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Na escola já levei no focinho 7 vezes e vou levar outra vez no dia 16

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(texto dedicado aos professores e outros trabalhadores de escolas difíceis, que ganham tão mal como todos os outros, para gerir o que os políticos recusam ver)

A próxima vez que vou levar no focinho vai ser metafórica, mas as outras foram bem reais e físicas. A de dia 16 vai doer mais: vai ser o regateio e a falta de vergonha dos deputados, a que se vai assistir nesse dia no parlamento, e que me vão impedir de chegar ao ponto justo da minha carreira (e talvez, até, ao fim dela, no tempo devido). Com as suas habilidades político-retóricas e sindicais, para chumbarem a reposição integral rápida do tempo de serviço perdido, vão reforçar o roubo imoral que nos vem sendo feito.

Levar no focinho, risco profissional

Há dias, foi notícia a situação de um professor do Porto, que levou uns murros e um pontapé nos testículos de um aluno de 12 ou 13 anos, em plena sala de aula. No corredor, o aluno gabou-se, com orgulho, de que lhe teria dado no focinho.

As histórias que vou contar a seguir, verdadeiras, foram vividas por um diretor de escola e professor (eu) que ganhou entre 2007 e 2013, uns 1325 euros líquidos para gerir 6 escolas, 1200 alunos, uns 200 professores e funcionários e fazia toda a burocracia disso, além de, às vezes, levar na cara. Muito bem pago, como se vê.

Nunca falei disto assim, porque quem escolhe o seu caminho não tem de se lamentar, e eu escolhi ser diretor. As histórias seguintes magoaram bastante, mas a bofetada de dia 16 de abril vai doer mais. Vai ser dada pelos representantes eleitos dos portugueses.

As outras foram dadas por gente jovem demais para ter juízo ou objetivamente delinquente ou doida. Doeu, mas enquadro os casos. Não tenho explicação para o ódio dos políticos aos professores, como grupo, que levará, no dia 16, a que o roubo do que é justo recebermos, prossiga.

Fui diretor de uma escola TEIP e tentei, nos meus 6 anos de funções, aplicar lógicas de disciplina e pacificação num ambiente difícil. Acho que não fui muito mal sucedido e creio que, quem partilhou comigo o trabalho árduo desses anos, reconhecerá que me esforcei para garantir sossego ao trabalho dos professores e alunos. Que não me fechei no gabinete e intervinha pessoalmente, como diretor, usando a autoridade simbólica da função de forma presente.

Fazer isso custou-me levar no focinho 7 vezes (além de insultos e bocas que, a dada altura, deixei de contabilizar, mas que foram umas dezenas).

Uma mãe que me atirou com a secretária

2 das vezes foram encarregados de educação: uma mãe insatisfeita com uma punição (até benévola) a um filho que fazia bullying e que irrompeu pelo meu gabinete, virou a secretária contra mim e me impediu de sair durante 20 minutos, enquanto me ameaçava, a berrar, que me matava. Valeu-me ter a secretária de permeio (nunca atendia ninguém sem uma secretaria larga de permeio…estão a ver….). A polícia veio (3 agentes) e foi julgada e condenada a uma multa pesada (para o seu rendimento) de uns 800 euros. Durante o julgamento, quando me sentava no banco das testemunhas, a agressora e a irmã ainda se deram ao luxo de me voltar a ameaçar.

Como fiquei marcado para apanhar

No outro caso com encarregados de educação, um cidadão com 120 kilos e 1,80m (eu tenho 1,65) entrou no meu gabinete, empurrou-me aos safanões e encostou o peito à minha cara e ameaçou-me que estava “marcado” (e sabia onde eu morava), o que repetiu uns 5 minutos. Não o deixava, por boas razões, transferir o filho dentro do agrupamento. Valeu-me a amizade de alunos e pais, que moravam no seu bairro, pessoas justas e que me conheciam há muitos anos (o tal cidadão era recém-chegado e não sabia com quem estava a lidar): falaram com ele, explicaram-lhe e disseram-lhe que era mesmo verdade que eu iria fazer queixa à polícia e que eu era justo, mas não intimidável. Pediu-me desculpa e lá se conformou à minha decisão.

Insultos e safanões no hipermercado

Noutro caso, levei um safanão forte e insultos vários de um marido de uma funcionária, que me acusava de a ter classificado mal no processo de avaliação de desempenho. O caso foi bastante humilhante, porque foi quando estava às compras no hipermercado da terra e andou a seguir-me pelos corredores, a chamar-me nomes. O caso foi para a polícia, mas perdeu-se nas burocracias. No hipermercado não havia câmaras e era a minha palavra contra a dele. A única coisa que me lembrava, ao analisar o caso depois, era isto: nesse dia, estava sozinho, mas, às vezes, fazia compras com a minha tia, que tinha mais de 90 anos. Imaginem o desgosto e susto que seria tê-la comigo nesse dia. Um dia em que um traficante, que denunciei à polícia por andar à roda da escola, me insultou no parque desse supermercado, tive de fugir depressa, por estar com ela.

