Início Escola “O mais importante num professor é a relação com os alunos”

“O mais importante num professor é a relação com os alunos”

6597
6
COMPARTILHE

Voltando um pouco à pedagogia…

Ninguém aprende de quem não se gosta! Podem colocar o melhor professor do mundo a nível académico, que se este não for capaz de estabelecer uma relação de empatia com os seus alunos, mais vale substituírem-no pelo Dr. Google…

As relações interpessoais, a inteligência emocional, são ferramentas determinantes para o sucesso profissional e neste caso educativo, deve por isso, a escola, formar os seus alunos abrangendo todos os campos da formação cognitiva e social, esquecendo “balizas” que restringem o ensino a uma pilha de conteúdos escarrapachados num livro qualquer.


O mais importante num professor é a relação com os alunos

De que professores se lembram? Que professores deixaram uma marca? Eu lembro-me dos professores que se lembravam de mim. Eu lembro-me da professora Margarida. A professora Margarida deixou uma marca.

A professora Margarida foi a nossa professora de Matemática do 7.º ao 9.º ano, três anos por inteiro, e se nunca fui um ás a Matemática (não sou, a minha mãe é professora de matemática e em casa de ferreiro…), passei a ver a Matemática como um desafio onde quem tivesse a nota mais alta do teste recebia um chocolate da professora, estando outro chocolate reservado para quem resolvesse o problema-mistério no fim de cada prova.

Se me perguntarem que imagem tenho da professora Margarida, vem-me logo à memória o seu sorriso, grande, aberto, feliz, um sorriso que ria com os olhos apenas por rir, um sorriso de quem está em paz com o mundo, sem expectativas, numa alegria simples de viver.

E talvez tenha sido isso, o sorriso, a conquistar-nos logo de início, ainda no 7.º ano, verdes e ao vento, ainda receosos do chão pisado agora na escola secundária. A professora Margarida acolheu-nos, e nós encolhemo-nos no seu regaço, no seu cuidado. E o tempo, a professora Margarida tinha sempre tempo, tinha a porta sempre aberta e a vontade e o carinho, escutando os nossos anseios, confortando-nos e dando conselhos, de igual modo ajudando os que, por medo ou inocência, não sabiam pedir ajuda.

Em cada Natal e no fim do ano, a professora Margarida escrevia um cartão para cada um dos seus alunos, ainda guardo os meus, principalmente o do 8.º ano, quando os meus pais se separaram e as suas palavras disseram tudo. Não sei onde está a professora Margarida. Já não está na escola, a última vez que a vi passou por mim a sorrir na Faculdade de Ciências, por acaso e de repente, e entretanto já passaram 20 anos.

No final do 9.º ano despedimo-nos da professora Margarida, ainda em choque, incrédulos, dependentes e, outra vez, receosos dos nossos passos, prestes a entrar para o 10.º ano onde cada um seguiria a sua estrada, uns para Desporto, eu para Ciências mais meia dúzia de colegas, outros para Humanidades. Acho que não nos despedimos como deveria ser, não nos queríamos despedir, eu não queria, e a euforia do fim do ano e das férias esbarrou na tristeza de uma turma inteira.

Nunca mais nos esquecemos de si. E aqui ficou o verdadeiro legado da professora, da nossa professora, a relação, a marca, a saudade que nos faz voltar, que nos torna melhores, a querer vencer e andar em frente, todos os dias, porque um dia recebemos amor e hoje queremos dar de volta todo o amor, mas a dobrar.

Gostava de lhe poder agradecer, por tudo, pela ajuda, pelo tempo, as conversas, as palavras amigas, o apoio sempre que precisámos, pela amizade.

Ah, e graças à Matemática, desenvolvi uma memória para números e uma capacidade de análise estatística preponderantes no emprego que hoje tenho. Não, nunca fui um ás a Matemática, mas agora sei para que é que serve.

João André Costa

In Público, 2 de julho de 2018

COMPARTILHE

6 COMENTÁRIOS

  1. É poético… mas não é verdade! Tive velhos e vetustos mestres, sapientes nos calhamaços do Latim e do Grego que eram tudo menos amoráveis, não saltavam para cima de cadeiras; austeros; não guinchavam Yeats , extasiados. Lembro, com particular reverência, um velho reverendo, trasmontano, pequeno e sanguíneo, que nunca deixou de ser lavrador no seu íntimo, que nunca nos olhava de frente, que achava o mundo uma estrada de pecados; que nos avisava das mulheres da rua; que nos falava na reta moral; que nos tratava com um pouco desdém, pela frivolidade adolescente … nas suas mãos o ”Ab Urbe Condita” … os seus olhos, embalados pelo espírito, pela sua inteligência viva, desligavam-se do código das letras e ele continuava a declamar o historiador de Roma pelos trilhos límpidos da sua memória… O meu saudoso Mestre…

  2. Depende das circunstâncias de cada um de nós, de como aprendemos e de que estímulos necessitamos para aprender e para ensinar.

    Eu nunca reagiria bem a um professor
    – que “não me olhasse de frente”,
    – que fosse “austero”(?!),
    – que achasse ” o mundo uma estrada de pecados”,
    – que nos “avisava das mulheres da rua” (e porque não dos homens?)
    – que nos falava na reta “moral” (a dele)
    – que nos tratava com “um pouco desdém”, pela frivolidade adolescente.

    Entre o professor do “Clube dos Poetas Mortos” e este retrato retirado dos anos 50 num país atrasado e analfabeto, há uma imensidade de abordagens neste complexo mundo do ensino e da aprendizagem.

    Como dizia o professor e escritor Rómulo de Carvalho (a.k.a. António Gedeão), o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de 1 criança.

    E eis o caso de 1 professor de FQ no antigo liceu Pedro Nunes ainda no tempo do Estado Novo que conseguia fazer a diferença pelo modo como explicava o que sabia e pelo modo como conseguia criar um ambiente de aprendizagem, de autoridade e de respeito mútuos.

  3. Nasci bem depois dos anos 70, estudei no Porto … e prefiro rurais analfabetos, porém sábios, do que filmes melosos e de lágrima fácil!
    Aprecio, de sobremaneira, o professor Rómulo de Carvalho.
    Quanto ao resto Ana é livre de achar o que quer e eu fazer do mesmo modo… Não reconheço, nem a si nem a ninguém, quais são os valores pelos quais me guio… Cumprimentos.

  4. Obrigada pela resposta.

    Mais uma vez concordamos em discordar, o que considero bom.

    -Prefiro “rurais” alfabetizados e sábios.

  5. Recordamos professores pelas melhores e pelas piores razões, nasci na década de 60, a primária foi traumatizante, aterrorizadora mesmo, nunca irei esquecer aquela maneira de ensinar da professora Cremilde, que pena na época não haver maneira de filmar as cenas de terror que se passaram naquela sala de aulas. Estou completamente de acordo que, quanto maior for a empatia entre professor e alunos, maior será o sucesso desses alunos, sem que para isso haja desrespeito de ambas as partes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here