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Não aos Rankings – Apologia da Ditadura?

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Li, no Twitter, um post de um colega que se queixava por “o estado nunca mais proíbe a publicação de rankings de escolas”.

Logo senti um calafrio, porque o colega estava a fazer era clamar por um estado sem liberdade de imprensa, por uma ditadura na qual não lhe seria permitido publicar os seus dislates.

Mas o colega situou bem a questão: a proibição de publicar.

De facto, o Estado, o JNE, não publica e nem sequer produz rankings. O que faz é cumprir a lei, tornando públicos documentos da Administração Pública, sem necessidade de o cidadão os requerer. O JNE torna acessíveis ficheiros – bases de dados – com os elementos relativos às classificações internas e externas que cada aluno de cada escola obteve nos exames de cada disciplina que realizou.

Infelizmente, as bases de dados relativas aos exames de 2017 ainda não estão disponíveis para os cidadãos; apenas para os jornalistas. Mas as de 2016, por exemplo, podem ser descarregadas a partir de http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/JNE/enes2016-media_2.zip.

Desde há vários anos que exploro estas bases de dados, logrando fornecer à comunidade informação relevante sobre o desempenho de cada disciplina, de eventuais desvios, inesperados ou persistentes, de séries temporais de resultados, bem como comparações com resultados de escolas com contextos semelhantes, nomeadamente as da vizinhança geográfica mais ou menos alargada, construindo, assim, o meu próprio ranking. Estes elementos, indubitavelmente, favorecem a aprendizagem organizacional.

Ora, o que eu faço, qualquer interessado pode fazer, bastando ter alguns conhecimentos rudimentares sobre bases de dados. Isto é, todas e cada uma das escolas pode elaborar o seu ranking de acordo com critérios que venha a definir. E refletir sobre isso.

Só que não pode já neste exato momento. Esta é, de resto, a única crítica que se pode fazer à Administração Educativa: por que raio os jornais têm acesso às bases de dados antes dos cidadãos e das escolas? Pagaram por esse “exclusivo”? E, se pagaram, será legítimo?

O que é certo é que o têm e o utilizam para elaborar rankings passíveis de severas críticas. Desde logo quanto à ideia absurda de fazerem uma única seriação, misturando escolas estatais com colégios privados. Os jornalistas não terão a noção de que se trata de realidades absolutamente distintas? Por que insistem? Há interesses obscuros que o determinam?

Ainda assim, tem vindo a registar-se uma evolução positiva no trabalho de alguns jornais. De facto, em algumas edições on line, já é possível introduzir parâmetros, como o contexto socioeconómico e a propriedade da escola, que permitem obter resultados mais ajustados à realidade.

Mas não é por causa de nada disto que o colega com que comecei este texto, bem como muitos outros, com a Fenprof à cabeça, se insurgem contra os rankings. É que os professores e as escolas são mesmo muito importantes para os resultados que os alunos alcançam nos exames. E quando se trata de escolas próximas inseridas em meios sociais idênticos, a importância do professor ainda cresce. Portanto, os rankings acabam sempre por ser uma avaliação das escolas e dos seus professores. E bem conhecemos a relação difícil entre sindicatos e avaliação docente…

Voltando aos rankings dos jornais… antes rankings criticáveis do que nenhum ranking! Ditadura, não!

Agnelo Figueiredo

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3 COMENTÁRIOS

  1. Desde que começaram com as provas de aferição que todos nós Docentes temos anoção que estes classificações/Rankings são apenas para aferir os Professores e as Escolas.O Ensino/ Eduacação caiu na moda de todos darem a sua opinião. Culpa de quem? Exclusivamente da nossa classe Docente que permite, mis os “lobbies” que nos rodeiam. está mais do que na hora de quebrar o malfadado “Dividir para reinar”.

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