Início Carreira docente (ECD) Porque não são os profs como os enfermeiros?

Porque não são os profs como os enfermeiros?

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As manifestações de hoje de manhã dos enfermeiros fizeram-me lembrar a nossa manifestação, de há muitos anos, que começou no Marquês e acabou no Terreiro do Paço. Ou outras, que se veem noutros países (veja-se esta imagem de uma brasileira por causa dos salários de professores em que os manifestantes são alunos).

O ministro da Saúde atual é o correspondente, para os enfermeiros, à nossa socrática lurditas. E devíamos realmente por os olhos neles.

A profissão tem, como a nossa, nível elevado de formação e alta exigência técnica e humana. Mas é socialmente desvalorizada, apesar da sua necessidade social.

Como a nossa.

O que dizem é parecido com o que podíamos dizer: estudamos, temos formação, fazemos falta ao interesse público, não nos respeitam, trabalhamos muito, carregam-nos de tarefas inúteis, desvalorizam e desconsideram o nosso saber profissional, pagam-nos mal e, há muitos anos, tiraram-nos as perspectivas de carreira.

O ministro chama-lhes imorais, pouco profissionais e ameaça. A nós sempre nos fazem isso, se arriscamos protestar de forma mais pública ou incisiva.

Tudo em nome do patente interesse do(s) Governo(s) em não gastar mais dinheiro (mesmo que esse dinheiro seja a justa compensação de trabalho real), invocando, para criticar a luta, o “interesse dos doentes”.

Dizem-me amigos do setor que o interesse dos doentes defendem os enfermeiros, todos os dias, quando lutam contra os cortes no material de trabalho essencial e evitam problemas de falta de higiene, gerados por falta de recursos ou se preocupam em fazer das tripas coração para do nada, que às vezes é o que há, fazer alguma coisa.

Recentemente, uma familiar minha com 100 anos faleceu num hospital. Se não fosse a sensibilidade e inteligência profissional de enfermeiros, para lá das ideias limitadas de chefias, que não perceberam, à primeira, que mesmo nada havendo a fazer, há sempre a dignidade, morreria num corredor de urgência ou era mandada para casa sem contemplações.

Como eu, muita gente neste país teria muitas coisas destas a dizer. Mas que as digam.

A opinião pública que abandona os professores injustamente é também injusta se abandonar os enfermeiros. E não caiam nas tretas da greve fora de prazo ou da manifestação fora de horas autorizadas….

O interesse dos doentes é também enfermeiros motivados….

… e é como o interesse dos alunos que também passa pela motivação dos professores.

Os enfermeiros vão levar roda de corporativos por quererem carreira, horário justo e pagamento correspondente à formação que tem. Mas, ao contrário de nós, que não verbalizamos os nossos legítimos interesses e fraquejamos nos momentos certos, não se deixam levar por demagogias bacocas da classe política sobre suposta moralidade e ética.

Há quem diga que, porque a bastonária é do PSD, estão a ser manipulados.

Ninguém quer saber qual a cor política do bastonário dos médicos ou da presidente do sindicato dos juízes, e são ouvidos com atenção, mas é típico do estado moral da política portuguesa que seja questão mais interessante saber-se que o presidente (eleito) da Fenprof é do PC ou a bastonária dos enfermeiros (eleita) é do PSD.

Hoje apetece-me ser corporativo: também nós temos a precariedade dos contratados, a instabilidade geográfica dos QZP, a falta de carreira, dos contratados que, injustamente, nem com ela podem sonhar, e dos outros, que a teriam, mas que foi cortada ou suspensa há 10 anos.

Temos o serviço não-letivo cheio de coisas letivas, a falta de tempo, a burocracia doentia e até o medo de alguns de perder o lugar, por via de um DACL arbitrário. A isto juntem o diletantismo dos flexíveis reformadores (que agora parece que pensam ao semestre, o que não deve ser coisa boa) ou a indisciplina sempre varrida para debaixo do tapete.

Ninguém paga subsídios de deslocação aos professores deslocados, casas de função aos que estão fora de casa ou dá incentivos para a colocação no interior. A obtenção de formação especializada, só nos dá chatices e cargos sem compensações. Mesmo aos desempregados, nem os subsídios para aceitação de emprego fora da área de residência lhes podem ser pagos, ainda que acabem por aceitar horários a centenas de kms.

Hoje apetece-me mesmo ser corporativo quando me lembro disto.

