Início Editorial O 1º ciclo devia ter acabado hoje e RENASCER outro em setembro.

O 1º ciclo devia ter acabado hoje e RENASCER outro em setembro.

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Quando me refiro a acabar, não me fico pelo calendário, refiro-me ao sistema em si que precisa de levar uma grande volta. Faço desde já uma salvaguarda no que diz respeito aos professores, apesar de terem responsabilidades em algumas coisas, na maioria dos casos são apenas “aplicadores” de uma ideologia “fabril”.

Depois de já ter terminado o 9º, 11º e 12º ano, hoje é o dia em que terminou a escola para os restantes alunos, ou pelo menos deveria ser assim. Infelizmente, quem frequenta o 1º ciclo e o pré-escolar ainda têm de “torrar” mais uma semana.. (2 semanas no pré-escolar). Sou da opinião que é um erro! Um capricho para agradar a pais que também eles são vítimas de uma sociedade laboral que é pouco amiga das famílias.

Quando tanto se fala da municipalização escolar, devem as autarquias em articulação com as diferentes associações e clubes locais, dar resposta a esta necessidade dos tempos modernos, a necessidade de ocupar as crianças quando não têm autonomia para ficarem sozinhas em casa.

O 1º ciclo devia acabar hoje, o futuro não espera e urge mudar. Os conteúdos estão desajustados, a matéria é excessiva, a carga letiva não tem em consideração a idade das crianças, o centralismo no português e na matemática é um absurdo, os TPC são constantes, a atividade física é residual (somos o 5 país da OCDE com maior taxa de obesidade infantil), pensando bem, é quase impossível fazer pior.

O 1º ciclo atual parece uma fábrica que visa criar “doutorados” ao 4º ano, asfixia as crianças na sua liberdade e direito em serem crianças, em terem tempo para elas, em terem tempo para exprimir toda a sua energia e criatividade.

O ano que agora finda foi de muitas promessas, mas só algumas escolas serão contemplados com o principio de algo que parece efetivamente melhor.

Quem vos escreve também é pai e também tem uma criança no 1º ciclo, lamento que a minha filha tenha de continuar a frequentar um ensino com o qual não me identifico, mas as opções são curtas e o dinheiro não estica… o preço a pagar só mais tarde será conhecido. Ouço as suas queixas, ouço os seus porquês, porquês que infelizmente não se restringem à sua voz, mas à voz de muitos alunos, pais e professores.

Eu sei que estamos fartos de mudanças, eu sei que o bom senso aconselha a uma fase de testes em primeiro lugar, mas quando sabemos que o caminho que está a ser percorrido está a trazer mais prejuízos que benefícios, sinceramente vos digo… que se lixe o bom senso, que desapareça este 1º ciclo e que renasça outro já em setembro. Um 1º ciclo adaptado aos seus alunos, que lhes dê tempo para consolidar conteúdos, e que dê tempo aos seus professores para lecionar aulas mais dirigidas às necessidades dos alunos e não em camiões que simplesmente despejam matéria.

Hoje é naturalmente dia de balanço e assumo alguma desilusão por saber de antemão que vamos começar 2017/2018 em que tudo, ou praticamente tudo, está igual…

P.S- apresentei no passado uma proposta para o 1º ciclo, podem consultá-la aqui

14 COMENTÁRIOS

  1. Não concordo nada com a necessidade de um novo 1º ciclo.

    Baixam a exigência programática do 1º ciclo e verão onde os pais com mais dinheiro colocarão os filhos, como muitos já fazem.

    • É impressionante a tendência em falar em facilitismos quando se fala em deixar o ensino tradicional. Facilitismo é deixar tudo como está…

