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Não é suposto termos tantas crianças e jovens que não gostam de aprender quando a vontade de saber é inata

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Se fossem padeiros e o pão saísse sempre queimado, culpariam o pão, ou tentariam resolver o problema?

Há momentos em que a escola precisava de ser mais humilde e reconhecer que também ela é responsável quando o “pão” sai sistematicamente queimado.

Enquanto pai de uma criança de 1º ciclo, sinto o que muitos milhares de pais estão a sentir. A frustração de ver a incapacidade de uma criança saudável em não perceber a complexidade dos conteúdos do 1º ciclo, conteúdos que são reconhecidamente desajustados para a maturidade das nossas crianças. Apesar de todo o acompanhamento, o problema não está em casa, o problema está na escola e a escola tem de resolver a situação e não se esconder nos programas ou nas justas queixas dos professores.

Se estamos perante uma flexibilização curricular, se estamos perante uma autonomia assumida, não faz sentido que se sigam programas desajustados, “sacrificando” uma geração que só daqui a uns anos vamos perceber a dimensão dos estragos.

A Ana Rita Dias, do Movimento Pais, Professores, Educadores e Alunos Unidos (MAPPE) transmitiu ao site Educare as suas preocupações e que merecem leitura.

 “É urgente rever a complexidade dos conteúdos, assim como a quantidade dos mesmos. Consideramos que a definição das aprendizagens essenciais não é suficiente e que é o próprio currículo que precisa de ser alterado”

Desde logo porque as atuais metas curriculares estão, em termos de complexidade, “completamente desfasadas do desenvolvimento neuropsicológico de crianças que representam a faixa etária do 1.º ciclo”

“Logo no 2.º ano de escolaridade assistimos, por exemplo, a exigências de interpretação de textos e raciocínios matemáticos que não estão de acordo com o que é esperado da maioria das crianças daquela idade. São os próprios professores que, estando no terreno diariamente, verificam isso mesmo e que fazem uma enorme ginástica para que as crianças interiorizem conceitos que são apresentados muito precocemente, com a agravante de terem pouco tempo para o fazer”, exemplifica. E o facto de existir uma percentagem de crianças que adquirem conteúdos muito facilmente não pode ser motivo para se partir do princípio de que todas o devem fazer. É preciso espaço e tempo para aprofundar conhecimentos e para que diferentes crianças tenham acesso a diferentes graus de dificuldade, “sem travar os que estão mais aptos a avançar nem acelerar os que precisam de consolidar durante mais tempo”

“Com um currículo extenso como o que é proposto no 1.º ciclo, as crianças não têm a oportunidade de adquirir o gosto por aprender porque são mais ou menos diretamente pressionadas a passar à próxima etapa, independentemente de já se sentirem seguras na etapa anterior”,

“Faz muito mais sentido e é muito mais respeitador dos ritmos de cada um.”

Mais burocracia para os docentes, frustração por não haver mais tempo para adaptar conteúdos às diferentes necessidades de aprendizagem das crianças. A pressão vem de todos os lados. “Sentem que existe uma máquina maior do que eles que os obriga a debitar matéria sem ter em consideração a flexibilidade necessária para que esta tenha real significado para os alunos”,

“um avanço extremamente positivo mas que perde a sua essência a partir do momento em que continua a existir um currículo como o que temos neste momento”.

 “Para uma criança se sentir competente, necessita de sentir que consegue corresponder às expectativas do que lhe é proposto e essa sensação leva a que acredite mais em si própria e a que tenha uma imagem positiva de si mesma no percurso académico.” “Ora, se temos metas complexas para a sua faixa etária e que exigem que a criança domine conteúdos para os quais ainda não está preparada, estamos a promover o oposto, ou seja, estamos a fazer com que exista uma maior probabilidade de se sentir incompetente, ‘burra’ e incapaz”.

