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O Ensino Secundário Está Doente e o Vírus Chama-se Exames Nacionais

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Existe uma fratura clara no ensino obrigatório. Se até ao 9º ano de escolaridade, há uma preocupação substancial em apresentar um ensino transversal, que respeite os ritmos dos alunos, que seja flexível e interdisciplinar, no ensino secundário o foco principal é a preparação dos alunos para os exames nacionais.

Alunos, professores, diretores e até pais, todos apresentam um discurso que gira em volta dos exames. Exames para aqui, exames para ali, porque os exames isto, porque os exames aquilo, tudo é determinado a pensar nos exames. Além disso, com o passar dos anos, surgiu um mercado paralelo de explicações que potencia claras discriminações entre alunos/pais ricos e pobres.

Até que ponto a necessidade de certificação e equidade no ensino, não originou um desequilibro com mais males do que benefícios?

Este debate urge ser feito… Deve o ensino secundário preocupar-se mais com os exames nacionais do que com a aprendizagem propriamente dita? Afinal, qual é o papel da escola? Qual é o objetivo de ter um ensino obrigatório até aos 18 anos, onde a partir dos 15 a principal preocupação é o ensino superior? O ensino obrigatório deve servir para preparar alunos para a sociedade ou apenas para o ensino superior???

Algo tem de mudar…

Alexandre Henriques

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O antigo reitor da Universidade do Algarve antevê ainda que no futuro seja possível encontrar um novo modelo para o concurso nacional de acesso. Não será para já. Por isso, insta a instituições a focarem a atenção nas diversificações da oferta para novos públicos.

Este ano houve menos 3146 candidatos ao ensino superior, depois de quatro anos de aumento. Há quem aponte os exames nacionais como causa da descida. Concorda com esta dependência?
Há várias razões por detrás desta baixa. Julgo que a dificuldade do exame de Matemática pode ter contribuído, mas não é a principal. A dificuldade atingir a totalidade dos alunos. E há outros factores: o facto de haver menos alunos no ensino secundário do que em anos anteriores; o facto de ter aumentado o emprego jovem nos últimos meses, sobretudo ligado ao turismo e aos serviços. E também, sabendo que até este momento o concurso nacional de acesso esteve quase só vocacionado para os cursos científico-humanísticos, quando o número de alunos nos cursos profissionais aumenta, o número de jovens que estão na antecâmara do concurso nacional baixa.

Concorda com o actual modelo de acesso ao ensino superior?
A Comissão Nacional de Acesso tem estudado alternativas. É um modelo que está formatado há 20, 30 anos. É um modelo que não tem mecanismos para promover a entrada dos diplomados com cursos profissionais ou com cursos artísticos especializados.

Concorda com o peso que actualmente os exames têm no acesso ao superior, para os alunos que concorrem no concurso nacional?
A legislação prevê que o acesso ao ensino superior possa ser organizado pelas instituições ou baseado nas classificações do ensino secundário. As instituições do superior têm tido alguma comodidade, porque utilizam os resultados do secundário. E o secundário tem contestado – se calhar com razão – porque a certa altura não são valorizados os referenciais do secundário, mas sim a preparação para os exames.

Nós já conseguimos garantir acesso a um número relativamente interessante de jovens sem passar pelo concurso nacional de acesso e, de certa forma, fazendo alguma distinção entre aquele que é o percurso do secundário e o do superior. Mas até agora não há uma solução [para o ensino regular]. Andamos a estudar, porque isso nos preocupa. De certa maneira, actualmente estamos a perverter aquilo que é o percurso no secundário – principalmente nos últimos anos do secundário –, porque há uma preparação excessiva para os exames.

Isto não se passa no ensino profissional, por exemplo. Como não usamos, ainda, os resultados terminais, o percurso não está marcado por esta exigência.

O estudo que coordenou em 2016 a pedido do actual Governo sugeria precisamente a atribuição de maior autonomia às instituições do ensino superior na definição dos critérios para ingresso. A mudança pode passar por aí?
Pode. O problema é que tem que haver uma equidade no conjunto das instituições. Tem que se encontrar critérios exigentes para que não haja taxas de insucesso escolar elevadas ou encontrar mecanismos para colmatar esse insucesso nos primeiros anos dos cursos.

Já há uma data de modelos autonomizados e validados que apelam à responsabilidade das instituições. Os concursos para maiores de 23 anos são um exemplo, cada instituição faz o seu. O mesmo acontece com os TeSP (Cursos Técnicos Superiores Profissionais) e com os estudantes internacionais. Há outros concursos especiais que são remetidos para as instituições. Por isso, na minha opinião, as instituições estão a ganhar níveis de responsabilidade interessantes para podermos no futuro pensar numa situação dessas.

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10 COMENTÁRIOS

  1. Proponho acabar já com todos os exames e fazer uma entrada para as Universidades com um joguinho de chinquilho, digital, claro… Gostaria de saber muito, Alexandre Henriques, o que é isso da ”aprendizagem propriamente dita”…
    Também proponho que os filhos dos fanáticos dos Cursos Profissionais coloquem lá os ditosos rebentos! Não manguem comigo! O pós-modernismo permite tudo… até chamar à mais redonda ignorância de conhecimento! Sinais dos tempos que não auguram nada de bom!

      • Não aguem coma corrupção uma das poucas coisas que ainda não é para os do cartão. Já há ums atalhos,não chega? Porque é que esse fabuloso ensino profissional para os gênios da vocação desenboca em 60/ no ensino superior?

  2. Apanhei esta notícia escandalosa no Diário de Notícias : ”A quase totalidade dos alunos que frequentam desde segunda-feira a licenciatura de Gestão de Informação no Instituto Superior de Estatística e Gestão da Universidade Nova de Lisboa vai receber um prémio de mérito no valor de mil euros neste seu primeiro ano no ensino superior.

    Esta situação é quase inédita no ensino superior em Portugal, não devido ao pagamento deste incentivo – há outras universidades a premiarem os alunos de primeiro ano com notas de acesso acima dos 16 ou 17 valores -, mas pelo facto de serem 54 em 56 os alunos que vão ter direito a essa verba.”
    Ora isto é escandaloso. Porquê? Na minha perspectiva dá uma imagem bué de antiquada à Universidade que, imagine-se, quer nas suas fileiras bons alunos, que queimam duramente a pestana, em vez de serem jovens bué de assim modernos, que sabem montes de coisas fixes e querem ser youtubers e assim bué de cheios de conhecimentos abrangentes e flexíveis. Universidade careta!

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