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A “celência” …. o bom senso ou porque é que andar na escola não é uma corrida por uma camisola amarela….

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O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm. (René Descartes)

Há um texto fascinante de Lindley Cintra sobre o tratamento de Excelência na língua portuguesa que me vem sempre à memória, quando ouço falar de escolas excelentes e resultados excelentes.

Isso por causa da observação, que nele se faz, sobre os maus efeitos sociais do uso exagerado da palavra excelência e da obsessão com ela nas relações sociais portuguesas nos anos à volta do período da Expansão.

Da minha leitura, ficou-me a ideia de que, preocupados com serem “Excelências” e com a aparência disso, os portugueses perderam o pé na atividade económica e na construção de uma sociedade mais aberta. José Cardoso Pires faz eco desta impressão ao crismar um certo livro de “Dinossauro Excelentíssimo”.

Às tantas, o uso recorrente da ideia de excelência nas discussões sobre as escolas é herdeiro desta emoção ligada à palavra. Há estudos sérios e científicos sobre o tema dos resultados excelentes mas, no uso vulgar das palavras, mormente no debate político, a coisa acaba por ser um recurso banal, quase como os mágicos das fábulas que dizem “hocus pocus” ou “abracadabra” e fazem aparecer uma realidade nova, desaparecendo a necessidade de ser racional.

Vem tudo isto a propósito de declarações, no decorrer da amarela manifestação, em que um anónimo entrevistado dizia “que as escolas com contrato de associação são a minoria excelente do nosso sistema de ensino”. A frase pode ter sido dita no contexto de excitação que uma manifestação, como ajuntamento, sempre provoca (lembrei-me logo, das minhas aulas de rudimentos de sociologia, de uns estudos quantitativos sobre o efeito na natalidade 9 meses depois de uma manifestação).

Uma manifestação é uma festa e uma emoção e, por isso, é normal que se tresleia.

Sou muito chato em discussões em que se caia na argumentação politiqueira sobre a excelência de escolas e de resultados de alunos. Se estiver bem disposto, a conversa começa com uma pergunta sobre a vivência pessoal da dita excelência pelo interlocutor.

Eu falo da minha e a conversa entorta logo. Isto porque tenho uma teoria inventada por mim, por razões que eu cá sei, de que a profusão exagerada da palavra excelência e de objetivos de excelência é, na verdade, em muitas bocas, a sublimação de uma frustração pessoal sobre os próprios resultados.

Do que conheço, alunos com resultados escolares acima da média (coisas na casa dos 18 e 19 ou mais), ao falar disso (em adultos, e depois da excitação e da “vaidadezinha” mais imediata de os terem), não valorizam da escola esses resultados numéricos mas outras coisas (às vezes, algumas que não tiveram tanto por causa de andarem na “busca da excelência”, dando peso sempre ao efetivo conhecimento e às experiências reais obtidas, que não se subsumem na nota).

E já vi muitos a fazer o juízo comparativo, balanceado sobre si próprios, entre o que seja um “aluno excelente” e uma “excelente pessoa”. Em muitas conversas, em número que não se deve desprezar, mas a que a generalidade dos pais liga pouco, encontro até tristeza e sofrimento mas, isso, são contas de outro rosário.

O jogo da glória… digo, da excelência

Mas, quando estou um pouquinho mal disposto e calha de me falarem de “excelências”, abandono a tolerante visão psicanalítica e levo, por desfastio, a coisa a sério. Suspendo as minhas dúvidas sobre o que valem realmente os resultados escolares para  medir a qualidade da educação de pessoas que as escolas devem formar e aceito jogar o jogo.

Para o jogarem comigo proponho um exercício. O Ministério da educação mantém um site  em que publica as estatísticas de resultados das escolas para períodos relativamente longos (oficiais, em que se baseiam os oficiosos rankings).

É possível, para cada escola, ficar a saber quantos alunos estão inscritos, em que cursos, a sua distribuição por idade, a taxa de retenção ou desistência dos alunos da escola e a relação dos resultados com o contexto socio-económico (análise que, azar muito oportuno, não tem dados disponíveis para as escolas privadas…).

Perante as afirmações de excelência, decidi ver os dados mais significativos desse site, na comparação, que me é pessoalmente próxima, entre o meu agrupamento (público) e a escola privada de contrato de associação que convive no mesmo concelho. (Para ver as imagens deste texto ao pormenor devem usar o rato e carregar nelas)

A conclusão imediata é que podem ser esgrimidos todos os argumentos, até os mais despudoradamente disparatados, sob a capa do alegado bom senso (vide Descartes acima) e propalado o bairrismo mais bacoco mas os números dão indícios estranhos.

O exercício merecia ser repetido para as restantes escolas nesta situação.

E gostava de ver gente de amarelo vestida a pensar e falar destas coisas e com uma atitude menos dogmática e clubística.

Nas imagens abaixo estão os dados (recolhidos a 31 de Maio do site) do site e anexo aqui os pdfs completos de cada escola  Ancorensis (Dados Infoescola) e Sidónio Pais (dados infoescola).Progressão de notas 9º 12ºDiapositivo1

Excelência será, no conceito de quem tanto fala dela, os alunos terem notas de exame sistematicamente inferiores às notas que a escola lhes dá internamente?

Isto é, as notas obtidas da escola borregarem sempre no exame?

Ou será chegar a recuar (piorar) na tendência de progressão dos alunos entre os exames de 9º e 12º?

É que não podemos querer falar dessa excelência, que tudo tolhe em educação, gabarmo-nos dela e depois fazer de conta que isto que não merece um ai e recusar pelo menos discutir estes dados.

Realmente, no imediato, é atrativo escolher escolas em que as notas que se dão estão sistematicamente desalinhadas para cima com as dos exames. Mas isso é a excelência?

Como qualquer pessoa sensata diria, quereríamos um médico que, quando suspeitamos que estamos doentes, olhando para as análises, nos diz sempre que o nosso estado está a melhorar e a nossa saúde é excelente?

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