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Não se perde autoridade ao mudar de atitude

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Mudar, transformar.

São palavras muito fortes que muitas vezes são interpretadas de forma extremada.

São muitos os agentes da educação, desde os formais aos informais, dos públicos aos privados, com as nuances próprias de cada país, de cada comunidade. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e temos vindo a dar por nós a discutir o que podemos chamar de “mudança de paradigma”.

Não conheço quem esteja contente com o sistema de ensino no país onde moro e onde estou a criar os meus filhos, Portugal.
Estão todos de acordo sobre isto: a mudança é não só necessária como inevitável.

Não sou “engenheira social”, observo, leio, reflicto. Ao ler “Mulherzinhas” aos meus filhos, senti-me corar, um livro publicado em 1868, descreve aquilo que hoje vejo tantas pessoas a negar: o respeito das crianças como pessoas com direitos e vontades próprias.

Porque me senti corar? Porque no início da minha experiência de parentalidade segui um caminho de disciplina rígida, supostamente estruturante. E estou aqui para comprovar que não, não funciona.

Não funciona na medida em que a única disciplina que dela resulta é condicional e não genuína, como quem diz do livre arbítrio da criança. A disciplina que ensina à criança que é premiada ou castigada conforme os seus actos não a ajuda a regular-se, de facto, mas a evitar sarilhos momentaneamente – ou não, pois nem sequer funciona sempre, tendo em muitas (tantas!) situações o efeito oposto.

A disciplina que pinta o comportamento das crianças às bolinhas, conforme o maior ou menor transtorno que causou ao adulto que se voluntariou a cuidar dela, a respeitar a sua infância, só vai reduzir a criança a uma característica. Crianças que são tantas coisas para lá da capacidade de se sentarem sossegadas.
Pergunto às pessoas que defendem bolinhas e privações de intervalos se estas estratégias lhes têm trazido crianças colaborantes, crianças com quem conseguem sorrir, rir em conjunto. Penso que não, quando muito obtêm o tal “respeito por medo”. Diria mesmo que não leva a qualquer lugar de afecto genuíno – não foi isso que levou à prática da educação, o afecto por crianças? Eu acredito que sim, e acredito que estejam cansados. E têm vidas para lá das escolas. Mas também acredito que dói olhar e perceber que se afastaram daquilo que foi o sonho inicial. Porque o sistema não ajuda, porque a sociedade está em mudança. O(s) grupo(s) que acolhem diariamente podem não ser aquele(s) com que sonharam. Mas continuam a ser pessoas, continuam a ser crianças, como nós também fomos.

Quantos de nós fomos educados em sistemas que se regessem pelos princípios que hoje advogamos? Creio que poucos. Quando eu brincava às professoras, ficava no estrado imaginário com uma cana, ora a apontar para o quadro imaginário, ora para as minhas bonecas alinhadinhas (e sossegadinhas, essas sim). Quando eu brincava às professoras, não conversava com os meus alunos, debitava-lhes matéria, via os TPC e ralhava. Penso que não tenho uma experiência muito diferente ou desviada do que a maior parte se lembrará. E eu gostei da minha professora primária. Gostei sempre da escola, mas é preciso dizer que não tinha quaisquer dificuldades, para além do ter de ficar calada (que não ficava). Não fazia os trabalhos de casa, a professora não mandava recados, depois escrevia-o no boletim de notas, a minha mãe ralhava e eu ficava amuada, fazia trabalhos de casa durante um tempo e voltava a prevaricar. Tinha aulas das 8 (ou 8h30, não lembro bem) às 13h, chegava a casa e almoçava à pressa para ir brincar. Uma aldeia tem muita coisa para explorar.

Fui feliz na escola, quando esta me falhou consegui superar sempre. Mas tenho de reconhecer que vi o que acontecia aos meus colegas. Tenho de ser justa. A escola foi um lugar de angústia para muitos dos meus colegas. Não vamos fingir que já funcionou e que agora é que está a falhar. Não, a escola pareceu funcionar enquanto as pessoas se calaram. Agora, cada vez mais pais criam os filhos para se sentirem livres a manifestar as suas vontades e isso traz muitos dissabores a quem precisa de ver tudo alinhado para levar a cabo os seus objectivos. Mas o tempo de informarmos os outros dos objectivos que temos para eles acabou. Chegou a hora de evoluírmos, de partirmos para outro lugar na história do ser humano.

Ninguém está aqui para acusar, mas para chamar, para apelar a que se posicione num sítio diferente donde está acostumado a olhar as coisas para cortar com a perpetuação de práticas que já demonstraram que não funcionam num sistema que deseja respeitar cada ser na sua essência.

A minha professora primária fez o melhor que soube, a minha mãe fez o melhor que soube, eu fiz o melhor que soube. Ainda aqui estou, tenho obrigação de avaliar o que faço e os seus resultados e tenho a obrigação de ser honesta comigo e com aqueles que mais amo, quando percebo que determinada estratégia não traz ganhos para ninguém.

Porque é disso que falamos, não é? De estratégias de educação e do seu sucesso.