  2. Você insiste Alexandre Henriques … e teima com o 1º Ciclo… Já concordámos com a extensão do programas e com o excesso de tempo dos alunos em ambiente escolar… Agora o que o Alexandre Henriques pretende, pelo menos é o que parece, é uma espécie de recreio até ao quarto ano de escolaridade, e a velha treta do Construtivismo e que no aprender é tudo lúdico e que há sempre passarinhos a voar e abelhinhas a zunir! Concordo com o outro Alexandre que o pior que podiam fazer à Escola Pública era baixar-lhe a exigência: meio caminho andado para uma semi-privatização. Escreva o que digo, e olhe que não sou profeta…. Há muitas hienas de atalaia!
    E o que é isso da Escola Tradicional é que você ainda não conseguiu explicar! A escola é para aprender, ter conhecimentos e, dos conhecimentos, competências; formar cidadãos… Aconselho-lhe, desculpe lá a pretensão, a História do Ensino em Portugal, de Rómulo de Carvalho… É que vou lendo, e alguns colegas vão sendo colonizados, por uma série de ideias gerais sobre uma pretensa modernidade, em contraposição de suposto arcaismo , onde são ditas muitas generalidades, algumas delas, caso fossem avante, com resultados catastróficos para o prestígio da Escola Pública.
    Pessoalmente, , e porque tenho familiares a receberem uma educação muito moderna , dou graças por os meus rebentos não frequentarem a escola do meu sobrinho: um petiz que se diverte à brava e que no final do 1º ano não sabe ler!!!

    • Rui Pereira, veja a minha proposta para o 1 ciclo. Se mesmo assim mantiver a opinião, lamento mas não posso fazer mais nada.

    • ” e a velha treta do Construtivismo e que no aprender é tudo lúdico e que há sempre passarinhos a voar e abelhinhas a zunir! ” O Construtivismo não preconiza a leviandade que acaba de enumerar!

  3. Como não tenho a arte do professor Santana Castilho fica aqui um artigo, brilhante, do que se passa… Assinaria por baixo… Carrega em todos os botões! Muito, mas muito bom, para repor a verdade, segundo a minha perspetiva, do tema em conta. A última parte resume bem o que penso!

    A educação rosa – Opinião – Santana Castilho

    O PS é um partido político que foi perdendo a sua matriz ideológica. Sob a liderança de António Costa, a aliança à esquerda é meramente circunstancial e ditada por ser a única forma de ganhar o Governo, depois de perder as eleições. Para os que legitimamente discordem deste ponto de vista, recomendo a análise fina das votações da legislatura e a interpretação grossa dos sinais dos últimos dias (bloco central na TAP, flop na chefia das secretas, imprudente acolhimento de familiares de amigos e de interesses de amigos, prudente respeito pelos contratos firmados com os chineses da EDP mas oportuno desprezo pelos contratos firmados com os professores portugueses).
    Para os que concluem o ensino secundário, é hora de exames, onde se joga a entrada nas universidades e politécnicos. Para alguns dos outros é hora de brincar às provas de aferição, onde se queima credibilidade, tempo e dinheiro, porque se trata de provas que foram largamente usadas e abandonadas por inúteis e porque, ao persistir na asneira, ao menos que fossem aplicadas no fim dos ciclos de estudo ou feitas por amostragem.
    Na equação política do PS a Educação não conta. O ministro é um bibelot que acompanha os senhores nas festas e que se mistura com a malta nos recreios, quando há fotógrafo por perto.
    A análise do discurso do secretário de Estado João Costa expõe uma mistura de postulados gastos, por óbvios, com teorias pedagógicas velhas e ultrapassadas, que foram abandonadas porque falharam, depois de terem lançado a confusão no sistema de ensino. É certo que este arauto-mor do “eduquês” recuperado teve os ímpetos travados e passou das “alterações profundas” e da sua generalização para a experimentação circunscrita da “flexibilidade pedagógica”. Mas a verdade é que está destruindo, com o apoio de prosélitos e oportunistas, o que, apesar de tantas vicissitudes e sacrifícios, os professores sérios e maduros conseguiram acrescentar aos resultados do sistema de ensino. E poupem-me os prosélitos à ligeireza do “parece que no tempo de Crato é que era bom”, porquanto basta ler o que sobre ele escrevi. A questão é termos passado de uma pedagogia ferozmente utilitarista, que encarava a Educação como mercadoria ao serviço da economia de mercado, sem sensibilidade humanista nem consideração pelas diferenças individuais das crianças em formação, para uma pedagogia do paraíso, assente na retórica provinciana do “aluno do século XXI”, do “trabalho de projecto”, da “flexibilidade pedagógica”, do “trabalho em rede” e dos “nados digitais”, sem considerar o estádio intermédio que resulta da arbitragem prudente entre o valor intrínseco do conhecimento e a especulação pedagógica.
    Quando se junta a melodia das “aprendizagens essenciais” ao estribilho da “flexibilidade pedagógica”, os que já assistiram a tantos coros de outros tempos sabem o que a música vai dar: um desconcerto nacional em que o ascensor social, que a Escola pode ser, pára uma vez mais. Explicitando a metáfora: Crato mandava os que chumbavam aprender uma profissão aos dez anos; Costa nivela por baixo e reserva “as aprendizagens essenciais”, que ninguém sabe o que são nem como se definem, para os que já chegam à Escola oprimidos pela sorte madrasta de terem nascido em meios desfavorecidos. Definitivamente, só há um caminho, que não importou a Crato e menos importa a João Costa: encontrar um currículo e programas correspondentes equilibrados e adequados à maturidade e desenvolvimento dos alunos e acompanhá-los, sem diminuições de exigência e rigor, com reforço de meios e recursos logo que evidenciem as primeiras dificuldades. A inovação pedagógica do aprender menos não remove o insucesso. Mascara-o. Os experimentalismos que partem do abaixamento da fasquia não puxam pelos que ficam para trás. Afundam-nos. O escrutínio sério das políticas educativas das últimas décadas, que só um pensamento crítico livre de contaminações ideológicas permite, demonstra-o.
    É importante que cada professor saiba bem de que lado quer estar nesta dialéctica.
    In “Público”

