Só que no meu mundo ideal, todos os intervenientes deste processo são verdadeiros, os professores assumem que a avaliação precisa de ser melhorada e até trabalham com a tutela. O ME, por sua vez, assume que não pode pagar a todos uma carreira até ao 10.º escalão, pois existem interesses financeiros que precisam de ser protegidos – a banca, as PPP, as fundações, as comissões, os juros da dívida, os amigos, os amigos dos amigos… –, mas, no meu mundo perfeito, o nosso dinheiro é bem gerido e não chegámos ao ponto que chegámos…

Agora, é vê-los no “seu mundo perfeito”, esgrimindo argumentos da/na sua realidade alternativa, onde os reais propósitos ficam por dizer e a realidade que todos conhecemos fica longe das negociações, esquecida e sem ser assumida…

A perfeita imperfeição dos seus mundos (im)perfeitos.

Alexandre Henriques

In Público 11-6-2018

COMPARTILHE

8 COMENTÁRIOS

  1. Eu gostaria muito de ver os docentes mais experientes no Apoio aos Docentes menos experientes. Em vez disso vemos o nosso sistema a “ordenar” que os Docentes de Carreira não fiquem no Apoio Educativo.
    Se houvesse uma discussão sem demagogia seria perfeito. Vamos colocar os docentes dos sindicatos a dar real Apoio à Escolas, quiseram acabar com as Delegações Escolares e com os CAEs? Acabaram com as Duplas Pedagógicas a EVT? E agora? Vamos tentar realmente melhorar o Ensino?

  2. “É verdade que existem alguns professores que não o deviam ser, …”

    Quem diz isto deveria dizer o mesmo de TODAS as profissões. Ou não? Logo nunca pode ser argumento para coisa alguma.

  3. Nenhum sistema de avaliação é perfeito e tende a complexificar-se quando não se tem um produto final entenda-se bem material. Avaliar professores não é o mesmo que avaliar a capacidade produtiva de um qualquer outro profissional como por exemplo a quantidade de porcas e parafusos produzidos por hora, semana mês ou ano. O atual sistema de avaliação de desempenho longe de ser perfeito é o que temos e deve, antes de ser criticado negativamente ser aplicado em período normal de descongelamento e ser acompanhada a sua aplicação na tentativa de o melhorar de forma a adequar-se aos objetivos de melhoria das práticas e competências de cada um e de todos… Nao vejo com bom olhos a crítica pela crítica com argumentos falaciosos porque não verificados nem verificáveis. Assusta-me que outros, universidades politécnicos e IGE, possam integrar funções avaliativas dos docentes do ensino não superior, faz tempo por estes pretendidas. Se estamos mal pior ficaremos, assim julgo.

  4. É um problema global! Do sistema, das famílias, da liderança, da motivação, dos interesses político-partidários enfim… é um problema do “caraças”