Casos com alunos e como um cálice de aguardente velha pode ser prémio

Os outros 4 casos em que levei no focinho ou noutras partes do corpo foram com alunos. Num dos casos, fiquei com marcas uns dias.

Não vou contar ao detalhe, mas incluiria nesses episódios safanões, empurrões, bofetadas, insultos e ameaças.

O único caso que quero lembrar é o que me tocou mais e de que há uns meses me lembrei.

Fui a um restaurante, aonde não costumo ir, e quem me atendeu foi um jovem que reconheci logo. Simpático, educado e eficiente. Reconheceu-me também, mas não disse nada. Fez o seu trabalho.

Há uns 8 anos, fui chamado a uma sala para o separar de uma professora de matemática, a quem ameaçava com um pau que tinha apanhado no recreio. No processo, ameaçou-me a mim e deu-me vários empurrões e sopapos e demoramos uns 40 minutos a convencê-lo a sair da sala.

Como era um jovem atormentado, a situação foi gerida sem polícia e com meios como conversas com a mãe. Perante a vida que o filho lhe dava, anunciava a vontade de se suicidar.

Estes anos passados, o miúdo cresceu para adulto, ganhou juízo e trabalha num restaurante. Bom profissional, está muito longe do puto que ameaçava professores com paus ou batia no diretor da sua escola. Talvez por eu estar acompanhado, não meteu conversa e nem sequer sinalizou que eu tinha sido seu professor (e até diretor de turma).

No fim da minha refeição, ao trazer o café deixou-me a garrafa de aguardente para servir no cheirinho do café e disse-me: “Professor Braga, esta é melhor do que a da casa…”. E era mesmo.

Até aí, nunca tinha dito durante refeição que eu tinha sido seu professor. No tom deliberadamente solene daquela frase simples e gesto banal, e no sorriso (que na escola pouco mostrava, tão zangado andava) disse tudo o que se poderia dizer num pedido de desculpas. E fiquei com a sensação que esteve o tempo todo da minha refeição com os meus amigos, a pensar como ía dizer aquilo que queria dizer e que nada tinha a ver com aguardente. E acabou por não dizer. Nem fez falta, porque não interessa nada.

Eu fiquei pela satisfação interior de ver um resultado final positivo do que andei a fazer há anos. E falamos como velhos conhecidos, reencontrados. Pensava casar, criança em projeto, anda satisfeito com o trabalho, ganha “bem”, lamenta não ter aproveitado a escola, etc (aquela conversa que todos os professores já ouviram, anos depois, a encontrar alunos atormentados, que acabam a recordar a escola). Diz-se feliz, recordou uns episódios positivos da escola, diz que ajuda a mãe, mas sem nunca falar do dia em que me foi ao focinho.

O salário pode ser uma porcaria, mas sempre temos o reconhecimento, mesmo tardio, dos “clientes”. Não devia era ser preciso levar no focinho para produzir resultados.

E os professores não são missionários, nem mercenários. E serão 1200 euros líquidos um salário justo para correr o risco de levar na cara? E quanto vale impedir a produção pela sociedade de um delinquente? Será “financeiramente sustentável” pagar o preço disso?

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12 COMENTÁRIOS

  1. Boa tarde Luis,

    Geralmente não concordo com o que escreve e como o escreve.

    Mas neste caso, consegui ir até ao fim e com um sorriso nos lábios.

    Vai desculpar-me este “sorriso” nos lábios. Não é pelo facto de ter levado no “focinho” de tantas e tão variadas maneiras mas sim pela forma desassombrada como relata estas peripécias.
    Já agora não teria ficado nada mal ao ex-aluno ter-lhe oferecido a garrafa inteira de aguardente e até lhe ter pago o jantar.

  2. Por muito reconhecimento que possa haver de uma ou de outra forma, os professores não são sacos de treino. Esta cultura de levar no focinho e continuar a apanhar no focinho como se fosse normal tem de acabar. O colega, na altura director, não tinha duas mãos e dois pés para se defender? Fosse lá quem fosse? Quando se trata de defendermos a nossa integridade física, nossa ou dos nossos, partimos para a guerra, independentemente de quem temos pela frente, uma vez que, cada vez mais, uma abordagem assertiva, com muita empatia à mistura, já não funciona. Levar no focinho, tal como diz, pode ser um risco profissonal, mas o direito à defesa pessoal fala mais alto. Defenda-se!

    • Mostra que näo percebeu o que escrevi mas, se näo entendeu à primeira, à segunda também näo vamos lá….entäo propöe porrada para resolver a porrada?