    • Eu não defendo o aprender menos, eu defendo o aprender diferente. Vejo matéria a ser leccionada que é ridícula, vejo metodologias de ensino estáticas, não adaptativas aos alunos atuais. Santana Castilho tem razão em parte, noutra não tem pois o caminho mal começou e já se tiram conclusões definitivas.
      É já agora de que lado tem estado Santana Castilho desde que Passos Coelho lhe tirou a cadeira de Ministro da Educação? Infelizmente sempre do contra, zangado e com um estilo de escrita que para mim roça a má educação…

  4. Eu analisei a sua proposta para o 1º Ciclo… O problema Alexandre Henriques é que a atual equipa do Ministério da Educação , até agora, não cumpriu quase nada dequilo que prometeu…
    Digo-lhe o que era prioritário, só escrevo sobre a organização das escolas e currículo:
    – Mudança na extensão dos currículos (nomeadamente a Matemática). Não falo do embuste da flexibilização: as metas no final de ciclo são exatamente as mesmas. . Não falo, de igual modo, da diminuição da exigência ou da criação de transições de ano por decreto.
    – Acabar, no 1º ciclo, com turmas com mais do que um ano de escolaridade.
    – Entrada no 1º Ciclo aos 7 anos de idade.
    – Provas de aferição realizadas por amostragem.
    – Diminuição, por decreto, pois doutra maneira há senhores diretores que nunca entenderão, da carga burocratica nas escolas; das grelhas, dos papéis inúteis; das reuniões infindáveis…
    – Inclusão, em todos os ciclos de ensino, de uma componente prática de economia doméstica; agricultura, etc…
    – Mudança na eleição do diretor ( para uma versão mais democrática e com um colégio eleitoral alargado); eleição pelos pares dos coordenadores de departamento; eleição, pelos professores, do Presidente do Conselho Pedagógico.
    Para já era ”só” isto… Se o senhor secretário de Estado é tão democrata, e tão adepto de uma mudança na escolas que comece por aqui… Mas se calhar posso esperar sentado e continuar a ver o fogo de artifício da retórica da escola do século passado; das metodologias arcaicas; das criancinhas que padecem por não estarem conectadas; das cadeiras com rodinhas; do aprender a aprender; da meditação budista, descartável, em 5 min; da impreterível necessidade de dar muita formação aos professores, que estão muito esclerosados e anacrónicos (ou, numa visão mais prosaica, como vamos criar uma necessidade para ”empochar” uns milhões da UE…)

    • Concordo com todas as medidas, como também concordo com a mediação, o coaching e afins. A escola é muito heterogénea e precisa de várias abordagens. Mas gostei de ler as propostas. Já tinha feito o convite e volto a disponibilizar o Comregras para as suas ideias.