Este sentimento, que fica gravado no seu mundo emocional, acaba por definir o seu comportamento futuro perante a escola como, por exemplo, não se tentar superar porque não acredita que valha a pena. Portanto, mais do que as aquisições concretas e rígidas, no 1.º ciclo o mais importante é as crianças sentirem que conseguem compreender e dominar as matérias, pois será esse o motor que as levará a ter mais sucesso no futuro e mais ânsia por estudar e aprender”

“Não é suposto termos tantas crianças e jovens que não gostam de aprender, quando a vontade de saber mais é algo inato em cada um de nós. Muitos alunos dizem convictamente que não gostam da escola e isso acontece porque com um ensino tão formatado lhes matamos a motivação na perseguição dos seus interesses”

“Uma criança que não quer aprender é uma criança a quem foi cortada a chama da curiosidade. Não adianta acharmos que são eles o problema ou que tudo se baseia na educação que vem de casa. O problema somos nós, os adultos, pais, profissionais e cidadãos em geral que não estamos a saber adaptar os nossos modelos educativos aos tempos que vivemos e que minamos o gosto das crianças por aprender, fazendo-as sentir que a escola é uma obrigação em vez de criar a semente de que é um privilégio”

“Precisamos de recreios mais ricos e com menos cimento. Precisamos de modelos educativos em que a criança tem um papel verdadeiramente ativo nas suas aprendizagens e pode explorar a sua criatividade. Precisamos de profissionais com formação em disciplina positiva e resolução de conflitos para abandonarem as ineficazes estratégias de punição e recompensa. Precisamos de chamar os pais, as famílias e a comunidade à escola, assim como de levar a escola para fora dos muros, criando-se um maior espírito comunitário, sem barricadas e apontar de dedos de quem é a culpa do estado do nosso ensino. Precisamos de ter, acima de tudo, um novo olhar sobre a educação”

“Percebemos que estas coisas demoram o seu tempo, que há mentalidades mais conservadoras e que não é fácil gerir os desafios e dificuldades de uma escola que ficou parada no tempo e que agora quer evoluir, seja com metodologias muito expositivas, salas de aula nada dinâmicas ou processo de aprendizagem que não são focados no aluno mas sim no professor. Contudo, nesta necessidade de subir degraus muito devagar, corre-se o risco de se estar sempre a alterar o funcionamento das escolas e de se gerarem demasiados remendos, em vez de se deixar em aberto de forma mais clara e convicta o que é preciso revolucionar”.

Há portanto pedagogias alternativas, menos tradicionais, com provas dadas na eficácia. “Apesar das suas diferenças, têm em comum alguns princípios que são incontornáveis no futuro, como um papel mais ativo da criança nas suas aprendizagens, uma dinâmica de aula menos rígida e expositiva, um funcionamento escolar menos hierarquizado e mais democrático, um maior investimento nas artes, música e desporto, um maior contacto com o exterior e com a brincadeira não programada, entre outros.”

Fonte: Educare

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3 COMENTÁRIOS

  1. Isto é uma ”tanga”. O querem fazer da escola é um recreio. Não que eu não ache que a aprendiza agem não deva ser agradável, quando pode…
    A da ”escola parada no tempo”, peço desculpa, mas revela ignorância completa da História da Educação.
    O que é mesmo velho são algumas propostas, muitas de inspiração marxista, ”velhas e relhas” do início do século passado, e que alguns dizem inovadoras… Quanto aos conservadores que não querem mudar… tudo o que não for segundo uma cartilha que uma meia dúzia considera verdade é apelidado de reaccionário!
    Já agora no Jardim do Paraíso que é Finlândia é dos países onde os alunos ,menos gostam da escola e Portugal onde há mais alunos que gostam da escola. Leiam , pelo menos, os relatórios da OCDE e não tentem inventar uma verdade que serve os vossos propósitos! A isso chama-se, no mínimo , deturpar factos… Dêem-se ao menos ao trabalho de serem um pouco sérios e não tentem criar uma suposta verdade definitiva baseada unicamente nas vossas crenças.

  2. … e sim, já concordei diversas vezes, o currículo é desajustado… E que faz o Governo? Continuou com as mesmas metas e, friso, com ” as horinhas curriculares bem espartilhadas… E já nem falo das ”provazinhas” de aferição, no número comedido de quatro, a miúdos de 7 anos… Olha para o que eu digo!!!

  3. Não esqueçam o que já foi abordado neste blogue: muitas crianças não têm maturidade para os programas e metas, pois muitas nem têm 6 anos quando começam o 1º ano. Aliás, muitos problemas de aprendizagem com estas crianças, agravam-se no 10º ano do ensino secundário.

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