      • Percebi à primeira e não preciso de voltar a ler. Será que percebeu o meu comentário?! A cultura de levar porrada (sem se defender) como algo natural para que a escola pública funcione, colocando o direito à defesa pessoal em segundo plano é, no mínimo, ultrajante. Para além de o direito de nos defendermos ser mais do que óbvio, é também um direito consagrado na Constituição, bem patente no Artigo 21º (Direito de Resistência), que deve conhecer tão bem como eu: ” Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.” Repito, a defesa da escola pública não tem passar por abdicarmos dos direitos mais sagrados enquanto seres humanos. Os professores não são bandalhos nem sacos de treino. Rest my case!

        • Näo percebeu….e o direito de resistência aplica-se à resistência contra o Estado näo contra meliantes. À porrada näo se responde com porrada….responde-se com a lei. Por isso fui várias vezes à Polícia. Além disso, eu era Diretor….e esse foi o ponto que näo reparou: Já viu a gravidade do que escrevi que favorece o seu ponto? Até diretores apanham…

          • Muito respeito e os meus parabéns por ver um Diretor nessas andanças. Eu fui um “foot soldier” durante muitos anos, o 1º a ser chamado, antes da Direção chegar. Nunca respondi com violência, mas com algum conhecido de como não sair magoado demais das confusões. Só tenho de discordar sobre a aplicação do Art°21° da constituição… “se não há mais ninguém que me defenda, tenho de me defender eu próprio”, seja de quem for, desde que não ultrapasse os devidos limites e sem precisar de recorrer à agressão. Defesa não significa obrigatoriamente agressão. Mas desde já, renovo os meus parabéns e cumprimentos.

          • Caro colega, tencionava não voltar a falar no assunto, Mas resolvi, pela última vez, frisar que defender-se a si próprio é mesmo só isso: defender-se! Um direito sagrado! Se praticasse artes marciais há anos, tal como eu, saberia que nenhuma delas (as que conheço) defende o seu uso para agredir alguém, só que eu não tenho de levar “porrada” só porque a esquadra é já ali. Não coloco em causa o trabalho do colega, enaquanto professor e director que, certamente, terá sido meritório. Defendo acções de formação em artes marciais e, assim, contribuir para que sejamos vistos com outros olhos e não como presas fáceis dos meliantes que gravitam dentro e fora da escola. Está na hora de deixamos a imagem de coitadinhos!Defenda-se!

  3. Caro Luis Braga, foi meu diretor uns meses em 2012 e lembro-me como era rigoroso com tudo, especialmente com a disciplina e a segurança de todos na escola. Deu uma palestra aos contratados sobre etnia cigana e mandou afastar algumas “senhoras com o emprego mais antigo do mundo” das imediações do edifício.
    Indicou-me onde poderia encontrar casa para arrendar, o que foi uma grande ajuda.
    Gostei da experiência, apesar de curta!

  4. Amanhã é provável que muitos políticos nos vão, mais uma vez, mostrar como não nos consideram. Mas não são todos. Espero encontrá-lo lá na AR, dentro ou fora, para comprovar como há políticos que defendem os professores e que já apresentaram propostas de lei que nos demonstram a consideração que nós lhes merecemos. Refiro-me aos deputados do PCP e à sua proposta de lei que já há muitos dias abriu o jogo e que resolveria a nossa questão de contagem integral do tempo de serviço.

    • Näo diga ingenuidades….o PCP andou a fazer jogo duplo estes 4 anos e agora quer 7 anos para resolver o problema que devia estar resolvido em 2017 segundo disse na altura….
      Olha mudou o comentador residente ….

  5. Já me defendi de cadeiras, atiradas por alunos… num desses casos o aluno até uma mesa me mandou… desarmei facas, ponta&molas, borboletas (umas entregues à PSP, outras esquecidas numa gaveta da direção). Noutro caso tive de enfrentar um pai de etnia cigana e seus amigos, depois do mesmo ter invadido a escola e agredido uma miúda de descendência africana (que me valeu uma viagem a tribunal). Separei inúmeras brigas, meti-me no meio de “quase motins”, por quezílias entre alunos e entre grupos, ganhei fama de “doido” no bairro e muitas vezes ia para a Escola com dúvidas de voltar inteiro.
    Cheguei ao ponto de criar uma formação para professores de Resguardo, para dar ferramentas aos Professores para se conseguirem retirar das confusões e antever situações com o mínimo de sofrimentos possíveis… isto a ganhar menos que o ordenado de um motorista de ministro.

  6. Olá Luís! Aquilo que relatas me espanta, imensamente. Trabalhei nessa escola, algum tempo antes, no tempo do diretor campos, que faleceu prematuramente . Os alunos eram muito difíceis, alguns, levar na cara, nunca me aconteceu ainda . Mas são tempos difíceis! E nós devíamos ser respeitados, pela sociedade, alunos e até pela própria escola. É que nem aí somos respeitados, às vezes claro. Boa Páscoa e boas férias.

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