Porque manter resistência em ponderar práticas diferentes quando se constata que as actuais não levam aos objectivos pretendidos? Porque é que essa ponderação passa por pedir garantias do sucesso de outras práticas? Estamos a falar de pessoas, nenhum método é milagroso. Para lá do medo, não há métodos que façam um grupo de crianças, logo de pessoas diferentes entre si, estarem sossegadinhas, caladinhas e colaborantes – todas.

Nesse caso, porque optamos por métodos que põem em causa a auto-estima e a auto-confiança das crianças? Nesse caso, porque continuamos a seguir estratégias que mais não fazem senão criar um fosso maior entre educador e educando? Onde está o carinho, onde fica o afecto quando a tónica de um dia de aulas está na privação do direito ao intervalo, na obrigação de repetir 20 vezes uma frase cujo conteúdo não vai ficar impregnado na criança, ou no resumo do dia a uma bolinha amarela ou vermelha?

Não esqueço que há também a necessidade da estabilidade da criança, as dificuldades familiares, os pais que sufocam, etc.

Voltarei a isso.

Hoje, queria falar disto.

Queria dizer que ponderar uma mudança de atitude não é sinal de fraqueza, mas de maioridade. Queria dizer que sinto muito que seja tudo tão difícil quando, na verdade, estamos a falar das nossas crianças – aqueles por quem cada um de nós dava a vida. Queria dizer que estamos juntos, que temos de nos unir para tentar ajudar a escola a assumir uma tónica mais positiva. Queria dizer que afinal nós SOMOS a escola, não é ela de um lado e nós doutro. Queria dizer que gostava tanto que deixássemos de ver as pessoas em lados, como em barricadas opostas – o lado dos alunos, o lado dos professores, o lado dos Conselhos Directivos, o lado das Associações de Pais, o lado dos Encarregados de Educação – estamos todos no mesmo lado – todos aqueles que querem bem às nossas crianças. Queria dizer que não se perde autoridade ao mudar de atitude, aliás, muito possivelmente ganhar-se-á o seu respeito e mais espaço para o amor.
Todos os dias, o amor.

Sandra Cruz, membro Movimento Pais, Professores, Educadores e Alunos Unidos – MAPPE

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4 COMENTÁRIOS

  1. Além de não concordar com o que está expresso, para o erro tem de haver consequência, muitos professores, e são mesmos muitos, é que são as vítimas de crianças mal educadas, sem regras, mimadas, e reizinhos num mundo irreal… O problema tem-se agravado e o que falta mesmo é repressão! Não são admissíveis comportamentos absolutamente indescritíveis que conheço, que vejo diariamente, em sala de aula. Têm mesmo de ter consequências e exemplares. Há colegas que foram destruídos por comportamentos inqualificáveis. Um dos problemas da escola portuguesa, e da Europa, é precisamente ausência de princípios e de regras… Supostamente, segundo este magnífico movimento, onde dão todos as mãos, os professores devem aguentar e não bufar! Comigo não!

  2. Depois do novo paradigma de educação fofinha, feliz, prazerosa, holística, flexível, personalizada, naturalmente adquirida pela motivação intrínseca, sem avaliações quantitativas, sem exames, sem disciplinas, sem currículo nacional, sem metas objectivas, sem imposições de qualquer ordem que perturbem a criatividade e vontade natural dos príncipes discentes, estes vão reinar em que planeta?

  3. É tudo príncipes e educação onírica: vivem num mundo irreal, de classe média e média alta , e pensam que o mundo terá de ser talhado para este destino… Bem vejo muitos destes rebentos: absoluta impunidade! Desrespeito pelos mais velhos! É um mundo de férias e de faz de conta! No final disto tudo, também para os príncipes, envelhece-se , morre-se…
    Querem criar uma escola para príncipes: criem-na e paguem-na.
    Trabalho numa zona onde alunos perderam pais , de modo prematuro, onde a comida existe, mas à certa; onde as mães são exploradas em empresas de salários de miséria; onde os irmãos mais velhos cuidam dos mais novos para que as mães esfreguem as salas, de madeira maciça dos doutores… Dou aulas a crianças que vivem na violência, onde muitas delas, consequência disto, são violentas…
    Gostava de ver certos movimentos era a reclamar direitos iguais , para todos os portugueses; salários justos, em vez da miséria do ordenado mínimo; mulheres que não tenham dias de trabalho de doze horas a esfregar escadas… Crianças que crescem depressa para poderem ajudar… Os senhores não estão preocupados com nada disto… São príncipes, tudo príncipes, neste mundo… e querem uma corte que vos sirva!

  4. Reconheço que li o artigo “por alto”. Sou professora e encontro-me outra vez doente … estou muito cansada.
    É um texto muito bonito, mas, por alguma razão, a autora não seguiu o belo modelo, sobre o qual divaga, poetiza e tenta comover os possíveis leitores a pô-lo em prática pelo o amor que as crianças nos merecem.
    Já não tenho paciência para este tipo de retórica educativa da parte de quem não está a trabalhar numa escola em condições de igualdade com a maioria dos professores… os mais belos discursos têm gerado tremendas monstruosidades.

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