Início Editorial O Ensino Secundário é alérgico à Flexibilização Curricular?

O Ensino Secundário é alérgico à Flexibilização Curricular?

3959
10
COMPARTILHE

Estamos numa fase onde as escolas estão a fervilhar com a preparação do próximo ano letivo. Com a abertura do Projeto de Autonomia e Flexibilização Curricular (PAFC) a todas as escolas, os diretores e os seus professores, decidem quais os anos que vão “testar” este ensino mais flexível. O Ensino Básico, até para que a reforma comece de baixo para cima, está a ser o alvo preferencial. Porém, esta exclusão do Ensino Secundário não se deve apenas ao começar pelo principio, deve-se sobretudo a outro fator que inclina todo o Ensino Secundário – os exames.

Há pouco tempo participei numa formação de Avaliação de Aprendizagens, e tal como costuma ser hábito nas formações que frequento, costumo sair de lá exatamente como entrei, devo ter azar… Por muito que se tenha falado das vantagens da flexibilização (que existem), com o seu ensino e avaliação mais transversal, todo aquele discurso encravou quando se questionou o formador com a realidade dos exames nacionais.

Podemos adaptar aqui, cortar dali, articular acolá, flexibilizar, etc, mas o aviso está sempre no final do raciocínio.

…cuidado, quem tem exames tem um currículo a que não pode fugir…

Julgo que aqui surge a primeira contradição, se a PAFC é um projeto direcionado para a aprendizagem de conteúdos, inscritos nos programas e filtrado pelas aprendizagens essenciais, por que motivo deve ficar o Ensino Secundário de fora da PAFC? O Ensino Secundário não ensina o currículo?

Ficamos com a sensação que o Ensino Básico é a incubadora e o Ensino Secundário o ensino onde não se pode “brincar”, testar.

A outra suposição, estará relacionada com a rigidez do Ensino Secundário, onde as ditas aprendizagens essenciais não filtraram suficientemente os conteúdos, deixando pouco tempo para flexibilizações e outros que tal. Se pensarmos bem, o Projeto Fénix, o Projeto Escola +, aplica-se sobretudo no Ensino Básico, fruto naturalmente da escassez de turmas de determinadas áreas e que impede o saltitar típico deste tipo de projetos.

Estamos por isso perante dois tipos de ensino e na mesma escolaridade obrigatória. Por isso as perguntas são óbvias, faz sentido aplicar uma reforma durante 9 anos de escolaridade para depois ser ignorada no Ensino Secundário? Faz sentido apresentar todo um discurso, toda uma metodologia, para depois ser rejeitada a partir do 10º ano pois os exames, tal como o eucalipto, seca tudo ao seu redor e verga toda uma escola ao poderio dos rankings nacionais?

Como é hábito, na Educação, tudo é feito à pressa, e não se criam os alicerces para que qualquer reforma, independentemente de quem a implementa, possa vingar e ser devidamente avaliada e aperfeiçoada. Sou da opinião que não faz sentido apresentar um modelo de ensino que não abranja, por diversos motivos, todos os anos de ensino.

Se falarmos com os diretores, poucos são os que vão “arriscar” incluir a PAFC no Ensino Secundário. Seguramente que o fazem com razões fundamentadas, talvez algumas das que acima enunciei.

E só para terminar uma mera constatação da realidade…

Conhecem algum aluno que do 1º ano ao 12º ano, não tenha “sofrido” uma reforma curricular?

Talvez por isso as escolas estejam a avançar nesta PAFC com muitos cuidados e caldos de galinha…

Alexandre Henriques

COMPARTILHE

10 COMENTÁRIOS

  1. A flexibilidade não serve e já desmoronou com a total falta de recursos! É tudo um verbo de encher! Na avaliação dos alunos, com a nova legislação, não tocaram numa linha! Tudo para a sacar no crédito das escolas?

  2. Mais uma ótima reflexão de Alexandre Henriques!
    Obrigada e parabéns.

    Também me revejo nas palavras de Afonso Costa, no seu comentário.

  3. Qual flexibilidade? Os programas são os mesmos, o tipo de trabalho que os professores fazem é o mesmo ou de muito pior qualidade na opinião de quem está já neste regime (de faz de conta). Todos nos sabemos que a escola atual está desatualizada e muitos casos a cair de podre. Todos nós sabemos que para bem do país urge mudar a escola, metodologias, investimentos etc. etc. Mas para pior já basta assim. Esta coisa a que chamam flexibilidade é apenas uma mão cheia de nada como todas as outras onde este governo (e outros a bem da verdade) metem a mão. Por isso eu como professora e mãe só rezo para que estejam quietos, para não estragarem mais.

  4. O mais espantoso é que fazem umas apresentações aos diretores e aparecem colegas desses mesmos diretores, muito modernos, que aderiram durante este ano à bendita flexibilidade. São, segundo o MEC, belos exemplos… Um dessas viçosas experiência conheço… bem como aos colegas que tiveram a ditosa sorte de implantar a ”Modernidade” … E o que consiste a Flexibilidade nessa agrupamentos de ponta? Basicamente em absolutamente nada! Ou melhor fazem-se umas grelhas , umas reuniões palavrosas, uns consultores botam faladura e a charada está montada…
    Esses mesmos diretores que são extraordinariamente modernos , e descobriram agorinha, a denominada Escola Nova, eram os mesmos que há poucos meses trabalhavam furiosamente para o ranking e adoravam o professor Nuno Crato… Os mesmos que, até no 1º Ciclo, queriam espartilhar tudo em disciplinas, especializar a criança desde pequenina, são os mesmos que, mesmo agorinha, se deslumbram com a Escola da Ponte e os Jesuítas da Catalunha! E é isto o que temos… pena é que o próprio MEC pareça querer enganar-se…
    Quando voltar o professor Justino recolhe o baralho, volta a dar, e os ”Fazem Qualquer Coisa Para Agradar ao Poder” voltam a amar o rigor , a excelência e o exame , em geral.

    • Gostei mesmo, Afonso Costa!

      Basicamente, mantenha-se a calma que isto é tudo efémero e do “não há bons ventos para quem não sabe para onde quer ir”

      Essa do fazerem-se umas grelhas…….grrr…..era previsível.

      Muito copy e paste, suponho. Mas que dá trabalho, é um tédio e chateia.

  5. Praticamente, de ano para anos, estragam mais. Não falta muito para chamarem Salazar… não falta muito para os partidos de extrema-direita ressuscitem, tal o caos das mentes dos nossos Ilustres Superiores…

  6. Falta pouco para chamarem Salazar…
    De ano para ano, tudo piora. Um não se admirem de partidos de extrema-direita chegarem ao Parlamento, tendo em conta o caos da s mentes dos nossos Ilutres Superiores.

  7. Estive a ler as AEssenciais para o 10º de Línguas Estrangeiras.

    A sensação com que se fica é que tudo aquilo é a repetição de sei lá quantos programas, metas, quadros europeus para aprendizagem das LE, já para não falar nos antigos objectivos mínimos e máximos e específicos e não específicos…….

    Ai, benzósDeus!

  8. Atenção, no 9.º ano também há exames.

    Por mim, não faço tenção de me incomodar rigorosamente nada com a FC. Se me convocarem, lá arrastarei esta velha carcaça até uma cadeira, onde escutarei pachorrentamente a lábia dos meus colegas eventualmente adeptos da coisa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here