  5. Encontrar uma forma justa, exequível, universal e consensual para avaliar os professores pode ser encontrar a quadratura do círculo.
    O atual sistema de avaliação de professores é miserável, reúne todas as condições para alimentar o compadrio e o amiguismo. É apenas defendido por quem se abriga sob a proteção da sua mediocridade e sob ele respira fundo.
    Sabemos que cada escola é um ecossistema e toda generalização é redutora, mas mesmo assim, o monumento à degradação humana que é a atual avaliação de professores é indefensável, este instrumento permite que os professores sejam avaliados sem objetividade, sem transparência e sem independência. Os mecanismos de controlo efetivo não existem. Se um professor reclamar da sua avaliação, o processo é kafkiano, só existem consequências da reclamação se existir erro formal, se o erro for de conteúdo, o juiz em tribunal dirá que não pode pronunciar-se porque não domina o assunto. Isto no fim da linha, porque pelo caminho ficam um sem fim de simulações de garantia de isenção e imparcialidade aviltantes. Sem considerar que sempre que um professor põe em causa a hierarquia, é uma situação de David contra Golias. O professor recorre da decisão com o seu advogado do sindicato contra o exército de advogados do Ministério da Educação que, à partida, irá espaldar as posições da hierarquia contra o professor que ousou questionar a decisão da hierarquia. Custe o que custar, com razão ou sem ela, a hierarquia nunca pode perder a face, a harmonia não pode ser quebrada, o rei não pode ir nú. Perante esta situação, infere-se que o melhor que um professor tem a fazer, é andar quieto e calado dentro das escolas, distribuindo sorrisos e solicitudes a torto e a direito, ignorando tudo o que vê de errado, porque se não o fizer, o sino tocará a rebate contra ele e o professor ficará exposto pela sua avaliação de desempenho. Os alinhados rejubilam, basta-lhes distribuir 20 valores como pão quente, organizar um karaoke, um festim de bifanas com os alunos, para ser popular, e já têm garantida uma avaliação melhor do que a de um professor que se atualiza, que se cultiva e domina com propriedade os seus dossiers. Suponho que situações semelhantes acontecerão com outras carreiras profissionais, mas não se diga que é fácil passar de escalão na carreira dos professores, é fácil para alguns.
    O problema é complexo, sensível e difícil de resolver, pois não existe um protótipo de professor, um deus do Olimpo que todos os professores possam ter como referência e se esforcem por seguir. Existem diferentes modelos de maus professores, não existe apenas um, tal como existem diferentes modelos de bons professores e não apenas um, isto varia também de disciplina para disciplina e até de matérias para matérias. O professor ideal para dar esta matéria seria o professor X, mas para dar a outra matéria, melhor seria o professor Y. Também cada um de nós tem o seu modelo particular de um bom professor, por vezes aquele professor que nos marcou mais, que foi mais significativo.
    Muitos modelos de avaliação de professores já foram aventados, mas todos eles são perigosos, pois correm o risco de deitar fora a água com o bebé junto. Imaginem que agora resolvíamos escolher o melhor artista do mundo em absoluto, como comparar Modigliani com Van Gogh, com que critérios? absurdo. Como comparar uma referência na arquitetura com uma referência do Jazz? e decidir qual é o melhor em absoluto? absurdo. Quando se colocou a questão da avaliação por exames, reparei que muitos alunos medíocres conseguiam responder com facilidade às perguntas dos testes para professores, no entanto, não pude deixar de lembrar que alguns dos melhores professores que tive na Faculdade (de nível internacional), sem os quais não teria valido a pena ter tirado o meu curso superior, seriam incapazes de responder corretamente a algumas das questões que vinham nesses testes. Pois, porque quem elaborou os testes para professores, esqueceu-se de que existe uma Teoria das inteligências Múltiplas, esqueceu-se de que existem génios em determinadas áreas, sem grande talento noutras áreas, e nós precisamos dos grandes talentos e não dos que respondem medianamente a testes medianos. Por isso, concordo consigo Alexandre em quase tudo, exceto em que deveriam ser os professores em fim de carreira a avaliar os mais jovens. O Alexandre concordaria com a ideia de ver maus alunos do 12º ano de escolaridade a avaliar bons alunos do 10º ano de escolaridade? Havia de ser bonito. E já agora discutirmos a partir das nossas experiências, o que é um bom ou um mau professor, também havia de ser bonito, é que, segundo algumas Teorias da Estética, os gostos dizem mais acerca do sujeito (aquele que gosta) do que do objeto (aquilo que é gostado), e para muita gente a música “pimba” é a melhor do mundo. Já dizia Fernando Pessoa:”Nós nunca gostamos dos outros, gostamos é daquilo que eles têm de nós ou daquilo que nós gostaríamos de ter”

    • sumariando:
      – a ADD é opaca e permeável a tráfico de influências
      – critérios da ADD subjetivos e permeáveis ao humor do(a) avaliador(a)
      – ausência de garantia de recurso da ADD
      – possível represália se acionar direito de recurso da ADD
      – atitude de submissão e bajulação pode garantir melhor classificação na ADD
      – o desempenho docente não é mensurável como se mede um objeto no controlo de qualidade
      – o qualificativo ‘bom’ ou ‘mau’ professor é dependente de critérios pessoais do observador e não de análise objetiva

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here