Início Escola “Não há nada mais facilitista do que as retenções.”

“Não há nada mais facilitista do que as retenções.”

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Não sou contra a reprovação desde que fundamentada na imaturidade do aluno para compreender certos conceitos. Nesses casos subscrevo a repetição para futura assimilação/consolidação. Porém, a reprovação que se pratica em Portugal baseia-se essencialmente no resultado de uma pauta e não no perfil do aluno ou naquilo que ele precisa para aprender ou gostar de aprender. A receita pouco varia e por isso é natural que um “pão queimado” volte a sair queimado…

Concordo por isso com a afirmação da Maria Emília Brederode, presidente do Conselho Nacional de Educação, quando acusa a escola de facilitar quando reprova certos alunos.

É evidente que os anos de início de ciclo têm uma taxa superior de retenção, a ideia de alterar a estrutura do ensino básico faz algum sentido, pois as mudanças entre ciclos não são fáceis dando a ideia de que não existe um trabalho de continuidade.

Mais do que reprovar, importa ajustar o ensino ao tipo de aluno. Defendo por isso o encaminhamento para cursos vocacionais/profissionais (menos burocráticos e mais práticos) logo no 3º ciclo, ajustando-se assim às aspirações dos alunos e suas apetências.

A educação é um direito e todos têm direito ao ensino, mas o ensino não pode ser igual para todos…

Fica um excerto da entrevista dada ao Observador.

Para ficar claro, o que é isto de acabar com o 2.º ciclo? Não é acabar com o 5.º e o 6.º ano…
[Risos] Alguém me dizia assim: mas os alunos passam do 1.º ciclo para o 3.º?

Mas também não é mudar o nome, pois não? Se dissermos que o 5.º e o 6.º ano passam a ser integrados no 1.º ciclo fica tudo na mesma. Qual era a sua ideia?
A ideia é a estrutura ser mais semelhante, ou seja, o 1.º e o 2.º ciclo integrarem-se num único ciclo em que a modalidade 3+3 seria possível: os três primeiros anos do básico seriam mais parecidos com a nossa antiga primária, com um professor único, e nos três anos a seguir já haveria alguma especialização, mas sem se cair na multiplicidade tão grande que é hoje o 2.º ciclo. É uma transição mais suave.

Não tem nenhuma solução preferida?
Pessoalmente, gosto desta, mas isso não tem importância nenhuma. [risos]

Outra solução de que se fala muito é o 6+6, em que o 3.º ciclo do básico fica agrupado com o atual secundário [10.º ao 12.º ano].
Sim, o que proponho é quase o 6+6. Dentro do agrupamento dos seis primeiros anos há muitas soluções possíveis, mas a mim parece-me importante manter os primeiros nove anos no básico como um ciclo unificado, não os juntaria ao secundário.

Esta solução de que fala não é uma proposta oficial? 
Não e gostava que isso ficasse claro. Uma recomendação do CNE tem um processo moroso e tem de haver um estudo prévio, um debate nas comissões, ir a plenário, ser votado. Este assunto já foi debatido no CNE há bastante tempo, mas teria de ser atualizado. É uma posição pessoal minha, que coloquei no prefácio do “Estado da Educação” e fiquei espantada com o volume que tomou. Eu só digo, no meio de várias outras coisas, que seria de repensar a organização do ensino básico, designadamente a velha questão do 2.º ciclo, um ano para entrar, outro para sair, dadas as dificuldade nos anos de transição. É uma sugestão pessoal, entre muitas outras.

“A mudança não podia ser só abolir a transição do 2.º ciclo. Neste caso, apesar de tudo, retirava-se um momento de transição, era menos um bloqueio e isso já não era mau. O que eu quis acentuar foi que o próprio sistema cria algumas dificuldades. O próprio sistema tem de olhar para si e tentar atenuar as dificuldades que cria”

“O estudo chama a atenção para o facto de a retenção não resolver o problema, talvez o agrave. É preciso estudar outras formas de intervir e de ajudar as crianças na leitura e na escrita que não seja através da reprovação. Isto é como dizer: ‘Se não sabem, aprendam para o ano’. Como se repetir um ano fosse suficiente. Não chega. É preciso estudar outras formas de intervir e de ajudar as crianças desde bem cedo. ”

“Tenho essa ideia: para aprender bem, de forma estruturada, para ter um desenvolvimento mais saudável não vale a pena pressionar tanto os miúdos para irem tão depressa e tão longe quanto ainda estão a amadurecer e a precisar de outro tipo de atividades. Temos de nos preocupar com o desenvolvimento global das crianças, físico, cognitvo, afetivo e não querer fazer logo especialistas académicos muito cedo.”

“Acho que se devia substituir a cultura de reprovação por outro tipo de cultura, uma que valorizasse mais as potencialidades. A escola é para os alunos aprenderem, não é para serem julgados, afastados, para repetirem o ano, é para aprender. Então vamos ter de arranjar maneiras de os pôr a aprender. Há muita tendência de dizer que o aluno não está preparado. Então vamos prepará-lo. Cabe-no a nós adultos fazê-lo.”

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3 COMENTÁRIOS

  1. Uma entrevista lamentável , ainda mais ocupando o cargo que ocupa, com um conjunto de afirmações sem nexo… Várias frases sem fundamentação de nenhuma natureza, a não ser aquela de um ”achismo” próprio destes novos tempos…
    Já não há paciência para tanto disparate!

  2. O país irá pagar muito caro, muito caro mesmo, os disparates que estão a ser feitos com a demagogia do ”aprender a aprender” e do afrouxamento do nível de exigência na Escola Pública. Quem irá pagar mais, ao contrário do que certos arautos apregoam, serão, precisamente, os alunos mais desfavorecidos… Essa ideia de uma escolazinha que vai ao encontro do interesse dos alunos é altamente discriminatória para crianças de meios económicos mais débeis ao dar-lhe um currículo minimalista… Mas claro… o que interessa mesmo é a estatística; a frase a armar ao modernaço; o projecto de cadeiras com rodinhas que aparece nas notícias; o gongorismo vazio de alguns senhores directores cristãos-novos da escola inclusiva … Os mesmos que ainda há poucochinho se degladiavam furiosamente nos rankings!

  3. Eu, professora de um curso profissional, gostaria muito de enviar a minha turma para o gabinete desta senhora.
    Como adulta, que pelos vistos eu não sou, a senhora saberá prepará-los.
    As “potencialidades” de alguns deles já foram muito bem valorizadas (não pela escola, pois pelo que esta senhora muito sabe, a escola não valoriza adequadamente) mas pelo tribunal, cá da comarca que valorizou tão bem as “potencialidades” de alguns do meus alunos que eles terão entrada directa na penitenciária (cá da comarca) assim que completarem a idade mínima (18) de admissão.
    Não foi a escola que os julgou nem os afastou. Irão para a cadeia onde irão aprender, onde ELES vão “ter de arranjar maneiras de aprender”
    E é lá, na penitenciária, onde devia estar esta senhora e outros como ela, que na sua infinita pedagogia e sapiência podiam efetivamente “fazer aprender”.
    Não é essa a especialidade da senhora? Atão cá espero a iluminada intervenção, enquanto estes não forem cumprir a pena e a próxima leva não me cair no colo

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