Entrei para a profissão em 1995, estudei milhares de horas para lá da formação inicial, já fui dirigente 6 anos (o que noutras carreiras até significa promoção), tenho 3 especializações para funções específicas, que o Estado me obriga a exercer sem pagar mais por isso.

Estou no escalão que corresponde hoje ao indíce 188. Nunca mais tive direito a qualquer promoção ou avanço na carreira desde 2003. Devo-o ao desgoverno dos políticos que enchem a boca com o interesse público.

Recebo líquido 1172 euros mensais. Devia, se se cumprisse o direito à carreira com que o Estado se comprometeu comigo, ao contratar a minha disponibilidade para o servir, estar no índice 218 (2 escalões atuais acima) desde há um ano, pelo menos. Nesse ano que passou, além de tudo o que perdi por não ter subido ao escalão anterior a esse, perdi, em cada mês, cerca de mais 100 euros líquidos (num ano a 14 meses: 1400 euros). Contas redondas feitas aos 6 anos sem subir ao escalão anterior dão mais 4200 euros perdidos. Quase todos os professores tem contas destas a fazer.

O Estado ainda anda com dúvidas se me (nos) deve reparar na injustiça (dizem as notícias) e hesita, dizendo que talvez só acabe com a suspensão do direito à carreira para alguns. Parece que é inconstitucional (tresanda a isso) mas a nossa classe política comove-se pouco.

Já tenho destino para os 1400 euros perdidos, só no último ano de suspensão de carreiras: o Governo que só suspenda o roubo do direito à carreira para alguns….

Que faça assim e verá como, pelo menos, um matarroano de Viana, irá discutir para tribunal. Isto, se os deputados de esquerda, que acolitam o PM da geringonça (que já cansa com a cassette da ideia peregrina da descentralização) e o Ministro Brandão (que acha que pode flexibilizar tudo à balda, sem que alguém se queixe), não fizerem o seu dever e não suscitarem a inconstitucionalidade dessa limitação do direito à carreira, permitido só para alguns.

Só é pena ter a consciência que vou estar isolado e que não vou ver, se mais essa tropelia nos for feita, escolas fechadas 2 ou 3 dias, para a opinião pública perceber a falta que fazemos.

Nem vou ver professores à porta, sem ligar à demagogia dos políticos que, sem senso, invocam o serviço público por tudo e por nada (sem saber o que é realmente) e o confundem com a exploração e a desvalorização, sem pagar o justo, aos que o servem (e, noutros dias, acham que a ética pública até pode incluir viagens pagas por empresas).

Os enfermeiros estão também a lutar por nós e até pela qualidade dos serviços públicos. Pelos seus direitos legítimos e por isso também.

Como dizia uma velha amiga, eles, como nós, temos de finalmente perceber que, nem somos missionários, nem mercenários: somos profissionais (e isso dá deveres e direitos, obriga a trabalhar, mas implica pagamento justo e direitos profissionais). E que os outros dizem ser os interesses dos alunos não passa por cima disso (até porque poucos se preocupam tanto com eles).

Por isso, hoje gostava de ser um pouco enfermeiro e tenho pena de a minha “corporação” (fraquinha corporação, que nem consegue mobilizar-se como eles e é tão mal paga e desconsiderada) não tente fazer o que eles conseguem.

Fazer ver publicamente, em conjunto, como os seus direitos precisam de ser respeitados e…. como fazem falta.

4 COMENTÁRIOS

  1. Essencialmente, porque somos pseudo intelectuais, com tudo o que isso implica, pequeno burgueses, com tudo o que isso implica. Mais ainda, com esta paixão, felicidade , missionarismo e voluntariado colado à pele e que tem sido muito bem gerida pela sociedade. Ou não nos lembramos de razões para não se fazerem greves? “Sou profissional!Não prejudico os alunos!”
    E depois, o vir para a rua, sei lá, é “brega”.

  2. Pelo simples facto de os professores terem remunerações 20% a 30% superiores às dos enfermeiros.
    Não conheço nenhum enfermeiro (velho ou novo) com remuneração líquida superior a 1400 euros.

    • A remuneração líquida aqui referida para alguém com 22 anos de profissão e que seria especialista é 1172 euros…. 1400 euros é o montante anual perdido com o congelamento de carreiras….

  3. Creio que não será só por aí.
    Se fosse, teríamos pano para mangas para protestos.
    É mais uma questão de união de classe e de maior coragem e pragmatismo.

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