  5. O 25 de Abril, essa esperança de uma nova vida, entrou timidamente nas nossas Escolas, chegou a ter uma Primavera promissora, mas a mentira e o apego ao passado fez com que quase tudo ficasse parado no tempo, na lata estanhada dos que se mantêm na boa vidinha a enganar professores alunos e famílias. Querer fazer crer que um professor está preparado para ensinar todas as disciplinas é mentir descaradamente ao Povo, é uma falta de vergonha que dá náuseas a qualquer verdadeiro professor. Maldita política partidária que se sobrepõe a todas as áreas do conhecimento em matéria de educação. Só falta transportarem esta lógica para os hospitais, aí entrariam pelo próprio pé e sairiam numa caixa de tabuado. Tenham respeito pelas pessoas, acabem com o 2.º ciclo, esse disparate pegado que todos os estudiosos recomendam há muitos anos que deveria acabar , criem um ciclo de seis anos com professores para várias áreas (informática, música, educação física, português, matemática, inglês…), apostem na formação de novos professores, rejuvenesçam o corpo docente (é uma vergonha essa descarada compra de votos que permitiu considerar que ser músico da GNR é mais desgastante que ser professor), façam programas ajustados ao século presente e tornem as Escolas espaços dignos. Deixem de ser palhaços em quem o Povo não acredita mais.

  6. Onde é que estão os estudos académicos, cite-mos, onde se prova que o que propõe é o melhor. A regra na grande maioria dos países, é a monodocência, também até ao 6º ano de escolaridade. Como costuma dizer o Alexandre Henriques, que agora parece apoiar uma tese absolutamente absurda, de ”disciplinarizar” o ensino em idade tão precoces, é há outras coisas tão ou mais importantes que o currículo… Só quem não conhece uma escola do 1º ciclo, o ritmo de crianças de 6 anos, e a necessidade de vínculos a um educador de referência, é que pode defender esta tese.
    Que tal dividir ” a coisa” em disciplinas até ao pré- escolar? Criar um único ciclo de 6 anos, com várias disciplinas, é que é um verdadeiro disparate! Mas , de facto seriam um caso de estudo em todo o mundo civilizado! Onde está um país, um único país, que adopte um modelo de disciplinas espartilhadas em idades tão precoces… E eu que pensava que o que era bom era o trabalho de projeto, a interdisciplinaridade, etc e tal… Parece que não!
    Programas ajustados ao tempo presente é: computadores? Cadeiras com rodinhas? Lecionação por disciplinas? Aprender a aprender? Empreendedorismo? Yoga? Meditação? ” Auto-conhecimento?
    Já agora onde estão os estudos que recomendam acabar com a monodocência , ao acabar com o 2º ciclo? Gostaria de os ler…

    • Pois… É que o 1 ciclo não está nada disciplinarizado. Português, Matemática, Estudo do Meio, Inglês, Expressões que estão divididas em 3… Acrescentei Tic e pelos vistos sou eu que quero mudar tudo…

  7. Educação e imediatismo: uma impossibilidade
    Zygmunt Bauman, sociólogo, tem dado, na sua vasta e significativa obra, destaque à educação, ao seu lugar e desígnios na contemporaneidade.
    Pergunta: Neste mundo hipercontactado no qual qualquer tipo de informação está a um clique no computador qual é o papel da educação tradicional nas escolas e nas universidades (…)?
    Resposta: Referiu um dos problemas mais importantes e dolorosos dos nossos dias (…) e do qual nos estamos esquecendo. No sistema educativo actual [vigora] a cultura do imediatismo. Educação e imediatismo são termos contraditórios. Não podemos ter os dois. Ou temos uma educação de qualidade ou temos o imediatismo. Não podemos ter os dois ao mesmo tempo. E este é um problema terrível.
    Na história da sociedade humana, assim que os gregos antigos inventaram o conceito de paideia, a educação viveu constantemente algum tipo de crise muito em função da necessidade de ajustamento à mudança de circunstâncias. Mas a crise a que assistimos é muito básica e essencial [derivada da] tecnologia da informação, que é uma biblioteca de fragmentos, de pedacinhos sem algo que os reúna e os transforme em sabedoria, em conhecimento (…).
    E isso destrói capacidades psicológicas como a atenção a concentração, a consciência (…) para se estudar um assunto (…) o esgotar, ir até ao fim. Há mudanças no pensamento.
    É uma situação completamente nova que põe os educadores numa posição muito difícil. É preciso repensar muitas coisas.
    Retirado, com a devida reverência, do blogue ” De Rerum Natura”

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